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A partir do contexto e de nosso objeto de estudo, refletido sob a lente de nossa concepção de produção de conhecimento, assim como da proposta de intervenção, nos cabe com coerência escolher a pesquisa-ação como procedimento epistemológico e processo de resolução de problemas voltado ao desenvolvimento local.

Nele, valores são considerados, estando aí uma aproximação entre Pesquisa-ação, como técnica, e abordagem qualitativa, como metodologia. No entanto, também o compreendemos como teoria e método, pois nos leva a uma abordagem dialética e

experimental, com vistas à transformação da realidade e não apenas a descrição e compreensão desta (BARBIER, 2004; FRANCO, 2005).

A Pesquisa-Ação considera a complexidade da realidade como essencial ao fazer pesquisa. Na complexidade o ser humano é visto em sua “totalidade dinâmica, biológica, psicológica, social, cultural e cósmica”, indissociáveis (BARBIER, 2004, p.87) e a mesma “aceita a incerteza, o imprevisível, o não saber e a contradição”(BARBIER, 2004, p. 89).

É considerada uma forma libertadora e crítica de fazer pesquisa, uma ciência da práxis. Na classificação de Barbier (2004, p. 60), nos identificamos com a pesquisa-ação emancipatória, que implica essencialmente em três pontos: o reconhecimento por parte dos pesquisadores que o processo educativo é “passível de pesquisa”, a percepção destes pesquisadores quanto à natureza social e as conseqüências das mudanças em andamento e a compreensão da pesquisa “como uma atividade social e política, portanto ideológica”.

Neste último ponto, ruptura é feita com a concepção positivista, pois nega a separação entre sujeito e sua existência, fatos e valores, pensamento e ação, assim como entre pesquisador e objeto, aproximando-se da Teoria Crítica de Habermas, ao incorporar “a dialética da realidade social e os fundamentos da uma racionalidade crítica”. (FRANCO, 2005, p. 488)

Este método caracteriza-se pela inserção do pesquisador em dois papéis, pesquisador e participante. Voltado a uma compreensão em espiral, processual e dinâmica. Espiral entendida como “reflexão permanente sobre a ação”, visando o processo antes do resultado. A dimensão educativa, pedagógica, torna-se política e potencializa a emancipação dos sujeitos. (BARBIER, 2002 apud FRANCO, 2005)

Franco (2005) destaca ainda que a participação e a interação dos participantes, por uma reflexão-ação coletiva, visam à produção de novos conhecimentos com compromisso ético e político. Concluímos concordando com o autor que o conceito de Pesquisa-ação perpassa pelo espectro “colaborativo”, pois parte do convite dos sujeitos sociais do lugar, mas situa-se essencialmente no eixo “crítico”, pelo aqui já exposto.

A Pesquisa-ação valoriza não só a produção do conhecimento, mas entende que este processo é emancipador, isto é, durante a reflexão gerada pela pesquisa, os sujeitos envolvidos irão desenvolvendo uma consciência crítica sobre seu cotidiano, ampliando horizontes de transformação e de intervenção. (DESLANDES; GOMES, 2004, p. 101).

Por fim, destacamos os princípios elencados por Franco (2005, p.489) de uma pesquisa-ação:

 Ação conjunta entre pesquisadores-pesquisados;

 Realização da pesquisa em ambientes onde acontecem as próprias práticas;  A organização de condições de auto formação e emancipação aos sujeitos da ação;

 A criação de compromissos com a formação e o desenvolvimento de procedimentos críticos-reflexivos sobre a realidade;

 O desenvolvimento de uma dinâmica coletiva que permita o estabelecimento de referências contínuas e evolutivas com o coletivo, no sentido de apreensão dos significados construídos e em construção;

 Reflexões que atuem na perspectiva de superação das condições de opressão, alienação e massacre da rotina;

 Ressignificações coletivas das compreensões do grupo, articuladas com as condições sócio históricas;

 Desenvolvimento cultural dos sujeitos da ação.

No método de Pesquisa-Ação quatro temáticas são centrais: “a identificação do problema e a contratualização”; “o planejamento e a realização em espiral”; “as técnicas de pesquisa-ação” e “a teorização, a avaliação e a publicação dos resultados” (BARBIER, 2004, p. 118).

Identificação do problema e contratualização parte do princípio que a formação do grupo de pesquisa foi demanda social frente a um determinado problema ou situação crítica por um grupo em geral mais conscientizado que percebe a necessidade de colaboração. Inicialmente o problema é retomado no grupo com o intuito de identificar várias dimensões de “o que é?” “como?” “com quem?” “por quê?”. É feita uma análise da situação em torno do contexto, dos implicados e dos participantes. Na fase de contratualização delineiam-se por escrito questões fundamentais relativas a funções, tempo, limites, finalidades da ação, limites físicos e simbólicos, e código de ética. (BARBIER, 2004. p. 120) Com recurso à e da história de vida (grifo nosso) são elaboradas, desde problematização do tema e das necessidades, à definição da metodologia a ser trabalhadas no grupo o qual cada integrante “[...] torna-se ativo, participante e aliado do pesquisador profissional” (TRIPP, 2005).

O planejamento deve considerar a temporalidade individual e simbólica, mas também a contextual, externa, ambas na dialética que pressiona o pesquisador na pertinência da pesquisa-ação frente à pressão da realidade no questionar dos sujeitos. Nesta fase, os objetivos, ainda que parciais, não são apenas “propostos, realizados e controlados”, mas também avaliados. O registro temporal e espacial relaciona-se ao controle e à documentação

de dados, informações, acontecimentos e conhecimentos; já a avaliação refere-se à coerência com o objetivo maior do projeto, pautada na reflexão participativa do grupo (BARBIER, 2004, p. 124).

A realização em espiral é o cerne da dinâmica da pesquisa-ação; a ação dá-se sobre a prática, enquanto esta é constantemente pesquisada. As etapas são permanentemente influenciadoras sobre as demais, cada ciclo segue as etapas de planejar, agir, monitorar e avaliar, “planeja-se, implementa-se, descreve-se e avalia-se uma mudança para a melhora de sua prática, aprendendo mais, no correr do processo, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação”(TRIPP, 2005, p. 446).

Diversas técnicas da pesquisa-ação são descritas, dentre as que ganham destaque temos a observação participante e o diário de campo. Elas permitem o registro do processo que é constantemente avaliado. A teoria, o conhecimento da pesquisa-ação, surge da contínua avaliação sobre as ações delineadas e praticadas. O contínuo ciclo de planejar e agir, avaliar e teorizar, e retroagir é centrado na avaliação e reflexão que o grupo faz de si mesmo (BARBIER, 2004).

Por fim, a publicação dos resultados suscita uma série de questões, mas decerto podem servir de interesses não apenas acadêmicos, mas também políticos (BARBIER, 2004).

Formamos um grupo de pesquisa-ação visando trabalhar num contexto de aprendizagem reflexiva e emancipatória, potencializado pelos princípios da pesquisa-ação, com compromisso ético e pedagógico, mas também político, de modo a realizar oficinas de trabalho que sigam as etapas desse método de forma não linear, mas dialética.

3.6 Cartografia social: técnica ou método qualitativo para viabilizar a ação