• No results found

7 SAMMENLIKNING AV KRAFTPOLITIKKEN I DANMARK,

7.2 Organisering av energi- og kraftpolitikken

Depois de muito caminhar, de muito observar, depois de muitos perigos correr e de reunificar seus membros mediante o sentimento religioso do amor, a grandiosa expedição científica e romântica empreendida pelo heroico e sábio dou- tor Benignus chega a Juca de Ouro Preto, e dele tem a confirmação de que uma tribo Carajá havia aprisionado um homem inglês. Segundo o narrador, os índios Carajás tinham “índole pacífica, se bem que muito zelosos de sua independência”, caracterização que não se distingue sobremaneira da visão que Juca de Ouro Preto tinha dos mesmos: provavelmente, dizia o sertanejo, os carajás mantinham o in- glês ainda vivo, esperando apenas pelo “resgate” na medida em que não costuma- vam “reter os prisioneiros, a não ser algum soldado.” 441 Juca se oferece a acom-

panhar a comitiva até perto do caminho que levava à tribo Carajá do chefe Koi- naman, o lugar em que às margens do Araguaia provavelmente encontrariam o River pai.

A viagem segue, e com ela operam-se os pensamentos astronômicos do sábio homem. Sabia Benignus que todas as estrelas, dentre elas o Sol, não diferi- am essencialmente entre si, possuíam uma mesma “composição química”. Tal conclusão tornava provável que as estrelas tivessem o mesmo destino do que o Sol, o de atrair planetas ao seu redor, lhes dotando de luz e calor. Assim, a habita- bilidade dos mundos ganha dentro do escopo narrativo uma justificação científica astronômica que Benignus não deixa de proferir: “seres inteligentes podem pois povoar esses espaços infindos, estudar como nós a harmonia da criação e ascender ao Criador supremo; tal é a opinião dos mais distintos astrônomos e filósofos.” 442

Com o intuito de tornar sua hipótese sobre a habitabilidade do Sol cada vez mais

440 Ibidem, p. 196. 441 Ibidem, p. 200. 442 Ibidem, p. 214.

forte, o doutor Benignus, portanto, não deixa de citar outros homens de ciência. Intentava o benigno homem colocar termo às misteriosas palavras lidas no papiro.

Em vez de um corpo incandescente, escreve M. Petit [sobre o sol], destinado fatalmente a arrefecer e apagar-se, poder-se-á conceber então uma revivificação incessante dos produtos da combustão, para seres organizados que residam na superfície do núcleo solar, mantendo o equilíbrio, como se dá na terra, graças à nossa atmosfera, as plantas e os animais. 443

Nomeia-se, mensura-se, qualifica-se, fala-se, a ciência expressa e testemu- nha uma natureza que comporta seres inteligentes, os possibilita à vida dentro de uma atmosfera universalista feita pelo criador. Entretanto, se de um lado a nature- za engendra vida e ordem, de outro ela mesma anuncia lamentáveis acontecimen- tos. Um tigre preto ataca durante a caça Manuel mestiço, um dos camaradas expe- dicionários mais destemidos. A despeito da coragem e da solidariedade dos ami- gos que conseguiram atingir o animal, que se refugia em sua caverna, e dos cuida- dos científicos e médicos ofertados a Manuel pelo caridoso e humanitário doutor Benignus, o camarada morre; sua “alma desprende-se a pouco e pouco, mas dolo- rosamente do seu invólucro terrestre”, entregando-se ao criador.444 Com o intuito

de “vingar o seu companheiro” e sob pronta concordância do sábio, os integrantes da expedição decidem matar o animal, investindo-se, para tanto, de armas e de substâncias que pudessem produzir nitroglicerina caso fosse preciso desobstruir a passagem. Com “inabalável coragem”, colocam-se então rumo à caverna de um tigre que a ciência sabe nomear. O animal em questão, segundo M. Liais, era da espécie do

verdadeiro tigre preto da América meridional, distinta do Felis

jaguaretê e do Felis jaguapara. A natureza do pêlo, como diz o insigne escritor, o aproxima mais do primeiro que do segundo, e ao contrário, a disposição das manchas, a corpulência e mais que tudo a forma do corpo o avizinham do segundo. 445

Morto o tigre depois dos desdobramentos de uma batalha marcada por co- ragem e tiros, vingado estava o companheiro, assim como provida de pele, sugeria Katini, estava a cama de Benignus a ser então amaciada. Munidos de suas “lâm- padas de luz elétrica”, os camaradas decidem entrar na caverna sob a desconfiança de que lá havia outros tigres. Habitada apenas por morcegos, a caverna apresenta

443 Ibidem, p. 214. 444 Ibidem, p. 218-219. 445 Ibidem, p. 221-222.

aos olhos dos viajantes, em um primeiro momento, um espetáculo magnífico. Era um “vasto recinto, adornado de numerosas colunatas, cujos capiteis afetavam os mais fantásticos desenhos, produzidos tanto umas como outros pelo enlace capri- choso de centenares de estalactites e de estalagmites.” 446 Expressão do capricho

artístico da natureza, gotas de água solidificadas formavam em um dos lados da caverna uma “alta e majestosa cruz, fazendo dali um “imenso templo” cristão. Diante daquele altar, todos se curvaram religiosamente, sendo impossível até aos mais indiferentes deixar de “invocar mentalmente a Deus.” 447

Logo em seguida, outro espetáculo não menos grandioso se afigura aos vi- ajantes. O terreno abre um buraco imenso, um profundo abismo escuro se interpõe como algo impossível de ser iluminado pelos instrumentos elétricos disponíveis. Mesmo misterioso e inacessível em sua totalidade, aquele espaço podia ser cienti- ficamente classificado. Era, segundo Fronville e Benignus, uma

formação cretácea, espessa camada do período secundário, es- tendida sobre vastas superfícies da crosta sólida do globo, e que se acha sobreposta aos depósitos patelândicos, últimos andares dos terrenos jurássicos, e inferiores ao calcário munumulites, e geralmente aos terrenos terciários da época pliocena. 448 Embora o acesso a todo o abismo não fosse possível, Fronville decide ten- tar ao menos explorar uma de suas fendas. Destemido e munido de uma “lâmpada de Roqueyrol”, conseguiu trazer de sua exploração algo que lhe tomou de alegria junto ao sábio Benignus.

Depois de examinarem minuciosamente o precioso achado, o sábio voltou-se para o francês e disse-lhe com um ar de conten- tamento indescriptível:

– É um crânio que, pelos seus caracteres, pertence inteiramente ao tipo da raça americana. Vê-se este frontal deprimido e for- mado quase ângulo recto com as órbitas? Isto não pode ser o re- sultado de uma pressão exercida sobre a cabeça, mas sim um característico osteológico da raça! Este crânio vale um mi- lhão!449

A Benignus, em conversa posterior com o jovem naturalista, o crânio per- tencia ao “tipo primitivo da raça americana”, um documento importante das “ida- des pré-históricas” que muito ajudaria a resolver o problema da “remota existência

446 Ibidem, p. 223. 447 Ibidem, p. 224. 448 Ibidem, p. 224. 449 Ibidem, p. 226.

do homem em nosso planeta.” 450 O Brasil afigurava-se, sem sombra alguma de

dúvidas a Fronville, como um lugar de riquezas científicas ainda não explora- das.451

Logo se preparou o enterro do companheiro. Benignus revela que a caver- na seria o melhor lugar para abrigar os despojos do corpo de Manuel mestiço. Ju- ca de Ouro Preto mostra-se contrariado, pois considera o chão da gruta indigno para recepcionar um cristão. Benignus, em resposta, solicita a Juca que então pro- cure um padre a fim de cumprirem os deveres impostos pela Igreja Católica. No entanto, não deixa o sábio de emendar que não entende haver problema “em con- fiar à terra o que é da terra, visto que pode muito embora o fanatismo e a supersti- ção negar sepultura a um cadáver, mas não consta que nossa mãe comum expelis- se jamais de seu seio nem os vivos nem os mortos!” 452 Trazido o sacerdote, fez-

se a marcha fúnebre e figurou-se a cena grandiosa e comovente.

Aquelas abóbadas escuras, aquele labirinto de colunatas varia- das, aquelas guarnições caprichosas, aqueles vultos em forma de estátuas fantásticas, e finalmente aquela cruz gigantesca, ru- de, mas sublime, porque saiu das mãos da natureza, tudo isto foi subitamente iluminado por vinte chamas elétricas! 453

Despedia-se Benignus, então, de seu companheiro: “—Dorme, fiel compa- nheiro! O teu corpo saiu da vida para entrar nas trevas; mas a tua alma saiu das sombras para entrar no reino eterno do dia!” 454

Um perigo radicalizado em morte, então responsável por uma fratura entre homem e natureza. Benignus tenta salvar seu amigo a partir da ciência, em vão. Homens unificados sob o signo da amizade voltam-se contra a natureza, afinal era preciso matar o tigre e vingar o amigo. A técnica, expressa em armas, em lâmpa- das e em substâncias explosivas são fundamentais para matar o animal, aquele responsável por apartar um homem de seu generoso círculo social. O conhecimen- to científico aplicado à técnica volta-se contra a natureza, movimento resultante de homens que sentem a dor da perda, a dor dos desenlaces fraternais. Depois da morte do tigre, a natureza volta-se a serviço dos homens, pois a eles oferece pele a amaciar a cama, bem como os elevam ao sentimento de totalidade – a caverna era

450 Ibidem, p. 228. 451 Ibidem, p. 229. 452 Ibidem, p. 227. 453 Ibidem, p. 231. 454 Ibidem, p. 232.

magnífica, um templo naturalmente construído em nome daquele a quem os ho- mens nela presentes não conseguem mentalmente deixar de evocar, Deus. Há ne- cessidade de conhecimento, há possibilidade de nomeação, de modo que a nature- za ainda serve ao homem enquanto lugar precioso a ser considerado pelas explica- ções que perscrutam o central problema da origem do homem. Na cena da morte, tudo se torna sublime: coisas e pensamentos ali presentes se unem em clara ins- tância de mútua pertença, onde a alma torna-se, por excelência, a expressão final de um todo afigurado como eterno, como perene, como instância máxima que se impõe. Se a natureza leva, assim, à morte do corpo que se entrega à escuridão, em contrapartida ela afirma a superioridade sempre viva da alma, entoada pela triste despedida dos companheiros ajoelhados na companhia do missionário em oração. Portanto, a triste e religiosa cerimônia marca sob três formas a elevação do ho- mem à totalidade do criador: a alma transcende, o corpo reintegra-se à terra e a amizade evidencia homens em fraterna comunhão.