• No results found

6 NORGE - REFORMER I ET VANNKRAFTSYSTEM

6.2 Energipolitikkens historiske utvikling i Norge

Em meio àquela sociedade de compaixão e fraternidade, formada em de- corrência do anúncio expedicionário, emerge uma segunda festa de matiz clara- mente oposto ao banquete egipcíaco. Benignus a nomeia de o “consórcio com as estrelas” em referência à resposta que deu ao capitão durante o banquete egipcía- co. Questionado pelo militar sobre com quem o sábio casaria seus filhos depois de romper com a sociedade, Benignus responde que os casaria com os astros. Hóspe- des, criados e camaradas eram os convidados presentes nesta segunda festa, onde a triste saudade que já se antecipara à definitiva despedida era contrabalançada

395

Ibidem, p. 111.

396

pelo contentamento de alguns. Benignus, sob a trêmula bandeira brasileira posta no ponto mais alto, volta a discursar àqueles a quem nomeava “meus amigos”. 397

Em seu discurso, o sábio define um duplo fim à festa oferecida. De um la- do, diz ele, trata-se da “expressão do sentimento” de despedida daqueles que lhes são “mais caros” em um contexto onde nem se sabe ao certo os resultados da via- gem expedicionária que se anuncia. De outro lado, o sábio diz tratar-se do “con- sórcio ideal de meus filhos com três astros”, os corpos celestes a serem “pontos luminosos que os guie e aconselhe na amplidão dos céus contra o egoísmo e a pequenez das paixões que naturalmente têm de os assaltar nos espinhosos labirin- tos da vida terrestre!”. 398 Vênus, a estrela Polar e a Lua são apresentadas como

“as noivas celestes” de seus filhos, aquelas que, imersas no cosmos sideral em “curvas misteriosas”, entoam “cânticos perenes à magnificência e à grandeza de Deus!” O homem, diz Benignus em tom aconselhador a seus filhos, esteja ele pas- sando ou não por um momento tumultuado de sua vida nunca deve “perder de vista o céu, onde encontrará o segredo do caminho que o salve, e o espaço em que tem de desenrolar-se o drama futuro do destino de sua alma!” 399

Os homens então são revelados como entes capazes de sentimentalizar-se diante da possível perda, de sentirem a tristeza da partida por meio de lágrimas já desassossegadas de tanta saudade. Os laços fraternos estabelecidos entre amigos, pais e filhos reinstauram uma ideia de unidade, trazendo a tona uma sociedade humanamente possível em detrimento do egoísmo materialista desagregador. No entanto, ao mesmo tempo em que se fala na afirmação de sentimentos capazes de unir os homens mediante laços de fraternidade evidenciados pela saudade e pelo medo da perda, as desagregadoras paixões e o egoísmo não deixam de ser enunci- ados enquanto instâncias naturalizadas e consequentemente em curso na vida ter- rena. É então que o céu e seus corpos celestes afiguram-se enquanto o lugar a par- tir do qual o homem deve ater-se a fim de que suas tendências naturais ao egoís- mo e às paixões desagregadoras sejam combatidas. O céu desponta como aquele que guia o homem à presença de Deus, à sonoridade magnífica da divindade, que eleva o humano a primeira estatura na escala da criação. É no céu, ao lado de Deus, em que o segredo do caminho pode ser encontrado, de modo que a alma

397 Ibidem, p. 117. 398 Ibidem, p. 117. 399 Ibidem, p. 118.

humana se salve da desorientação retirando o homem do labirinto em que a vida terrestre tende a apresentar-se.

O discurso de Benignus impele Fronville, comovido, a proferir também al- gumas palavras. Diz o naturalista francês que, no transcorrer da “incerta peregri- nação de um mundo inexplorado”, será a “constelação austral”, nomeada pelos “primeiros descobridores da América com o simbólico nome de Cruzeiro do Sul”, aquela que o protegerá. No entanto, não é apenas o “sacerdócio augusto da ciên- cia” que o motivará a correr os perigos e sofrimentos inevitáveis trazidos pela “romaria”, mas também a ânsia de trazer notícias do Sr. William River à sua famí- lia. O céu de Fronville, em conformidade com os dizeres de Benignus, estende-se enquanto protetor, enquanto aquele capaz de garantir a condução em meio a po- tenciais perigos. Dizendo de outro modo, o fazer ciência ou a ação do homem de ciência são garantidos pelo firmamento, isto é, o céu torna-se protetor de homens a perscrutarem um objeto que a eles não cessarão perigos e sofrimentos. Entretan- to, não se trata apenas de um conhecimento a ser produzido, mas também do dese- jo, embebido de fraternidade sentimental, de suprir a carência de uma família sen- timentalmente desolada pela perda. Em meio a tais discursos, seguem-se “vivas”, êxtases, entremeados por lágrimas não menos dignas. É então que, pelo adiantar da hora, Benignus decide fazer sua última e patriótica saudação.

– À bandeira brasileira, que se desfralda inundada de luz sobre as nossas cabeças! Esta bandeira não é só o símbolo de uma na- cionalidade, é também o símbolo da aliança e da fraternidade universal dos povos! Quando um dia os desertos que vamos atravessar, as selvas por onde temos de embrenhar-nos, as cor- dilheiras que havemos de transpor e os rios imensos que tere- mos de navegar, forem o teatro de uma civilização gigante e es- plêndida, esta bandeira, tantas vezes gloriosa com o baptismo de sangue das batalhas, tremulará então para sempre ainda mais esplendorosa do que hoje nos campos de combate do trabalho, nas oficinas das indústrias e nos tempos sacrossantos da religião e da paz! 400

O tom otimista responsável em projetar um futuro onde a civilização se cristalize por meio do trabalho, da indústria, da religião e da paz justifica os peri- gos e os sofrimentos a serem vividos pelo presente científico e expedicionário. O Brasil aparece como o lugar onde a aliança entre os povos pode acontecer, movi- mento este que procura contrabalançar-se com a fragmentação humana pressupos-

400

ta pelas já definidas nacionalidades. Em um processo civilizatório possível, acres- centa Benignus, a bandeira brasileira está destinada talvez a “arvorar-se no gigan- tesco capitólio da metrópole do futuro!” 401 Ao fim do discurso do sábio, um “es-

trondoso hurra” acompanhado de luzes que vinham de “lâmpadas de luz elétrica” portadas por todos os futuros viajantes compõem um “espetáculo admirável”. É a técnica, portanto, se acoplando ao conhecimento científico, pois a ele festeja e ilumina. O discurso, tecnicamente iluminado, anuncia a perigosa expedição a ser realizada por corajosos homens, fazendo emergir o doloroso sentimento da sauda- de, o medo angustiado da perda e o otimismo em relação a um futuro civilizado ainda porvir.