6.4 Forskningsspørsmålene
6.4.1 Hvordan organiseres kompetanseutviklingen og i hvilken grad fungerer organiseringen for
O mundo social é balizado, marcado, dividido. Não se trata de um espaço homogêneo em que indivíduos e cidadãos circulariam livremente. Pelo contrário, limites e postes, e, às vezes, também malas e caixas de papelão marcam as trajetórias, delimitam os deslocamentos e organizam os encontros. Essas linhas mais ou menos visíveis, mais ou menos evidentes, constituem aquilo que chamamos de fronteiras sociais (MERKLEN & SAINT MARTIN, 2010:9).
O uso de estudos que têm como tema as fronteiras sociais que demarcam nossos deslocamentos é pertinente nesta pesquisa pelo fato de os jovens bolsistas cruzarem, diariamente, tais fronteiras. Esses alunos passam a frequentar, durante grande parte do dia, espaços socializadores com códigos de comportamento, vestuário, gosto musical, destinos turísticos, poder aquisitivo, escolarização dos pais e forma de se expressar distintos dos de sua origem. Esses espaços são delimitados por essas fronteiras que, apesar de não serem demarcadas por um muro ou uma cerca, são percebidas por quem se encontra dentro e fora delas.
De um modo geral, estudos que tratam de fronteiras sociais são realizados com o intuito de desvendar como são formadas essas fronteiras, como elas são mantidas, atualizadas, cruzadas ou mesmo como são utilizadas em forma de proteção de classe; como elas servem de espaço de troca, de exclusão e de segregação; o que as fazem perceptíveis e, no caso de serem invisíveis, o que as tornam “visíveis” (MERKLEN & SAINT MARTIN, 2010). Outros estudos investigam como uma cultura de classe é passada de geração em geração ou como uma identidade de classe é criada e transmitida internamente entre os membros de um grupo (WEIS, 2010).
Ao conferir à educação um papel central na formação das fronteiras sociais, Merklen & Saint Martin (2010) apontam para a importância da educação fora do ambiente escolar, ou seja, em instituições culturais, em instituições que dão reforço escolar e no seio da família, sendo este último o lugar no qual se constroem
as matrizes mais importantes para a formação de um sentimento de pertencimento a uma classe social. Nas palavras dos autores:
É na relação entre a educação nas famílias e a produção das fronteiras que são aprendidos os códigos sociais com os quais o indivíduo gerencia as relações sociais com as quais é confrontado. Essa aprendizagem permite não apenas uma integração com a sociedade global (enquanto indivíduo), mas também a integração com a sociedade por meio do pertencimento a um grupo e da diferenciação de outros grupos (MERKLEN; SAINT MARTIN, 2010:11).
No caso de um jovem oriundo das classes populares, a obtenção de um diploma em uma renomada universidade não seria suficiente para ele cruzar com naturalidade as fronteiras sociais? Estariam, nesse diploma, embutidas todas as disposições que um indivíduo necessita, ou seja, que uma sociedade com forte diferenciação de classes exige para a aquisição de uma boa posição profissional?
Se, por um lado, a escola seria o lugar onde as chances são igualmente distribuídas entre todos, ela é, por outro lado, responsável pela manutenção das desigualdades. Tanto que, após saírem das escolas onde estudavam (públicas), os jovens pesquisados neste estudo passam parte do dia “melhorando” os ensinamentos que obtiveram naquelas escolas, “[...] a gente faz todo um trabalho de reeducação escolar com esses alunos [...], a gente ensina a estudar, a se organizar, a ter estratégias de estudos, a administrar o tempo [...]”, observa a psicóloga- pedagoga do PBA.
O Programa Bom Aluno ministra aulas de português, matemática, inglês, física, produção de texto, entre outras, oferecendo também aulas de desenvolvimento pessoal, nas quais se “trabalha a autoestima, a motivação para que o aluno possa se manter no Programa e nas escolas particulares. Porque há uma diferença social muito grande, e se ele não tiver uma auto-estima elevada, uma estrutura, ele não consegue...”, explica a psicóloga-pedagoga.
Com efeito, Merklen & Saint Martin (2010:11) ressaltam “que ao apreender as fronteiras sociais, os indivíduos se preparam para participar do jogo social, para concorrer e cooperar com os membros de outros grupos”.12
Com a concorrência escolar em alta após a expansão da escolarização no Brasil ocorrida na década passada, a classe média aposta em diferenciais para valorizar o diploma de seus filhos, seja patrocinando cursos no exterior, cursos de
12
especialização, cursos universitários de ponta, cursos de MBA caríssimos, coaching13, dentre outros. Além disso, a utilização de várias estratégias para a manutenção da classe, como morar em lugares frequentados por pessoas da mesma classe social e a aposta pesada no capital social para posicionar seus filhos no mercado de trabalho, também faz parte das práticas das classes médias/alta.
Como ficam, então, os jovens das classes desfavorecidas se o tal diploma tão sonhado já não basta? A escola não tem nenhum poder sobre o mercado de trabalho e, logo, os indivíduos mais desprovidos de recursos veem acontecer diante de seus olhos o que Bourdieu(1998) chamou de desvalorização dos diplomas. O sofrimento agora é maior porque foi dada a chance e esse indivíduo fracassou.
Presta & Almeida (2008), ao pensar a desigualdade social no Brasil, concentraram seus estudos na compreensão da formação dos processos que parecem estar na base dos modos de vida das famílias gerando, consequentemente, diferenças em relação à escolaridade e à construção de fronteiras sociais. Em seu estudo, as autoras utilizaram a noção de “fronteira social” e “fronteira simbólica” como algo mais “dinâmico e permeável do que a noção de desigualdade normalmente o faz, chamando a atenção para os processos de dominação e exploração que as constroem” (PRESTA; ALMEIDA,2008:403). Assim sendo, privilegiou-se “discutir a gênese dessas fronteiras simbólicas que fundam, para os próprios indivíduos, o território dos possíveis e dos impossíveis, do desejo e do indesejado e assim por diante” (PRESTA; ALMEIDA, 2008:403).
Ao tentar compreender melhor a razão da manutenção da desigualdade social brasileira, as autoras sinalizam que, além de as trajetórias serem determinadas, em sua maioria, pelo que já se sabe sobre isso, ou seja, pela trajetória do grupo familiar e por seus patrimônios acumulados, ainda sobra espaço para outras possibilidades que determinam ou determinarão certas trajetórias sociais. No que tange a importância desse trabalho para esta pesquisa, destaca-se a noção de “experiências educativas”, que é vista como o trilho por onde passará o trabalho socializador efetuado pelas famílias, escolas e outras instituições com destino à formação das fronteiras simbólicas (PRESTA & ALMEIDA, 2008).
13
Coaching é o termo usado em um processo que visa definir os objetivos profissionais e pessoais dos participantes. Ele é conduzido por um coach (treinador) para apoiar os coachees (clientes).
As autoras também fazem uma relação entre os modos de participação da família na organização dos investimentos quanto ao futuro de seus filhos e à estrutura de seus patrimônios e ressaltam a importância de compreender como esses jovens absorvem e tratam tais investimentos (PEROSA, 2006). Por fim, ressaltam a figura do “veredito escolar”, com relação ao desempenho dos jovens, como tendo grande peso na forma de investimento de tais patrimônios.
A noção de fronteira se faz importante para compreensão dos discursos dos jovens desta pesquisa que se autorreferem como “nós” e se referem aos colegas da escola como “eles”. Sendo assim, Labache & Martin (2008) definem bem essa noção quando dizem que as fronteiras permeiam cada passo da vida do indivíduo, delimitando os contornos das categorias sociais por um lado e, por outro, servindo como lugar comum em que acontecem as trocas e os encontros entre seus membros. As autoras discorrem sobre trajetórias que resultaram de experiências que tocaram os limites das fronteiras sociais, seja no sentido de mantê-las para não sofrer desclassificação, de cruzá-las, ou até mesmo de transgredi-las.
Ainda quanto a esse respeito, as autoras afirmam:
Embora os modos de percepção e os processos de construção e de transgressão de fronteiras dependam muito das condições estruturantes prévias, eles podem também se dever, em alguns casos, em grande parte, a disposições dos atores, experiências educativas, acontecimentos desencadeadores pouco “previsíveis” e aos contextos variáveis nos quais os atores se inscrevem (LABAHE; MARTIN, 2008: 335).
Em A Distinção (1997), Bourdieu classifica as fronteiras sociais como resultado de lutas que acontecem dentro de “campos” específicos, com o objetivo de obter uma melhor classificação, sendo que, concomitantemente, alguém será desclassificado. Indo mais além, Labache & Martin (2008) apontam para o fato de que a construção dessas fronteiras pode acontecer no nível de uma categoria - como a da família - ou pode se dar no nível individual, estando esta última associada à rupturas. Quando se dá na escala de um grupo, ela servirá para reforçar o contorno deste grupo que já se encontra em uma posição conquistada. Mas, quando se dá em escala individual, ela vem carregada de significados como o da descontinuidade, do rompimento, do distanciamento do grupo de origem. Sendo assim, diante da necessidade de recomeçar, esses indivíduos se veem incitados a transgredir fronteiras.
Seguem, abaixo, os mapas das regiões contendo a média de anos de estudos de pessoas de 25 anos ou mais de idade. Estão neles localizadas as regiões onde moram os jovens e suas famílias e os dois colégios particulares.
FIGURA 1 – Média de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais de idade, 2000 Todas as UDHs da RMBH
Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano na RM Belo Horizonte/Fundação João Pinheiro (FJP)