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6.3 Drøfting av funn

6.3.7 En lærende organisasjon?

Annette Lareau, socióloga norte-americana, realizou um estudo etnográfico com doze famílias que tinham crianças de nove e dez anos. A pesquisa, que foi realizada em duas escolas situadas em duas cidades dos Estados Unidos, teve início em dezembro de 1993 e durou até 1997. Posteriormente, essa pesquisa se tornou um livro intitulado Unequal Childhoods: class, race, and family life.

Os estudos realizados pela autora (2003) sobre evidências de diferentes práticas associadas à rotina diária dos filhos não apontavam, até então, para as dinâmicas da vida familiar das diferentes classes sociais. Não se distinguiam com clareza quais eram as dinâmicas internas dos lares que poderiam produzir vantagens na educação dos filhos. O foco dos diversos estudos já realizados estava nas práticas isoladas das famílias como: o tempo que as crianças passam em frente à televisão, quais são as influências da escolarização dos pais no cotidiano dos filhos, ou mesmo o tempo utilizado pelas famílias nas visitas aos parentes.

Kingston (2000 apud LAREAU, 2003) afirma em seus estudos que o comportamento dos pais pertencentes às diferentes classes sociais não produz, ao menos de forma evidente, diferença na relação com a rotina diária dos filhos. Entretanto, a autora conseguiu mapear, em seu estudo realizado por meio de métodos etnográficos, diferenças na rotina diária de famílias de classes médias e populares. Contradizendo Kingston, Lareau demonstra que os estilos parentais de famílias de diferentes grupos sociais resultam em diferentes comportamentos por parte dos filhos, comportamentos esses que, em longo prazo, podem trazer benefícios para uns e desvantagens para outros.

A autora nomeia dois tipos de lógica usada pelas famílias estudadas: pais de classe média usam a lógica do “cultivo orquestrado”, enquanto pais de classes trabalhadoras e pobres usam a lógica do “crescimento natural”. Com relação à primeira lógica, observou-se a preocupação com o uso da linguagem, o exercício

diário do raciocínio e o diálogo como instrumento de disciplina. Também se observou o envolvimento dos filhos em muitas atividades extraescolares mesmo quando ambos os pais trabalhavam fora de casa, sacrificando muitas vezes o tempo livre dos pais e dos irmãos. O contato com parentes acontecia somente em época de festas ou em datas comemorativas, mas, na ordem de prioridades, ficava atrás das competições esportivas.

Na segunda lógica, Lareau (2003) observou que as famílias populares ofereciam amor, conforto, alimentação e segurança aos seus filhos, mas não tomavam para si a tarefa do desenvolvimento dos seus talentos especiais. As ligações com os familiares eram profundas e os eventos comemorativos tinham grande importância. As crianças tinham bastante tempo livre devido às poucas atividades extraescolares. Essas famílias priorizavam o uso das diretivas em detrimento do exercício do raciocínio e, em algumas das casas estudadas, davam mais ênfase à disciplina física.

Se considerarmos que a classe social tem um impacto considerável no ritmo diário da vida familiar, então poderíamos nos perguntar qual seria o significado desses eventos e de que forma essas rotinas familiares transmitem vantagens e desvantagens às crianças, especialmente as que já estão na escola. Os processos sociais que diferenciam essas famílias promovem práticas que, de alguma forma, oferecem recursos às crianças e que, em longo prazo e fora do ambiente familiar, serão percebidos como desiguais. A preocupação com o uso da língua nas famílias de “cultivo orquestrado” é demonstrada na disposição em dialogar com as crianças propiciando o enriquecimento do vocabulário, exercendo a habilidade de debater, criando nos filhos um sentimento de ter direito de ser ouvido pelos adultos, desenvolvendo a habilidade de persuadir ao demandar algo, cultivando as habilidades cognitivas e sociais, assim exercitando o raciocínio diariamente.

Já nas famílias de classes trabalhadoras e pobres, a pouca importância dada ao uso da língua não propicia debates e nem o uso do raciocínio, não se desenvolve nas crianças o sentimento de ter direito a algo e nem de serem ouvidas pelos adultos. Desenvolve-se, então, um sentimento de inferioridade e limitação quando engajados em diálogos com as pessoas consideradas ”autoridades”, como professores, policiais, agentes do serviço social e médicos. Assim, essas crianças não se veem merecedoras de qualquer atenção por parte dos adultos. Percebem-se distantes e incapazes de fazer qualquer demanda.

A preocupação com o tempo livre pelas classes médias produz uma rotina frenética na vida dessas famílias. As atividades são geralmente organizadas pelas mães, que acreditam muitas vezes na importância delas no desenvolvimento da confiança, no desenvolvimento da sensibilidade musical e da postura dos filhos. Ao fazerem esportes, esses filhos aprendem a competir e a trabalhar em equipe, a ganhar e a perder com elegância. Esses inúmeros compromissos levam pais e filhos à exaustão e, quando as crianças têm algum tempo livre, não sabem bem de que forma usá-lo. Os filhos relacionam-se com os colegas das várias atividades organizadas, que são normalmente da mesma idade, mas que variam a cada começo de uma nova atividade. A interação com vários adultos faz parte dessa rotina, já que há instrutores, técnicos, tutores e outros pais envolvidos no processo. Com isso, as crianças aprendem a dialogar com adultos, a terem suas demandas atendidas e a serem tratados como clientes.

O tempo livre das famílias que cultivam o “crescimento natural” é maior do que os das famílias de classes médias, já que geralmente essas crianças não participam de atividades organizadas pelos pais. As crianças controlam seu tempo livre, porém alguns limites são estabelecidos pelos adultos como, por exemplo, até onde podem ir (fora de casa) e a que horas devem voltar para casa. Essas crianças iniciam suas brincadeiras sem a intervenção de adultos, visitam parentes, assistem à televisão quando querem e preparam seu próprio lanche.

A lógica usada pelas famílias de classe média “parece” atender aos requisitos das instituições dominantes, apesar dos sacrifícios que ela gera, desenvolvendo nos filhos um sentimento de “ter direito a”. Já nas classes trabalhadoras e pobres, os padrões de cultivo identificados apontam esforços para superar os vários desafios gerados pela falta de recursos econômicos, deixando os filhos desenvolverem-se naturalmente. Em consequência disso, durante a pesquisa feita por Lareau, foi observado um desconforto nas crianças dessas classes nos momentos de interação com as instituições dominantes. Finalmente, não parece estar em questão a preferência de uma lógica em detrimento da outra, mas, sim, um balanço entre duas lógicas socializadoras que, simultaneamente, transmitem vantagens e desvantagens para os filhos.

A autora conclui que “indivíduos vivem suas vidas de acordo com uma estrutura social” e explica que o termo “estrutura social” usado nesse contexto diz respeito a uma “regularidade de padrões de interação, muitas vezes nas formas de

organização social” (LAREAU, 2003:14). Nos vários estudos sobre sucesso escolar, a posição dos pais na hierarquia social é um forte indicador desse sucesso, mas Kingston, em seu livro The Classless Society, afirma não perceber uma evidência clara da ligação entre comportamento e classe social. Muitos pesquisadores reconhecem a existência de diferenças no nível educacional dos pais, nas posições que eles ocupam no trabalho, nos diferentes salários que recebem e na forma de educar os filhos, mas essas diferenças são vistas como uma forma de “gradação” 10 e, combinadas com outras variáveis, resultam em desigualdades maiores ou menores. Para eles não há existência de padrões de comportamento que associados a diferentes classes sociais produzem um resultado esperado.

A autora se apoia na teoria de Bourdieu ao afirmar que indivíduos provenientes de meios sociais diferentes são socializados diferentemente e que é nessa socialização que se desenvolve nas crianças algo espontâneo denominado por ele de habitus11. Também é a partir dessas experiências na infância que as crianças adquirem seu “capital cultural” que será usado como vantagem na escola e no futuro na hora de conseguir uma boa colocação profissional, já que instituições como escola e “empresas” valorizam as mesmas práticas culturais.

Então, se transportarmos a lógica do “crescimento natural”, descrita por Lareau, para a realidade dos jovens participantes do Programa Bom Aluno, todos oriundos das classes trabalhadoras e pobres, podemos, então, supor que eles estão em “desvantagem” dentro do ambiente escolar no qual estão atualmente inseridos. Poderia, então, o PBA minimizar essa desvantagem e atuar como uma “família de classe média” na vida desses alunos? Ao disponibilizar aulas de natação, informática, inglês, aulas de reforço, técnicas de redação, desenvolvimento pessoal, matemática, português, visita a museus, idas a concertos e cinemas e, até mesmo, disponibilizar um programa de intercâmbio para o exterior, estariam esses jovens aptos a competir em pé de igualdade com os jovens das classes médias? Quando os jovens ingressam no Programa no 7º ano do Ensino Fundamental, muitas dessas habilidades já não deveriam estar incorporadas? Poderíamos falar de uma aprendizagem tardia? Como as famílias desses jovens convivem com seus filhos

10

Tradução sob minha responsabilidade - Gradation no original.

11

Conceito utilizado por Bourdieu. Habitus se refere a um conjunto de disposições incorporadas pelo indivíduo principalmente na infância.

que recebem um tipo de educação fora de casa e outra dentro de casa? Estarão essas famílias prontas para se adaptar a essa nova realidade?