Figura 14: João Dunshee de Abranches Moura na década de 1910 Fonte: Moura (1907, não paginado)
João Dunshee de Abranches Moura (Figura 14), ou “Dunshee de Abranches”, como ficou conhecido nos meios literários e políticos do Maranhão e do Rio de Janeiro, nasceu em São Luís no ano de 1867, e faleceu na cidade de Petrópolis em 1941. Sua desenvoltura para ambas as atividades era apontada por si mesmo como um tipo de “herança” legada por seu avô materno, João Antônio
Garcia de Abranches (1769-1845), alcunhado de “O Censor”, em razão do jornal que com esse nome fez circular. Chegado à antiga Província com cerca de vinte anos, Garcia de Abranches inicialmente laborava como relojoeiro. Em seguida abriu uma pequena casa comercial, e com ela prosperou financeiramente, ajudado por portugueses já estabelecidos na cidade.
Envolvido profundamente nas lutas pela Independência, defendia a posição lusitana, o que lhe rendeu um ostracismo político durante o Primeiro Reinado. Dunshee de Abranches não o conheceu pessoalmente, mas leu diversos escritos de sua autoria guardados na casa da família, inclusive a primeira parte editada da obra
“Espelho Crítico-Político da Província do Maranhão”, de 1822: Essas páginas pungentes do Espelho crítico, escritas por meu avô em pleno regímen colonial, causaram-me profunda impressão. No meu cérebro infantil, surgiu desde logo a idéia de escrever um dia os dramas do cativeiro em Maranhão, sob o título pomposo de Negreiros, feitores e capitães-do- mato [...] (MOURA, 1992, p. 24).
Um irmão do seu pai, Antônio da Silva Moura, também havia se envolvido em disputas políticas, ainda quando residia no exterior:
Nascido em Portugal, mas educado na França desde tenra idade por seu tio e padrinho, ali domiciliado, o meu extremoso progenitor fora forçado, como estudante em Paris, a tomar armas por ocasião das barricadas (MOURA, 1992, p. 15).
Sua avó materna era proprietária de uma escola para moças chamada de “Colégio Nossa Senhora da Glória”, localizada inicialmente na Rua do Giz e posteriormente transferida para a casa dos Abranches Moura, na Rua do Sol. Além dos cursos regulares, promovia saraus literários e artísticos que atraíam poetas, escritores, pintores e músicos. Um amigo muito próximo da família era o “jornalista”, empresário e diretor da Associação Comercial do Maranhão, Temístocles Aranha, que, em não menos de uma oportunidade, noticiava em seu periódico “O País” eventos realizados pelo colégio (MOURA, 1992, p. 98). O capital de relações constituído por seus antecedentes, além do processo de socialização por ele experimentado, permitiu a Dunshee de Abranches formar um círculo de amizades com outros jovens pertencentes às elites políticas e econômicas locais.
Carlos Moreira da Silva, filho do Visconde Itaqui, Domingos Coco Ribeiro e Francisco Nina, que eram inseparáveis, quiseram juntar-se ao nosso grupo, entrando na luta pela redenção dos cativos [...]. Resolvemos então, com o auxílio de alguns colegas endinheirados, como Domingos Coco Ribeiro, Álvaro Sá e Carlos Moreira da Silva, alugar uma meia morada à Rua dos
Afogados em face da Travessa do Teatro, para ali reunir livremente o Diretório dos Cinco, como passamos a designar-nos e acoutar os escravos que quisessem fugir para o Ceará (MOURA, 1992, p. 132 - 147).
Nesse tempo, Dunshee de Abranches contava quinze anos, um pouco mais, ou menos. No entanto, essa não era, propriamente, uma idade precoce para se principiar o manejo de temas políticos. A produção e o recrutamento de lideranças nessa esfera, tal como se verificou no caso das elites econômicas, se dá logo após a infância ou durante a puberdade. Os chamados “caixeiros”, por exemplo, aprendizes do comércio, eram engajados na vida cotidiana do estabelecimento a partir dos oito ou dez anos. Entre os quinze e dezoito, já deveriam estar relativamente aptos a assumir os postos de comando. Isso terminava por contribuir, com grande força, para que posteriormente o agente e os indivíduos que em seu entorno conviviam, acreditassem em uma “vocação” natural para aquela profissão. Como observou Canêdo (1991, p. 233):
Cumprimentar convidados, parentes e amigos, aprender a sorrir, deixar brinquedos e freqüentar festas de casamento [...], escutar distraidamente conversações de políticos, acompanhar o trabalho os eleitores e a “elevação da temperatura” na vida familiar às vésperas das eleições, perceber os pequenos cuidados necessários para dominar os detalhes do jogo básico do homem político, tudo isso faz parte da conduta regular de uma criança e representa a forma a forma de capital mais importante dentre todas as que constituem investimento para o sucesso na carreira política.
Assim, no caso de Dunshee de Abranches, a subsidiar grandemente seu ingresso na arena política, havia o “legado” deixado pelo avô, o convívio dentro do lar com profissionais liberais contrários ao regime de trabalho servil e à monarquia, além do incentivo dos pais na aproximação do filho com esses últimos, sob o credo de que isso fortaleceria sua “educação”. Já aos dezessete anos, enquanto se dirigia para o Rio de Janeiro a fim de ingressar em um curso superior, durante uma escala na cidade de Fortaleza, conheceu o abolicionista José Correia do Amaral, tido como um dos responsáveis pelo fim da escravidão no Ceará. Na oportunidade,
[...] ao receber-me com a hospitalidade inata dos nortistas, fixou a vista sobre o cartão, com o que me anunciara, e encarou-me um tanto surpreendido... – Acha-me muito criança? Indaguei. – Não senhor; aqui pelo Ceará, há muitos mocinhos abolicionistas também [...] (MOURA, 1992, p. 164).
Uma vez na Corte, hospedou-se em uma república onde reconheceu um ator que havia estado em São Luís, e que lá mantivera um caso amoroso com uma
dama, cujo marido, rico empresário, estava em viagem de negócios a Portugal. O caso havia sido comentado em sua residência, e ele conhecia os detalhes da trama. As relações “amistosas” com o referido, Eugênio de Magalhães, proporcionaram a Dunshee de Abranches o acesso aos teatros da cidade, além de ser apresentado a pessoas de influência na capital do Império.
Foi assim que Lucinda Simões me aproximou de Sizenando Nabuco; e este me fez conhecido não só do seu glorioso irmão, o grande Joaquim Nabuco, como de Patrocínio, João Clapp, Campos da Paz e outros ardorosos agitadores da época. Também nessas rodas que, depois das dez horas noite, se viam nos jardins das casas de espetáculos, duas figuras que bastante me interessaram: o Conselheiro Silveira da Mota e Paula Ney, cujo espírito revolucionário de nortista muito se assemelhava ao meu. Naquele emérito parlamentar e homem de letras, pai do Barão de Jaceguay [...] achei um admirável mestre da história política de nossa Pátria (MOURA, 1992, p. 175).
Após a queda da monarquia, os que se ajustaram à nova forma de governo foram de grande valia para o recebimento de Dunshee de Abranches nas mais elevadas instâncias de poder na capital federal durante seu mandato de deputado no “Governo Provisório” de Deodoro da Fonseca. No mais, retornara ao Maranhão ainda no Império. Após a conclusão do curso de direito, participa ativamente do processo de emancipação do trabalho escravo, fazendo comícios e promovendo encontros de abolicionistas e republicanos em torno de um grupo por ele fundado sob o título de “Centro Artístico Abolicionista Maranhense”.
Quando noticiada a assinatura da Lei Áurea, toma parte em uma reunião na Câmara Municipal, onde estavam presentes os principais líderes políticos da Província.
No dia seguinte, após a oferta da pena de ouro, feita por mim em Palácio, como orador oficial do Centro Artístico Abolicionista Maranhense, ao presidente da Província, a fim de assinar os comunicados da decretação da lei redentora aos municípios do interior, realizava-se no Teatro São Luís o festival acadêmico (MOURA, 1992, p. 196).
Nessa ocasião, Dunshee de Abranches havia proferido um discurso em favor dos cativos e, sob essa alegação, foi convidado pelo presidente da Província, José Moreira Alves da Silva, a participar de um almoço de agradecimento no Palácio dos Leões. Entrando na sede do governo.
[...] uma jovem de vinte anos aproximara-se de mim, abraçando-me e conduzindo-me à presença do presidente da Província: „Aqui tem, Dr. Moreira Alves, disse-lhe sorrindo alegremente, um dos heróis do dia; já era abolicionista e revolucionário aos onze anos de idade [...]‟. Era a filha mais moça do comendador Casusa Lopes, a minha boa companheira de infância,
naquela hora, noiva do Comandante Barros Barreto, parente próximo do presidente (MOURA, 1992, p. 197).
Dunshee de Abranches tinha em Moreira Alves um aliado político, através da influência do Barão de Grajaú, que contribuíra diretamente para a sua nomeação como promotor de justiça, justamente em um de seus redutos eleitorais mais fortes, a vila de Grajaú. Mas ainda pouco antes disso, após o fim do trabalho escravo, a perda patrimonial de muitos lavradores teria se agravado com a célere extração de braços para os seringais da Amazônia, cuja economia estava em franca expansão. Assim, o governo provincial, através de Moreira Alves, convocou uma audiência com os principais empresários locais, incluindo-se comerciantes, industriais, agricultores e banqueiros para deliberarem sobre as soluções possíveis de adoção naquele cenário. De pronto a ACM se engajou nos debates e abriu um concurso monográfico com prêmio em dinheiro para quem melhor desenvolvesse uma estratégia prática de transformação do trabalho compulsório ao remunerado.
Dunshee de Abranches informa que redigira a sua memória, de mais de sessenta páginas, em “[...] menos de uma semana [...]” (MOURA, 1993, p. 34), isso como uma prova indelével de seu conhecimento técnico, adequado ao que a instituição demandava. Quando pronta, fizera a leitura da mesma em uma “[...] reunião íntima [...]” com vários diretores da Associação Comercial, dentre eles Theodoro José de Abreu Sobrinho, Cirino Ribeiro, Anacleto Tavares, Ramiro Costa e Cândido César da Silva Rios, este vereador de São Luís. A opinião geral foi que o texto em questão, intitulado “Transformação do Trabalho: memória apresentada à
Associação Comercial do Maranhão” seria o vencedor. Contudo, a sua articulação
tinha a concorrência de outra talvez mais forte, tocada pelo consultor jurídico e secretário da própria ACM, a quem Dunshee de Abranches se refere em flagrante desprezo e com o objetivo de desqualificá-lo, sob a identificação de “[...] Dr. Faboca, apelido familiar com que era conhecido ilustre advogado [...]”, e que se dizia já ser antecipadamente o ganhador do prêmio (MOURA, 1993, p. 35, grifo nosso). No dia da abertura da sessão de premiação, Dunshee de Abranches discursa enfatizando os trunfos que dispunha para colocar em jogo naquele momento, ou seja, os laços de parentesco e os vínculos de reciprocidade.
Ao contrário do que se murmurava, fui logo declarando que os representantes, ali presentes, do alto comércio maranhense, decerto não estranhariam a intervenção neste magno debate de um moço de vinte anos. Poderia talvez dizer sem errar que algumas figuras respeitáveis que via em
minha frente haviam passado pelo balcão da casa comercial de meu pai. E que este fora seu patrão e seu mestre, não somente me instruíra em escrituração mercantil como me despertara o gosto pelos estudos de Economia Política e Finanças. Descendia também de uma família de lavradores e industriais, e tinha orgulho de recordar ali que, há setenta anos passados, já o meu avô, Garcia de Abranches, o Censor, chamava a atenção dos governos e governados do Brasil para o gravíssimo erro de se querer colonizar o País com os negros da Costa da África, reduzidos à mísera condição de escravos (MOURA, 1993, p. 36).
Como que o consultor jurídico da Associação Comercial se manifestasse apresentando sua obra, informando também que recebera outras ainda naquele dia, e que por esse motivo seriam incluídas na análise da comissão de empresários, a divulgação do nome do ganhador se daria pela imprensa. Dunshee de Abranches relata que, pelos aplausos e congratulações que recebera, aguardava ser o vitorioso: “[...] o prêmio anunciado não poderia deixar de me ser conferido.” (MOURA, 1993, p. 38). Entretanto, a “memória” vencedora foi outra. A ACM divulgara que Dunshee de Abranches não poderia receber a premiação, apesar da qualidade de seu texto, porque ele havia fugido aos fins previstos do certame. O escritor atribuiu a responsabilidade de sua derrota não ao debate técnico, mas à “[...] má vontade dos escravocratas de São Luís contra um de seus adversários na campanha abolicionista [...]” (MOURA, 1993, p. 35), que serrariam também as fileiras da entidade.
Assim mesmo, a sua “Transformação do Trabalho” foi editada pela Tipographia da Pacotilha em 1888 por dois amigos empresários, “[...] em sinal de desagravo da parte sã e culta do comércio maranhense” (MOURA, 1993, p. 39, grifo nosso). Apesar do bloqueio inicial por parte da ACM, nem por isso Dunshee de Abranches deixou de falar pelo empresariado quando ocupou cadeira no parlamento federal, isso conforme os interesses dos agentes com os quais mantinha vínculos de reciprocidade.