Jerônimo José de Viveiros nasceu em São Luís a 11 de agosto de 1884 e faleceu na mesma cidade no ano de 1965. Diferentemente de seus ancestrais paternos, não foi agricultor, comerciante ou industrial, e nem ocupou qualquer cargo eletivo. Ao contrário, exerceu apenas a docência de história no Liceu Maranhense, mesma escola onde havia estudado, e em algumas oportunidades o cargo de Diretor de Instrução Pública. Foi aluno do escritor Antônio Lobo, um dos fundadores da
Academia Maranhense de Letras. Uma nota biográfica informa que ele teria sido seu “discípulo” (VIVEIROS, 1954, “orelha”). Inscrevera-se na Faculdade de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, mas por questões financeiras, foi forçado a abandoná-la no penúltimo ano.
Escreveu diversos livros sobre personalidades, economia, política e história maranhenses, tornando-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), e da Academia Maranhense de Letras, em período cronológico posterior à Fran Paxeco. Nessa última instituição, o enaltecimento de sua personalidade é feito através da exposição de “dons” a ele pertencentes e teoricamente incomuns, como o “[...] estilo claro, escorreito e eficaz” (VIVEIROS, 1999, p. 10). Viveiros (199, p. 10) também é frequentemente identificado como “historiador” (RIOS, 2010, grifo nosso), ainda que não portasse diploma em tal área de conhecimento, ou em qualquer outra.
Na primeira edição da História do Comércio do Maranhão, em uma nota biográfica laudatória – de autor não identificado – é apresentado como “Nome sobejamente conhecido nos meios intelectuais do Maranhão e do Brasil”, e “Infatigável no trabalho, de competência insuspeita”, cujo “[...] estilo inconfundível de simplicidade, quando escreve o faz sem retoques, sem paradas bruscas para medir. As idéias já estão ordenadas. É homem que transpõe para o papel o que já está perfeitamente e amadurecido no pensamento [...]” (VIVEIROS, 1954, “orelha”). Nesse sentido, o articulista pretende demonstrar que a intelectualidade do escritor é nata, e completamente independente dos títulos acadêmicos, em clara intenção de legitimá-lo.
Digno de constatação é o fato de se descrever o local de nascimento do referido, “[...] num velho e formoso sobrado da Rua de Santo Antônio, antigo solar de seus avós [...], os Barões de São Bento” (VIVEIROS, 1954, “orelha”). Não sem propósito, é citada a ascendência familiar porque ela é um fortíssimo subsídio de autenticação social para Viveiros, haja vista a inserção e o domínio, por parte de seus ancestrais, ainda naquela época não tão remotos, em diversos postos de liderança política e cultural. Isso é corroborado inclusive por seu próprio nome de batismo, absolutamente idêntico ao do pai, Jerônimo José de Viveiros (1847-1884) médico formado em Portugal e do bisavô, Jerônimo José de Viveiros (1780-1857), senador do Império e abastado lavrador em Alcântara.
Os elogios a Viveiros culminam na comparação em equivalência a outros escritores consagrados como “ícones” da pretensa erudição oitocentista local, como “[...] sabedores da história do Maranhão, pertencendo à estirpe famosa dos Cândido Mendes, João Lisboa e César Marques” (VIVEIROS, 1954, “orelha”).
A falta de titulação acadêmica, porém, ao menos para quem fala em nome da Academia Maranhense de Letras, como o fez seu presidente Jomar Moraes no ano de 1999, não teria sido um obstáculo para o seu reconhecimento público enquanto “intelectual” e, menos ainda, um impeditivo para o ingresso na referida instituição, porque “[...] superou tal circunstância, aliando talento à vocação, o empenho de aturados e sistemáticos estudos” (VIVEIROS, 1999, p. 10).
Dois livros da autoria de Viveiros têm importância objetiva para a presente análise, são eles a “História do Comércio do Maranhão” (VIVEIROS, 1954), em três volumes, e “Alcântara no seu passado econômico, social e político”. O primeiro, “[...] realmente monumental, para os nossos padrões domésticos [...]” (VIVEIROS, 1999, p. 9), importou na inclusão de seu autor como um agente autorizado a falar em nome da ACM, posto que, nos segundo e terceiro volumes, cita amplamente as ações da instituição frente aos temas relacionados às finanças e às lutas políticas, a partir de uma ordem cronológica do desenvolvimento da atividade comercial (VIVEIROS, 1954; 1964).
Mais que isso, os seus líderes são trazidos ao texto como portadores de “propósitos elevados” e desinteressados dos benefícios individuais, sempre menores que os da coletividade (VIVEIROS, 1954), em uma franca perspectiva de heroicização. Não por coincidência, são trazidas fotos dos diretores contemporâneos à publicação da História do Comércio, bem como daqueles que, tendo ocupado a liderança da entidade em tempo pretérito, foram os ascendentes diretos do próprio autor, como José Francisco de Viveiros (1840-1903), este por sua vez “Descendente do Barão de São Bento e proprietário do engenho „Tramaúba‟, em Penalva” (VIVEIROS, 1954, p. 518 - 519).
Tudo isso pode ser compreendido pelos condicionantes pertinentes à elaboração da citada obra. De um lado, o financiamento da pesquisa e edição inteiramente sob o encargo da ACM, na década de 1950, período de grande aproximação da instituição com o Governo do Estado. Na verdade, Viveiros teria concorrido a um certame promovido pela entidade por ocasião de seu centenário, e que visava premiar o melhor trabalho sobre a origem e o desenvolvimento da
atividade comercial no Maranhão. De outro, o pertencimento do autor a uma “linhagem” de ricos empresários e políticos do Império e primeiros anos da república. A importância da afirmação do legado familiar recebido por Jerônimo de Viveiros foi bem demonstrada por si mesmo no livro “Alcântara no seu passado econômico, social e político” (VIVEIROS, 1999). Ao abordar temas relacionados à história daquela que é uma das mais antigas povoações maranhenses, Viveiros lista o nome de 23 “Figuras Alcantarenses”, sendo que aproximadamente ¼ delas são seus ascendentes diretos. Dividindo-se os demais entre as famílias Borba, Coutinho, Gomes de Castro, Seixas, Serrão, Franco de Sá, Maia, Guimarães e Guterres, a sua é a que mais aparece por todo o texto, e a que é mais retratada.
Ao redigir a biografia do Barão de São Bento, Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho (1819-1860), bacharel em matemática pela Universidade de Coimbra, informa que ele teria se graduado com menos de vinte anos, e com um “[...] atestado dizendo: que na tinha dado uma só falta em todo o seu curso, que as notas haviam sido sempre as melhores, bem como exemplaríssima a sua conduta civil e literária” (VIVEIROS, 1999, p. 129). A ênfase em demonstrar o tipo de formação acadêmica e os modos como foi obtida, tem a finalidade de indicar uma capacidade intelectual no mínimo diferenciada, posto que é absolutamente diminuto o número de graduados nessa área, sendo muito maior a quantidade de indivíduos formados em direito ou medicina. Provavelmente, a procura pelo curso de matemática, nesse caso, sem nenhuma aplicabilidade às atividades desenvolvidas por seu portador, estivesse relacionada às estratégias do agente na esfera política, posto que o chefe da facção adversária, o também alcantarense, Carlos Fernando Ribeiro (1815-1889), possuía três graduações, as duas mais comuns e uma em agronomia pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos.
Contemporâneo a Viveiros Sobrinho, era o também matemático Joaquim Gomes de Souza (1829-1864), igualmente graduado com menos de vinte anos, pertencente a uma das mais ricas famílias de lavradores da região do Itapecuru, mas residente na Europa e com uma breve passagem pela Assembléia Geral do Império como representante do Maranhão. Já naquele período era identificado como “[...] talvez a inteligência mais elevada que esta terra tenha produzido [...]” (AMBROSIO, 2010, p. 1), tendo publicado vários trabalhos, na Inglaterra, França e Alemanha, inclusive uma dissertação sobre equações diferenciais, ainda atualmente aplicáveis.
O Barão de São Bento era membro do Partido Conservador, e foi deputado tanto na Assembléia Provincial do Maranhão, quanto na Assembléia Geral do Império, construindo uma carreira política na esteia das articulações conduzidas por seu pai, o senador Jerônimo José de Viveiros. Nas eleições para a Assembléia Geral em 1856, Jerônimo José de Viveiros (Figura 17) indicou seu filho para disputar uma das vagas sob a legenda do Partido Conservador, enquanto apoiava também João Pedro Dias Vieira, da vila de Guimarães, e membro da “oposição” Liberal, para a outra. João Pedro, que depois ocuparia pastas importantes no Segundo Reinado, apesar da filiação partidária comum, não tinha ligações com Carlos Fernando Ribeiro. No dia do pleito, “[...] os Viveiros despejaram seus votos em Dias Vieira, fazendo o barão de Grajaú amargar dura derrota” (COUTINHO, 2005, p. 316).
Figura 17: Jerônimo José de Viveiros (Senador do Império, com fardão e comendas. Década de 1860)
Fonte: Acervo pessoal do autor
Por fim, se verifica que os legados familiares e os laços de reciprocidade e parentesco, não apenas no caso de Jerônimo José de Viveiros, como também nos demais, são construídos, apresentados e utilizados como recursos válidos para a legitimação “técnica” dos agentes relacionados à elite econômica em estudo, muito mais do que a fluência em uma ou outra área do conhecimento acadêmico. Isso de igual maneira franqueará o ingresso, permanência e reconhecimento não apenas em uma, mas simultaneamente em diversas instâncias de poder que, segundo suas
próprias configurações, tem esses elementos como de fundamental importância para a seleção e reprodução tanto de suas lideranças quanto daqueles a que a elas se vinculam.