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Figura 15: Fran Paxeco Fonte: Paxeco (2008)

Manuel Fran Paxeco (Figura 15) nasceu em Setúbal, Portugal, no ano de 1874, sendo batizado Manuel Francisco Pacheco. Faleceu na cidade de Lisboa em 1952. Aos quatorze anos começa a trabalhar em uma tipografia da família, e edita um periódico chamado “Gazeta Setubalense”. A atividade de jornalista o aproxima de elementos contrários à monarquia portuguesa, pelo que, ainda jovem, se torna republicano. No jornal “A Vanguarda” publica uma nota sobre o rei D. Carlos, que é tomada por ofensiva. De imediato encontra-se uma forma de anulá-lo politicamente.

Descobre-se que estava inscrito no corpo de reservistas do exército, e o artigo torna-se prova de um processo judicial militar, cuja acusação era indisciplina. Após consultar amigos e advogados, foi aconselhado a exilar-se. Para tanto, saindo secretamente de navio a partir de Setúbal, ainda deveria passar por Lisboa enquanto parada obrigatória da embarcação. Como não fosse isso conveniente para sua segurança, desembarca antes, e parte até Gibraltar, e de lá para o Rio de Janeiro.

Uma vez na Capital Federal, logo após a proclamação da república brasileira, é recebido por comerciantes e industriais portugueses abastados, que lhe conseguem trabalho como editor de jornal em Belém, no Pará. Logo em seguida

parte para Manaus, o centro econômico do norte do Brasil, exatamente no período de grande prosperidade da borracha, e para onde aflui número considerável de imigrantes, a maioria, lusitanos. Na capital do Amazonas conhece negociantes maranhenses de origem portuguesa que forneciam produtos alimentícios como farinha e arroz, além de tecidos de suas fábricas têxteis ao mercado local. É convidado a visitar São Luís e, acolhido pelos empresários portugueses residentes, fixa-se em maio de 1900.

Constitui família através do casamento com a ludovicense Isabel Eugênia de Azevedo Fernandes, cujos pais eram comerciantes e com quem teve uma filha, Elza Pacheco. Até o início da década de 1910, além do jornalismo, desenvolve diversas atividades de natureza cultural. Publica em São Luís vários artigos e livros sobre história, geografia, política e economia, dentre os quais “O Sr. Sílvio Romero e a literatura portugueza” (São Luís do Maranhão, A. P. Ramos d'Almeida, 1900); “O Maranhão e os Seus Recursos” (São Luís do Maranhão, 1902); “Os interesses maranhenses” (São Luís do Maranhão, A Revista do Norte, 1904, XXVIII); “A literatura portugueza na Idade Média: conferência” (São Luís do Maranhão, Universidade Popular do Maranhão, 1909); “O Maranhão: subsídios históricos e corográficos” (São Luís do Maranhão, 1912) e “Os Braganças e a restauração” (São Luís do Maranhão, Tipografia da Pacotilha, 1912).

Organiza o grupo de literatos chamado de Oficina dos Novos, que em 1908 dará origem à Academia Maranhense de Letras, da qual se torna membro fundador e patrono. Inaugura também a Legião dos Atenienses, o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, a Universidade Popular e o Curso de Direito do Maranhão. Dentre as organizações em que foi participante, duas merecem uma atenção especial: o Centro Republicano Português do Maranhão e a própria Associação Comercial do Maranhão.

O primeiro foi organizado ainda no fim do século dezenove, com o propósito de apoiar não só a consolidação da república proclamada no Brasil como de, através dos seus membros, ricos comerciantes e industriais, articular a intermediação com agentes políticos dentro do país e em Portugal para promover a mudança de regime nesse último também. Atuando pelo Centro Republicano Português do Maranhão, Fran Paxeco mantinha ativa correspondência com Joaquim Teófilo Fernandes Braga, ou Teófilo Braga, escritor e um dos líderes do Partido Republicano Português a partir de 1878.

O processo de substituição efetiva do poder em Portugal se inicia em 1908 com o assassinato do rei e de seu herdeiro imediato, e se conclui com a as revoltas populares que conduzem à deposição de Manuel II em 1910. Teófilo Braga ascende à chefia do governo provisório e, no mesmo ano, Fran Paxeco é nomeado diretamente por ele cônsul de Portugal no Maranhão, cargo antes ocupado por seu conterrâneo e confrade maçônico, o comerciante e industrial Francisco Coelho Aguiar. Passa apenas mais três anos no Estado, quando é chamado a trabalhar com o embaixador português no Rio de Janeiro. A partir de 1916, assessora o presidente de Portugal e onde permanece até 1923, nomeado novamente cônsul no Brasil, desta vez na cidade de Belém, ocupando esse cargo por dois anos.

Mesmo estando em Portugal como secretário particular do presidente Bernardino Machado, pediu que conservasse o cargo de cônsul no Maranhão, ainda que aquele consulado fosse presidido já por outro representante. Isso, no entanto, foi conseguido através de uma nomeação como “Cônsul de Segunda Classe”, em 1914. Esse fato, juntamente como as supostas recusas de Fran Paxeco em assumir outras representações diplomáticas de maior destaque do que a maranhense, quando residia no Estado, é apontado por seus biógrafos como prova de seu “amor” pelo Maranhão (LUZ, 1957).

Objetivamente, Fran Paxeco estabeleceu laços de reciprocidade e parentesco com membros diretores da ACM, como já se viu, de marcada presença portuguesa. A origem patrícia comum a alguns de seus líderes proporcionou a aproximação com os referidos e seu ingresso na instituição como um mediador entre ela e outras instâncias de poder locais, exercendo a função de secretário externo. No ponto, quem o convida para ocupar a pasta em questão não é um português, mas o maranhense da então vila de Guimarães, Manoel Ignácio Dias Vieira, presidente da entidade e um dos principais políticos da época. A indicação, contudo, parte do comerciante lusitano e amigo de Fran Paxeco, Pedro Freire.

Assim, a Associação Comercial financiou a edição de várias obras suas, no período em que se ocupava apenas do jornalismo. Por outro lado, ele retribuía elaborando trabalhos sobre economia-política, divulgando a entidade como instância precípua de representação do empresariado e dos negócios afetos ao desenvolvimento do Maranhão, enquanto seus líderes figuravam como a personificação do empreendedorismo e do conhecimento técnico aplicado. Por exemplo, em 1904, os empresários Cândido José Ribeiro, Chrispim Alves dos

Santos, João Alves dos Santos e João de Aguiar Almeida, todos ocupantes de cargos elevados na ACM, arcaram com as despesas de impressão e divulgação da monografia “Os Interesses Maranhenses”, onde Paxeco demonstra a evolução da balança comercial local, identifica problemas e apresenta soluções para a melhoria da atividade econômica, inclusive conforme os apontamentos da própria instituição sobre o tema.

Nesse ponto, é de se notar que os discursos laudatórios sobre Fran Paxeco cumprem, na Academia Maranhense de Letras, função semelhante aos produzidos pela Associação Comercial do Maranhão com relação a seus fundadores. Nesse caso específico, o indivíduo é sublimado através da divulgação de seus dons, pretensamente inatos e extraordinários, não só à literatura, como a toda sorte de “[...] iniciativas relevantes [...]” (PAXECO, 2008, p. 12). Fala-se, pois, ainda hodiernamente, em um sujeito “[...] precocemente vocacionado para as letras [...]”, membro de uma “[...] constelação de talentos realmente privilegiados [...]”, portador de um “[...] entusiasmo inquebrantável [...]” e de um “[...] tirocínio, visão de mundo e uma cultura que se revelam imprescindíveis [...]” (PAXECO, 2008, p. 12).

Notoriamente, Fran Paxeco, em boa parte das instituições da qual participou, exerceu a mediação entre elas e outras arenas de disputa pelo poder e legitimação. As suas ligações com a República Portuguesa contribuíram para o fácil acesso ao Palácio dos Leões, o que proporcionava uma aproximação muito estreita da entidade de empresários com a esfera política. No mais, o congraçamento do referido com as lideranças políticas, literárias e empresariais, cada qual no interior de sua própria organização, favoreceu a formação de uma personalidade “unânime”, bem quista e aceita por onde transitasse.

Durante a pesquisa, tivemos a oportunidade de manusear uma documentação chegada ao Maranhão há não mais que três anos, da mais alta relevância para qualquer estudo sobre Fran Paxeco. Trata-se de um álbum de fotografias carte de visite e cabinet portrait, não publicado e pertencente ao acervo particular de um descendente da junção de duas famílias de comerciantes portugueses e diretores da ACM: Manoel Coelho Pecegueiro Júnior (Figura 16) e Arnaldo Júlio Correia. O caderno de imagens foi montado pelo próprio Fran Paxeco com fotografias enviadas por seus amigos, todas com dedicatórias no verso, um costume comum durante o século dezenove e por muitos anos da centúria seguinte.

O primeiro retrato, não casualmente, é de Teófilo Braga, acompanhado de uma mensagem de agradecimento e felicitações.

Figura 16: Manoel Coelho Pecegueiro Júnior Fonte: Geneall net (2000-2011)

A ele se seguem diversos outros, de escritores, jornalistas, empresários e poetas, inclusive o pouco lido José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti de Albuquerque Maranhão Sobrinho, autor do livro “Papéis velhos... roídos pela traça

do Símbolo” e um dos principais autores do chamado “Simbolismo” no Brasil.

Maranhão Sobrinho nascera no município de Barra do Corda e morreu ainda jovem, em condições de miserabilidade em Manaus, onde conhecera Fran Paxeco, um dos incentivadores da publicação da citada obra, que possui apenas duas edições, uma de época e outra do ano de 1999. Notável também é a foto de um “jantar de despedida” realizado na sede do Governo do Estado por ocasião da partida de Fran Paxeco para Portugal. Na cerimônia ladeiam-no chefes dos poderes executivo e legislativo, diretores da ACM e membros da Academia Maranhense de Letras.

Há uma explicação para o fato desse acervo hoje se encontrar no Maranhão. Manoel Coelho Pecegueiro Júnior, apesar de ser um “[...] monarquista atuante” (RESENDE, 2010), muito apoiara Fran Paxeco quando este se instalara em São Luís. Uma neta sua, Rosa Pacheco Machado, ao visitar a cidade em 2008, foi convidada pelo então presidente da Academia Maranhense de Letras a integrar os quadros da entidade, como sócia correspondente em Lisboa. De início, Rosa Pacheco Machado declinou do convite alegando incompatibilidade com suas atividades profissionais, mas o aceitara em outubro de 2010. Naquela pretérita

oportunidade, foi recebida pelo mencionado descendente do empresário, que foi recompensado, em doação, com grande número de objetos pertencentes à Fran Paxeco, inclusive o álbum. Rosa Pacheco Machado não publicou qualquer livro, mas sua “capacidade intelectual”, bem como sua ascendência, justificaram a nomeação:

SÃO LUÍS - Uma solenidade de muita gratidão vai ser realizada, hoje (14), à noite na Academia Maranhense de Letras (AML), em São Luís. Os integrantes da AML decidiram homenagear a bibliotecária portuguesa Rosa Pacheco Machado, neta do escritor Fran Pacheco, fundador da Academia. [...]

Ela é portuguesa e tem 64 anos de idade. Rosa Pacheco Machado, bibliotecária com mestrado em Ciências Documentais pela Academia de Ciências de Lisboa, está prestes a assumir a cadeira de número cinco, na casa de Antônio Lôbo. O convite foi feito pelos acadêmicos no ano passado, quando Rosa esteve em São Luís pela primeira vez. As ligações da intelectual com a AML começaram no início do século 20. A história da futura imortal com a AML é bem antiga: foi o avô dela, Fran Pacheco, que fundou a Casa, em 1908, em São Luís.

Além disso, Rosa é filha do nobre escritor português José Pedro Machado e da intelectual maranhense Elza Pacheco. O pai é considerado, ainda hoje, um dos maiores dicionaristas do mundo. A mãe foi a primeira mulher a receber o título de doutora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Com a literatura na veia, a Rosa portuguesa se prepara para imortalizar seu nome, seguindo os passos dos pais (RÊGO; NAZARÉ, 2010, p. 1).

Com razão, se verifica que a importância simbólica de Fran Paxeco enquanto antepassado biológico é de uma tal grandeza que um de seus descendentes, mesmo sem qualquer publicação literária que não a de nível acadêmico, conseguiu se incluir em uma organização, ao menos oficialmente, destinada a receber e promover escritores. Ademais, constata-se também que uma origem geográfica comum, os laços de parentesco e os vínculos de reciprocidade, são os recursos que permitiram a Fran Paxeco se afirmar como mediador de vários tipos de elites locais, entre elas e outros níveis de poder equivalentes ou superiores.