Este capítulo tem como objetivo esclarecer a orientação metodológica da presente dissertação, bem como a escolha da estratégia de pesquisa, estudo de caso, a opção pela pesquisa qualitativa, de modo a evidenciar a correlação entre a pesquisa proposta e as escolhas metodológicas.
4.1. Metodologia de Análise e Dados obtidos
4.1.1. Orientação Metodológica
Burrell e Morgan (1982) apresentam um mapa , capaz de auxiliar na identificação de similaridades básicas e diferenças de trabalho dos vários teóricos, além de situar os quadros de referência subjacentes. Para os autores, a teoria social poderia ser concebida em termos de quatro paradigmas chaves baseados em diferentes conjuntos metateóricos sobre a natureza da ciência social e da sociedade especificamente. Os quatro paradigmas são fundamentados em visões do mundo social mutuamente excludentes, gerando per si sua própria análise distintiva da vida social, suas teorias e perspectivas que fundamentalmente são opostas entre si. Estes paradigmas são assim denominados: funcionalista, interpretativo, humanismo radical e estruturalismo radical.
Os autores apontam os pressupostos filosóficos que são subjacentes às diversas abordagens da ciência social, ou seja, pressupostos relativos à ontologia, à epistemologia, à natureza humana e à metodologia, que pode ser sintetizada no quadro 13. Cujas posições extremas estão refletidas nas duas tradições intelectuais que tem dominado a ciência social de um lado o idealismo germânico e sua abordagem subjetiva e do outro o positivismo sociológico e sua abordagem objetiva.
Quanto aos pressupostos sobre a natureza da sociedade os autores se baseiam em duas linhas de conduta: a regulação e a mudança radical substituindo as noções de ordem e conflito até então discutidas por vários teóricos das ciências sociais.
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Abordagem Subjetiva Abordagem Objetiva Nominalismo
Produto da consciência e cognição do indivíduo.
Mundo social construído de nomes, conceitos e títulos.
Ontologia
O ser enquanto ser.
Realismo
Realidade dada , externa ao indivíduo. Mundo social existe independente da apreciação pelo indivíduo. Existência sólida concreta.
Anti-positivismo
Conhecimento tem que ser experimentado pessoalmente Subjetivismo e relativista
Epistemologia
Como entender o mundo e transmitir este conhecimento
Positivismo
Conhecimento sólido, real, capaz de ser transmitido de modo tangível.
Regularidade e relações causais
Voluntarismo
Completamente autônomo, livres dessa influência
Livre arbítrio
Natureza Humana
Relação entre os seres humanos e seu ambiente
Determinismo
Resposta mecânica ou determinista ao ambiente
Determinado pelo meio
Ideográfico (singular)
Valorização da informação em detrimento do procedimento, análise de constatações subjetivas. O subjetivo revela a sua natureza durante o processo de investigação
Metodologia
Como investigar e obter conhecimento
Nomotético (leis universais)
Pesquisa como procedimentos e técnicas sistemáticas
Influência das ciências naturais
Pesquisa de dados, questionários, testes, instrumentos de pesquisa padronizados. Quadro 13: Orientação Metodológica Fonte: Adaptado pelo autor de Burrel e Morgan (1982)
A Sociologia da regulação é essencialmente interessada na necessidade de regulação dos afazeres humanos, enfatiza a unidade subjacente e a coesão como explicação para os movimentos sociais; já a sociologia da mudança radical, preocupa-se em descobrir explicações para o conflito estrutural profundamente arraigado, para os modos de dominação e das contradições estruturais que os teóricos vêem como caracterizando a moderna sociedade. A sociologia da mudança radical está mais interessada no que é possível modificar, do que com a aceitação do status quo.
Estas duas dimensões vão nortear os quatro paradigmas: o Humanismo radical, o Estruturalismo radical, o Interpretativo e o Funcionalismo.
A presente pesquisa está inserida no denominado paradigma Humanista Radical, uma vez que é marcada por uma orientação eminentemente crítica. Além disso, seu quadro de referência está envolvido com uma visão da sociedade que enfatiza a importância de destruir ou de transcender as limitações dos arranjos sociais existentes, mais do que na simples manutenção ou eficientização do sistema. A principal ênfase é na consciência humana e nas formas de libertação da mesma da dominação ideológica das superestruturas.
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O Humanismo Radical (Lukacs, Gramsci, Habermas, Marcuse) busca explicar a mudança através do subjetivismo, ou seja, dos modos de cognição e consciência individual. Portanto o mundo individual é visto dentro de uma perspectiva que tende a ser nominalista, antipositivista, voluntarista e ideográfica.
4.1.2. A Pesquisa Qualitativa
Esta pesquisa procura analisar um processo de mudança técnico organizacional sob uma abordagem política, o que a aproxima da pesquisa qualitativa, mais apta a lidar com as especificidades de fenômenos complexos. Este caso não pode ser tratado pelo instrumental quantitativo, visto a incapacidade da estatística de lidar com contextos e com a interpretação dos fatos não quantificáveis tão fundamentais para esta pesquisa. O que interessa é o desenrolar do jogo, acompanhado de seu resultado (RIBEIRO, 1981).
Lazarsfelf (citado por Haguette (1992, p.64)) identifica três situações onde se presta atenção particular a indicadores qualitativos:
a) situações nas quais a evidência qualitativa substitui a simples informação estatística relacionada a épocas passadas; b) situações nas quais a evidência qualitativa é usada para captar dados psicológicos que são reprimidos ou não facilmente articulados como atitudes, motivos, pressupostos, quadros de referências etc., c) situações, nas quais simples observações qualitativas são usadas como indicadores do funcionamento complexo de estruturas e organizações complexas que são difíceis de submeter à observação direta. (grifos)
4.1.3. A Estratégia de Pesquisa Estudo de Caso
A estratégia de Estudo de Caso é preferencialmente utilizada em pesquisas cujas principais indagações seriam: Como? e Por quê? determinados eventos aconteceram, como também em pesquisas nas quais os pesquisadores tem pouco ou nenhum controle sobre os eventos estudados, e quando a separação entre o fenômeno e o contexto não é evidente, uma vez que os fenômenos estudados estão inseridos na vida real. Justamente esta possibilidade de evidenciar e analisar estas inter-relações destes
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fenômenos complexos e muitas vezes contemporâneos é o principal propósito desta estratégia (YIN, 2001). Nesta pesquisa, busca se analisar o poder em ação, no processo de inter-relação entre os membros da organização e como esta inter-relação influencia no processo de tomada de decisões e por conseqüência no processo de implementação de mudanças organizacionais, deste modo, a estratégia de pesquisa mais adequada é o estudo de caso.
Esta pesquisa não procura ser a análise de uma amostra , que poderia ser generalizada para um universo maior, mas analisar a teoria sobre mudança organizacional diante de uma situação real observada durante dois anos. No intuito de minimizar os resultados indesejados, foram adotadas algumas estratégias como: procedimento de validação da coleta e análise dos dados, grande levantamento documental (principalmente atas de reuniões), delimitação do nível de análise do caso.
4.1.4. Coleta de Dados:
O trabalho de pesquisa foi elaborado da seguinte forma:
a) Observação Participante Natural, uma vez que o pesquisador trabalhou no Operador Logístico, durante o período em questão, participando do grupo que se pretendia estudar. A observação participante é o método por excelência dos interacionistas. Neste caso, a observação participante constituiu-se a forma mais apta à captação da situação prática, pois propiciaria ao pesquisador assumir o papel do outro e ver o mundo através dos olhos dos pesquisados , vivenciando in locu e envolvido nas atividades cotidianas da organização. Como afirma Morgan (1996), a atividade política se manifesta mais claramente nos conflitos, jogos de poder e intrigas interpessoais, que seriam invisíveis a todos, exceto aos diretamente envolvidos .
1ª Fase: Realização de entrevistas semi-estruturadas com a diretoria e o corpo gerencial da empresa.
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2ª Fase: Realização de entrevistas não estruturadas com três dos funcionários mais antigos e com três funcionários admitidos após julho de 2002.
3ª Fase: Validação da descrição do estudo de caso por meio de três das pessoas ouvidas na pesquisa. Este procedimento foi adotado no intuito de mitigar os problemas de confiabilidade e validação dos resultados
b) Análise de Documentação Indireta, por meio de pesquisa exploratória bibliográfica e documental.
1ª Fase: Análise da documentação disponibilizada pelo Operador Logístico: Organograma, Fluxograma das principais atividades, diversas atas de reuniões entre outros documentos coletados.
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