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Kapittel 6 – Oppsummering og avslutning

6.1 Oppsummering sentrale funn i masteravhandlingen

A atividade missionária da Companhia de Jesus no Novo Mundo sempre mereceu atenção de observadores das mais diversas áreas, no campo da historiografia e para além dele. Podemos dizer que suas “reduções” transcenderam o espaço de análise dedicado a uma “história da Igreja” ou da evangelização das populações indígenas, para se transformar em tema relevante da historiografia americanista em sua dimensão social, econômica, cultural ou política.

Das várias missões que os jesuítas conduziram nas Américas, as quais transcorreram em regiões tão díspares como a Baixa Califórnia, Amazônia ou Chile, por exemplo, não há dúvida de que são os pueblos1 de guaranis da Província do Paraguai

aqueles que mais estudos mereceram ao longo do tempo2. Em certa medida, inclusive,

eles se constituem em paradigma do que se chamou de “missão por redução”. Em virtude disto, outras missões, inclusive algumas que não foram conduzidas por religiosos dessa congregação, acabam ocupando um espaço muito menor como tema de investigações historiográficas.

A estratégia de redução com os guaranis começou a ser utilizada nos inícios do XVII3, substituindo as “missões volantes” de poucos resultados. Até 1707, quando fundou-

se Santo Ângelo Custódio, índios e jesuítas edificaram um conjunto de povoados que chamamos de Trinta Povos das Missões. Seu número de fato variou bastante, mas cerca de três dezenas deles prosperavam e tiveram uma existência estável, chegando a concentrar aproximadamente 100.000 índios. Assentadas especialmente na mesopotâmia formada entre os rios Paraná e Uruguai, as reduções obedeciam ao padrão urbano ditado pela legislação espanhola para as Índias, distribuindo vivendas em torno de uma praça central

1 Embora neste trabalho estejamos tomando-os como sinônimos, os termos missão, redução e pueblo de

índios não apresentam o mesmo significado. Falamos aqui dos povoados que deviam concentrar populações indígenas cujos padrões de assentamento não seguiam as pautas do que se entendia como uma existência “política e humana”. Foi neste sentido que Antônio Ruiz de Montoya definiu o apostolado de seus colegas de Ordem escrevendo: “chamamos de reduções aos povos de índios que, vivendo à sua antiga usança em selvas, (...) separados uns dos outros, reduziu-os a diligencia dos padres a povoações não pequenas e a vida política e humana ...” (Montoya [1639], 1985: 34).

2 Sobre isto ver: Meliá & Nagel, 1995.

que se constituía em elemento estruturador da organização espacial dos povoados. Ela era o espaço público e aberto em que transcorriam atividades cívicas, religiosas, culturais, esportivas e militares; ali se realizavam as celebrações de colheitas, os desfiles militares, as procissões, os teatros sacros, os jogos esportivos e se exercia a justiça. Em um de seus lados ficavam a igreja, o colégio e as oficinas em que os índios eram iniciados na elaboração de artefatos diversos; no outro, o cemitério e o “cotiguaçu”, isto é, a casa das viúvas e órfãs.

Cada povoado dispunha de terras para os trabalhos familiares e comunitários, além de rebanhos e ervais. Excedentes eram intercambiados a partir de redes de relação tecidas pelos padres, de forma que artigos não produzidos internamente pudessem ser adquiridos. A sólida base econômica das reduções permitiu aos “pueblos” certa independência em relação aos governos ou aos vecinos de Buenos Aires e Asunción que, de resto, viam nos padres um obstáculo ao uso do trabalho servil dos índios.

Remanescentes de imponentes igrejas barrocas, imagens de santos que mesclam a técnica europeia de composição a faces que lembram os nativos que as produziram, instrumentos musicais e inumeráveis páginas escritas pelos protagonistas desta história, ajudaram a fixar um imaginário que apresenta as “Reduções Guaranis” como modelo de atuação junto aos indígenas. Mais que isto, contudo, narrativas que vêm sendo escritas desde o XVIII procuram firmar a imagem de que este foi um modelo de sociedade justa e harmônica4. Nessas análises, o conflito e a contradição se fariam presentes nas reduções

apenas por meio de agentes externos a elas, fossem eles os encomenderos5 ou vecinos

espanhóis, os “paulistas” ou índios “infiéis”.

Segundo algumas análises, estas missões manifestavam uma contradição fundamental, uma vez que, originadas como um instrumento do colonialismo, ao estabelecerem mecanismos de proteção ao serviço “encomendado”, portavam um sentido anticolonial que as conduziu inexoravelmente à ruína (Meliá, 1986). Para outros, elas foram

4 Estamos falando aqui não apenas das cartas e relatórios elaboradas pelos jesuítas como forma de prestar

contas do seu trabalho aos superiores, mas especialmente das “sínteses” e “histórias” que eles redigiram para responder aos que acusavam a Companhia de ferir os interesses da Coroa espanhola.

5 Apesar de que a legislação castelhana foi impondo, já ao longo do XVI, restrições às “encomiendas”, no

uma “utopia política”, a ilusão de que o ordenamento jurídico das Leis de Índias pudesse realizar-se historicamente (Kern, 1982).

De toda forma, até mesmo pelas suas ambiguidades e contradições, constituiu-se sobre elas um formidável corpus narrativo, que continua sendo acrescido de novas interpretações historiográficas. Podemos concordar sobre isto com M. Mörner (1999) em que as últimas décadas do XX conheceram uma “normalização historiográfica” sobre o tema, sendo que a grande maioria dos estudos atuais evidencia o retraimento dos preconceitos e polêmicas em favor de abordagens efetuadas a partir de sólida pesquisa documental e rigor teórico e metodológico6.

Mas nem todas as obras missionárias da Companhia se resolveram de forma similar às reduções do Paraguai, e houve experiências que poucas marcas deixaram na paisagem e mesmo na literatura especializada. Este é o caso das chamadas “missões austrais” dirigidas às populações indígenas da campanha buenairense em meados do século XVIII. Como resultado delas, os jesuítas vão edificar três pequenos povoados que, em sua curta existência, procuraram ser ponta de lança para a catequese em regiões onde a presença ocidental era ainda escassa. A forma pela qual transcorreu essa missão, com grupos chamados genericamente de “pampas e serranos”7, evidencia que a capacidade de

intervenção dos padres sobre realidades locais encontrava seus limites nelas mesmas.

6 Isto não significa que as análises sobre a experiência missional sejam uníssonas e que não existam

diferentes juízos sobre temas que seguem sendo explorados pelos especialistas. A aproximação interdisciplinar, por exemplo, contribuiu para introduzir, entre outros, os termos do debate êmico/ético, caro para o campo da antropologia. A primeira posição defende que se adote um "ponto de vista nativo" como condição para que possamos entender os fatos sociais de acordo com aqueles que os experimentam. Assim, se as interpretações êmicas refletem categorias cognitivas e linguísticas dos indígenas, as interpretações éticas são aquelas desenvolvidas pelos pesquisadores com propósitos analíticos.

7 Estas foram denominações pelas quais eram designados, na maior parte das vezes, os índios que ocupavam

territórios ao sul do Salado. Não resta dúvida de que se trata de uma generalização que não reflete a realidade, mas obedece tão somente à necessidade de classificação dos agentes da colonização. Apesar disto, como por meio destes termos foram chamados tais indígenas e suas reduções em boa parte da documentação e da literatura da época, eles serão por nós adotados neste trabalho.

2. As missões austrais: Concepción de los Pampas, Pilar e Madre de los