Kapittel 5 – Næringslivskontakten og etterretningsmiljøene kan ses i sammenheng med
5.1 Innledning – standardmodellen og de innovative politistrategiene
Uma década após a publicação da Historia de la Iglesia en México, do Pe. Cuevas, o religioso francês Robert Ricard apresentou sua tese de doutorado na Sorbonne sobre a conquista espiritual do México. Nela, o autor dedicou-se ao apostolado das ordens mendicantes entre 1523-1572, consagrando a expressão “conquista espiritual” para nomear o processo de fundação da Igreja no México e de evangelização dos indígenas. A obra de Ricard tomou como fonte privilegiada os cronistas do século XVI e, quase sempre, os franciscanos – “erro” que o próprio autor reconheceu no prólogo à segunda edição em espanhol (Ricard, 2005: 27).
Apresentada em 1933 e impressa em espanhol no México pela primeira vez em 1947, La conquista espiritual lançou as bases daquilo que denominamos “matrizes
franciscanas” no que concerne às percepções dos recortes temporais na história eclesiástica mexicana. Como se pode notar já no subtítulo da obra, “Ensayo sobre el apostolado y los métodos misioneros de las órdenes mendicantes en la Nueva España de 1523-1524 a 1572”, Ricard delimitou o período de sua pesquisa entre os anos de 1523 e 1572. O primeiro par de datas refere-se ao momento em que os primeiros missionários franciscanos chegaram ao México: três irmãos em 1523, e os doze frades pioneiros em 1524. Nos anos seguintes, religiosos dominicanos (1526) e agostinianos (1533) também aportaram no vice-reino. A outra ponta do fio temporal que se inicia na década de 1520 encontra-se em 1572, quando os jesuítas se juntaram àqueles frades. Tal como o Pe. Cuevas, Ricard identificava nesse ano sinais que apontavam para a descontinuidade na história da Igreja novo-hispânica:
En la historia de la Iglesia en México el año 1523 inaugura el periodo que, por tradición ya, se llama “periodo primitivo”. Periodo que viene a cerrarse en el año 1572 con el advenimiento de los primeros padres de la Compañía de Jesús. Raro será hallar en la historia una etapa definida cronológicamente con tanta naturalidad y claridad. (Ricard, 2005: 34)
Para o religioso francês, tratava-se de uma etapa definida cronologicamente com “naturalidad y claridad”. Os jesuítas, continuava Ricard,
[…] traen un espíritu distinto y preocupaciones propias: no que dejen a un lado a los indios, pero sí en Nueva España la Compañía habrá de consagrarse con especial esmero a la educación y robustecimiento espiritual de la sociedad criolla, un tanto descuidada por los mendicantes, así como a la elevación en todos sentidos del clero secular, cuyo nivel era más que mediocre. En tal sentido, la actividad de los hijos de San Ignacio habrá de contribuir a la preparación necesaria para que las parroquias de indios sean progresivamente entregadas al clero secular, y con ello, las órdenes primitivas eliminadas y forzadas a dejar el ministerio parroquial para recluirse en sus conventos, o bien, para emprender la evangelización de remotas regiones aún paganas. Ninguna arbitrariedad hay, por consiguiente – hasta donde es posible que divisiones de esta índole puedan no serlo –, en tomar el radicarse de los jesuitas en México, en 1572, como clausura de un periodo y puerta de otro nuevo. [...] El año 1572 nos
da una nueva muestra que las órdenes mendicantes ceden el lugar, pues llega a la sede metropolitana un arzobispo del clero secular, don Pedro Moya de Contreras. En resumen: estudiamos en este trabajo la edad de oro de los religiosos mendicantes. (Ricard, 2005: 34-35)
A longa citação se justifica porque esse fragmento evidencia as principais ideias do autor com relação ao recorte de sua pesquisa e, igualmente importante, ao sentido que ele atribuiu à ruptura identificada em 1572. Em primeiro lugar, Ricard assume para si a perspectiva consolidada pelos cronistas e pela historiografia jesuítica de que os “filhos de Ignacio de Loyola” tinham preocupações próprias, especialmente aquelas consoantes à educação e ao robustecimiento espiritual dos crioulos4 – sem discutir se isso era parte de
um projeto da Companhia anterior às missões mexicanas ou fruto das circunstâncias do vice-reino na década de 1570. Em segundo lugar, o autor estabelece qual era a alteração capital que sinalizava a ruptura: com a chegada dos jesuítas, as ordens mendicantes perderam o lugar que ocupavam na sociedade – na administração das paróquias indígenas e da Igreja –, ao passo que o clero secular e os padres da Companhia de Jesus ascenderam. Por fim, o mais importante desse trecho: cabe perguntar sobre o sentido atribuído por Robert Ricard a essas mudanças.
Como se quisesse se opor às proposições de Mariano Cuevas5, o autor de La
conquista espiritual, considerava as décadas entre 1523-1572 como a edad de oro das ordens mendicantes. A Igreja primitiva mexicana vislumbrada por Ricard, à semelhança daquela narrada na Bíblia, não comportava os elementos decadentes sugeridos pelo autor jesuíta. Pelo contrário, como “idade de ouro”, aquela etapa significava o auge de um
4 O termo criollo remete, inicialmente, aos espanhóis nascidos na América. Porém, já faz algum tempo que
essa noção foi ampliada e passou a definir também aqueles peninsulares que se fixaram deste lado do Atlântico: “Por otra parte, no hay que fiarse demasiado del concepto tradicional de criollo que los caracteriza como españoles nacidos en América, concepto cuestionado ya varias veces, pero que se sigue utilizando. Más razonable parece la definición que caracteriza al criollo como persona cuyo centro de vida social y económica estaba en América. Según esta otra definición, también los funcionarios nacidos en la península, pero residentes ya mucho tiempo en América, casados aquí, a veces en cargos permanentes de la burocracia – por ejemplo como oidor de audiencia u oficial de una caja real – y sin muchas perspectivas de ascenso y traslado, pasarían por criollos” (Pietschmann, 1994: 88). De nossa parte, utilizaremos o termo crioulo de maneira geral, apontando, caso seja necessário, para distinções dessa natureza.
5 Ricard conhecia e recorreu diversas vezes à Historia de la Iglesia en México. Em uma apreciação
respeitosa, porém crítica, o religioso francês escreveu que “ya es tiempo de hacer resaltar la importancia de la Historia de la Iglesia en México, del padre Cuevas, S. J., tentativa de síntesis, cuyos defectos no deben llevarnos a desconocer su verdadera utilidad” (Ricard, 2005: 42).
período, cuja fase subsequente, portanto, tendia a ser pior. Segundo Robert Ricard, a predominância dos mendicantes em relação aos diocesanos se justificava quantitativa e qualitativamente:
Y como en México los religiosos eran mucho más numerosos que los clérigos sometidos a los obispos; como tenían más disciplina y mejor organización; como, en fin, representaban un nivel intelectual y hasta moral muy superior, no hay por qué sorprenderse de que, mirado el conjunto de las cosas, su acción haya aventajado a la de los obispos y hasta la haya oscurecido en muchos casos, y resulta natural, por lo tanto, que una historia de la fundación de la Iglesia mexicana se reduzca esencialmente al estudio de los métodos misionales de las órdenes mendicantes. (Ricard, 2005: 22)
O sentido dado à descontinuidade é claro: tratava-se de uma Igreja – administrada por ordens religiosas que tiveram sua idade de ouro até a década de 1570 – substituída por outra – comandada pelo clero secular a partir da presença jesuítica. A primeira era a Igreja primitiva, fruto da fundação liderada pelos “doze apóstolos” franciscanos que desembarcaram em 1524 em San Juan de Ulúa; a segunda era um desdobramento prateado, resultado da marginalização dos frades em seus conventos ou em missões entre indígenas de regiões distantes. A interpretação de Ricard, nesse passo, contrapõe-se às ideias de Mariano Cuevas, embora os dois autores concordem quanto à existência de uma ruptura decisiva na história religiosa do México.
O recorte e o sentido apresentados em La conquista espiritual perpassaram as análises de outros historiadores que, de maneira geral, tomaram para si aquela perspectiva. Devemos lembrar, a título de exemplo, do estudo de John Leddy Phelan sobre os franciscanos do México e, em particular, a respeito da obra de frei Mendieta. Escrito em 1956 e editado em espanhol em 1972, The millenial kingdom of the franciscans in the New World assumiu o recorte implícito na crônica do frade e reverberado pelas análises de Ricard como a idade de ouro da Igreja indiana:
Mendieta reconstructed the history of the New World around three organizing ideas. One was that the inner meaning of New World history was eschatological. The second idea was that the period between the arrival of the twelve Franciscan “apostles” in 1524 and the death of Viceroy Luís de Velasco the Elder
in 1564 was the Golden Age of the Indian Church. His third idea was that the decades between 1564 and 1596 (when he stopped writing) were the great time of troubles for the new Church. (Phelan, 1970: 41)
Apesar de antecipar o momento de ruptura para 1564, Phelan adotava o mesmo princípio exposto em La conquista espiritual. Isto é, uma alteração na administração do vice-reino, com a morte de Luís de Velasco, implicava o fim da golden age e o início da silver age. Passava-se de uma idade para outra, e o período posterior, marcado por problemas, era qualitativamente pior. Em linhas gerais, esse é o mesmo princípio da organização cronológica de Utopía y historia en México (1983), do historiador Georges Baudot, publicado em francês em 1977. Baudot, porém, debruçava-se sobre a crônica de frei Motolinía – um dos 12 franciscanos que chegaram à Nova Espanha em 1524 – definindo, assim, o ano de sua morte, 1569, como o limite da primeira etapa da história religiosa mexicana – que é complementada em 1591, quando outro franciscano, Bernardino de Sahagún, faleceu. Encontramos abordagem semelhante no artigo do Fernando Aínsa (1993), para quem o período entre 1513-1577 foi o da “utopía empírica del cristianismo social”, marcado, sobretudo, pelas atividades apostólicas das ordens mendicantes no México.
A obra de Robert Ricard e suas releituras e apropriações ao longo do século XX conformaram aquilo que nomeamos “matrizes franciscanas” da construção da ruptura no século XVI. Elas partiram das crônicas produzidas pelos religiosos6 (especialmente os
franciscanos do século XVI e início do XVII) para situar um pouco antes ou depois de 1570 o momento de cisão na história eclesiástica do vice-reino. Entretanto, diferentemente das matrizes jesuíticas, essas interpretações inverteram os valores e os sentidos atribuídos àquela descontinuidade: em vez da decadência, que deveria ser superada pela regeneração e pela reforma moral, tratava-se de um período dourado que estava sendo substituído por outro, prateado. E, num caso ou noutro, o quadro delineado mostrava que
6 Conforme notou Antonio Rubial García (2001: 258), os cronistas das ordens mendicantes tendiam a
descrever a Igreja primitiva como “quase perfeita” em seus relatos escritos no final do século XVI e início do XVII. Tratava-se de um recurso para exaltar a trajetória de seus confrades e enfrentar os desafios e as restrições que lhes estavam sendo impostos pela Coroa espanhola.
as ordens religiosas pioneiras perdiam seu espaço em razão da ascensão do clero secular e da chegada dos jesuítas.