A análise da ausência de uma tradição educacional russa pode ser entendida, talvez, como um indicativo das peculiaridades do desenvolvimento das ideias pedagógicas deste país. Várias personalidades, desde a época da Revolução Decabrista, nos anos de 1820, teceram comentários a este respeito. Naquela época, o célebre personagem Eugênio Oneguin, do romance homônimo de autoria do gênio literário Alexandre Púchkin, afirmara acerca do aspecto pouco sistemático, avesso aos esforços árduos e essencialmente diletante da formação cultural da aristocracia russa: “Mi vsie
utchilis poniemnogu tchemu-nibud i kak-nibud”140 Na década de 1830, o crítico literário radical Bielínski retomou estes mesmos versos de Púchkin ao tratar da formação intelectual de sua geração, a intelligentsia democrática em formação:
We are all self-taught geniuses; we know everything without having studied anything; we acquire everything without shedding a drop of blood but only for own amusement and sport. In a word, “We all pick up bits and pieces, Something and somehow” 141
Em um momento posterior, após a metade do século, o importante acadêmico Pirogov, ao revisitar estas mesmas palavras, realiza uma síntese da essência educacional russa:
We Russians are fortunate in at least this respect, that our intellectual fashions, like the governors of Podolia, never last for long. We Russians, we are not like the Hebrews and the Western peoples: we have no educational tradition. ‘We all pick up bits and pieces, Something and somehow.’” 142 Grifo no original
140
Púchkin, A. S. Eugênio Oneguin. [em russo: Пушкин, А. С. Евгений Онегин.]
Disponível em: http://www.lib.ru/LITRA/PUSHKIN/p4.txt – acesso em oito de setembro de 2013 Os dois versos citados são os versos iniciais da quinta estrofe da primeira parte deste romance em versos. Fizemos a tradução do original em russo, cotejando com a tradução em inglês feita por Alston deste trecho: Todos nós aprendemos em pitadas e pedaços, Alguma coisa e de alguma maneira.
No original em russo lê-se: Мы все учились понемногу Чему-нибудь и как-нибудь
141
ALSTON, Patrick L. Education and the State in Tsarist Russia. Stanford: Stanford University Press, 1969. p. 66.
Tradução nossa: Somos todos gênios autodidatas; sabemos tudo sem ter estudado nada; aprendemos tudo sem termos derramado uma gota de sangue, mas apenas para nosso entretenimento e recreação. Em uma palavra: “Nós todos aprendemos em pitadas e pedaços, alguma coisa e de alguma maneira.”
142
No entanto, com base nas características típicas da ausência de tradição educacional russa, e levando-se em consideração os aspectos de diletantismo, os grupos sociais que pleiteavam participação educacional para seus filhos não se envolveram de forma direta na controvérsia entre ensino secundário clássico ou realista. As camadas populacionais com possibilidade de acesso a instituições de ensino demandavam das escolas secundárias o acesso às universidades. Esta era sua grande preocupação.
Esta polêmica educacional restringiu-se a burocratas do governo e acadêmicos, e encontrou na imprensa um de seus principais locais de debate. Mesmo atingindo um círculo consideravelmente reduzido de debatedores, houve uma ávida disputa acerca de ideais nacionais de educação. Além das questões de modelos clássicos ou realistas, havia candentes contendas a respeito da utilização de padrões importados do Ocidente ou que caracterizassem tradições e valores essencialmente russos. A partir de 1865, quando os efeitos catastróficos da Guerra da Criméia mais imediatos haviam sido razoavelmente solucionados e a emancipação dos servos já havia ocorrido, além de uma reestruturação de organizações administrativas, educacionais, e de defesa das fronteiras do império, alguns pensadores russos julgavam que havia chegado o momento para a discussão e definição dos rumos históricos da Rússia. Para um importante educador desta época, Constantino Uchínski, o período que se iniciava a partir de 1865 superava em relevância as reformas modernizadoras de Pedro, o Grande, que aconteceram no início do século XVIII. Segundo ele, após muitos anos de forte influência estrangeira, oriunda do Ocidente, chegara o momento em que os russos deveriam assumir os rumos de seu destino. Ao cotejar as revoluções petrinas com o período em questão, ele escreveu:
Then, our energetic genius applied pressure to force people into activity; now public forces, awakening to freedom, demand scope for activity…. Then, for intelligence, education, brains, and brawn, we had to send for German philosophers, German generals, German engineers, and even German craftsman; now, with the help of its own people alone, the Russian government is building academies,
Tradução nossa: Nós russos somos afortunados em pelo menos este respeito, que nossas modas
intelectuais, como os governadores de Podólia, nunca duram muito tempo. Nós russos, não somos como os povos hebreus e os povos ocidentais: nós não temos tradição educacional. “Nós todos aprendemos em pitadas e pedaços, alguma coisa e de alguma maneira.”
universities, gymnasiums, elementary schools, navy, armed forces, and finances… which our survival demands. 143
Outro elemento que contribuiu para as tensões ideológicas em torno de questões educacionais na segunda metade da década de 1860 foi a tentativa de assassinato do czar Alexandre II, ocorrida no dia quatro de abril de 1866.144 O resultado das investigações indicou que o culpado era um estudante russo originário de uma família nobre empobrecida, expulso da Universidade de Kazan devido a participação em protestos do ano de 1861 e que em seguida abandonara a Universidade de Moscou por falta de pagamento de taxas. Este fato teve um relevante significado social para a educação, visto que os estudantes de anos anteriores, imbuídos de ideais céticos e literários, haviam convertido-se em niilistas radicais e dispostos a atos violentos.
É possível considerar que o estudante que atentou contra a vida do czar era, em grande parte, representativo desta nova tendência da ala radical dos estudantes. Dostoiévski, em seu romance Os Demônios, retratou o radicalismo niilista e seus procedimentos violentos ao dramatizar, intencionalmente e com riqueza de detalhes documentais, caso do estudante Nietcháiev, que assassinou um outro jovem membro de seu círculo, em caso que ganhou grande notoriedade à época. Em termos mais amplos, a sociedade letrada e os grupos iletrados, de modo geral, assumiram um posicionamento muito crítico a este novo rumo tomado pelos grupos estudantis, despertando um intenso antagonismo, que culminou em protestos públicos contra estudantes em Moscou.
Da parte do governo também foram tomadas medidas contrárias aos estudantes, planejadas para conter o avanço de ideias socialistas e materialistas vindas da Europa ocidental. A disseminação destas ideias entre setores da juventude universitária era vista pelos administradores da burocracia estatal como um fenômeno extremamente pernicioso, que deveria ser extirpado. O ministro da educação foi um dos maiores responsabilizados, sob a acusação de ter sido demasiado tolerante e brando em relação à
143
USHINSKY, K. D. Izbrannye pedagogicheskie sochineniia. Moscow, 1952, vol II, p. 267. Citado por ALSTON, Patrick L. Education and the State in Tsarist Russia. Stanford: Stanford University Press, 1969. p. 77
Tradução nossa: Então, nosso líder enérgico usou pressão para forçar as pessoas a agir; agora as forças públicas, acordando para a liberdade, demandam espaço para ação.... Então, para termos inteligência, educação, cérebros e força muscular, tínhamos que trazer filósofos alemães, generais alemães,
engenheiros alemães e mesmo artesãos alemães; agora, com a ajuda de seu próprio povo, o governo russo está construindo as academias, universidades, ginásios, escolas primárias, a marinha, as forças armadas e as finanças... os quais nossa sobrevivência demanda.
Observação: não foi possível localizar o texto original. 144
radicalidade crescente entre os jovens que frequentavam as universidades, o que fez com que ele fatalmente perdesse seu cargo. Para assumir o controle ideológico neste setor tão incandescente e primordial para a Rússia neste período, um novo ministro da educação foi escolhido muito criteriosamente.