VocêjáassistiuàdescobertadeumobjetoextraordinárionoXingu?
Poisé,issonãoseencontranoBrasil.Vocêpodeencontraralgumacoisa extraordinária em certos locais na Amazônia, pode encontrar uma cerâmica inteiratupi-guarani,maravilhosa,nolitoral.Masglobalmente–edaíadificuldade da arqueologia em criar na população brasileira a imagem da descoberta – você não vai encontrar tesouros. Participei, por exemplo, de um trabalho de reconstituiçãodeestradasqueligavamtrêsgrandesaldeiaspré-históricas.Issofoi feitoutilizandoumGPS,umaparelhodesensoriamentogeográficoporsatélite, deprecisãosubmétrica,ouseja,queconsegueserprecisoemunidadesmenores queummetro;umaparelhocaríssimo,queaUniversidadedaFlóridaforneceu. Essetrabalhotambémsósetornoupossívelporque,comoavançodasroças,foi desmatadaumaáreaquejáestavareflorestada,esurgirammontículoscontínuos, quesãoasbordasdasestradas.Sãomontículosdeterraquetêm20,30cmde alturaequenãocausamnenhumespanto. Comoéquevocêsabequeaquiloeraa bordadeumaestrada?
Porque já se tinha todo o mapeamentodasaldeias,comasestradas saindo claramente delas.Aliás, nós não víamosasestradas,quemfezessetrabalho denosmostrarondeelasestavamforam os índios, porque nós ficávamos todos atrapalhados olhando o mapa em vez da terra. Mas nós botávamos o GPS nas costas de um deles e seguíamos. Depois de andar um tempo no meio daquele mato, alguém dizia:“Pôxa, essa estradanãoacabanuncamais!Amanhãa gentecontinua.”Voltávamos,baixávamos o material do GPS no computador e jogávamos sobre a imagem do satélite. EumelembroquandoMikemechamou e disse: “Olha esse negócio aqui, que loucura!Aestradaétotalmenteretilínea etemcincoquilômetrosdeextensão!”
Issonãoéumadescoberta!?
Éumadescobertaqueéproduto de um processo científico. Não é como entrarnumagrutaeencontrarotesouro ouaarcaperdidacomoSantoGraal.Éum cuidadosotrabalhodiáriodemapeamento, sobosolquente,commosquitosemcima mordendo,comasuapernacortandono sapé. É um trabalho de formiga. Ciência tem muito disso. O glamour fica para outra fase. Depois que você descobre umacoisacomoessa,vemaGlobofazer entrevista,vocêaparecenoJornalNacional, noFantásticoetc.Maséprecisodizerque, nessahistória,eusoumerocoadjuvante.O méritoéodoMike. NoAltoXingu,outracoisaque se pode encontrar é uma valeta enorme no meio do mato. Se você não souber que aquilo é interessante, vai achar que é apenas um buraco. Mas aquilo é um fosso defensivo, e se você começar a andar por ali, poderá seguir por mais de dois quilômetros. Quando as pessoas dizem que não existe nada monumental na Amazônia, é sempre bom pensar qual a quantidade de terra que os caras
Amazônia *FotodoacervoparticulardopesquisadorEduardoNeves
tiraram,seminstrumentosdemetal,para fazerumfossocomoaquele.Comodizo Mike,“sejuntartudo,écapazdedaruma pirâmide”!
Você tem um livrinho intitulado Os índios antesdoBrasil.Éocontráriodoqueaescola ensina,quandofalaemdescobertadoBrasil? Achoquetemosrealmente,eem particularaescola,querefletirsobreessa idéiadadescobertadoBrasil.Emprimeiro lugar,porqueparecequeoBrasiljáestava formado,quandooBrasiléumprocesso históricoquevaisedesenvolverapartir de 1500 até chegar a um momento de consolidação.OBrasilnãoexisteantesde 1500–éumacoisaóbvia,mascostuma- seesquecer.Apalavradescobertatambém éruimporque,quandoalguémdescobre alguma coisa, imagina-se que essa coisa pertençaaomundonatural.Comodizer então que populações humanas são descobertas? A não ser que elas não tivessemconsciência.Estecontinenteera totalmenteocupadoporváriaspopulações autóctonesquefalavamlínguasetinham culturasdiversas,equeestavamaquihavia vários milênios.A idéia da descoberta é uma idéia que tende a naturalizar essas populações, que tende a tratá-las como um rio, como uma montanha, como uma mina de ouro. Evidentemente, não éàtoaqueapalavraéusada.Elaéusada porquehouveumprocessodeconquista noqualoconquistadorobjetificouessas populações, cometeu violências contra elas. A palavra descoberta expressa um partido político claro. Daí por que é importante a sociedade brasileira começarafazeracríticadessanoção.As palavras muitas vezes parecem inócuas –quediferençafaz,afinaldecontas,usar descoberta ou não? Mas se pensarmos bem, a palavra pode ser um ponto de partida para refletirmos sobre o que foi o processo histórico e político da colonizaçãodoBrasil.
Amazônia *FotodoacervoparticulardopesquisadorEduardoNeves
Madu Gaspar é arqueóloga
do
Museu
Nacional/
UFRJ,
com
doutorado
em arqueologia pela USP
e
pós-doutorado
pela
Universidade do Arizona.
Autora, entre outros, de
Sambaqui:arqueologiadolitoral
brasileiro (Rio de Janeiro,
Jorge Zahar Ed., 2000) e
A arte rupestre no Brasil. (Rio
deJaneiro,JorgeZaharEd.,
2003)
Com
MaduGaspar
Entrevista concedida a Helena Bomeny e Marisa SchincarioldeMello. RiodeJaneiro,12deJulhode2005
Daarqueologiaàantropologiaà
arqueologia
Osambaquieossambaqueiros
Comovocêdescobriuaarqueologiaeoquetemsidoessaaventuraparavocê?Descobri há muito tempo. Estava fazendo o científico, área biomédica, porque queria estudar medicina, mas estava completamente inadaptada, me transformandonumapéssimaaluna–nuncamesentitãodesconfortávelnaminha vida.LembroquenaépocasaiunasbancasdejornaisumfascículosobreoEgito, comeceiaficarfascinadacomaquilo,atéqueumdiaeudisse:vouserarqueóloga. Pronuncieiisso.Atévirararqueólogamesmo,foiumalongatrajetória.Primeiro, tomeiadecisãodesairdaáreabiomédicaefuiparaaáreadehumanas.Comeceia mesentirmaisàvontade:aquiéaminhapraia,estouinteragindocomoqueestão meensinando,comosprofessores.Oqueelesfaziam,oqueelespesquisavam,as históriasquecontavamcomeçaramameinteressar.Provavelmenteporinfluência doCharlesPessanha,queerameuprofessor,fuifazerciênciassociaisnaUFF.Era um momento superinteressante da universidade, uma época de muita festa, de muitadança.Comeceiaficarcadavezmaisàvontadeepasseiaconcentraros créditosemantropologia.Fiqueimuitointeressadaemantropologiadasreligiões. Quandoestavaacabandoafaculdade,surgiuaoportunidadedeserestagiáriaem arqueologianoMuseuNacional.Demoreimuitotempoparacriarumaponteentre oqueeufazianoMuseuenquantoestagiária,lavandopedra,colocandonúmero empeça,comascoisasqueeutinhaaprendidonaantropologia,especialmentena antropologiadasreligiões. AfinaldecidifazeromestradoemantropologianoMuseuNacional.Minha idéiaeratrabalharnaáreaindígena,masaospoucosissofoificandodistanteda minhaprática,porquefuimeencaminhandoparaoutrasquestões.Escolhicomo orientador GilbertoVelho, que trabalha com antropologia urbana e tinha feito uma tese importante sobre Copacabana.Ao mesmo tempo, me coloquei como assistentedepesquisadeumaalunadodoutorado,VanessaLea,quetrabalhava comaáreaindígena.Euachavaque,antesdefazerumaopção,deviapassarum temponumaaldeia,vercomoeraaquilonaprática;naverdade,euachavaquedevia terumaidéiadosváriosdomíniosdaantropologia.Resolvientãoirparacampo Aolado SítioArqueológicoJabuticabeiraII SantaCatarina *Fotodoacervoparticularda PesquisadoraMaduGaspar
com aVanessa, mas acontece que na épocaosmilitaresaindacontrolavam a burocracia, e era uma dificuldade obter autorização para ir ao Xingu. Demorou tanto a minha autorização que, quando chegou, minha pesquisa de campo em antropologia urbana já tinha avançado muito. Em vez de eleger a área indígena como área de especialização, a passagem pela aldeia ficou mais como uma experiência para a minha formação. Também achei muito complicado o trabalho de campo, porque eu era assistente de uma pesquisa que já estava em andamento, havia muitas regras de condutaaseguiremaisumaveznão me adaptei. Acabei me dedicando totalmenteaoestudodeantropologia urbanaefizumatesesobregarotasde programaemCopacabana.1 Porcontadaabordagemquefiz naminhatese,aísim,comeceiadelinear umcaminhoentreaantropologiaea arqueologia: trabalhei muito com identidade social, e por aí fez-se a luz. Comecei a reler Marcel Mauss, com o conceito de individualidade coletiva, de grupo social, comecei a construir essas noções, e isso me deu a possibilidade de estabelecer uma ligação entre a antropologia e os estudos de arqueologia que eu vinhafazendohaviaalgumtempo.Na realidade, a arqueologia no Brasil na época–eissodurouaté1990–era extremamente técnica e descritiva. Tantoéquenãohaviasequerlivros.O que havia eram textos para consulta. Fiquei pensando: quem sabe eu não possodarumacontribuiçãojuntando antropologia e arqueologia? Nesse momento, aconteceu uma mudança no Museu Nacional. Um professor argentino chamado Oswaldo Heredia, com forte formação em história, veio paraoBrasilecomeçouumprojetode pesquisaparacaracterizaromodode vida das populações nativas costeiras.
Assim comecei a juntar as coisas, passoapasso.
Num determinado momento, quandoeujáestavacomeçandoafazer o doutorado, o professor Oswaldo Heredia faleceu. Rapidamente fui para uma posição de liderança no nosso grupo de pesquisa, porque, embora não fosse a mais velha, eu era a pessoacommaistitulação.Tiveentão que fazer uma opção. O professor Oswaldo Heredia tinha aberto dois campos de trabalho: um, com os primeiros caçadores que ocuparam o Brasil, no interior da Bahia, e outro com as populações do litoral. Pensei: ainda sou tão nova, não vou ter fôlego, no sentido de ter dinheiro, de mobilizar equipe, para desenvolver umapesquisanointeriordoBrasil.Já começavatendoqueterpassagemde avião ou carro. E era um lugar com tão pouco conforto que às vezes levávamospartesignificativadotempo dedicado à pesquisa para sobreviver, viajar por estradas péssimas, acampar edormirembarracasdois,três,10,15 dias. No final, você acabava exausta, e o tempo dedicado à produção de conhecimento, mesmo, era muito pequeno.Passeientãoaacharqueessa não era uma boa opção. Outra coisa: estudandoosprimeiroscaçadores,você constata que o registro arqueológico, ou seja, os objetos, os materiais que sobreviveram à passagem do tempo, são muito poucos e apresentam uma diversidade muito pequena. Pensei: vouteralisóobjetosfeitosdepedra, quandonóssabemosqueessesgrupos já usavam cestaria, provavelmente trançados,muitamadeira.Voucomeçar minha carreira juntando duas coisas complicadas, um lugar difícil e um registroarqueológicorestrito?
Enquantoisso,nacosta,havia ossambaquis.TodoolitoraldoRiode Janeirodevetersidoserocupadopelos sambaqueiros. Hoje muitos sambaquis
foramdestruídos,masnósaindatemos sítiosintactosemMagé,queficaperto do Rio, onde eu trabalho. Pensei: dá parairaMagéevoltarnomesmodia. Maisainda,oslocaisdeveraneio,como Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo, estãocheiosdesambaquis.Possousar a rede hoteleira na baixa temporada e ficar muito tempo em campo; com isso, posso diminuir o desgaste da equipeeomeu.Eliminamosaaventura tipo Indiana Jones, e começamos a produzir conhecimento. Tomei a decisão: abri mão da Bahia e decidi concentrar a pesquisa no litoral do estadodoRio.Disse:épertodecasa, e a aventura vai estar no prazer de produzirconhecimento.
Eoseudoutorado,afinal?
FizomeudoutoradonaUSP, com o professor Ulpiano Bezerra de Menezes, que tinha em casa uma biblioteca superatualizada, contendo especialmente trabalhos relacionados àchamadanovaarqueologia.Graçasa essemovimento,quesurgiunospaíses de língua inglesa na década de 1960, aarqueologiadeuumavirada,deixou de se preocupar obsessivamente com a questão do tempo e começou a trabalhar com as questões de espaço, depadrãodecomportamentoetc.Foi entãoquesedisse:ouaarqueologiaé antropologia, ou não é nada. No Rio de Janeiro, não existe uma biblioteca especializada em arqueologia. Isso faz toda a diferença do mundo. Ulpiano formouumageraçãodepesquisadores que aproveitou a sua biblioteca particular e foi influenciada pela sua visãocríticadaarqueologiaqueestava sendo feita no Brasil nas décadas de 1980e1990.
Éinteressanteverisso,porque aarqueologiasemprefoiumadisciplina das ciências humanas voltada para a questão do tempo, por definição do próprioobjetodeestudo.Eaté1950
nãoexistiaumamaneirarazoavelmente precisa de obter datações, trabalhava- se sempre com datações relativas. No momento em que a física descobriu a possibilidade de datar materiais arqueológicos,aarqueologiaemcerto sentido ficou liberada para tratar de outras questões. Se eu perguntar a vocês quando aconteceu a Revolução de 30, vocês vão responder que em 1930, claro.Vocês já sabem disso. O arqueólogo não tem essa informação apriori,elaéumconhecimentoaser produzido.Apartirde1950,acumulou- se grande quantidade de informação nos países de língua inglesa, e a arqueologiaficoulivreparaabandonar oeixoverticaldotempoecomeçara lidarcomquestõeshorizontais,pensar oespaço.Hoje,nãomeinteressasaber só a data, me interessa saber se este sítio aqui, que é diferente daquele ali, é contemporâneo dele. Eu posso ter, por exemplo, um cemitério, um local de moradia, um local de pesca e caça, e esses espaços podem estar todos integrados.A idéia de estudar
o arranjo do registro arqueológico no espaço abre a possibilidade de entender um pouco mais o modo de vidadogrupoemquestão.
A própria definição da arqueologia mudou nesse momento, porque a arqueologia era sinônimo de pré-história, no sentido que era a disciplina que dava conta das civilizações antes da existência da escrita e dos documentos. A partir desse movimento, que foi chamado de nova arqueologia, começou-se a estudar até o momento atual. A arqueologia passou a ser a disciplina que estuda a cultura material. Hoje, por exemplo, está sendo feito na UniversidadedoArizonaumtrabalho pioneiro, superimportante, de análise do lixo atual, partindo da idéia de que o discurso é muito diferente do comportamento. O recorte da arqueologia, no momento em que ela começa a fazer etnografia, para entender a dinâmica do espaço, ou estudar grupos atuais, é o estudo da culturamaterial.