Eénaarticulaçãoentrepassadoepresentequeaantropologiateráquetrabalharjuntocom ahistóriaecomaarqueologia?
Com a história e com a arqueologia. Só que a arqueologia, a meu ver, precisa de um influxo de pessoas que tenham uma formação mais global do pontodevistaantropológico,filosófico,doquenormalmenteacontece.Issonão significa que proponho uma tutela epistemológica sobre a arqueologia, longe disso.Umacoisaquesentiquandocomeceiafreqüentar,apartirde1995,alguns congressos de arqueologia é que havia uma postura defensiva dos profissionais da área diante dos antropólogos sociais, o que é uma bobagem. O importante é produzir o diálogo entre todos os campos, arqueologia, lingüística histórica, bioantropologia.
Masháaíumaquestãoameuverfundamental:aarqueologiaperdeude vistaqueoseuobjetoúltimosãoosprocessossociais,enãoosobjetosmateriais emsi.Hoje,porexemplo,discute-semuitoopovoamentodasAméricas.Éuma discussão quente, muito interessante, mas excessivamente preocupada em saber quando se entrou nasAméricas.Acho que essa é uma pergunta pobre.A boa perguntaé:quaisforamosprocessossocioculturaisqueestiveramnabasedessa ocupação? Até hoje, por exemplo, o problema é vencer a ortodoxia clovista – Clovis é um sítio nas pradarias norte-americanas. Há mais ou menos 12 mil anos,comoaquecimentodaTerra,abriu-seumcorredorentredoisglaciaresque separavamoAlaskaeessaspradarias,permitindoapassagemdesereshumanos. NaregiãodeClovis,vocêencontraváriossítiosdatadosdemaisoumenos11mil anosantesdopresente.EssaéaúnicadataseguraaceitaparaapresençadoHomo sapiensnasAméricas.Aícomeçaabriga:háumoutrosítionosEstadosUnidos, Meadowcroft;outronoChile,MonteVerde;háaSerradaCapivara,noBrasil,e todosficamdisputandoevidênciasdapresençadohomem12,13,14,15miloumais anosatrás.Agora,sevocêpensarbem,hásítiosde11,12milanosnoChilecomum sistematecnológicomuitodistintodoscaçadoresclovistas;emMeadowcrofthá evidênciassegurasdeoutratradiçãotecnológicacontemporâneaaClovis.Ora,há umaperguntasociólogicabásica,quemuitasvezesnãoéfeitapelosarqueólogos: que sistemas sociais eram esses? O que significam vários sítios com tradições diversasnasAméricas12milanosatrás?
Vocêachaqueosarqueólogoshoje resistemafazeressasperguntas?
Acho que não. Mas 15 anos atrás, essas questões não se colocavam para os arqueólogos trabalhando no Brasil. A questão sociopolítica que se colocava para eles, e que ainda se coloca, é a da chamadacomplexificação.Oproblema é que complexificação, nos modelos arqueológicos, costuma equivaler a um processo de centralização de podereàpassagementreestágiosde desenvolvimento sociopolítico cujo ponto terminal é o Estado. Então, tudoémedidoemfunçãodoEstado. Os trabalhos da Anna Roosevelt foramimportantíssimosparadarnovo impulsoàarqueologiaamazônicaede alguma maneira solapar o consenso stewardiano–deJulianSteward–sobre o que era o continente americano antesdaconquista,massãotrabalhos deumaarqueologiafeitaàsombrado Estado. Quer dizer, as perguntas que aarqueologiatendeafazersão:como sechegouaoEstado,ouporquenão se chegou ao Estado? São perguntas queempobrecemosobjetos.Primeiro, uma população pode nunca chegar aoEstado,eissonãoéumproblema. Depois, diferentes populações podem chegar, mas de maneiras diferentes. O modelo de urbanização, de
centralização mesopotâmio, por
exemplo, não necessariamente vale paraasAméricas.
Hoje a grande moda é ser complexo. Em tudo. Há estudos de complexidade, todo mundo acha que ser complexo é um barato. No final dos anos 60, começo dos anos 70, ser simples é que era bom, a simplicidade era festejada, bem ao estilo soixante-huitard. Do ponto de vista da arqueologia, a simplicidade ia ao encontro daquilo que Julian Steward, no Handbook
Meggers,emtrabalhosarqueológicos posteriores,haviampropugnadopara o continente, e em particular para a Amazônia. Hoje, assistimos a uma virada.ApartirdotrabalhodaAnna Roosevelt,etambémdarevalorização da idéia de complexidade em todas asáreas,inclusivenasciênciasduras, ser complexo é visto como uma coisa positiva. Nós mesmos tivemos essa experiência em 2003, quando publicamos um artigo na Science sobre nosso trabalho no Xingu, Michaelcomoprincipalautor.Fomos literalmente avassalados por uma enxurradadejornalistas,telefonemas, e-mails,entrevistasemaisentrevistas. Por mais que tentássemos explicar – “olha, o que nós estamos dizendo é que encontramos aldeias grandes interligadas, que estamos interessados em entender que tipo de sistema social existia ali” – as manchetes dos jornais eram: “Civilização perdida na Amazônia”! Paraasociedadebrasileira,sealguém encontrasse alguma coisa grandiosa, umapirâmide,nossosíndiosestariam redimidos da barbárie e alçados à civilização... Acho que se tem que tomarmuitocuidadocomisso.
Osarqueólogostambémfalamemcacicados naAmazônia.Oqueéisso?
Existe uma obsessão da arqueologia com as tipologias de
desenvolvimento sociopolítico.
Cacique é uma palavra dos Taino, povodelínguaarawakqueocupavaas Antilhas.Eraonomequeelesdavam para os seus chefes, e o conceito foi usado pelos espanhóis durante todo o processo de colonização: cacique, cacicado etc. Em 1955, um autor americano chamado Kalervo Oberg usou o termo chiefdom para caracterizar um tipo de organização sociopolítica comumente chamado na América espanhola de cacicado.
Isso foi levado pela ecologia cultural americana,daqualMarshalSahlinsna época era um dos expoentes, para a Polinésia, e ali virou um modelo de organizaçãosociopolítica.Comodefini- lo?Bem,seriamaisoumenosomodo organizacional daquele pessoal que
quase virou Estado. Depois, na esteira
dos trabalhos da Anna Roosevelt, o conceito iria voltar para a América, ondehaviasidooriginalmenteforjado. E aí todo mundo saiu dizendo:“Tem cacicado aqui”. Evidente que tem! Se algumacoisaécaciqueoucacicado,é aquiloqueosTainodiziam:“Nóstemos chefes,chamam-secaciques.”Agora,o que isso pode nos dizer em termos
de nossos problemas empíricos? Se nos limitarmos a discutir se na calha doAmazonashaviacacicadosounão, vamosterumadiscussãomuitopobre, vamosperderoessencial.
O que se está querendo dizer com cacicado? Normalmente, se está querendo dizer o seguinte: queexistiaumaregiãosobocontrole de um chefe supremo cujo processo deescolhaerahereditário.NoXingu, há hereditariedade de chefia, mas um chefe supremo para uma região, eu acho que não havia.Acho que havia umsistemaquecombinavasimetriae hierarquia. Mas mesmo que houvesse um chefe supremo, falar em cacicado
Vasodealçaestribo Mochica(c.1d.C.-800d.C.) MuseoArqueológicoRafael LarcoHerrera-Perú
nãomeresolveosproblemas,nãome diz como a sociedade se organizava, nãomeexplicaumasériedequestões quemeinteressam.Falaremcacicado só vai me permitir colocar aquela culturanumescaninho,numatipologia. “Istoaquiéumcacicado.”Ótimo,eo queeufaçocomisto?Agora,sevocê meperguntarseeuconcordoounão queexistiamsociedadeshierarquizadas nacalhadoAmazonasenoXingu,vou responderquesim.Sóque,justamente, nocasoxinguano,oquenósestamos dizendo é o seguinte: “Vejam que curioso, nós não estamos na várzea doAmazonas, não estamos em solos aluviais – ou seja, numa área onde se supõe que houvesse uma riqueza ambientalcapazdepermitiroprocesso decomplexificação–,eassimmesmo temos hierarquia, hereditariedade, distinçãoentre‘nobres’e‘nãonobres’, acesso diferencial a bens etc. Isso é interessante!”
Os modelos materialistas supõemouumamudançamaterialque levaaocrescimentodemográfico,ou então um crescimento demográfico
que leva a uma revolução
tecnológica. Se há mais gente, você tem que produzir mais alimentos, tem que administrar mais pessoas, com instrumentos mais complexos, tem que ter controles, chefes, até chegaraoEstado.Esseéummodelo muito simples. O que nós estamos dizendo, sobretudo o que Michael está sugerindo há algum tempo, é
Qualéseuprojetoatual?
Este semestre estou dando um curso com dois colegas, Madu Gaspar, arqueóloga que trabalha com sambaquis no litoral fluminense, e Ricardo Ventura
Santos, bioantropólogo que
trabalha com saúde e demografia indígena. Começamos a conversar e resolvemos montar um projeto
interdisciplinar de lingüística,
arqueologia, antropologia social e bioantropologia, para tentar pensar o que chamamos de processos de
complexificação e simplificação
na Amazônia. Estamos tentando tornar comensuráveis as diferentes linguagens disciplinares para pensar osprocessossocioculturaisnolongo prazo. Acho que quando se usa a palavra complexo, esse uso é muito diferente nas diferentes disciplinas. Eu me inspiro, por exemplo, no livro From complexity to simplicity, de Ian Stewart, um matemático, e Jack Cohen, um biólogo. Esse livro desenvolve a idéia de que, quandovocêtemsituaçõescaótico- complexas,nosentidodafísica,você busca simplificações que produzem ocolapsodocaos.OEstadoé,nesse sentido,umasimplificação,enãouma complexificação.OEstadoéalguma coisa que aparece quando, numa sociedade cujas interações tendem ao caos, você precisa criar um dispositivo que simplifique, que dê um princípio de ordenamento. Isso nãodizrespeitoapenasaoEstado:a divisão em metades ou os clãs, por exemplo, também são mecanismos de simplificação no sentido em que estou usando a palavra aqui. Essas questões de complexidade e simplicidade devem ser analisadas commuitocuidado,justamentepara evitar o seu viés ideológico, que é muito perigoso para as populações minoritárias.
que isso de que estamos falando – princípio hierárquico, formação de sistemas regionais integrados,
troca, sistemas pluriétnicos e
multilíngües–,nósvamosencontrar nasAntilhasnaépocadaconquista, vamos encontrar no Xingu a partir do século IX, e vamos encontrar noAlto Rio Negro. Em todas essas áreas, estão envolvidos povos de língua arawak. Como explicar isso? Bem, antes de ocorrer a dispersão, deve ter ocorrido uma mudança na gramática cultural dessa população. Esses caras provavelmente estavam naAmazôniacentral,etrêsmilanos atrás começaram a se dispersar – é oquesabemos–paraonorteepara osul.Masjáali,trêsmilanosatrás, eles tinham um modelo hierárquico na cabeça. E não venha me dizer que havia uma superdensidade demográfica na calha do Amazonas três mil anos atrás, ou que houve uma revolução tecnológica, porque nada indica que tenha havido. O que nós estamos dizendo é:“Vejam, temos aqui um exemplo em que os determinantes materiais não explicam univocamente a cultura.” Então, temos que começar a pensar os processos de complexificação de outra forma. E aí se juntam uma história profunda, que só a arqueologia pode nos trazer, e o modelo etnográfico. Acho que isso tem conseqüências teóricas importantes.