Peloquevocêestácontando,aarqueologiapareceserumaatividade queexigemuitapaciênciaemuitaimaginação...
É verdade, não discordo disso de jeito nenhum. Se,muitasvezes,entenderoqueaconteceuhádezanos,o que está acontecendo hoje, já uma coisa complicadíssima, multifacetada, imaginem quando as coisas se passaram há mil anos, 200 mil anos atrás. O tipo de informação que podemosproduzirémuitofragmentada.Emuitagentefica desiludidacomaarqueologia,porquecobradelaomesmo tipoderespostaquepodedaroantropólogo,quetrabalha comumasociedadequeestáviva,funcionando. Asoluçãotalvezsejafugirdeumparadigmadeciênciaquequer descobriraverdade.Talveznãosejapossívelalcançá-la,jáqueo arqueólogoreconstróiapartirdefragmentos. Exatamente.Ouentãotemosqueampliaronosso foco.Aarqueologiatrabalhacomhistóriadelongaduração. Eupossodizerque,de8.500anosatrásatéachegadados europeus, eu tenho hiatos, lacunas, e tenho períodos de densidadepopulacionalmaioroumenordentrodeumaárea específicadaAmazôniacentral.Consigoportantoconstruir, a partir de um quadro cronológico muito amplo, uma espéciedehistóriadaocupaçãodessaregião.Agora,quanto maisvocêvaiapertandoofoco–anãoserquevocêtenha casos como Pompéia, e a regra não é essa, a regra é que tudo é misturado mesmo –, as coisas vão ficando menos nítidas.Eumesintoempazcomoslimiteseasamplitudes daarqueologia,quandoadmitoqueexisteesseviés,queé dado pelo nosso próprio objeto de estudo. Nós estamos ali para construir história de longa duração. Como fazer seeuquiserentenderquantaspessoasviviamnaquelacasa, se eu não consigo nem achar aquela casa direito, abrindo buraquinhosde90cmemsítiosde90hectares,de3kmpor 300mdelargura?Émuitodifícil. Umaspectosobreoqualnãoháacordoentreosarqueólogosédata deocupaçãodaAméricadoSul.AnnaRoosevelteNiédeGuidon, porexemplo,têmumadiferençadedataçãoenorme.Noqueelas seapóiam?
Niéde tem um trabalho científico e um trabalho socialmuitoimportante,masasdatasqueelapropõe–70, 80,90milanos–sãoumpoucoaberrantes,nãoseencaixam muitobem.Maséprecisoverqueemarqueologiahácoisas que hoje em dia são aceitas e que no século passado ou retrasado pareciam aberrações. Pode ser que Niéde esteja correta. Sem dúvida é uma grande arqueóloga, conhece
SítioarqueológiconaAmazônia *Fotodoacervoparticular dopesquisadorEduardoNeves
arqueologiamelhorqueeu,hámuitomaistempo,mas,na minha opinião particular, essas datas mais antigas não são muitocompatíveiscomoquesesabesobreaocupaçãoda Américaemgeral. Qualseriaadataçãomaisantiga,comprovada? Háumadatasegura,queéde12.600anosparao suldoChile,porexemplo.Maséprovávelquehajasítios ocupadosantesdisso,14,15milanosatrás.Issoestáficando cada vez mais aceito. Nós, aqui na América do Sul, não temostantoproblema,masosamericanostêmumabarreira psicológica com esses 12 mil anos. O que nós sabemos é quehá18milanosatemperaturaeramuitofria,amédia estavaquase6grausabaixodaatual.Houveaformaçãode grandes geleiras, a água do mar ficou presa no alto dos Andes,nonortedaEuropa,naAméricadoNorte,eesse processo diminuiu o nível do mar em até 100 metros.A linha da praia estava a dezenas de quilômetros de onde elaestáhojeemdia.Apaisagemeramuitodiferente.Mas
por que eu estou dizendo isso? Porque 18 mil anos atrás era provavelmente uma boa época para se atravessar o estreito de Bering, ou o canal da Mancha. Nesse sentido, nós podemos empurrar a datação para trás, para mais de 12milanos.
OquehádecomprovadonoBrasil?
No Brasil, o sítio queAnna Roosevelt escavou, a PedraPintada,tem11.600anos.NopróprioPiauí,hásítios interessantes, que Niéde escavou, que têm 13 mil anos. Só queninguémfalamuitonessessítios,fala-seem50mil,70 milanos.Maspodemosdizerque,certamente,hámaisde11 milanoshaviagenteportodooterritóriobrasileiro.
Muitas vezes, as descobertas arqueológicas levam a interpretaçõesculturais.NoMéxico,porexemplo,ossítiosarqueológicos permitemfalaremrituaisdesacrifício,emmitosdeorigem.Oquedá
segurançaàarqueologiaparadizercomoasculturassecomportavam?
Há uma coisa muito interessante que está acontecendo agora, que tem a ver com os trabalhos do EduardoViveiros de Castro e do Carlos Fausto, e que é importanteparaaantropologiadasterrasbaixasdaAmérica do Sul. É a idéia do que Eduardo chama de perspectivismo ameríndio. A idéia de que existe uma espécie de essência humana que é comum e é dividida por todos, mas cuja aparência se modifica constantemente, de acordo com as relaçõesquesereshumanoseanimaistravamentresi.Oqueé interessantenisso?PensandonaiconografiadaAmazônia,que euconheçomelhor,operspectivismonosdáalgumaschaves interessantesparainterpretá-la.Umexemplo:émuitocomum na cerâmica Marajoara as urnas funerárias terem referência à gravidez. O que é um recipiente para restos de pessoas quemorreramtem,pintadanasuafaceexterna,umamulher grávida,oquedáaidéiadenascimentodenovo,deciclode transformação.Quandoagentepegaestatuetasdepedrado baixoAmazonas, de uma outra maneira, vê a mesma coisa.
Sãofigurasantropozoormóficas,quegeralmenterepresentam um indivíduo, e atrás dele, ou sobre ele, um outro animal, umaonçaprovavelmente.Essaidéiadetransformaçãoémuito comumnoAltoRioNegro.Enóssabemostambémqueos pajésdoAltoRioNegrotomamayahuasca,negociamcomos chefesdosanimais,eelesmesmossetransformamemonças. Isso está relatado no presente pelas populações indígenas estudadas pelos antropólogos, mas, se nós fomos olhar a iconografia de algumas peças arqueológicas, vamos ver a mesmacoisa.Vamosverbichomisturadocomgente,porque aqueles indivíduos se viam como meio gente, meio bicho. Eles se colocavam em uma situação relacional – por isso perspectivismo–,emqueaaparênciaéassumidadeacordo comaperspectivaquecadaumtemdoseulugaredooutro, comoqualeleestabelecearelação.
Vocêmencionouosacrifício.Nóspodemosampliar essa idéia e pensar num caso clássico, superestudado, bem
Pontadeprojétil s.l. MuseudeArqueologia eEtnologia/USP-Brasil
conhecido,queéodocanibalismotupinambá.Algunsautores chegaram a propor que os tupinambás faziam isso para se alimentar.Masnaverdade,não,porqueoprisioneiroàsvezes ficavamorandoumoudoisanosdentrodacomunidade,não tentava fugir, recebia uma mulher, havia todo um diálogo ritual.Osacrifício,oconsumodacarne,eraumaespéciede motorquecolocavaaquelasociedadeemfuncionamento,que criavaanecessidadeconstantedeapreensão,deteralguém defora.Mastambémnãopodiaseralguémmuitoestranho. Umacoisaévocê,numabatalha,pegarumsujeitoquevocê nuncaviunavidaecomer.Agora,quandovocêtrazaquele sujeitoparavivernasuaaldeia,dáumacasa,dáumaroça,dá umamulher,eeleficaumoudoisanosvivendoaliantesde sermorto,seestabeleceumarelaçãocomaqueleindivíduo,e essarelação,naverdade,éarelaçãodaquelacomunidadecom oqueestádefora.Podemospensarocanibalismocomouma necessidadeconstantederecriaçãodessarelação,jáquenão existe uma razão prática, uma razão econômica, uma razão ecológicaqueoexplique.
Naarqueologiatupinambáexistemunspratosque
têmumapinturaemlinhasfinas,espirais.Háumarqueólogo que trabalha em Minas Gerais que acha – talvez seja um excessodeimaginação,comovocêdiz–quetalvezaquilo seja uma representação das tripas, porque as tripas eram uma iguaria. Depois que o sujeito era morto, a barriga dele era aberta, e as tripas eram a primeira coisa que era comida, pelas mulheres mais velhas. Era uma iguaria destinada apenas a um grupo específico de pessoas. Será queeraassimmesmo,seráquenãoera?Édifícilprovar,a nãoserquesedesenvolvaalgumatécnicadeanálisequímica quenospermitaencontrarpequenosrestinhosdemilhoe demandiocapresosnascraquinhasdosvasosdecerâmica. Alguém pode vir a encontrar esses restos. O sangue, por exemplo,sepreserva.Eventualmente,alguémpodeencontrar restosdesangueeinterpretarissocomoumaevidênciaque corroboreessahipótese.