7. Konklusjon og diskusjon
7.1 Oppsummering
A abordagem utilitarista/econômica, identificada como umas das principais e mais recorrentes formas de se referir ao desenvolvimento, dentre aquelas implícitas nos estudos de turismo, surge com maior frequência em análises que buscam ressaltá-lo, em virtude de seu já referido efeito multiplicador enquanto atividade econômica. Frequente em trabalhos que partem de uma base econômica e em documentos políticos, assim como foi abordado sobre o PNT, esta abordagem, apesar de sua expressiva predominância, vem sendo recorrentemente questionada. A própria existência de outros enfoques de desenvolvimento demonstra, nesse sentido, novas formas de resistência e contestação em relação à predominância desta primeira.
Por outro lado, é inquestionável que a percepção e apreensão do turismo por meio de seu caráter econômico seja de difícil abandono, quando se trata de sua apresentação e caracterização iniciais, ainda que se reconheça e não seja negada a existência de outros aspectos do ponto de vista político, social, cultural e ambiental proporcionados pela evolução da atividade turística.
Assim como apontado ao longo do presente capítulo, o turismo é frequentemente identificado como um meio ou estratégia para a promoção do desenvolvimento. Em outras palavras, compreende-se o turismo como uma vocação econômica para o desenvolvimento de certas regiões, como salienta Araújo (1998), ao citar o caso do nordeste brasileiro.
Nesse sentido, vale ressaltar que esta abordagem apropria-se, sobretudo, da dimensão de melhoria atribuída ao desenvolvimento e que poderá vir a ser estimulada no território. Não se deve esquecer que as razões para a busca do desenvolvimento de um país, como aponta Tribe (2003), estão assentadas na expectativa de melhora, sobretudo, em um sentido econômico.
Ainda que, atualmente, o tema do desenvolvimento esteja passando por um processo de redefinição, a ampliação das bases econômicas continua a ser considerada fundamental para a melhoria das condições de vida das populações (LOBO,2001). Em sua concepção, sobretudo no pós Segunda Guerra, motivado por discursos políticos e progressistas, o desenvolvimento igualou-se a crescimento econômico, por representar a própria essência do contexto da época. Wolfgang Sachs (1999,p.16) traz uma importante reflexão sobre o caráter desta forma de desenvolvimento ao afirmar que: “Só existe uma coisa pior do que o fracasso do desenvolvimento convencional: o seu sucesso descontrolado.”
A base da teoria do desenvolvimento, elaborada inicialmente pelos economistas clássicos e que embasou o discurso desenvolvimentista do século XX, era orientada, como aponta Paul Singer (1982, p. 12), para “encontrar meios pelos quais os países capitalistas industrializados pudessem ajudar suas ex-colônias e demais países ‘atrasados’ a encontrar o caminho da industrialização e do enriquecimento”. Ou seja, era notável, a partir dos anos de 1970, a redução dos debates sobre desenvolvimento a praticamente ao debate sobre crescimento econômico. Isso se explica, segundo Álvaro Comin e Carlos Freire (2009), devido à substituição das teorias de corte estruturalista, que enfatizavam o desenvolvimento como gerador de mudanças nas estruturas econômicas, sociais, políticas e institucionais pelas de tipo neoclássico que, em linhas gerais, ressaltam a natureza acumulativa e contínua do progresso econômico.
No que tange à posição ocupada pelo turismo neste processo, Ouriques (2008, p. 06) afirma que “depois dos sucessivos fracassos dos processos de modernização, o turismo, apareceu, especificamente a partir da década de 1950 do último século, como a alternativa de desenvolvimento”.
Os diversos esforços direcionados ao estimulo à promoção do turismo, sobretudo nos países em desenvolvimento, estariam, então, diretamente relacionados à possibilidade de desenvolvimento, em especial econômico, propiciado pela atividade turística. Esclarecer esta ressalva, inclusive, é necessário e
de grande importância, uma vez que, ao se tratar do turismo a partir de seu viés econômico, faz-se referência quase exclusiva ao crescimento econômico propiciado por esta atividade. A dimensão simbólica de que o turismo traz desenvolvimento é, por conseguinte, o que reforça a imagem da atividade enquanto “motor do desenvolvimento”.
Apoiados nessa abordagem, organismos voltados para o fomento da atividade turística, como, por exemplo, a OMT, acabam por considerar o turismo como mais um elemento da cadeia produtiva econômica.(FILHO, 2003). Em outras palavras, a OMT, nesse sentido e motivada somente por esse enfoque de desenvolvimento dentro da atividade turística, prescreve para o turismo a mesma receita genérica de abertura total e indiscriminada de mercados que, ao final, significa a dominação pura e simples dos grandes grupos industriais e financeiros internacionais (OURIQUES, 2008).
Esse exercício diminui, na visão de João dos Santos Filho (2003, p. 371),
[...] a compreensão do fenômeno turístico dentro do viés do
pensamento economicista, estritamente limitado e vulgar,
preocupado com o gerenciamento quantitativo da “riqueza” que é produzida para uns poucos, sem fazer questionamentos dos prejuízos que isso causaria para a maioria das populações locais que são expulsas, enganadas ou em alguns casos exterminadas pelo interesse do capital.
A conformação de um discurso em torno do turismo, que confere ao mesmo o status de “passaporte para o desenvolvimento”, possui relação direta com a abordagem aqui identificada como utilitarista/econômica do desenvolvimento. Assim, como ressalta Ouriques (2008, p. 13), “o turismo desponta nas regiões periféricas como a mais recente promessa de desenvolvimento e, em alguns discursos (inclusive acadêmicos), como a única chance de alcançar o tão almejado desenvolvimento”. Ou seja, a partir desta perspectiva, o desenvolvimento, dentro da concepção trabalhada nos estudos de turismo, aponta para o processo de produção de riqueza, estritamente associado ao desenvolvimento econômico, este entendido basicamente enquanto “o binômio formado pelo crescimento econômico (mensurável por meio do crescimento do PIB ou do PNB) e pela modernização tecnológica, que ambos estimulam reciprocamente” (SOUZA,1997, p. 18).
Apropriado e analisado, tomando-se como referência a abordagem utilitarista/econômica do desenvolvimento, o turismo é, portanto, apontado como uma alternativa de crescimento econômico, que depende da ação do poder público
em associação à iniciativa privada. As estratégias de desenvolvimento associadas a essa abordagem, conforme demonstradas anteriormente, não promovem, assim, nenhuma transformação na ordem econômica vigente, por valorizar mais a especialização produtiva e a eficiência econômica em detrimento dos aspectos substantivos apresentados pelas culturas locais. Ou seja, prioriza-se a competição e concorrência dos empreendimentos turísticos, voltando-se o foco para formas de organização da produção que não sejam cooperativas ou solidárias62.
Contudo, conforme já observado, esta abordagem de desenvolvimento, que acaba por reduzir o turismo a uma simples possibilidade de crescimento econômico, é constante alvo de críticas, sobretudo por serem as concessões do poder público aos empreendedores turísticos, geralmente, classificadas como ações propositais de favorecimento à concentração de renda (ITO,2007).
O desenvolvimento, dentro da abordagem utilitarista/econômica e conforme identificado por meio das obras e estudos que tratam do turismo, é assim uma das possibilidades de se compreender e analisar a relação estabelecida entre o desenvolvimento e o turismo. Contudo, é notável que tal enfoque não dá conta de abarcar outros aspectos presentes na promoção do turismo, como aqueles relacionados a sua faceta humana, cultural e social. Essa limitação consiste, por sua vez, em um dos principais pontos de críticas e contestações por parte das obras que rejeitam essa abordagem. Assim como salienta Moesch (2001, p. 21) “o turismo é um processo sociocultural, ultrapassando o entendimento enquanto função de um sistema econômico”.
Em razão do determinismo e especificidade representados, por essa abordagem, são atribuídos diversos fracassos, por parte tanto da iniciativa privada como do poder público, no que se refere ao incremento do turismo. Para tanto, Trigo e Panosso Neto (2003, p. 102) citam alguns exemplos práticos resultantes da adoção de uma visão estritamente econômica do desenvolvimento, incorporada pela atividade turística: projetos fracassados de parques temáticos ou aquáticos, falência de hotéis e resorts, degradação de áreas públicas ou privadas, desemprego gerado por esses problemas, perda do investimento inicial, obsolescência acelerada em
62
Economia solidária é uma forma de produção que tem base associativista e cooperativista, centrada na valorização do ser humano em detrimento do capital. Para tanto, é voltada para a produção, consumo e comercialização de bens e serviços de modo autogerido, tendo como objetivo maior a “reprodução ampliada da vida”. Nos últimos anos, a economia solidária vem se apresentando como inovadora alternativa de geração de trabalho e renda e uma resposta a favor da inclusão social Ver: SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Perseu Abramo, 2002. pag. 4.
virtude de mau planejamento e operação, etc. Em contrapartida, os autores citam exemplos de iniciativas e empreendimentos que obtiveram sucesso no país e ressaltam que os mesmos levaram em consideração não apenas os aspectos econômicos imediatos, mas também as exigências sociais, ambientais e culturais.
Dessa maneira, fica evidente em diversos momentos da literatura consultada, a constante rejeição e crítica direcionada à hegemonia representada pela abordagem econômica de desenvolvimento (MOESCH, 2001; LEMOS, 2001; CORIOLANO, 1998; RODRIGUES, 1997). Como será visto, a seguir, as demais abordagens identificadas relacionam-se ao enfoque econômico, enquanto possibilidades alternativas e formas de contestação à ordem (capitalista) estabelecida.
Espera-se, para tanto, constatar quais são as diferenças existentes entre a abordagem econômica e as demais, deixando, em aberto, a pergunta que compara e questiona qual a abordagem mais adequada para o turismo. Nesse sentido, deve- se deixar livre, também, o questionamento sobre qual o caráter motivador destas abordagens, se estimulado pela contestação ou pela adequação ao modelo econômico predominante.