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A Proposta AREDA (Análise de Ressonâncias Discursivas em Depoimentos Abertos) de pesquisa foi elaborada por Serrani-Infante a partir do desenvolvimento do projeto “Identidade e Identificação Linguístico-Cultural: Funções da Segunda Língua na Constituição do Sujeito de Discurso” (SERRANI-INFANTE, 1999, p. 281), com o objetivo de discutir e propor deslocamentos sobre a compreensão do processo de aquisição ou ensino-aprendizagem de segunda língua, a partir de categorias teórico-metodológicas da análise do discurso e de uma teoria psicanalítica da subjetividade.

Para a autora, a aprendizagem abarca outras questões além dos recursos linguísticos e aplicações gramaticais, ela entende “que o sujeito “aprende” significativamente uma segunda língua quando, pronto para a experiência do próprio estranhamento, se inscreve, por processos identificatórios, em discursos, mais especificamente em formações discursivas da segunda língua-cultura” (SERRANI, 1998, p.130). Concordamos com Serrani, quanto à existência de implicações para além do cognitivo e da capacidade de assimilação de regras estruturais da língua outra, em um processo de ensino-aprendizagem, mas optamos pelo termo “língua estrangeira” divergindo da autora quando denomina segunda língua.

Compreendemos que vivemos no Brasil um contexto em que as línguas outras, que não a língua portuguesa, são apagadas em detrimento dessa, já que não há um cenário no qual a população esteja cambiando entre uma e outra língua diferentes, a não ser em comunidades ligadas de alguma maneira a imigrantes e/ou à população indígena. Quando optamos pelo termo língua estrangeira, estamos pensando no brasileiro, nascido de pais brasileiros sem o convívio em núcleos de outras nacionalidades. Para nós, a língua materna é a língua primeira, aquela que estrutura o sujeito psiquicamente (Revuz, 1998), o ponto de partida para que ele possa lançar-se ao estranho da/na língua outra.

A língua estrangeira é a língua outra que incide na relação que mantemos com a língua materna, pois esta é a que nos é familiar. Nesta perspectiva a língua estrangeira é a que nos causa estranhamento, é a língua estranha ao que nos é familiar. Ao optarmos pelo termo

língua estrangeira consideramos que o processo seja passível de conflitos, o que seria diferente se elegêssemos o termo segunda língua, que, a nosso ver, apaga o conflito, pois não reflete as questões intrínsecas ao estranhamento psíquico e corporal pelos quais o sujeito aprendiz é atravessado no/pelo processo ensino-aprendizagem. Tampouco o termo língua adicional, que vem sendo enunciado por alguns autores quando pressupõem “a adição de outra língua às línguas que [a]o alun[a]o já possui deve – idealmente – gerar uma convivência pacífica entre elas, sem atritos, pelo fato de que, em geral, atendem a objetivos diferentes” (LEFFA; IRALA, 2014, p. 34).

É importante pontuarmos que buscamos na proposta AREDA a ferramenta que nos possibilitasse compreender o funcionamento discursivo dos sujeitos que se constituem em/na língua estrangeira. Ao narrar de si mesmo, das experiências vividas em/na LI, os sujeitos participantes da pesquisa permitem que se instaure uma tensão enunciativa em que se revela a discursividade sobre como eles percebem a aprendizagem de LI no curso de Letras-Inglês EAD.

Serrani baseou-se nos pressupostos teóricos da Análise de Discurso Francesa sobre a produção de sentidos operar nos níveis intra e interdiscursivos, ao propor a análise do AREDA para a compreensão do funcionamento discursivo. Não importam as respostas em si, mas o estudo das “ressonâncias discursivas que permitam levantar hipóteses em relação às funções da [...] língua [estrangeira] para o sujeito de discurso, visando aprofundar o estudo de processos identificatórios em jogo” (SERRANI, 1999, p. 288).

Com relação às respostas não terem importância em si mesmas, é devido ao fato de que nesta proposta importam os modos de dizer. Para tal, foi solicitado às/aos enunciadoras(es) que gravassem suas respostas às questões abertas, elaboradas pela pesquisadora, a fim de falarem sobre os diversos aspectos das próprias experiências vividas em outras línguas, no nosso caso, em LI.

O objetivo do AREDA é a análise de como a(o) enunciadora(r) diz de si mesmo, de suas experiências, e não o que ela(e) informa sobre ela(e) mesma(o). As perguntas são elaboradas de maneira modificada para contribuir que a(o) participante retome o mesmo tópico. Esta abordagem colabora para a observação das ressonâncias discursivas, que possivelmente aparecem nas diferentes formulações.

A proposta da autora é conceber a ressonância discursiva de significação enquanto paráfrase (SERRANI, 1997), ela explica em sua tese que há um efeito de vibração semântica mútua, que amplia o sentido de paráfrase, pois ao conceito de ressonância também está ligado o sujeito de linguagem. Foi a partir do funcionamento parafrástico na constituição do objeto

de discurso – o espanhol – ao analisar a imigração europeia na região do rio da Prata, que Serrani percebeu a existência de ressonâncias discursivas quando algumas marcas linguístico- discursivas se repetiam o que contribuiu para a construção da representação de um sentido preeminente.

No que concerne à paráfrase, Pêcheux (2009) sugere o funcionamento em uma formação discursiva historicamente dada figurando como uma reformulação que se apresenta como uma produção dos efeitos de sentido na memória. É um retorno ao já-dito possível historicamente, realizado e ancorado no nível do interdiscurso.

Se apoiando na distinção conceitual entre intradiscurso e interdiscurso, conceitos propostos por Pêcheux, Serrani salienta a pertinência em se operar com tais categorias para a análise do AREDA. Para esclarecimento didático propomos dois esquemas que ilustram o funcionamento tanto do intradiscurso, quanto do interdiscurso, porém, é importante destacar que se trata de um funcionamento intrínseco e esta separação não é tão clara durante as práticas discursivas.

O nível intradiscursivo atua na dimensão linear do discurso, na relação do dito com o que foi dito antes e ao que se aponta dizer:

Como demonstrado na imagem que construímos, esta relação está na superfície linguística, no nível da formulação, é o discurso que opera sobre si próprio. Caracteriza-se pela articulação.

Já o interdiscurso é do nível da constituição, o que opera na dimensão em que funcionam os implícitos, da ordem das determinações ideológicas e inconscientes. Remete ao pré-construído, ou seja, à construção histórico-social anterior e exterior que permite o sentido do enunciado:

O nível interdiscursivo, conforme ilustramos, remete a algo exterior ao discurso que precisa ser retomado, pela memória discursiva, assim, para a produção de sentidos, há uma relação entre algo já-dito, que surge e causa um efeito naquilo que está sendo dito. Sem ter

consciência deste fato, aquele que fala, tem um conhecimento anterior que é alcançado durante as práticas discursivas. Este é o funcionamento do pré-construído: algo que fala sempre antes, em outro lugar e independentemente, porém, é determinado materialmente no interdiscurso.

O efeito do pré-construído, aquele sempre-já-lá, provoca uma relação de anterioridade como um eco que possibilita o enunciado, assim, o pré-construído é um elemento do interdiscurso reinscrito no intradiscurso. Há uma relação que, apesar de distintos conceitualmente (PÊCHEUX, 1995), o interdiscurso e o intradiscurso estão constitutivamente vinculados e coexistem na materialidade da língua, mas estas etapas são apagadas, para o próprio sujeito do discurso, pelos esquecimentos27.

No AREDA procuramos encontrar os momentos de interpretação, as tomadas de posição do sujeito em relação à língua estrangeira. Buscamos, então, analisar implícitos de sentido na relação sujeito - língua estrangeira (SERRANI, 1998). A investigação se pauta na relação interdiscursiva, considerando os processos sociohistóricos e inconsciente do sentido que se constituem na cadeia intradiscursiva em que cada enunciadora(r) expõe-se como seu sentido.