• No results found

Na injunção a um discurso, o sujeito fala de um lugar social, tendo para si uma imagem de si mesmo, uma de seu interlocutor e uma do assunto que está tratando. Assim, reciprocamente há uma antecipação das representações pelas(os) enunciadoras(es). Para Pêcheux, este jogo de imagens, que ele denomina de formações imaginárias, é inerente a qualquer situação comunicativa.

Nossa hipótese é a de que esses lugares estão representados nos processos discursivos em que são colocados em jogo. Entretanto, seria ingênuo supor que o lugar como feixe de traços objetivos funciona como tal no interior do processo discursivo; ele se encontra aí representado, isto é, presente, mas transformado; em outros termos, o que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro (PÊCHEUX, 1997b, p. 82) (grifos do autor). Em um discurso não ocorre mera troca de informações entre A e B, mas, ambos os sujeitos estão presentes em lugares determinados na formação social. Ocorre entre os sujeitos um jogo de efeito de sentidos produzidos pelo imaginário que é social e resultante das relações de poder e de sentido. Nem todos os sentidos produzidos são conhecidos, à ideologia seria atribuída esta característica de produção do desconhecimento dos sentidos na materialidade linguística.

Será na prática discursiva, que o efeito de sentido constituído produzirá a ilusão de um único sentido. Ocasião em que o sujeito terá a ilusão de que é a fonte do sentido (esquecimento nº 1) e de que domina o seu dizer (esquecimento nº 2). Por passar por estes

dois processos, o sujeito do discurso não se vê afetado pela ideologia, assim, sua interpelação em sujeito está relacionada ao imaginário e ao simbólico.

As formações imaginárias funcionarão nos processos discursivos, onde estarão designados os lugares que cada sujeito, A e B, se atribuem mutuamente e a imagem que eles têm do seu lugar e do lugar do outro, a partir disso Pêcheux estabelece que todo processo discursivo pressupõe a existência das formações imaginárias conforme demonstrado a seguir (PÊCHEUX, 1997b, 82):

Este esquema demonstra como as relações são estabelecidas nas situações discursivas, em que cada participante ocupa diferentes posições. As relações imaginárias podem ser consideradas como a maneira pela qual cada participante se posiciona no discurso e atua nas condições de produção.

Desta forma, haverá um referente que ocorre no atravessamento entre o “já ouvido” e o “já-dito” (PÊCHEUX, 1997b, 85), componentes das formações imaginárias. No processo discursivo estarão relacionados: a imagem que o sujeito faz de A (si), a imagem que faz de B (outro), a que faz do referente R (aquilo que irá dizer); a imagem que B faz de A, a imagem que B faz de B e a que faz de R. As relações de força e de sentido estarão em jogo em todo este processo.

Para a formulação do conceito de formação imaginária são consideradas, então, as três categorias: antecipação, relações de força e relações de sentido, através das quais será capaz de se manifestar no processo discursivo. A antecipação assinala a presença do enunciador que idealiza uma figura mental, representação imaginária de seu interlocutor e, por meio desta figura mental, determina as condições de produção das quais poderá se utilizar e quais serão suas estratégias discursivas. Já as relações de força são determinadas numa dinâmica de força entre lugares sociais e posições discursivas. Por fim, as relações de sentido

estabelecem interdiscursividades com outros textos, uma vez que os discursos estão em contato constante uns com os outros.

As formações imaginárias se apoiam em representações mentais do que possivelmente um interlocutor simboliza no mundo, quais seriam suas funções, qual seria o seu lugar social, quais seriam os discursos que ele já conhece ou desconhece. Aliando as formações imaginárias às condições de produção do discurso, podem-se determinar os efeitos de sentidos, que estão vinculadas aos sentidos que emergem nas decorrências do processo lógico. Os sentidos estão vinculados às formações imaginárias (desejo), às formações discursivas (fazer), às formações ideológicas (agir) e às formações sociais (dizer). Ao analisar a formação imaginária será necessário compreender a via de mão dupla, pois, A faz uma imagem de B que, por sua vez, também terá uma imagem de A.

O conceito de formações imaginárias está aliado ao conceito de representações como um jogo de projeções que os interlocutores concebem de si mesmos e do outro nos processos discursivos (PÊCHEUX, 1997b) significa trazer o movimento de sentidos na história. Às representações estão vinculadas as relações dos dizeres com a exterioridade, com a memória discursiva ressignificada na tomada da palavra. Tomamos por representações imaginárias na acepção de Hall (1997, p. 15) que: “representation means using language to say something

meaningful about, or to represent, the world meaningfully, to other people”26. Para Hall a

representação conecta sentido e linguagem à cultura.

O conceito de representação neste trabalho se dá também à luz de trabalhos vinculados à Linguística Aplicada (LA) por uma perspectiva indisciplinar (MOITA-LOPES, 2008), voltada para “as práticas sociais” (MOITA LOPES, 2008, p. 23), com reflexões do pós-método (KUMARAVADIVELU, 2003, 2006, 2008) e tratando principalmente sobre as questões culturais no imbricamento com a língua(gem) amparadas nos estudos de Guilherme (1995, 1998, 2008), as representações de LI (MATSUDA, 2012; HASHIGUTI, 2013) e aprendizagem de LI (GRIGOLETTO, 2003).

De maneira geral as representações são oriundas ideologicamente e estão presentes no imaginário dos sujeitos de forma cristalizada e homogênea. Com este estudo objetivamos problematizar ao máximo as questões que identificamos no corpus e as relacionamos na análise ressaltando os conceitos teóricos que trouxemos à tona.

Ligada às questões culturais está a complexidade para conceituá-la, e diversos autores têm visões que diferem entre si. Para Kumaravadivelu (2008) a cultura é referente a

26representação significa usar a linguagem para dizer algo significativo sobre, ou representar, o mundo de forma significativa, para outras pessoas” (tradução nossa).

padrões de significação transmitidos historicamente através de símbolos. Desta maneira, a cultura abrangeria as crenças, os valores, os costumes e também as manifestações artísticas de uma comunidade. Este autor aponta para a problemática de se homogeneizar a cultura principalmente em consequência da globalização. Fato este retratado ao encontrarmos, em materiais didáticos de LI, a percepção de cultura como se fosse um bem adquirível, que pudesse ser simplesmente consumido.

As representações de língua(gem) afetam o ensino de LI, segundo Guilherme (1998), a concepção que a(o) professora(r) tem sobre o que seja a linguagem, pode levá-la(o) a diferentes caminhos em sua prática docente. Enquanto expressão do pensamento, a concepção de linguagem pressupõe que as(os) alunas(os) sejam indivíduos que se enunciam em LE não em relação aos outros, se não se expressarem bem é porque não pensam. Como instrumento de comunicação, a concepção de linguagem leva a(o) professora(r) a supor que suas/seus alunas(os) são emissoras(es) e receptoras(es) do código linguístico. De acordo com Souza (1995, p. 21) “a visão saussuriana da linguagem [...] considera a fala como um fenômeno individual e o sistema linguístico como fenômeno social, como se fossem dois pólos opostos”. A língua seria um conjunto de signos manipuláveis. Já na concepção de linguagem como processo de interação, a(o) professora(r) supõe suas/seus alunas(os) como indivíduos que realizam ações pela linguagem e se constituem sujeitos em processo de permanente construção.

Nos depoimentos abertos das(os) participantes desta pesquisa, compreendemos estarem em funcionamento diferentes concepções de língua(gem) (GUILHERME 1995, 1998), concepções que incidem na relação com que cada participante da pesquisa enuncia sobre o processo ensino-aprendizagem de LI vivenciado ao longo da vida.

Para Matsuda (2012), apesar de a LI ser falada duas vezes mais por não nativos do que por nativos, é comum serem tomadas como padrão as variedades da LI dos Estados Unidos da América e da Inglaterra, aspecto que influencia no processo ensino-aprendizagem, pois, sobressai uma valorização cultural com tais referenciais e um apagamento de todas as outras variedades de LI.

Já as representações que envolvem a LI se baseiam em sentidos de língua como lugar de alegria e realização profissional, sendo ignorada, na maioria dos métodos de ensino, a ocorrência de problemas e conflitos por e na língua entre as culturas.

Discursivamente, a língua estrangeira aparece pouco relacionada à discussão de problemas sociais, situações difíceis que envolvam temas considerados talvez mais delicados, como a morte, os desastres naturais, as questões

políticas, guerras, confrontos, pobreza e exclusão, que também acontecem na e pela língua inglesa (HASHIGUTI, 2013, p. 50-51).

Como as representações não se fecham em determinados espaços e conceitos, elas se tornam inúmeras a depender das formações imaginárias as quais estiverem vinculadas. Por isso, ao analisarmos as sequências discursivas as reunimos conforme as regularidades enunciativas e localizamos outras representações ainda não mencionadas.

Tendo circunstanciado os conceitos-chave para este trabalho, bem como sua localização nos estudos advindos da AD em consonância com a Linguística Aplicada e os estudos culturais, passaremos aos aspectos metodológicos da pesquisa.