8. Resultater og analyse
8.2 Resultater DRS2
8.2.6. Oppsummering DRS2
Partindo do pressuposto de que os modos de encadeamento dis- cursivos só se constroem nas trocas verbais, nas situações de in- 4. Este item retoma, com alguns acréscimos e correções, um artigo publicado no
teração, consideramos a convergência dialógica como sendo o “en ga jamento” entre os interlocutores que partilham do mesmo objetivo: a construção – em conjunto – do discurso. Trata-se de sujeitos que, com suas diferenças, estão presentes no diálogo, al- ternam turnos, encadeiam enunciados e constroem referências, produzindo algo que é comum a eles. Para tanto, há um ajuste das perspectivas, a construção de um objeto do discurso, a concor- dância com relação ao tema, coincidência quanto à finalidade da atividade que está sendo desenvolvida.
Já o fenômeno da conivência, embora possa ser identificado com uma certa facilidade na relação entre interlocutores, não parece ter recebido especial atenção nos estudos sobre o diálogo e, por mais simples que possa parecer, abordá-lo não é uma tarefa muito fácil. Comparando algumas definições de conivência existentes nos dicio- nários de língua portuguesa (Michaelis5 e Aurélio6), é possível notar
que a maioria deles se restringe a tratá-la como uma espécie de cum- plicidade baseada na abstenção – propositada ou dissimulada – de prevenir ou denunciar o ato delituoso. A ideia que se tem daquele que é conivente é de alguém que finge não ver o mal que o outro pra- tica, ou seja, ela traz, de um modo geral, uma conotação pejorativa que parece ter se perdido ao longo do tempo na língua francesa.
De acordo com o Dictionnaire historique de la langue française (Robert), a partir de 1796, o sentido do termo parece ter ido em di- reção a um acordo tácito (subentendido),7 ainda de cumplicidade,
da Pós-Graduação em Linguística (Enapol) da Universidade de São Paulo, 2002, artigo este que começou a ser desenvolvido, num primeiro momento, para uma comunicação apresentada durante o seminário Convergences et Di- vergences dans le Dialogue, na Université René Descartes-Paris V, junho de 2001.
5. Michaelis, Moderno dicionário de língua portuguesa (São Paulo: Melhora- mentos, 1998).
6. Aurélio B. H. Ferreira, Novo dicionário de língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986).
7. Já o subentendido se caracteriza pela maneira segundo a qual um elemento se- mântico é introduzido no sentido, refere-se à maneira pela qual o sentido deve ser decifrado pelo destinatário (Ducrot, 1984b).
mas que indicava também uma qualidade psicológica de harmonia ou sintonia espontânea (sorriso de conivência). E é justamente essa noção de conivência que nos interessa particularmente neste tra- balho e que encontramos também em dois dicionários de língua por- tuguesa: no primeiro, Dicionário brasileiro de língua portuguesa,8 está
presente a ideia de conivência como “colaboração” e, no segundo,
Dicionário contemporâneo do português,9 identificamos o termo como
sendo “entendimento”, “conchavo secreto” e “acordo tácito”. Partindo dessas noções mais recentes (de sintonia, entendi- mento e acordo tácito), associadas à ideia de comunidade restrita, de implícito comum, códigos particulares, saber compartilhado (savoir partagé), podendo também haver a exclusão de terceiros, a ideia de conivência também estaria ligada a uma certa empatia entre os interlocutores e a uma jubilação no acordo (Salazar Orvig, 2003).
Embora ainda existam controvérsias no que se refere à ideia à qual o termo está ligado – por exemplo, Morel e Danon Boileau as- sociam-no a um tipo de savoir partagé e outros, como André Laro- chebouvy, à noção de cumplicidade –, para Salazar Orvig (op.cit.), a conivência pressupõe a diferença entre os interlocutores; não é um gênero ou um tipo de interação e pode surgir em qualquer momento da relação dialógica; ela é procurada pelos interlocutores e deve ser confirmada. Trata-se da cristalização de um conjunto de fatores em um determinado momento da relação (de sintonia tácita e jubila- tória) entre os interlocutores (François, 1990). Seria uma forma do que Auchlin (1995, 1996) chama de bonheur conversationnel.10
8. Dicionário brasileiro da língua portuguesa (São Paulo: Cultural Brasil Editora, 1971).
9. M. T. Biderman, Dicionário contemporâneo do português (Petrópolis: Vozes, 1992).
10. A noção de bonheur conversationnel, por sua vez, pode ser recuperada através dos “olhares”: (a) do receptor (leitor), que tem a capacidade de avaliar a poste-
riori o discurso, se ele produziu bonheur (“felicidade”)/prazer ou, ao contrário,
infelicidade no conteúdo do que foi escrito ou dito; e (b) do analista do dis- curso, segundo o qual existe um interesse do emissor na troca, na qualidade da
A conivência no diálogo, ainda segundo Salazar, depende da maneira como nós a recebemos, como nós a sentimos, a experiência que temos dela enquanto intérpretes. E essa interpretação só é pos- sível graças à verbalização, aos encadeamentos, aos movimentos discursivos realizados pelos locutores.
O locutor é quem dá o tom da interação, é ele quem instaura a at- mosfera, define a qualidade da relação através da escolha do tema e do gênero, da gestão dos savoirs partagés e dos “convites” à conivência.
Quaisquer que sejam os fatores envolvidos para a obtenção desse tom, pressupõe-se que os interlocutores se encontrem no do- mínio do íntimo para então compartilharem experiências ou fa- larem de uma terceira pessoa (tema); difamarem ou fazerem fofocas (gênero); tratarem de um fato dramático com humor (tom); e fa- larem em meias-palavras (savoir partagé: algumas coisas não pre- cisam ser explicitadas, são subentendidas, como a utilização de nomes próprios, expressões, referência temporal, etc.).
Já as solicitações que visam a desencadear no outro um certo tipo de adesão podem ser identificadas: (a) no engajamento, isto é, na intenção do locutor em comprometer, implicar o outro no dis- curso; (b) nas indicações de implícito – como as alusões, as elipses nos enunciados, os conectores – e nas avaliações (reações dos recep- tores); (c) nas brincadeiras (zombar do outro sem criar divergência; denegrir a própria imagem, etc.); e (d) nas diferentes formas de riso: o riso do próprio discurso, que pode ser interpretado como uma marca de intimidade ou como um sinal de solicitação de con-
convergência, na “felicidade” como um acontecimento (François, 1990) e no acontecimento como um momento intenso, poderoso (Auchlin, 1995). O bonheur pode se manifestar em enunciados do tipo “reformulação” (aquilo
que foi dito não estava bom), na sincronização interacional (concordância no que se refere ao comportamento corporal, vocal e afetivo), e no investimento do locutor em seu discurso (neste caso, é mais difícil identificá-lo, visto que cada locutor tem seu estilo, alguns se implicam mais, outros se resguardam mais em seu estilo). Os interlocutores sentem o que se passa com o outro através das atitudes e dos “investimentos” do locutor, sentem se existe coni- vência ou não no diálogo.
senso, de conivência ou cumplicidade, o riso que denigre a própria ima gem e convida o interlocutor a compartilhar a avaliação, e o riso acompanhado de um enunciado alusivo, que incita o outro a evocar acontecimentos esquecidos.
No que se refere ao receptor, a manifestação de conivência de- pende da confirmação do acordo tácito e, assim, por ser implícita, depende da recepção dos pressupostos11 e enunciados alusivos.
Desse modo, as marcas de adesão podem ser recuperadas através das aprovações (reações de apoio como “ah, sim, é verdade”, “ah, é claro”, que se encadeiam e até se sobrepõem (chevauchement) aos enunciados que respondem) e dos risos que seguem as brincadeiras ou as avaliações. Os risos em conjunto respondem a uma alusão e a algo implícito e manifestam a partilha de um estado de espírito, de um acordo emocional:
G2 (4 anos e 1 mês)
O cenário é a cama, à noite, antes de dormir. Ao lado de seu filho, a mãe começa a falar e o agradável ambiente faz com que os dois riam o tempo todo:12
M – Quem te deu esse narizinho tão lindo? G2 – Ninguém.
M – Ninguém? Você roubou? G2 – Não, eu comprei. M – Comprou aonde? G2 – No narizeiro. (ri)
M – Então o narizeiro vende nariz?
G2 – É... tem nariz branquinho... pretinho...
M – Ah, cada um compra o nariz da cor da sua pele, é isso? G2 – É.
11. Segundo Ducrot (1984b), o que é pressuposto diz respeito à natureza de um elemento semântico veiculado pelo enunciado, é parte integrante do sentido dos enunciados.
M – E por que você não comprou um nariz pretinho? G2 – Porque aí eu ia ficar colorido. (ri)
Visto que se trata de uma relação entre mãe e filho, podemos dizer que existe uma intimidade que pode ser identificada pela at- mosfera descrita pela mãe quando ela fornece o contexto da si- tuação (“mais uma vez, o cenário é a cama...”) e que pode também sugerir a ideia da existência de uma “pré-conivência”, se conside- rarmos o clima que frequentemente se cria numa interação desse tipo.
A mãe pergunta-lhe onde ele comprou o nariz e quando o me- nino responde no narizeiro e ri (ri do próprio discurso e/ou da pró- pria esperteza),13 isso pode ser um indício da sintonia que existe
entre os dois e também a confirmação da conivência procurada pela mãe.
Pode-se dizer que, em geral, o motor do diálogo varia muito e que o jogo se apresenta de diferentes maneiras, mas, após esse enunciado em que a criança utiliza as cores como argumento (“É... tem nariz branquinho... pretinho”), o diálogo continua nesse tom de euforia, de concordância, de retomada (cada um copia a moda- lidade e a verbalização do outro), de jogo, de brincadeira, enfim, de zombaria, até o fim em que a graça se apresenta através da asso- ciação de que aquilo que é diferente, de outra cor (“pretinho”) não é bonito e é isso que faz a criança rir: “M – E por que você não comprou um nariz pretinho?/G – Porque aí eu ia ficar colorido. (ri)”. E mesmo que inicialmente o discurso da criança seja de re- cusa (“ninguém”, “não”), no decorrer do diálogo a conivência entre eles parece se estabelecer no que se refere à construção em conjunto de um mundo imaginário, fazendo emergir o humor.
Na verdade, tudo faz parte de um processo de repercussão emo- cional: o acordo no dinamismo interlocutor-receptor, que se mani- 13. Ainda que a criança esteja rindo do que ela própria disse ou de sua esperteza
em dizê-lo, permanece o fato de que a criança só se sentiu à vontade para rir de si mesma porque o clima e a sintonia entre ela e a mãe permitiram isso.
festa por movimentos de avaliação compartilhada e retomadas (a função das retomadas – cópia da modalidade e/ou da verbalização do outro – é garantir a intersubjetividade enquanto constituição da díade como unidade: duas pessoas falam de uma mesma opinião e marcam, assim, sua proximidade), e a empatia (se aproxima da ideia de intersubjetividade, de partilha de representações de afetos e de ações).
É nesse sentido que a conivência é frequentemente evocada para caracterizar a natureza das relações entre os interlocutores e uma certa qualidade do diálogo. Ela não deve ser entendida a partir de uma única categoria de índices, e, sim, ser abordada, na dinâ- mica da troca (que se constrói no decorrer do diálogo e só existe se for provocada, atualizada e confirmada), a partir de um feixe con- vergente de movimentos e de traços linguageiros e não verbais. É nesse sentido que ela pode ser considerada um acontecimento dia- lógico. Trata-se, portanto, mais especificamente, de supor instru- mentos de análise que permitam dar conta dessas configurações dinâmicas e colocar a conivência no conjunto das formas de con- vergência dos interlocutores no diálogo.
Assim, não se pode falar em traços específicos da conivência, mas em um conjunto de índices (significações atmosféricas [François, 1996]) que marcam o implícito, a partilha de saberes, a convergência, o consenso, o alinhamento, a proximidade e o humor. São esses índi- ces verbais e não verbais (os risos, os sorrisos) – os olhares, a ento- nação ou a qualidade da voz não serão considerados neste estudo – dos locutores e dos receptores que serão estudados aqui a fim de fornecer algumas pistas desse humor no discurso infantil.
Esses índices coexistem com uma orientação argumentativa di- vergente, o que mostra que conivência e acordo não devem ser con- fundidos, pois pode haver negociação de desacordo numa relação de proximidade e convergência afetiva:
G (3; 4) mostra seus desenhos à sua mãe, que pede a ele que
conte piadas. A irmã mais velha (C) também participa do diá- logo:
M – Tem algum desenho que você achou engraçado aqui? G – Esse daqui.
M – Esse aí? (surpresa) G – É.
M – Por que que é engraçado? Fala pra mim. G – Porque é vermelho isso, isso e isso. M – Hu::m...
G – É engaçado. M – É bem colorido, né? G – É.
M – E o que que as crianças tão fazendo? G – É:: dando a mão.
M – Dando a mão pra dançar o quê? G – Nada.
M – Dançar qua... G – Mão.
M – Dançar com a (tem o mesmo som de “qua”, início de qua- drilha) mão, não. (rindo)
C – (risos)
M – Dançar quadrilha, lembra? C – Dançar com a mão. (rindo) M – Na festa junina?
C – Eu vou dançar com a minha mão. (G não ri).
Poder-se-ia resumir essa situação no seguinte esquema: au- sência de concordância (da mãe em relação à graça da cor ver- melha), mal-entendido (a criança não entende a pergunta de sua mãe), discordância (a mãe não concorda com o que diz a criança, não foi isso que ela disse) e o resultado: a conivência entre a mãe e criança e, por conseguinte, o humor não se estabelecem.
Um outro ponto a ser ressaltado é o fato de o colorido aqui não ser engraçado, como no fragmento anterior – embora essa situação se passe antes que a anterior. Isso quer dizer que não é o fato em si que
torna o momento um espaço propício para a produção de humor, mas sim o clima que se produz também por outras razões.
É nesse âmbito do implícito e ao mesmo tempo do íntimo, da cumplicidade na interação com o outro, que humor e conivência podem ser relacionados. A presença de brincadeiras e de risos no discurso é forte indício ou grande probabilidade de que exista coni- vência entre os interlocutores – mesmo que o riso, por si só, não seja um elemento suficiente para manifestar essa conivência. Mas se, para que haja conivência, o humor não é necessariamente um pressuposto, para que haja humor – compartilhado – parece ser necessária a presença de dois tipos de conivência:
1) conivência global (um clima geral de brincadeira, uma at- mosfera propícia); e
2) conivência no discurso (os enunciados devem mostrar tam- bém que existe conivência entre os interlocutores).
Voltaremos a elas no momento da análise e da conclusão.