Ainda no âmbito dos modos de encadeamento discursivo, mas dessa vez com vistas à descontinuidade no diálogo, abordaremos a questão da irrupção, do deslocamento, da incongruência e da ano- malia discursiva. E é nesse sentido, por se tratarem de desloca- mentos, que esses encadeamentos nos permitem perceber as diferentes dimensões que estão em jogo na construção do espaço discursivo e da articulação dialógica. Mas será que esses movi- mentos inesperados constituem uma real ruptura no espaço dis- cursivo?
François (1992) defende a existência de um movimento discur- sivo no que se refere à organização dialógica da linguagem, do pen- samento e, mais especificamente, do diálogo desigual (inégal) que liga a criança e o adulto, e que representa muito mais que um ho- mogêneo “desenvolvimento cognitivo”.
A linguagem é lugar de movimento, de surpresa, de desloca- mento, e descrever esse movimento discursivo significa mostrar o que se passa quando se fala, em segunda posição, de algo que acaba de ser dito pelo próprio locutor ou por seu interlocutor, seja ele criança ou adulto. Qualquer que seja sua forma, esse segundo enunciado constitui uma verbalização (mise en mots), ou seja, uma esquematização que opera uma modificação no pré-dado (pré-
-donné), no primeiro enunciado.
Essa verbalização que carrega consigo, ao mesmo tempo, o ob- jeto do qual se fala e a maneira de se falar dele, permite que os sujei- tos circulem de um discurso a outro, que entrem em diferentes jogos de linguagem, já que o movimento é sua principal caracterís- tica. Ao introduzir vários tipos de relação com o conteúdo e com o discurso (do outro ou seu próprio), ela reflete a realidade, seja atra- vés das semelhanças ou das diferenças com os outros discursos, seja por meio de outras apreensões do real (Hudelot, 1997, p.139).
Desse modo, a importância de se realizar uma análise dessas verbalizações, mais que uma análise propriamente de significados, estaria, assim, segundo François, na possibilidade de se considerar que há mais de uma verdade, mais de uma maneira de codificar um dado objeto, e que o diálogo faz sentido. Quando se diz alguma coisa, a significação desse dizer se coloca pela relação entre o dito e o não dito (François, 1996, p.99).
Esse movimento ou, ainda, essa circulação discursiva, como de- nominou Bakhtin, pode se dar enquanto: (a) circulação material, quando a criança retoma/modifica o discurso do adulto; (b) circu- lação “ideal” da significação, quando uma forma linguística as- sume outro significado pelo fato de ser utilizada em situações diferentes das quais ela foi recebida (por exemplo, quando alguém dá ordens a si mesmo ou se faz perguntas); e (c) circulação “mono- lógica”, quando o que faz sentido é a coexistência de dois enun- ciados que não foram feitos para serem colocados juntos.
É no âmbito dessas circulações que François identifica alguns tipos de deslocamentos que podem ser encontrados em textos, diá- logos, narrativas, etc. Há o que ele chama de irrupções, que são os
deslocamentos que se associam ao que acaba de ser dito ao acaso e que, portanto, não foi pré-programado (por exemplo, uma metá- fora, uma brincadeira, uma piada); há também a ruptura, desloca- mento em que não se identifica a ligação com o seu precedente (exemplo: deslocamentos temáticos); e há, finalmente, a desnive- lação, que são todas as trocas de tipos de discurso, mais especifica- mente, deslocamentos de gênero e mundo.
Os deslocamentos de gênero são as mudanças no tipo de enun- ciado e o modo de encadeamento dos mesmos: narrar, descrever, explicar, persuadir, definir, nominalizar... Esses gêneros podem misturar-se entre si, por exemplo, opondo uma narrativa do mundo real a uma do mundo ficcional, e nesse caso teríamos também um deslocamento de mundo. No caso do deslocamento temático, se por um lado é um dos deslocamentos mais banais que há, por outro, é a marca da liberdade do espírito-linguagem como capa- cidade de colocar junto tudo aquilo que aparentemente não faz sentido (junto) porque o elo não vem expresso, mas, consciente ou inconscientemente, se manifesta. Por exemplo, pergunta-se a uma criança o que ela fez no final de semana e ela responde que a mãe dela tem uma nova máquina de lavar roupas. O tema “fim de se- mana” mudou para “a máquina nova da mãe”, mas o não dito pode esconder algo como “ela saiu com a mãe no fim de semana e a mãe comprou uma nova máquina”...
Na verdade, esses deslocamentos parecem se misturar: os des- locamentos de gênero podem ser também de mundo, dependendo do caso e do ponto de vista, os de mundo podem ser de tema... Desse modo, optaremos por falar indistintamente em desloca- mento temático, quando houver deslocamento do tema da rea- lidade para a ficção (imaginário) ou vice-versa – como veremos nos dados (capítulo 5). O que importa é que só pode haver aqui- sição quando houver modificação,20 seja ela simplificação ou des-
locamento.
20. Essa modificação, na concepção de François, é mais importante que a própria imitação, ou, como ele prefere, a retomada.
No que se refere à criança, especificamente, François afirma que pode haver também deslocamentos de ponto de vista (ou de lugar), isto é, movimentos que se referem à maneira de enxergar o mundo e que podem aparecer sob a forma de observações, imita- ções, jogos de linguagem, de acordo com o interlocutor, e desloca- mentos-retificação, cujos movimentos pelos quais o discurso se constrói o deslocam um pouco em relação ao discurso do outro.
Não são as regras nem os condicionamentos que ensinam uma criança a falar, mas as retomadas-modificações, tendo em vista que, quando uma criança recebe palavras ou expressões, por exem- plo, não se pode prever o que ela produzirá.
As constantes modificações de posicionamento do sujeito dian- te de suas produções e deslocamentos, e que são decorrentes das diversas atividades nas quais ele está engajado, dão à linguagem um caráter descontínuo, como se o “fio do discurso” fosse uma linha permeada de interrupções.
A incongruência e a irrupção
A noção de incongruência na língua francesa está ligada à ideia social, ou seja, ao que é inconveniente, o não saber em relação à vida, a não conformidade em relação aos usos. O riso da incon- gruência se deve a uma inadaptação, ao ridículo ou ainda à ex- pressão de um sentimento de superioridade (Bergson, 1900).
As incongruências podem ser em relação a um acontecimento e a um contraste diante das expectativas (“isso não pode”). Essas ex- pectativas se traduzem tendo como referência a experiência pes- soal, pela lembrança das normas em termos gerais (“isso não é normal”), ou ainda pela descrição do que deveria ser. De qualquer modo, quaisquer que sejam as expectativas, a criança admite a vio- lação das normas como fonte de divertimento, de prazer.
Nós nos restringiremos a dizer que a incongruência está ligada à ideia do estranho, do inesperado, do insólito, do anormal (ou da anormalidade) e da surpresa, entre outros, mas, sobretudo, ela oca- siona uma divergência (em oposição à convergência) ou uma ir- rupção no encadeamento discursivo.
No âmbito da psicologia, em se tratando de palavras, ideias, re- presentações de acontecimentos ou de objetos, a incongruência representa o desrespeito às relações habituais entre as coisas.
Para compreendermos melhor seu processo, imaginemos uma determinada situação que gera no sujeito algumas expectativas, ad- vindas de sua experiência de mundo, e de repente essas expec tativas não se confirmam, são violadas, e aí está instalada a incongruência. O resultado é a irrupção no discurso, o efeito é de surpresa e a ma- nifestação se dá através de um comportamento emocional, ou seja, um riso ou um sorriso.
Segundo Cueto (1999), para que seja humor, faz falta o sério. O sério e a graça são ridículos um para outro – segundo a perspectiva do outro –, mas o humor no sentido estrito é a composição de am- bos os pontos de vista, sua incongruente incongruência; o humor é a insensatez...
Essa incongruência corresponde ao que Emelina (1996) chamou – e nós adotaremos – de anomalia. Segundo ela, só pode haver cô- mico onde houver anomalia (não normal) no que se refere ao uso, ao comportamento esperado e previsível em determinadas circuns- tâncias, com determinadas pessoas, em função de seus hábitos mo- rais e mentais. São as roupas, o que se fala, o que se faz, etc., que não condizem com aquilo que conhecemos como “normal” – e, no caso, o que a criança conhece enquanto tal e que muitas vezes não coincide com a noção de “normal” do adulto.
Assim, para podermos rir, é preciso manter uma distância em relação ao alvo do riso, é preciso que a mudança de mundo em que vivemos seja tomada a distância, não “aberrante” em si, mas consi- derada como tal.
Diante disso, as anomalias são classificadas em:
1) Físicas: aqui as crianças se divertem com a percepção de ano- malias na aparência de personagens, pessoas ou objetos. Elas se atêm a detalhes dos elementos. O caráter cômico se justifica pela ideia de ruptura diante das expectativas. O ridículo nesses casos está ligado ao estranho para produzir o efeito cômico. Trata-se de
um efeito do qual o adulto também ri diante do disfarce carnava- lesco e caricatural – descrito por Bakhtin (ver item 1.1). Elas podem se manifestar através:
a) da supressão de características de personagens humanos ou animais;
b) da alteração das dimensões (desproporção, exagero, como em Alice no país das maravilhas);
c) de deformações dos seres e dos objetos (exemplo: mulher feia); e
d) da transferência de características: personificação ou hu- manização dos animais e “animalização” dos homens. 2) Comportamentais: trata-se das ações de seres humanos e ani- mais que estão em desacordo, no nível da percepção (vai do insólito à impossibilidade material), em relação às condutas habituais. Re- ferem-se:
a) ao insólito gestual: gesto ou posturas cômicas; são na maioria das vezes propositais e têm qualidade lúdica; usado na imitação cômica não como um fim em si, mas como meio;
b) ao não habitual, o absurdo: condutas em ruptura com o que a criança conhece do mundo que o cerca; são as estra- nhas condutas dos seres (faz de conta, troca de papéis entre homens e animais); acontecimentos absurdos, isto é, que não têm razão de ser; o não habitual funcionamento dos objetos (a criança se diverte por constatar um disfunciona- mento); inverossímil, impossível (incompatibilidade total nos esquemas disponíveis – “isso não existe”). O episódio que segue ilustra o não habitual do objeto – além do fato de confimar que muitas vezes o que faz a criança rir não tem o mesmo efeito no adulto:
G (3; 11 anos) diz à mãe e à irmã:
G – Olha, eu fiz uma música: Lá vem o te:::to, lá vem o
c) às não convenções sociais: incongruência num nível mais abstrato, uma infração às normas sociais (homens fazem isso, mulheres aquilo; não é permitido atravessar quando o semáforo está verde, etc.). Para Bariaud, elas só aparece ram a partir dos 9 anos. Mas não é o que encontramos na fala de
G (3; 11 anos):
Ao ver a mãe subindo num muro para sentar-se, G diz: G – Ô, mãe, você tá louca?
M – Por quê?
G – Porque você é grandona... (risos)
A criança ri da anormalidade do comportamento da mãe, afinal “gente grande” não sobe em muro...
Assim, ainda que não tenhamos analisado os dados, na medida em que os deslocamentos podem dar continuidade ao discurso, através das retomadas, mudanças de temas, entre outros, podemos supor que nem toda irrupção cause uma ruptura ou uma inter- rupção no diálogo. De qualquer modo, voltaremos a essa questão no capítulo 5 e na Conclusão.
Diante do exposto neste capítulo, uma de nossas preocupações neste trabalho – e um dos fatores que diferenciam, sobretudo, nossa análise dos demais estudos realizados sobre o assunto – é mostrar esse movimento discursivo que caracteriza o diálogo como um todo, não apenas em termos de continuidade (conivência, condutas expli- cativas), mas também de descontinuidade (irrupções, incongruên- cias, anomalias). Diante das possibilidades variadas de sentido dos enunciados e da mistura de elementos na verbalização é que se faz necessário o trabalho interpretativo do pesquisador/analisador.