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Na Análise do Comportamento, a identificação das relações de controle de estímulo (BAUM, 1999; DE ROSE, 2004) designa o que, na terminologia educacional, seria denominada raciocínios subjacentes às resoluções públicas de problemas e exercícios. Em termos técnicos, pesquisadores filiados à Análise do Comportamento têm despendido expressivos esforços para desenvolver procedimentos que permitam identificar e dar visibilidade para os modos como o aprendiz mantém contato com as condições de ensino (verbais ou não-verbais), ou seja, com a produção de medidas comportamentais que definiriam ou "traduziriam" a interpretação que o aprendiz fez das condições de ensino dispostas, independentemente de outras medidas objetivas (por exemplo, a freqüência de acertos ou de erros) de restrito valor informativo quanto às propriedades do raciocínio ou das relações de controle de estímulos que sustentam ou mostram-se subjacentes a tais medidas quantitativas (SERNA et al., 2004).

Deste modo, nas análises funcionais preconizadas pela Análise do Comportamento, a relação entre os antecedentes e as respostas emitidas, é denominada controle de estímulos, pois “a relação entre antecedentes e a resposta poderia ser traduzida, em linguagem corrente, como uma análise das pistas em que um indivíduo se baseia para uma determinada resposta” (DE ROSE, 2004, p. 106) e dessa forma, uma análise da seqüência das respostas conduziria até os elementos importantes para identificar o raciocínio que levou o indivíduo a uma resposta. Portanto:

O termo controle, neste caso, significa apenas que a resposta é afetada sistematicamente pela presença e pela variação de determinados estímulos. Esta forma de controle, portanto, é fundamental para que o comportamento de qualquer indivíduo seja funcional em um determinado meio ambiente, sendo o comportamento sensível a variações no ambiente e flexível para responder a novos aspectos do ambiente que introduzam novas demandas (DE ROSE, 2004, p. 106).

Com isso, verifica-se que a sensibilidade do comportamento ao ambiente está sob influencia de vários aspectos do estímulo, no entanto, uma dada resposta de um indivíduo provavelmente não será influenciada por todos os aspectos da situação. Ou seja, “em condições normais, as respostas tendem a ficar sob controle de aspectos restritos da situação total”, e o modo ou as propriedades com as quais determinadas dimensões do ambiente

exercem controle sobre uma resposta particular é definido por topografia de controle de

estímulos (DE ROSE, 2004, p.107). Então, no processo de ensino e de aprendizagem, as

diferentes topografias de controle de estímulo correspondem a diferentes pistas que guiam o aluno a emitir determinados comportamentos. Cabe, portanto, ao professor estabelecer relação de funcionalidade entre os objetivos educacionais e as condições de ensino e de avaliação disponibilizadas, planejando contingências de reforçamento adequadas ao conhecimento do repertório comportamental já adquirido pelo aluno e das conseqüências que lhe são reforçadoras, para que o aluno tenha condições de emitir os comportamentos selecionados sob controle das condições ou das variáveis que definem os objetivos educacionais pretendidos pelo docente (LUNA, 2002).

A Análise do Comportamento preconiza, portanto, que o processo de ensinar se refere a uma categoria de comportamentos que caracteriza o que o professor “faz” e as efetivas modificações nas relações que definiriam os repertórios prévios dos alunos (KUBO; BOTOMÉ, 2001). A partir da demarcação das principais características que definem a interpretação da Análise do Comportamento, uma tarefa adicional consiste justamente em avaliar o alcance destas características na investigação de processos de ensino e de aprendizagem de conteúdos curriculares.

Em suma, a Análise do Comportamento constituiu, nas últimas décadas, significativo acervo de trabalhos que expressam contribuições importantes para a compreensão de propriedades funcionais de repertórios desafiadores (agressivos, auto-lesivos), bem como de repertórios socialmente desejáveis (repertórios pró-sociais), no âmbito da Educação Especial. Revisões da literatura (FOX; DAVIS, 2005; KENNEDY, 2004; KRATOCHWILL; MARTENS, 1994; RODRIGUES, 2005) indicam que parte de tais contribuições focalizaram diretamente os repertórios dos alunos, enquanto que, para parte das investigações, os sujeitos foram profissionais com distintas formações acadêmicas, sendo que o objetivo das investigações esteve concentrado no ensino e na aprendizagem de repertórios que definem a execução de análises funcionais experimentais e descritivas.

A presente pesquisa procurou ampliar o foco das contribuições da Análise do Comportamento, priorizando a identificação de propriedades funcionais dos repertórios que definem as interações estabelecidas em contexto escolar no ensino e na aprendizagem de conteúdos curriculares de Língua Portuguesa. Esta proposta de ampliação, em termos genéricos, poderia melhor qualificar a compreensão dos processos comportamentais envolvidos nas situações de ensino escolar, como também, em consonância com as indicações formuladas por Rodrigues (2005), concretizar contribuições da Análise do Comportamento no

tratamento das diretrizes e das necessidades formativas estabelecidas nas reformas educacionais, em especial, em termos do desenvolvimento profissional de professores.

1.4 OBJETIVOS

Esta pesquisa sustenta, de modo mais específico, os seguintes objetivos:

1) Identificar, descrever e analisar repertórios operantes das professoras no ensino de conteúdos curriculares de Língua Portuguesa. O foco deste primeiro objetivo foi concentrado: a) Na identificação de propriedades dos comportamentos das professoras que definem relações entre objetivos de ensino e práticas de ensino e de avaliação; b) Nos comportamentos que definem a interpretação das medidas comportamentais de aprendizagem em termos de relações de controle de estímulos pretendidos e observados;

2) Avaliar e caracterizar possíveis contribuições do planejamento conjunto entre pesquisadora e professora de unidades didáticas de conteúdos curriculares de Língua Portuguesa. A ênfase recaiu em investigar se este planejamento conjunto, fundamentado em conceitos da Análise do Comportamento, mostrar-se-ia funcionalmente relacionado com a manutenção ou com mudanças em propriedades dos repertórios das professoras registrados anteriormente.

2 MÉTODO

2.1 PARTICIPANTES

A pesquisa realizada contou com a participação de três professoras, que lecionavam na 4ª série do ensino fundamental, lotadas em duas escolas da rede pública estadual (duas professoras lotadas na mesma escola) com no mínimo 10 anos de experiência docente. Cada professora indicou, em entrevista com a pesquisadora (Entrevista Inicial – Apêndice 1), no mínimo um e no máximo três alunos, avaliados pelas professoras como crianças com dificuldades de acompanhamento curricular, para que fosse viável identificar, descrever e analisar a prática docente priorizando a amostra de alunos indicada. A Professora 1 (P1) indicou três alunos (identificados como C, V e C) considerados com dificuldades para ler (leitura silábica), interpretar e escrever (produzir) textos. A Professora 2 (P2) indicou dois alunos (identificados como Cr e Nt) considerados alunas desatentas, dispersivas, com escrita fragmentada (frases mal formadas e sem coerência) com troca de letras nas palavras. E a Professora 3 (P3) indicou também dois alunos (identificados como B e E), com dificuldades para escrever ou produzir textos, bem como cooperar nas atividades grupais. Dessa forma, foram computadas a participação de sete alunos durante o procedimento de coleta de dados.

Para o recrutamento das professoras uma cópia do projeto foi entregue e discutida com a direção e a coordenação pedagógica das escolas. Posteriormente, a direção e coordenação pedagógica da escola esclareceram as professoras sobre a pesquisa. As professoras participantes foram aquelas que, após tal esclarecimento, manifestaram interesse na pesquisa. Mediante a manifestação de interesse, as professoras, em reunião com a pesquisadora, foram esclarecidas sobre as dúvidas que possuíam quanto à seqüência das atividades previstas, uso do material de coleta de dados (câmera de vídeo e gravador de áudio), presença dos pesquisadores em sala de aula, tempo a ser disponibilizado pelas professoras e local onde seriam realizadas as entrevistas.

Depois de realizados os acordos entre pesquisadora e professoras, a participação das professoras foi oficializada com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em conformidade com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (APÊNDICE – 1, CD-ROM). Cópia deste projeto foi igualmente submetida, com aprovação, ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências/UNESP-Bauru. Os procedimentos de descrição e análise dos dados foram efetuados com as três professoras participantes (P1, P2 e P3) nas interações em sala de aula com os alunos indicados.

2.2 MATERIAL

Foram utilizados os seguintes materiais:

- para filmagens das aulas: Filmadora JVC Compact VHS, modelo GRAX900;

- para gravação em áudio das entrevistas: mini gravador cassete Panasonic FP Fast e MP3 Foston Digital Life;

- Roteiros de entrevista com perguntas e tabelas que orientaram a execução das entrevistas.