• No results found

Demokrati og to syn på demokrati

A turma se constituía de 38 alunos de 4ª série, com faixa etária de 09 a 11 anos, dentre os quais nenhum era repetente. Todos eles, sem exceção, eram alunos da escola desde a 1ª série.

Apesar de não terem sido alunos de Lia no ano anterior, ela conhecia quase todos. Excetuando-se um aluno19, os demais tinham sido da mesma turma na 3ª série.

As crianças residiam perto da escola, num bairro da periferia da cidade. Encontravam-se com freqüência em eventos não escolares. A horta comunitária, a padaria, a farmácia e outros pontos próximos à escola eram presentes em seu percurso diário, o que ficava evidente nas conversas em sala. Lia também morava perto da escola, motivo pelo qual conhecia detalhadamente a vida e os problemas de muitos dos alunos.

Vários alunos tinham a obrigação vespertina de tomar conta de irmãos mais novos, enquanto os pais e mães trabalhavam. A renda familiar da maior parte dos moradores do bairro não ultrapassava dois salários mínimos.

A realidade sócio-econômica da comunidade, entretanto, não impedia que informações atualizadas e discussões da realidade do país e do mundo fossem sempre levadas por eles para as aulas. Relacionavam textos e acontecimentos da sala com conhecimentos que adquiriam fora dela, repensando e contextualizando as aprendizagens e experiências no contexto escolar.

Os alunos gostavam muito de Lia e, sempre que ela tinha de se ausentar, reclamavam que não queriam ficar com outra professora. Ela valorizava o que faziam, resgatando sempre sua auto-estima. Levava-os a constantes questionamentos de atitudes que demonstravam autoritarismo e dominação. Sabendo da capacidade deles, ela incentivava a participação e o crescimento em sala de aula.

19

Esse aluno havia sido retirado da turma a que pertencera no ano anterior, pela direção, sob a alegação de indisciplina.

Participativos, envolviam-se quase sempre nas colocações que Lia fazia em sala de aula. A maioria mantinha suas obrigações escolares em dia e uns cobravam de outros mais responsabilidade em relação às mesmas.

Chamavam-me, algumas vezes, às discussões em sala, convite a que eu atendia como observadora participante que era.

2.5 – Meu Lugar na Turma

Ocupei, desde o início, um lugar no fundo da sala, na tentativa de focalizar em vídeo o espaço mais amplo possível, o que me daria uma visão geral do que ali acontecesse. Um outro motivo para essa escolha, foi manter uma distância necessária, para situar meu lugar de pesquisadora da e na turma. A Figura 2.1 detalha minha posição, bem como a dos demais integrantes da turma, nas aulas iniciais. Entretanto, ela apenas ilustra uma configuração espacial, não correspondendo exatamente ao total de 39 carteiras presentes na sala.

Figura 2.1: Mapa da sala

Às vezes mais à esquerda, às vezes mais à direita, procurava a posição que me permitisse visualizar o maior número possível de alunos e a professora, pois

carteiras janelas mesa quadro porta armários eu

identificar o funcionamento coletivo do grupo levaria à identificação das possibilidades de construção pelos sujeitos nele inseridos.

Filmá-los de frente talvez facilitasse o reconhecimento dos mesmos no momento da transcrição de suas falas, mas impediria a focalização da professora, que se constituíra como o eixo norteador da pesquisa, posto que sua postura pedagógica indicaria se e em que aspectos a perspectiva sócio-histórica de construção do conhecimento ancorava sua concepção de aprendizagem e sua prática. Além disso, o posicionamento da câmera no fundo da sala reduziria o nível de inibição dos alunos à filmagem, já que, na maior parte do tempo, não estariam se deparando com a filmadora. Por causa disso, a opção foi a de centralizar as filmagens nesse local, que apesar de não ressaltar os discentes, também não impossibilitava o acompanhamento dos mesmos na construção da dinâmica da turma.

Os dois primeiros dias de aula não foram filmados, atendendo a um pedido de Lia, que temia que a turma se assustasse, já que a prática de filmar – e até mesmo a de pesquisar – uma sala de aula não era comum nem naquela escola nem em outras do município, em que esse tipo de trabalho não tem sido realizado com freqüência.

Pelas notas de campo, então, procurei detalhar tudo o que observei nesses dias. Elas se tornaram o instrumento de registro da coleta de dados desse período.

Na aula inicial, a distância entre as carteiras dos alunos e a mesa da professora era enorme, fenômeno que não se repetiu durante o resto do semestre. Talvez isso possa ser interpretado como um indício de que a relação que Lia estabelecia com os alunos era diferente da adotada pelo restante da escola, uma vez que a arrumação inicial havia sido feita pelas auxiliares de serviços gerais, da forma costumeira.

Chamou minha atenção, também, a escassez de material escrito nas paredes. Esse fenômeno permaneceu por todo o semestre. O pouco material que havia era colocado pela professora do turno da tarde, da turma de 1ª série. Uma

única vez, Lia fez referência a ele: disse que não havia gostado dos ‘enfeites20’, porque eram ‘merchandising da Brahma’.21 Fico pensando que essa ausência de escrita pode estar relacionada à fala de Lia quando dizia não saber alfabetizar. Formada numa faculdade local, em sua graduação houve uma carência com relação à alfabetização. Pesquisar as grades curriculares dos cursos de Letras me fez perceber que esse é um quadro que se repete nas faculdades e universidades da região, uma vez que a alfabetização não se configura como um dos temas que competem a esses cursos.

Desde os primeiros minutos da aula inicial, os alunos apresentaram-se muito atentos. Fui apresentada à turma pela professora e pude conversar com os alunos sobre minha função ali. Aproveitei para falar a respeito das filmagens que pretendia fazer, ao que as crianças reagiram com satisfação.