Protocolo de entrevista à educadora do jardim-de-infância de Zambujeira do Mar
Quando e em que circunstâncias participou em Projectos deste género?
Participei no Projecto das Escolas Rurais do I.C.E. o ano passado e também participei durante 13 anos no Projecto que no princípio foi projecto depois já era uma modalidade de Educação pré-escolar, que era o Pré-Escolar Itinerante. Mas iniciei ainda como Projecto, não estava ainda na lei havia também uma grande ligação com o meio onde estávamos inseridos a trabalhar.
Quando participou o ano passado o que a levou a aderir ao Projecto?
Eu tinha uma grande expectativa em relação ao Projecto porque já tinha ouvido falar dele, porque conhecia o I.C.E. e algumas das suas iniciativas sobretudo da Educação Itinerante e tinha alguma curiosidade em participar e foi isso que me levou a participar. No início do ano lectivo é uma preocupação que tem no seu trabalho, o estabelecer uma boa relação com a comunidade?
Sim no início e durante todo o ano, mas no início é marcante, aliás começa ma própria inscrição das crianças e depois na 1ª reunião em que de certa forma também damos a entender aos pais que tipo de relação é que queremos ter com eles e com as famílias e com o meio.
Prefere esperar que as pessoas tomem a iniciativa de se aproximarem da escola? Não me refiro só aos pais, mas também em relação às outras pessoas da comunidade tem uma certa abertura em relação a isso?
Sim eu acho que não fico á espera das pessoas tomem essa iniciativa não é? Eu acho que a escola tem que se aproximar dos pais e não tem que estar à espera que os pais se aproximem da escola.
Mas eu referia-me assim a outras pessoas da comunidade.
Ah! Sim sem dúvida no sentido em que quando estou a trabalhar procuro também o que há dentro da Comunidade que pode ter interesse para o meu trabalho e que vai contribuir para o enriquecer nesse sentido, há pessoas que sabem coisas que me interessam e que elas podem participar em actividades, como há espaços dentro da comunidade que também são importantes.
Em relação aos pais, o envolvimento dos pais não se limita em vir à escola para falar sobre o desempenho escolar dos meninos, também se estende a outras actividades? Sim os pais já têm participado em actividades que eles próprios vêm desenvolver, quando se trata de uma coisa que eles sabem fazer e que Vêm mostrar, participam também às vezes fazendo coisas que são necessárias, é um envolvimento que é quase diário. Todos os dias troco informações de forma muito informal e depois as coisas acontecem muito naturalmente porque precisamos disto e a mãe diz que traz, ou
precisamos que alguém venha fazer isto ou aquilo, e há sempre uma mãe ou uma avó que se disponibiliza para fazer, acaba por ser uma coisa que surge quase naturalmente. Assim em relação aos pais, o envolvimento dos pais não se limita ao Projecto das Escolas Rurais?
Em relação ao Projecto eu gosto das Escolas Rurais, eu gosto da filosofia do projecto e acho que a minha forma de trabalhar tem a ver com essa filosofia, o que eu fiz foi trabalhar como sempre trabalhei, em ligação com os pais e comunidade, fi-lo durante todo o ano independentemente do Projecto das Escolas Rurais. Não me fixei na questão do “Dia Diferente”, pois acho que deve haver uma ligação com a comunidade ao longo de todo o ano. Portanto identifico-me com o Projecto e é a minha forma de trabalhar independentemente de gostar do Projecto ou não.
Em relação às pessoas da comunidade também procurou envolvê-las de alguma forma? Sim claro no “Dia Diferente” as pessoas envolveram-se, o “Dia “diferente do 1º ciclo foi aqui na Zambujeira, toda a gente se organizou para fazer o almoço e para arranjar os pratos para o almoço portanto nota-se que as pessoas gostam e que envolvem-se... e agora perdi-me um bocadinho...
Gostava que tu referisses se este Projecto traz benefícios para a comunidade? Este género de Projecto que mexe com o envolvimento das pessoas que procura chamar as pessoas de alguma forma a sentirem-se activas.
Sim, eu acho que traz sempre benefícios para a comunidade, na medida em que as pessoas podem participar e envolver-se e porque também chama as pessoas podem participar a um determinado sítio, acaba por dinamizar, agora tudo depende depois das pessoas que estão no Projecto e da forma como o desenvolvem. Porque pode ser uma coisa pontual ou pode ser marcante ao longo do ano.
Sente que o seu trabalho tem contribuído para a valorização da comunidade?
Eu acho que sim, eu estou cá só há um ano, isso se calhar é um trabalho de vários anos mas eu penso que contribuo, tal como uma série de gente aqui da Zambujeira para valorizar esta comunidade.
E em relação a pessoas mais idosas, Pensas que também tens contribuído para que eles se sintam valorizados?
Sim, a contribuição das pessoas mais idosas, é importantíssima porque infelizmente há coisas que só elas é que sabem fazer, está-se a perder um bocado a transmissão desses saberes. Muitas vezes nós precisamos de alguém que saiba por exemplo fazer o pão, e onde é que nós vamos, é sempre às pessoas de idade e às avós ou aos avôs quando é outras coisas mais masculinas, não há dúvida.
Então o que é que um Projecto deste género traz de importante para os adultos/idosos? Traz no sentido em que eles estão a ser valorizados nos saberes que têm se calhar para muita gente já estariam esquecidos, ou já não interessam porque estamos a viver outro
tempo, não eles são chamados a mostrar o que sabem, é importante por outro lado, possibilita-lhes estar com crianças. Acho que é importante as pessoas de idade poderem estar com crianças, se bem que muitas tenham netos, mas às vezes essas ligações não são assim tão ... também há muitos velhotes que estão sozinhos, o facto de eles poderem vir à escola, estarem com as crianças que são um motivo de alegria, acho que lhes dá alegria também.
Como pensa que se processa a “Troca de Saberes entre Gerações”? Em que género de actividades? É que isso pode ocorrer?
Eu acho que isso ocorre quando as actividades englobam várias faixas etárias e também tem a ver com a forma como elas se desenvolvem, como as deixamos desenvolver de forma a que cada um possa participar e mostram o que sabe, são actividades que não podem ser demasiado estruturadas, se calhar fora da escola, fora dos muros da escola de forma a possibilitar esse contributo, essa partilha no fundo é uma partilha.
Os adultos e idosos por seu lado, aprendem uma leveza que já não têm, uma alegria e espontaneidade, mais facilmente as crianças dão isso às pessoas de idade e pessoas de idade, são pessoas que têm determinados saberes, portanto contribuem para nos apercebermos que há um passado que estamos aqui, que agora fazemos desta maneira, mas que já se fez daquela e percebermos um bocado o nosso passado.
Assim de um modo geral quais são as vantagens de se aproveitar os conhecimentos dos adultos/idosos na educação das crianças?
Para já porque nos mostram muitas formas diferentes de ver as coisas, porque as pessoas idosas já tiveram muitas experiências, portanto mostram-nos a realidade de várias maneiras e mostram-nos a realidade de várias maneiras e mostram-nos outras formas de falar às vezes é uma riqueza enorme, em termos de património.
Assim para os adultos/idosos esta troca de saberes é algo que é muito importante? Nestes meios mais pequenos sim é muito bonito, quando saímos ou andamos na rua, todas as pessoas de idade começam-se logo a rir, metem-se com as crianças, dizem coisas, isto em todos os sítios em que já trabalhei. Sobretudo nos sítios mais isolados, mais despovoados, onde há idoso sozinhos, mais eles valorizam esse ver as crianças na rua verem que há crianças naquele sítio.
E agora pessoalmente para si o que tem representado esta troca o que aprendeu com ela? Aprendi muito, no sentido de perceber que não estou, eu de um lado e os pais, a família e a comunidade do outro, isso aprendi. É uma coisa que se vai aprendendo com o tempo e que às vezes no início temos um bocado de medo de estarmos a ser questionados pelos pais e não estamos todos do mesmo lado, isso aprendi portanto o que nos interessa a nós é educar a criança, é que o jardim tenha um bom ambiente e consigamos falar uns com os outros. E o objectivo é o desenvolvimento da criança, o bem-estar dela, é importante chegar a esse patamar. Portanto estamos todos no mesmo, todos do mesmo lado depois partindo daí é perceber que eu aprendo, eles também aprendem comigo. Eu posso ser “especialista” em educação de infância, mas depois eles é que conhecem os filhos sobretudo no 1º ano quando chegam, eles é que os conhecem, depois eles também têm saberes e também são especialistas em muitas coisas e portanto não faz sentido, eu sei
mais que tu ou ele é que sabe. Faz sentido é conversarmos e vermos como é que vamos fazer isto, quando há um problema, o que é que acha. Portanto uma questão de dialogar, no sentido que não há ninguém que saiba mais mas que aprendemos uns com os outros. Assim o Projecto das “Escolas Rurais” em termos de “aprendizagem ao longo da vida, contribui para isso?
Contribui, elas são chamadas a participar tem que utilizar conhecimentos e às vezes o mais importante nestas idades, e a postura de formação ao Longo da Vida não é os conteúdos, é mais a capacidade de estar alerta, de aprender e participar.
E par si pessoalmente, o projecto também contribuiu para a sua educação permanente? Para mim essa postura, (não posso dizer o Projecto, porque só trabalhei nele um ano), mas é também a minha filosofia, a minha forma de trabalhar, desde que, comecei a trabalhar no Pré-Escolar itinerante e que tinha um trabalho muito com a comunidade e famílias e neste momento esta postura é essencial e tem que ser mesmo assim.