Kapittel 6: Tore og hans pårørende, «… det kunne kanskje blitt sånn i alle tilfeller»
6.3.2 Opplæring – med mål om «selvstendighet og mestring»
Trouxemos algumas considerações sobre o registro e a elaboração de relatórios de atendimento a partir do exame de textos referentes ao campo da Psicopedagogia, o que nos levou, também, a evidenciar algumas características do gênero e a mencionar o conceito de narrador escriptor ou narrador como voz proposto por Dahlet (2006). Apontamos, também, para algumas especificidades da esfera de circulação dos relatórios que compõem nosso corpus, a supervisão acadêmica.
Passaremos, em seguida, ao exame de duas obras sobre a Psicanálise que abordam a escrita da clínica, já que, como mencionamos anteriormente, esse campo está em diálogo com a Psicopedagogia.
A obra Escrever a clínica, de Renato Mezan (1998), surge de um curso sobre questões da escrita realizado pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. É resultado da reelaboração de apostilas que tiveram sua origem na transcrição e edição das aulas ministradas pelo autor.
Mezan (idem) propõe, como escriba e leitor de textos psi, uma reflexão sobre a elaboração de textos referentes à “prática cotidiana do psicanalista e sua transposição para o texto escrito” (p. 9), numa abordagem que leva em conta desde a elaboração de relatos de casos até a produção de uma tese de doutorado.
Interessam-nos, em particular, as reflexões do autor sobre os registros elaborados por Freud a respeito do paciente que hoje conhecemos como “O homem dos ratos”, já que Mezan (idem) dá especial atenção às formas pelas quais Freud cita o discurso do paciente. No entanto, toda a obra é permeada por uma preocupação, seja do ponto de vista do Mezan escritor, seja do ponto de vista do Mezan leitor, com a presença de diversas vozes nos textos de caráter psi.
O volume é organizado em 16 capítulos ou “aulas”. O discurso sobre Freud e “o homem dos ratos” ocupa as aulas cinco, seis e sete. Nas aulas preparatórias, anteriores à análise dos escritos de Freud, Mezan (1998) analisa dois textos: um anúncio publicitário e um artigo, este de sua própria autoria. O
início de Escrever a clínica, dedicado à análise desse anúncio, é pontuado por uma preocupação do autor em apontar erros gramaticais e de construção textual, numa abordagem bastante estruturalista, que se atém, ao nível micro de um texto (cf. MEZAN, 1998:29). O psicanalista afirma, no início da aula 1, que o texto que constitui o corpus é uma monstruosidade, uma prova de que o português é uma língua em extinção (idem, p. 15), afirmação com a qual não podemos concordar. Abstemo-nos dessa discussão neste trabalho, registrando, porém, que nossa fundamentação teórica não nos permitiria endossar tal julgamento, baseado na normatividade. Há, é verdade, marcas de oralidade presentes no texto que o desqualificam para sua esfera de circulação, o que não nos parece ser uma prova da inadiável extinção do português.
O texto em questão tem realmente muitos problemas e serve bem ao propósito de gerar uma discussão entre o professor Mezan e seus alunos sobre eufonia, pontuação, divisão em parágrafos.
Em seguida, a obra traz uma reflexão sobre as etapas da criação verbal. Para tanto, o qutor elege o artigo de sua autoria, “Tempo de Muda”, publicado em 1995 na revista Percurso. Seu foco, nesta etapa, desloca-se das questões estritamente linguísticas para as estilísticas e composicionais, e a análise macro da construção do texto “Tempo de Muda” já traz algumas reflexões sobre a alteridade discursiva, embora o autor não utilize essa terminologia. Usando outros termos, explica a cadeia enunciativa da qual seu texto é um elo, partindo da ideia de explorar a dor da morte do pai como um fio condutor do tema “dor e arte”:
Seguindo esse fio, pensei em algumas obras escritas, pensadas ou elaboradas – assim como a Interpretação dos Sonhos – na sequência da morte do pai. O primeiro texto é o Hamlet de Shakespeare, o segundo é a ópera Don Giovanni, de Mozart; e uma obra que não coloquei aqui, só me lembrei depois: o quadro de Van Gogh, Os comedores de batata [...] (MEZAN, 1998:34).
Esse anúncio de discursos que possivelmente atravessarão o artigo “Tempo de muda”, feito na “Aula 2”, desenvolve-se nos capítulos ou aulas seguintes, em que o autor disseca, de forma magistral, a tessitura de seu próprio texto. Não corresponde aos objetivos de nosso trabalho acompanhar tal raciocínio de maneira integral, mas podemos dizer que, ao esclarecer as fases que compõem a elaboração de seu texto, Mezan (1998) revela sua
preocupação, como autor, com a ordem de aparição das vozes constitutivas do trabalho e com as formas de evidenciar suas relações. O autor declara, também, a quais de seus trabalhos anteriores (que batiza de “capital acumulado”) poderá recorrer para desenvolver o tema a que se propôs. Revela-se, assim, uma heterogeneidade singular: a de Mezan dialogando consigo mesmo.
A preocupação com a heterogeneidade permeia todo o livro, sendo central nos capítulos sobre os quais vamos nos deter, intitulados “Aula 5”, “Aula 6” e “Aula 7”. Ao investigar a forma como Freud escrevia sua clínica e cotejar os escritos do mestre de Viena com algumas publicações sobre “o homem dos ratos”, Mezan (1998) questiona em muitos pontos como a forma de citação pode criar diferentes sentidos.
A proposta de discussão sobre a escrita desse caso analisado por Freud é exposta no início do capítulo 5, em que há alguns detalhes sobre as particularidades dos registros em questão:
A aula de hoje e as próximas duas serão dedicadas a uma comparação entre a versão publicada do caso do Homem dos Ratos e o que se chama Original Record deste mesmo caso. Vocês sabem que Freud tomava nota depois de cada sessão deste paciente; estas notas estão publicadas no volume X da Standard Edition, sobre o nome Original Record – registro original – destas sessões.
Quero seguir a transposição do que há de mais próximo à escuta – as notas que Freud redigia logo depois que o paciente ia embora – até a elaboração disso no caso publicado, o que ficou ou não de fora, etc. (MEZAN, 1998:117).
O autor, assim, traz alguns temas que permearão os capítulos seguintes e que nos interessam particularmente: há registros da sessão, “próximos à escuta” e elaboração desses registros para o caso publicado. Fazendo um paralelo com nosso corpus, há registros feitos pela estagiária que ficava atrás do espelho, próximos da escuta, e a posterior elaboração de relatórios para a supervisão. Há também os relatórios feitos pelas próprias pessoas que atuavam na situação clínica, em que percebemos uma menor quantidade de transcrição de diálogos (cf. seção 3.4.1).
Voltando ao trabalho de Mezan (1998), o autor explicita os autores com quem irá dialogar no capítulo: Patrick Mahony, cuja obra, Freud e o Homem dos Ratos, considera incluir “uma supervisão póstuma do trabalho de Freud” e Pierre e Elza Hawelka, responsáveis pela versão franco-alemã dos Original
Records, ressaltado que seu interesse é “a transposição do que se passa na sessão para o texto escrito”:
Vamos ver que inicialmente há uma anotação quase literal daquilo que o paciente diz. Ela já vem, contudo, entremeada com alguma elaboração por parte de Freud, e isto desde as primeiras sessões. A partir da sessão 8, Freud diz que não vai mais acompanhar a fala literal do paciente, mas basicamente dará um resumo dela. [...] (MEZAN, 1998:118).
Essas observações apontam para uma realidade discursiva pertinente a nosso corpus: há um enunciador-escriptor (DAHLET, 2006) de relatórios clínicos psi que, mesmo anotando da maneira mais fiel possível a fala do setting clínico, já elabora algo sobre o caso ao anotar. Quando esse enunciador tem a dupla função, durante a sessão, de atender e anotar, o volume de transcrições literais diminui.
O psicanalista declara-se interessado justamente nessa relação do escrito com o escutado (MEZAN, 1998:119) e, trazendo reflexões de Elza e Pierre Halweka, aponta uma das características dos manuscritos de Freud: a presença constante de abreviaturas, o que indicaria a expectativa de interlocução de Freud, que escrevia aparentemente, nesses registros, para si mesmo.
Essa relação do escrito com o escutado é constitutiva dos relatórios que compõem o corpus desta investigação. Nos casos A.C., E., e R., como explicaremos adiante (cf. capítulo 3), os registros tinham o objetivo de servir de base para a elaboração de relatórios para o grupo de supervisão do estágio. Não temos acesso aos registros, somente aos relatórios finais. A supervisão póstuma de Freud, segundo Mezan (1998), dá acesso tanto à reprodução dos manuscritos como ao caso publicado, que é diferente da junção de vários relatórios. Algumas das observações de Mezan (idem) baseiam-se na transposição de um enunciado para outro e, também, nas soluções de diferentes traduções do caso.
Feitas essas ressalvas sobre a diferença entre o corpus considerado por Mezan (1998) para suas análises e os limites de nosso trabalho, ressaltamos uma das questões levantadas em Escrever a Clínica que se aplica à nossa pesquisa: as reflexões sobre a citação.
O autor analisa as possibilidades da língua alemã sobre a citação do discurso alheio e afirma que Freud, por vezes, mantém, no Original Records, o
discurso direto do paciente, que, nas publicações do caso, é transformado em discurso indireto. Assim, Mezan (1998), sem ter esse objetivo, traça características do estilo individual do enunciador Freud, que oscila entre a transcrição e a narração, e do estilo de um gênero, que admite essas possibilidades e que tem, nas formas de citação do discurso de outrem, marcas da própria interferência do(s) autor(es) na transposição/narração.
Mais adiante, o autor, ponderando sobre a oscilação entre transcrever e narrar, questiona:
Um estudo realmente detalhado desse texto, em termos filológicos, teria que levar em conta as oscilações do discurso direto para o indireto e vice-versa, e se perguntar por que motivo Freud, em alguns momentos, é levado – eu não diria escolhe, mas é levado – a falar como o Homem dos Ratos, portanto de alguma maneira se identifica com ele, colocando as palavras tais como provavelmente o paciente as pronunciou, enquanto na grande maioria das vezes ele escreve do ponto de vista de quem está contando, e não de quem está vivendo: portanto, na posição de um narrador.
Se ele se coloca na posição de narrador, cabe perguntar quem é seu interlocutor imaginário. Para quem ele está escrevendo isso? De uma maneira jocosa: com quem ele pensa que está falando? (MEZAN, 1998:144). Escrever a clínica, portanto, traz não só uma reflexão sobre os sentidos criados pelas formas de citação de discursos nos textos psi, mas também sobre a questão da relação enunciador/destinatário. Brait (2005) analisa essa relação no artigo “Estilo”, de Bakhtin: conceitos-chave, na qual lembra que é central no conceito bakhtiniano de estilo a relação com o destinatário. Para a autora, Bakhtin:
Vai considerar que o estilo também depende do tipo de relação existente entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal, ou seja, o ouvinte, o leitor, o interlocutor próximo e o imaginado (o real e o presumido), o discurso do outro etc. Mesmo no caso dos gêneros altamente estratificados, sua diversidade deve-se ao fato de eles variarem conforme as circunstâncias, a posição social e o relacionamento pessoal dos parceiros (BRAIT, 2005: 89).
Entendemos que uma das características do gênero “relatório” (cf. seção 2.2 do próximo capítulo) é que autor-criador (BAKHTIN, 2003:6-7) é também um de seus destinatários (aqui, o mesmo já como outro...). Há o destinatário que é o supervisor, ou outro profissional que ajuda o psicopedagogo a entender o caso. Muitas vezes, porém, o próprio profissional que atende um paciente, ao refletir sobre o caso, realiza várias releituras dos registros, que acabam por
desvelar vozes ocultas no discurso. Consideramos a releitura constitutiva desse gênero.
A esse respeito, parece-nos emblemático um enunciado nada acadêmico: o filme “O sexto sentido” (1999), de M. Night Shyamalan, um “novo clássico” do cinema hollywoodiano, em que vemos que a personagem Malcolm Crowe, um psicólogo, encontrar nas gravações das sessões de um antigo paciente as respostas que procura para elucidar o caso do menino Cole, que afirma: “I see dead people”. Nas seguidas visitas ou releituras dessas gravações, de fato, Crowe consegue ouvir vozes presentes na sessão que, até então, ignorara. No filme, essas vozes são de fantasmas. Mas nos relatórios que lemos e relemos, não é isso que acontece? Não encontramos, em determinados momentos, vozes que se ocultavam nos discursos, as vozes dos fantasmas de pacientes (e de nossos próprios fantasmas contratransferenciais)?
Encontrar essas presenças pelas seguidas releituras é um desafio enfrentado psicopedagogo, e nossa proposta de análise discursiva dos relatórios pode trazer uma contribuição a esse desafio. Como veremos no capítulo dedicado às análises do corpus (capítulo 4), as lentes da teoria bakhtiniana revelam tais presenças no contexto narrativo e nos discursos citados dos relatórios.
Outro texto relativo à prática psicanalítica que versa sobre a escrita da clínica é “Escrever relatórios e escrever tese: semelhanças e diferenças”, de Cortezzi Reis, publicado na obra Pesquisando com o método psicanalítico, organizada por Hermann e Lowenkron (2004).
Cortezzi Reis (2004) define relatório como “uma narração de fatos vividos ou observados” (idem, p. 416) que tem algumas características como a necessidade de se preservar a identidade do paciente e a alternância entre o texto narrativo e trechos de “descrições fiéis da fala do paciente e de seu analista, as quais são mencionadas tal e qual foram ditas” (ibidem, p. 417).
A autora aponta, ainda, para uma multiplicidade de vozes e interlocutores que dizem respeito aos relatórios:
Pressupõe-se que tenha existido um sistema de notação no qual várias sessões com o paciente tenham sido anotadas e arquivadas. Essas experiências devem ter sido compartilhadas com o supervisor, que além de
orientar o trabalho analítico também participa da elaboração dessa escrita, como interlocutor.
Na realidade, o Relatório se processa a quatro, pois nessa experiência estão incluídos o paciente, a pessoa que o atende, o analista do analista e o supervisor, que acompanha o relatório. Que quarteto! (CORTEZZI REIS, p. 416).
Dialogando com mais essa obra que versa sobre a feitura de relatórios, percebemos que há inegáveis características do gênero, como a oscilação entre a narrativa e a transcrição fiel, tanto quanto possível, das falas do paciente e do analista ou psicopedagogo.
Também podemos ressaltar a questão dos interlocutores envolvidos: sem dúvida o supervisor e o próprio analista ou psicopedagogo em releituras do caso são interlocutores dos relatórios. O analista do analista, como aponta Cortezzi Reis (2004), parece-nos mais uma presença discursiva, um fantasma do analista, do que um interlocutor direto do relatório enunciado concreto. O paciente, acreditamos, é também uma presença discursiva, já que não é um dos destinatários dos relatórios.
Depois de ter percorrido um caminho que teve início na CBO e desembocou nas obras sobre a escrita da prática psicanalítica, entendemos que é possível pensar na elaboração de relatórios como uma atividade discursiva que compõe a atividade do psicopedagogo. Os relatórios são um tipo relativamente estável de enunciado, ligado a um campo de atividade humana e, portanto, constituem um gênero do discurso sujeito a algumas normas e coerções, como o uso de narrativa e citações, o respeito à preservação da identidade do paciente, entre outras.
Estão em tensão nos relatórios pelo menos as vozes de um enunciador, que transcreve um diálogo oral vivido ou testemunhado, o paciente e o analista ou psicopedagogo. Cada um desses discursos, por sua vez, é atravessado por outros. Puxar alguns fios dessa malha discursiva e analisar os ângulos dialógicos pelos quais a tensão entre as vozes se estabelece é fundamental para atingirmos os objetivos propostos nesta investigação, e, para isso, procederemos a análise dialógica dos relatórios que constituem o corpus.
2 Foco, luz, equipamento: lentes dialógicas para esta investigação
O fotógrafo desengatou da câmara a grande angular, sempre com os olhos fixos no desocupado, e colocou (sentindo o estalo do encaixe nas mãos) a teleobjetiva. Sentiu-se seguro. Focou o rosto distante do desconhecido e lentamente arrastou-o para perto, avaliando a metamorfose daquela face [...]
Tezza Algumas especificidades de nosso objeto de estudo apontaram para a adequação da teoria dialógica que emerge da obra de Bakhtin e seu Círculo como fundamentação teórica capaz de prover categorias de análise pertinentes à nossa investigação.
Dentre essas especificidades, destacamos o fato de os relatórios escritos se organizarem como um discurso que circula numa atividade acadêmica, pertencente a um processo de aprendizagem de um fazer profissional. Essa organização faz com que sejam constituídos de tensões que se estabelecem entre os parceiros discursivos em pelo menos dois níveis: o da sessão em si, em que interagem aprendizes/estagiários e pacientes, e o da interação com o supervisor, em que se destaca o diálogo entre a posição discursiva de aluno que o redator do relatório assume diante de um professor. As tensões ou “ângulos dialógicos” sob quais os parceiros discursivos interagem constituem o objeto da teoria que se infere da obra de Bakhtin ([1963]1990) e seu Círculo.
Uma vez estabelecidas as lentes teóricas através das quais dialogaríamos com nosso objeto, a interação com os relatórios apontou para a pertinência de um estudo pautado nas noções de enunciado, gênero e formas de presença de vozes no discurso, como explicitaremos na metodologia.
Na fase de interpretação, foram centrais noções que fizeram com que reavaliássemos e tivéssemos um novo entendimento de nossas categorias iniciais de análise: autor-criador, autor-contemplador, forma, material, conteúdo. Essas noções convergem para a constituição do conceito de arquitetônica e são propostas por Bakhtin como aspectos do objeto estético em “O Problema do Conteúdo, do Material e da Forma na Criação
Literária”25, ensaio de 1923/1924 e em “O autor e a personagem na
atividade estética”, escrito entre 1924 e 1927.
Neste capítulo, propomo-nos a resgatar a ideia da inter-relação entre os aspectos do objeto estético a partir das elaborações sobre o conceito de arquitetônica presentes em obras de Bakhtin e seu Círculo. Após esse resgate, discorreremos sobre as noções teóricas implicadas nas categorias de análise/interpretação a partir de dois eixos: o dos gêneros do discurso e o das formas de presença do contexto narrativo e dos discursos citados.