4.3 Oppvandring og tilgjengelighet for fiske
4.3.2 Oppholdstider i forskjellige deler av elva
Outro nome fundamental para se compreender os debates sobre o método e a ciência como um todo é o de Thomas Kuhn (1922-1996). Kuhn é o autor de A estrutura das revoluções científicas, publicação que extrapolou a análise dos fundamentos lógicos do método científico, inserindo o cotidiano prático dos cientistas na filosofia e história da ciência. Diferentemente de Popper, Kuhn (2007:19) pretendia sobretudo fazer um relato histórico da evolução da ciência natural: “se a história fosse vista como um repositório para algo mais do que anedotas ou cronologias, poderia produzir uma transformação decisiva na imagem de ciência que atualmente nos domina”. No entanto, em razão da novidade dos argumentos empregados e dos elementos sociais considerados, o modelo de evolução científica esboçado por Thomas Kuhn se transformou rapidamente também em um instrumento analítico e guia metodológico para grande parte da comunidade intelectual (Assis, 1993; Furlan, 2003).
A observação e a experiência podem e devem restringir drasticamente a extensão das crenças admissíveis, porque de outro modo não haveria ciência. Mas não podem, por si só, determinar um conjunto específico de semelhanças e crenças. Um elemento aparentemente arbitrário, composto de acidentes pessoais e históricos, é sempre um ingrediente formador das crenças esposadas por uma comunidade científica específica numa determinada época (Kuhn, 2007:23).
Segundo Chalmers (1993), o modelo de desenvolvimento da ciência moderna de Thomas Kuhn pode ser resumido em três fases: a pré-ciência, quando as atividades de pesquisa estão desorganizadas e ainda não há um pressuposto científico ou matriz disciplinar comum; a ciência normal, etapa em que os pesquisadores compartilham uma determinada concepção de mundo e trabalham conforme um conjunto de regras e procedimentos que os caracterizam como comunidade acadêmica: o “paradigma”; e a crise, quando as dificuldades práticas do fazer ciência fogem do controle da ciência normal e exigem uma nova maneira de se enxergar a realidade e/ou novas técnicas de pesquisa (Kuhn, 2007). Conforme Kuhn (2007), uma determinada atividade de investigação só pode ser considerada uma ciência se houver um paradigma à disposição. A transformação da ciência ocorre em ciclos disciplinares, deixando o estado “normal” sempre que crises insolúveis vêm à tona e voltando à esta condição através da formação de novos paradigmas
mais adequados à realidade que os antigos.
A ciência normal se desorienta seguidamente. E quando isso ocorre – isto é, quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da prática científica – então começam as investigações extraordinárias que finalmente conduzem a profissão a um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência. Os episódios extraordinários nos quais ocorre essa alteração de compromissos profissionais são denominados, neste ensaio, de revoluções científicas (Kuhn, 2007:24) (grifo meu).
O trabalho de Kuhn (2007) pode ser interpretado como uma crítica ao padrão metodológico que Karl Popper procurou desenvolver. Nesse sentido, pode-se destacar três pontos: a tese da incomensurabilidade das teorias, que trouxe para o debate o problema da comparação direta de métodos rivais que possuem princípios ou valores muito distintos. Não há campo de pesquisas neutro e, por isso, a escolha do método não ocorre apenas conforme critérios racionais (Assis, 1993). A necessidade da ciência normal, porque é nessa fase que são feitos os maiores avanços científicos, aos poucos, quando a maior parte da comunidade disciplinar está voltada para a resolução de pequenos “quebra-cabeças”, visando melhorar, ainda mais, a correspondência do seu paradigma com a natureza (Chalmers, 1993); e a presença constante de anomalias nas teorias científicas, sem que isso represente necessariamente crises metodológicas. Kuhn considera como certa a ocorrência de erros de validação, tanto de ordem quantitativa quanto de ordem qualitativa (Furlan, 2003). Segundo Assis (1993:138), os paradigmas contém a teoria mas também os métodos de avaliação (instrumentos, margens de erro, valores, etc) que a comunidade precisa: “o que torna impossível a decisão racional entre paradigmas rivais”.
Não é difícil notar que Popper privilegia os momentos de crise ou ruptura na história das ciências. (...) Kuhn, por sua vez, fez notar primeiro que, dessa forma, elide-se o cotidiano da prática científica, muito mais voltada para atividades 'corriqueiras' de solução de quebra-cabeças no interior do paradigma, o que ressalta a importante relação da ciência com o desenvolvimento de tecnologias. Em segundo, que os grandes acontecimentos na história da ciência não são decisivos no sentido em que Popper procura mostrar, não sendo o destino de uma teoria científica jogado 'em uma ou duas rodadas de cartas', mas muito comum a presença de anomalias na sua comparação com a realidade, interpretadas ora como um problema de quebra-cabeças, isto é, solucionáveis no interior do próprio paradigma, ora simplesmente ignoradas e que portanto não existem experimentos cruciais no desenvolvimento da ciência (Furlan,
2003:131) (grifo do autor).
Obviamente, Thomas Kuhn foi duramente criticado, especialmente, por aqueles que acabou atingindo com seus argumentos. Segundo Furlan (2003), as ideias de Kuhn nem sempre foram discutidas como partes integrantes de uma análise histórica dedicada mais às práticas (externas) do que à lógica (interna) da ciência natural33. Dessa forma, pouco tempo após a publicação de A estrutura das revoluções científicas, os principais termos presentes neste trabalho já podiam ser encontrados em textos sobre arte, psicologia ou ciências sociais (Laudan, 1993).
A importação de termos, na verdade já mal definidos na própria origem, causou mais confusão que resultados positivos. Kuhn não se atém a uma só acepção para cada um deles e essa multiplicidade de sentidos, somada a outros fatores como a aparente acessibilidade do livro quando comparado a outros textos de filosofia da ciência (especialmente os produzidos na esteira do positivismo lógico) e a uma certa necessidade
permanente que as ciências humanas têm de se afirmar como ciências,
levou a uma literatura perdida em detalhes técnicos e alheia às principais questões levantadas pelo autor (Assis, 1993:133) (grifo meu).
Resultado: a “ciência normal”, em particular, foi atacada como se fosse um período falsamente estável tanto em termos teóricos quanto produtivos; o que acabou pintando o retrato de um Thomas Kuhn excessivamente ingênuo. As “revoluções científicas” também foram interpretadas como se fossem os momentos que definiam o progresso científico; o que levou seus críticos à chamá-las de mitos. De uma forma geral, as críticas ao modelo de Kuhn estão relacionadas a um relativismo ou historicismo exagerado – ao ponto de ser chamado por Lakatos (1989) de “irracionalismo”.