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Relativamente às consoantes oclusivas nasais, registam-se apenas 9 desvios. a) Desvios por representação grafemática incorreta de oclusivas nasais a.1. Desvios na representação do fone consonântico [ñ] – as seguintes ocorrências são alguns dos exemplos que ilustram desvios na realização da nasal palatal sonora /ñ/ em Ataque de sílaba. Note-se que estes desvios estão relacionados com as consoantes plurivalentes do tétum que levam à substituição de algumas consoantes portuguesas no discurso mesoletal e basiletal. Por exemplo, o fonema /ñ/, no discurso acroletal, é substituído por /in/ ou /n/ após /i/ (cf. Tabela 44).

Exemplos: conchecimento (PEDL30) <conhecimento>, deseimpeøho (PEDL39)

<desempenho>, ténøu (PEER02) <tenho>, suzinøo (PEVQ05) <sozinho> e gainøar

(PEVQ05) <ganhar>.

a.2. Desvios na representação do fone consonântico [n] – os seguintes exemplos revelam também dificuldades na realização do segmento /n/, talvez porque /i/ é palatal, o que conduz ao desenvolvimento da consoante palatal /nh/.

Exemplos: determinha (PECV02) <determina>, terminha (PEVQ03) <termina>.

a.3. Desvios na representação do fone consonântico [m] – estes desvios atestam também dificuldades na realização da unidade sonora [m], devido à assimilação que sofre por influência da unidade consonântica da sílaba anterior.

153 4.1.1.2.3.FRICATIVAS

Se atentarmos no corpus, as dificuldades na representação das consoantes fricativas (fonemas sibilantes /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/ e fricativos labiodentais /f/ e /v/) resultam num total de 223 desvios, número que é assaz significativo.

a) Desvios por representação grafemática incorreta de fricativas

a.1. Desvios na representação do fone consonântico [s] – em relação à realização do fonema fricativo dento-alveolar não vozeado /s/, registam-se diversas possibilidades de grafias incorretas na transposição da relação fone-fonema/grafema:

a.1.1. Desvios na relação segmento fónico/grafema [s]  <s> - os seguintes desvios devem-se ao facto de o fonema /s/ ser indevida e/ou indistintamente representado pelos grafemas <ç> e <c>.

Exemplos: compreenção (PEDL40) <compreensão>, encina (PEBA03 / PEDL19)

<ensina>.

a.1.2. Desvios na relação segmento fónico/grafema [s]  <c> - os exemplos que se seguem revelam dificuldades na transposição para a grafia do fonema /s/, que aparece representado indevida e/ou indistintamente pelos grafemas <s>, <ç>, <ss>, <z> e <ø>.

Exemplos: Nasional (PEBA03) <Nacional>, sirculação (PEOE02) <circulação>,

conhese (PEDL26) <conhece>, corespondençia (PEDL20) <correspondência>, liçença

(PEBA03) <licença>, prosseso (PEOE01) <processo>, ciênssia (PEDL40) <ciência>, persisar (PEDL24) <precisar>, cruzial (PEDL25) <crucial>, disøiplina (PEAL02 / PEBA03 /

PEDL31 / PEER01 / PEER02) <disciplina>.

a.1.3. Desvios na relação segmento fónico/grafema [s]  <ss> - a grafia do segmento fónico [s] apresenta os desvios <s> e <ç>.

Exemplos: atravesa (PEAL04) <atravessa>, interesante (PEAL01) <interessante>,

clase (PEAL07) <classe>, prosseso (PEOE01) <processo>, profesor (PEDL19 / PEER05)

<professor>, proffição (PEBA03) <profissão>, profisão (PEDL03) <profissão>.

a.1.4. Desvios na relação segmento fónico/grafema [s]  <ç> - estes desvios revelam dificuldades na relação entre a unidade sonora [s] e o grafema <ç>, pois aparecem representados de acordo com as seguintes possibilidades: <c> e <s>.

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Exemplos: educacão (PEVQ02) <educação>, comesou (PEAL06 / PEDL09)

<começou>, servisu (PEER01) <serviço>, comesa (PEER02) <começa>, funsão (PELT04)

<função>, forsa (PECV07) <força>, abansado (PEDL19) <avançado>, relasaun (PEDL30)

<relação>, Graduacaun (PEDL31) <Graduação>, amiacam (PEDL33) <ameaçam>.

A representação dos fonemas sibilantes comporta dificuldades acrescidas

porque, em tétum, o fonema /s/ realiza-se sempre, graficamente, pelo grafema <s>,205

contrariamente ao que pode acontecer em português.

Na grafia portuguesa, a unidade sonora [s] pode assumir múltiplas

representações gráficas (poligrafia206). Por exemplo, esta unidade sonora, [s], pode

representar-se graficamente pelos grafemas <s>, <ss>, <c>, <ç> ou <x>, o que evidencia, portanto, um claro desajuste entre os planos fónico e gráfico, sendo, por isso mesmo, as consoantes sibilantes (alveolares e palatais) bastante produtivas em termos de “erros” ortográficos.

a.2. Desvios na representação do fone consonântico [S] – a transposição para a grafia do fonema /ʃ/ também não se afigura pacífica, dadas as suas possibilidades gráficas: <x>, <ch>, <s>, <z>.

a.2.1. Desvios na relação segmento fónico/grafema [S]  <x> - os desvios são motivados pelo uso de sibilante alveolar /s/, em Coda de sílaba, para

realizar o segmento palatal /S/).207

Exemplos: esprerencia (PEAL02) <experiência>, esplicar (PEDL19 / PEDL27 /

PEER01).

a.2.2. Desvios na relação segmento fónico/grafema [S]  <ch> - em tétum, a consoante [S] é plurivalente, o que significa que a grafia e a pronúncia são diferentes nos discursos acroletal e mesoletal. O exemplo

205

No entanto, em termos fonéticos, HULL & ECCLES (2005) afirmam que “o fonema /s/ tem o alofone [ʃ] na variedade acrolectal do tétum de Díli, uma influência portuguesa neste dialecto. Ocorre na posição final da palavra e antes de consoantes surdas (exemplo: eskola [eʃ’kɔla]).” O fonema [k] admite apenas uma única realização gráfica - o grafema <k> -, contrariamente ao português que, para o fonema [k], admite duas representações gráficas: <c> (quando se seguem os grafemas <a>, <o> ou <u>) ou <qu> (quando se seguem os grafemas <e> ou <i>). Nesta sequência, podemos considerar que se trata de uma situação de poligrafia, visto que o fone [k] admite duas opções de representação gráfica.

206

SANTOS (2012) apresenta uma definição de poligrafia: “Quando a uma única unidade sonora correspondem diferentes grafemas, que se apresentam como equivalentes.”

207

Em tétum, a sequência sonora [eʃ] é representada graficamente pela sequência gráfica <es>, pelo contrário, em português, sempre que se regista em início de palavra a unidade sonora [ʃ], esta pode corresponder, graficamente, às sequências <es> (ex.: escola) ou <ex> (expressão).

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que se segue evidencia claramente essa transferência do fenómeno de substituição da consoante [S]  [s].

Exemplo: asu (PELT01) <acho>.

a.2.3. Desvios na relação segmento fónico/grafema [S]  <s> - os desvios devem-se ao uso incorreto de grafema, em final de palavra, para realizar o segmento palatal /S/.

Exemplos: atravez (PEDL36) <através>, inglesh (PEDL31) <inglês>.

a.2.4. Desvios na relação segmento fónico/grafema [S]  <z> - os desvios devem-se ao uso incorreto de sibilante alveolar /s/, em final de palavra, para realizar o segmento palatal /S/.

Exemplos: talvés (PEBA01 / PEVQ01) <talvez>, ves (PEDL25 / PEER02 / PEVQ03)

<vez>.

a.2.5. Desvios por supressão do segmento fónico [S]- em relação aos casos

de omissão, os desvios explicam-se pela não realização do grafema <s>, correspondente à fricativa não vozeada palatal em Coda de sílaba [S].

Exemplos: eøcola (PELQ06) <escola>, diøciplina (PEAL07 / PEDL38 / PELT01 /

PELT03) <disciplina>, creøcimento (PELT04) <crescimento>, tranømitir (PEDL10)

<transmitir>, professionaliømo (PEDL23) <profissionalismo>, obøtáculo (PEDL25) <obstáculo>.

a.3. Desvios na representação do fone consonântico [z] – em português, existem três possibilidades gráficas para o segmento fónico [z]: <z>, <s> e <x>. No entanto, dificuldades idênticas passam-se em relação à transposição para a grafia do fonema /z/, que suscita muitas dúvidas e confirma que os informantes ainda não têm sistematizado o sistema fonológico do português, conforme atestam os seguintes exemplos:

a.3.1. Desvios na relação segmento fónico/grafema [z]  <z>

Exemplos: Desembro (PEBA04) <dezembro>, pas (PELQ10) <faz>.

a.3.2. Desvios na relação segmento fónico/grafema [z] <s> - estes exemplos comprovam a transferência do sistema fonológico do tétum. Em tétum, quando a unidade sonora é [z], a grafia é sempre <z>, ou seja, há uma

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correspondência direta entre o plano fónico e o plano gráfico, mas o mesmo não acontece em português, pois este segmento sonoro apresenta três opções de representação gráfica: [z] - <z>/<s>/<x>.208

Exemplos: dezenvolvimento (PEBA03) <desenvolvimento>, crize (PEBA06)

<crise>, uzar (PEDL11) <usar>, recidencia (PEBA04) <residência>, presija (PEBA03) <precisa> - talvez por influência da língua indonésia -, aprendijazen (PEDL25) <aprendizagem>, messas (PEDL28) <mesas>, possitivos (PEDL35 / PEOE01) <positivos>, preçencas (PEDL35) <presenças>.

a.4. Desvios na representação do fone consonântico [Z]

a.4.1. Desvios na relação segmento fónico/grafema [Z]  <g> – o exemplo que se segue evidencia uma nítida transferência do tétum, pois a fricativa lâmino-pós-alveolar sonora, /ʒ/, independentemente da vogal seguinte, é representada na grafia sempre como <j>.

Exemplo: sujestão (PECV02) <sugestão>.

a.4.2. Metátese – existe também um caso de metátese de fonemas em sílabas contíguas.

Exemplo: aprendijazen (PEDL25) <aprendizagem>.

a.4.3. Desvios na relação segmento fónico/grafema [Z] <j> – verifica-se também um caso de troca do fonema palatal vozeado, /ʒ/, pelo dento- alveolar não vozeado, /s/.

Exemplo: aisudar (PEER02) <ajudar>.

a.5. Desvios na representação do fone consonântico [f] – a transposição para a grafia do fonema /f/ também suscita algumas dificuldades, conforme se pode observar através dos seguintes exemplos:

a.5.1. Desvios na relação segmento fónico/grafema [f] <f>

Exemplos: invantil (PECV07) <infantil> (troca do fonema labiodental não

vozeado, /f/, pelo vozeado, /v/);

208 De acordo com HULL & ECCLES (2005), “o fonema /z/ – fricativa alveolar sonora – integra a categoria das consoantes

estrangeiras e pode aparecer em posição inicial ou no interior da palavra. Os autores acrescentam ainda que o fonema /z/ pode sofrer um fenómeno de variação, ou seja, alternar com o fonema /ʒ/ quando se passa de um discurso acroletal para um discurso mesoletal (exemplo: /ʒa’nela/ (acroletal) /za’nela/ (mesoletal)), mas que se trata de uma consoante univalente, pois apresenta a mesma pronúncia nas variedades acroletal e mesoletal do tétum.”

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Exemplos: puncões (PEER02) <funções>, pasilitar (PEER02) <facilitar>, pas

(PELQ10) <faz>, pormações (PEVQ02) <formações>, pormal (PEVQ05) <formal> (troca

de fonema fricativo, /f/, por fonema oclusivo, /p/, em início de palavra);

Exemplos: emprenta (PEDL03) <enfrenta>, esporso (PEDL22) <esforço>,

impormacão (PEER02) <informação> (troca de fonema fricativo, /f/, por fonema

oclusivo, /p/, em Ataque de sílaba).

a.5.2. dígrafo consonântico não atestado no PE padrão – registam-se ainda desvios em algumas palavras, muito provavelmente por influência da grafia do inglês. A epêntese de consoante, /f/, em Ataque de sílaba transforma a sequência <ff> num dígrafo não atestado em PE.

Exemplos: officio (PEDL29) <ofício>, proffição (PEBA03) <profissão>.

a.6. Desvios na representação do fone consonântico [v] – a transposição para a grafia do fonema /v/ também suscita algumas dificuldades, conforme se pode observar através dos seguintes exemplos:

a.6.1. Desvios na relação segmento fónico/grafema [v] <v> - em tétum, a consoante [v] é plurivalente, o que significa que a grafia e a pronúncia são diferentes nos discursos acroletal e mesoletal. O exemplo que se segue evidencia claramente essa transferência do fenómeno de substituição da consoante [v]  [b].

Exemplos: responsabel (PEAL03) <responsável>, lebanta (PEBA01) <levanta>,

abansado (PEDL19) <avançado>, febreiro (PEDL27 / PEDL38) <fevereiro>.