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2.1 Ledelse

2.1.1 Oppdragsbasert ledelse (OBL)

Ao procurar discutir questões que julgou negligenciadas pela Filosofia, Bourdieu (2001) dedicou-se, em Meditações Pascalianas, a aprofundar a crítica da razão erudita até o ponto que os questionamentos em geral deixam intocado e a tentar explicitar os pressupostos inscritos na situação de skholè (p.9). Com isso, não só nos convocou a objetivar o próprio sujeito da objetivação (única forma eficaz de reflexão), ou seja, a encarar que o fato de estarmos enredados no mundo nos conforma num certo modo de pensar, como também contribuiu para uma discussão mais aprofundada sobre o inconsciente, definindo-o como

história coletiva que produziu nossas categorias de pensamento e história individual por meio da qual elas nos foram inculcadas. Nesse sentido, segundo o autor, é o estudo da história social das instituições de ensino e da história, esquecida ou recalcada, de nossa relação singular com essas instituições que pode oferecer verdadeiras e importantes revelações (p.19). A skholè é aquilo que torna possível um olhar indiferente ao contexto e aos fins práticos, uma relação distante e distintiva com as palavras e as coisas. Esse tempo liberado das ocupações e das preocupações práticas constitui a condição do exercício escolar e das atividades desligadas da necessidade imediata, como o esporte, o jogo, a produção e a contemplação de obras de arte, bem como todas as formas de especulação gratuita sem outra finalidade a não ser elas próprias (Bourdieu, 2001, p. 23-24).

A situação escolástica, segundo Bourdieu, é um lugar e um momento de leveza social onde os aprendizados, sem móvel econômico real, constituem a ocasião de adquirir por acréscimo, além de tudo o que eles visam transmitir explicitamente, a disposição escolástica e o conjunto dos pressupostos inscritos nas condições sociais que os tornam possíveis.

Aquilo a que Bourdieu, tomando Austin por referência, vai chamar de ponto de vista

escolástico – um ponto de vista muito específico sobre o mundo social que se tornou possível a partir da experiência escolar – desvela que a maior parte das obras humanas que se tem o hábito de considerar como universais (o direito, a ciência, a arte, a moral, a religião, etc.) nada têm de universal. Ao contrário, são absolutamente indissociáveis do ponto de vista que se constituiu a partir da situação escolástica e das condições econômicas e sociais que as tornaram possíveis (Bourdieu, 2011, p. 209).

É que, segundo o autor, somente a escola – forma especial de skholè que permite a conservação e a transmissão de toda skholè anterior – é capaz de produzir as condições indispensáveis para que as condutas a serem ensinadas possam se realizar fora de seu contexto original, sob a forma de “jogos sérios” (remetendo a Platão) e “exercícios gratuitos”, sem referência direta a um efeito útil e sem consequências perigosas. Por estar livre da sanção direta do real, o trabalho escolar pode propor desafios em condições de risco mínimo, configurando-se como uma experiência mental, jogo gratuito que é um fim em si mesmo. Ao agir dessa forma, a escola configura uma perspectiva – ponto de vista único e fixo sobre o qual não se assume ponto de vista – e inculca, ainda, por força do hábito, a “disposição permanente para operar o distanciamento do real diretamente percebido, condição da maioria das construções simbólicas” (Bourdieu, 2001, p.28).

Aqui, para compreender melhor o processo de construção social desse olhar

o mundo que acompanham a diferenciação da ordem econômica e das ordens simbólicas. Com base na análise de Ernest Schachtel de que a criança vai, em seu processo de desenvolvimento, progressivamente deixando os sentidos de proximidade (o tato e o paladar, voltados para os prazeres ou desprazeres imediatos) para atribuir preeminência aos sentidos

de distância (a vista e o ouvido, capazes de estabelecer uma percepção objetiva e ativa do mundo), Bourdieu lança a hipótese de que a conquista da visão escolástica, objetivada na

perspectiva, se faria acompanhar de um afastamento em relação aos prazeres ligados aos

sentidos de proximidade e se retraduziria por um recalque progressivo, mais ou menos radical conforme os ambientes de origem, da primeira infância e daqueles prazeres tidos como vergonhosos (Bourdieu, 2001, p.33).

A perspectiva, em sua definição histórica, constitui, segundo Bourdieu, a realização mais acabada da visão escolástica, pois ela supõe um ponto de vista único e fixo e, portanto, a adoção de uma postura de espectador imóvel instalado num ponto, bem como a utilização de uma moldura que recorta, recolhe e abstrai o espetáculo por um limite rigoroso e imóvel (Bourdieu, 2001, p.32).

A inclinação, pois, para se colocar problemas especulativos pelo simples prazer de resolvê-los é devedora de uma socialização primária favorável ao recalque dos prazeres imediatos e signatária da própria experiência escolástica, frequentemente inscrita no “prolongamento de uma experiência originária (burguesa) de distância do mundo e das urgências da necessidade” (Bourdieu, 2011, p. 201). Significa dizer que vai viver a experiência escolástica em sua plenitude aquele que obtiver, desde cedo, as melhores condições sociais de existência:

À medida que nos distanciamos das regiões inferiores do espaço social, caracterizadas pela extrema brutalidade das coerções econômicas, as incertezas se reduzem e as pressões da necessidade econômica e social se abrandam; em consequência, posições definidas de modo menos estrito e dando mais liberdade de jogo oferecem a possibilidade de adquirir disposições mais liberadas das urgências práticas, problemas a resolver e ocasiões a explorar, e como que previamente ajustadas às exigências tácitas dos universos escolásticos. Dentre as vantagens ligadas ao nascimento, uma das menos visíveis reside na disposição desprendida e altaneira – ilustrada pelo que Erving Goffman denomina a "distância em relação ao papel" – que se adquire em meio a uma primeira educação relativamente liberta da necessidade; essa disposição contribui, em medida significativa, para o capital cultural herdado ao qual ela se associa, para favorecer o acesso à escola e o êxito nos exercícios escolásticos, sobretudo os mais formais, que exigem a capacidade de participar simultânea ou sucessivamente de

diferentes "espaços mentais", como diz Gilles Fauconnier, e, assim, tornar possível o ingresso efetivo nos universos escolásticos. (Bourdieu, 2001, p 27, 28)

Além disso, vale ressaltar,

o ingresso em um universo escolástico supõe a suspensão dos pressupostos do senso comum e a adesão para-doxal a um conjunto mais ou menos radicalmente novo de pressupostos e, ao mesmo tempo, a descoberta de móveis de competição e de urgências ignorados e incompreendidos pela experiência ordinária. (Bourdieu, 2001, p 21)

O que se opera, aí, é uma conversão do habitus originário requerido pela entrada no jogo em um habitus específico, a qual não se dá à custa de um envolvimento consciente e deliberado, como um contrato voluntário. Em realidade, tal operação acaba passando despercebida quanto ao essencial e as implicações desse processo de inclusão no campo permanecem implícitas (condição precípua da violência simbólica).

Por ora, e com intenção de retomar tais conceitos no momento das análises dos dados da pesquisa, pode-se considerar a seguinte representação da formação da disposição escolástica (preservados todos os alertas sinalizados quando da propositura da figura 1):

Disposição Escolástica Ponto de vista escolástico

P e r s p e c t i v a

Escola

(Skholè – situação escolástica)

Esquemas cognitivos de percepção Divórcio entre Intelecto e Corpo Afastamento dos Sentidos de Proximidade

Recalque dos Prazeres Vergonhosos/dos Apetites Imediatos

Base de Valores

Ethos Familiar – CRENÇA

Condições Sociais de Existência Ethos de Classe

Figura 2 – Modelo conceitual – Formação da Disposição Escolástica Modo de Pensar e Perceber

A figura 2 possui basicamente a mesma estrutura da figura anterior, contendo apenas os elementos específicos que compõem o processo de elaboração de uma disposição que se vincula a uma dimensão cognitiva e que resulta na definição de modos de pensar e perceber o mundo. Instado a reprimir os prazeres ditos vergonhosos, o indivíduo vai se afastando dos sentidos de proximidade que o vinculariam às pulsões primárias. Utilizando-se, pois, dos sentidos de distância, ele se vê em condições de desenvolver esquemas cognitivos e o próprio intelecto que, na situação escolar, vão servir não somente como chances objetivas de êxito – uma vez que coincidem exatamente com os princípios de percepção demandados por ela –, como também para constituir um ponto de vista único e fixo objetivado na perspectiva (definidora da disposição escolástica).