O JOVEM L
L, jovem de 17 anos que cursa o 2º ano do ensino médio na escola Delta, demonstrou grande empolgação em participar da entrevista. Disse que provavelmente foi indicado pelos professores porque se comunica bem, expressando suas convicções com muita clareza e firmeza. Também revelou que sabe “dessas coisas de pesquisa de doutorado” por causa de sua mãe que tem vivência na área acadêmica. Durante todo o período da sessão de entrevista manteve-se animado, demonstrando muita vontade de colaborar.
É o filho único do casamento entre o pai e a mãe, com quem reside, mas possui outros quatro irmãos mais velhos, de relacionamentos anteriores dos pais (“Eu sou o caçulinha, caçulinha super. O mais perto de mim tem vinte e cinco anos.”). Foi criado junto ao irmão de 25 anos
(fruto de um relacionamento da mãe antes do casamento e assumido formalmente, aos três anos, pelo pai de L), que, atualmente, mora em outro estado. Com os irmãos por parte de pai teve pouca convivência. Destacou, no relato, uma das irmãs por ter sido “esperta”, “ou melhor, esforçada” e se formado no nível superior (e atualmente fazendo mestrado), no curso (Veterinária) e na especialidade (animais de pequeno porte) que escolheu, esquivando-se do jugo do pai, que desejava que ela lidasse com gado por causa da fazenda. Falou também a respeito da outra irmã, da qual tem duas sobrinhas (“É sobrinha que fala quando irmã tem
filho?”) e que, atualmente, trabalha no escritório do pai com L, estreitando um pouco mais o
convívio.
O pai tem 66 ou 65 anos (L não soube precisar), tem várias fontes de renda, como casas alugadas, mas sua atividade principal no momento é uma fazenda agropecuária em outro estado, a qual comanda de longe, num escritório localizado na cidade de Santos. Passa uma
semana nesta cidade e outra na fazenda. Teve uma vida difícil, começou a trabalhar aos doze anos na zona rural do sul do país. Muito esforçado e hiperativo, segundo L, iniciou trabalhando em farmácia, depois “subiu” rapidamente, indo trabalhar na Randon, empresa de caminhões, e posteriormente na Brahma. Levava as duas atividades conjuntamente, a Brahma e a fazenda, decidindo-se recentemente a largar a Brahma e ficar concentrado na fazenda. “Meu pai: trabalho é o nome”. Não fez o ensino superior (“Não, não, ele foi pique na raça
mesmo”).
A mãe tem 47 ou 45 anos (“tô chutando”), nasceu em São Vicente, município vizinho de
Santos. Filha caçula, foi a cuidadora da família e se destacava por gostar de estudar num meio onde isso não era muito valorizado (“Considerada meio louca né, porque ela gostava de livro, ela lia, e todo mundo, a família dela era mais simples, então ninguém ligava pra isso”).
Aos 21 anos teve um filho de um relacionamento “acidental” e ficou, sozinha, responsável por sua criação. Na ocasião era instrumentista em hospital, provavelmente auxiliar de enfermagem. Depois, começou a estudar formando-se em Psicologia. Fez especialização em Psicanálise e, atualmente, atende em consultório próprio. Fez várias especializações, sendo que no momento cursa uma em São Paulo (“Minha mãe é mais do lado artístico assim, de estudos também. Meu pai é mais trabalho, minha mãe é mais estudo”). Citada todo o período
da entrevista como a pessoa que incentiva L a estudar e a refletir sobre os porquês das coisas, buscando o desenvolvimento de uma consciência e uma constante autocrítica.
O irmão de 25 anos, com quem cresceu, foi, sem dúvida, uma forte referência para L. Com a diferença de idade, o irmão assumiu funções como ficar responsável pelo trajeto entre a casa e a escola, brincar, levar à praia etc. L afirma que andava atrás desse irmão porque queria ser “gente grande” também. A entrada na escola foi citada por L como uma grande decepção, porque achava que ficaria na classe deste irmão e, obviamente, isso não se realizou. A escolarização deste irmão de L foi conturbada. Com um diagnóstico tardio de dislexia, o rapaz “bombou duas ou três vezes”. Abandonou a escola no “segundo ou terceiro colegial”, terminando o ensino médio no supletivo. Iniciou uma faculdade na cidade onde residem, mas como é “meio Maria vai com as outras”, se envolveu em diversos problemas por causa de uma namorada; teve que sair da cidade e transferiu-se para uma faculdade na cidade próxima à fazenda. Acabou por abandoná-la também e, no momento, trabalha para o pai na fazenda. O outro irmão, mais velho, por parte de pai, também vai para a fazenda de vez em quando (“Minha família meio que gira em torno disso”.).
L passou a primeira infância numa cidade menos desenvolvida da região, Itanhaem, que propiciou uma vivência próxima à natureza, com maior liberdade, “solto na rua” e, segundo ele, com maiores possibilidades de desenvolvimento da criatividade. Brincava no quintal da casa, que se localizava em frente à praia. Além disso, em boa parte dos finais de semana ia para um sítio da família, onde seu contato com animais e plantas foi bem marcante. L atribui o fato de hoje ser responsável por cuidar das plantas da casa, na divisão de tarefas, ao gosto que desenvolveu neste período. A mãe de L. se dividia, nessa fase, entre a casa e o trabalho como uma espécie de assistente social, num abrigo de crianças que sofreram abuso. L por vezes acompanhava a mãe neste trabalho.
As oportunidades culturais se intensificaram a partir da mudança para a cidade atual, coincidindo com uma fase de pré-adolescência, na qual passou a ter seu próprio grupo e fazer programas como ir ao cinema, a shows etc. Atualmente, L toca violão e guitarra e faz um curso de Inglês. Faz questão de dizer que foram opções suas, que a mãe apenas o incentivou, mas que a decisão foi sempre dele. Sua rotina é composta por escola, trabalho (escritório do pai), inglês e música (tinha uma banda e aguarda uma nova formação). Adora música e tem um gosto bem eclético (palavra utilizada por ele). Considera-se hoje menos preconceituoso, aceitando maior diversidade de estilos musicais; antes ficava mais apegado à imagem da banda, agora se prende ao próprio som, sem fazer tantos julgamentos (“se eu gostei, gostei”). O computador entrou tarde na vida de L e o videogame também não foi muito marcante na primeira infância. Somente por volta dos 13, 14 anos os jogos eletrônicos ocuparam um espaço maior, chegando, inclusive, segundo L, a serem os responsáveis por sua reprovação no primeiro ano do ensino médio (“Jogo era tipo meu crack”). Atualmente L diz que guarda
distância da TV e do computador, porque percebeu, com a ajuda da mãe, que são coisas que fazem com que ele perca o foco do que realmente quer (“Hoje em dia até, tá mais pra produção, eu vou no computador pra pesquisar alguma coisa ou pra às vezes conversar mesmo, tal. Jogo é, tipo, uma coisa tipo bem rara”). Na TV assiste, sobretudo, MTV e
Futura.
O início do trabalho no escritório do pai esteve associado a uma interferência da família na rotina de L após a mãe ter tomado conhecimento do uso que ele vinha fazendo da maconha. O jovem relata que o episódio trouxe muito amadurecimento e que as conversas com a mãe foram essenciais para que ele analisasse de uma forma crítica suas opções. Foi um grande choque na família, um grande embate (“Fiquei um tempo meio preso, passei as férias trabalhando com o meu pai, e eu pensei, pensei e pensei e mudou totalmente o meu jeito e tal”). L afirma que após muito pesquisar sobre o assunto (inclusive num trabalho para o
colégio) percebeu que estava lutando por uma causa que nem existia, “porque maconha em si não é o que vendem na praia”. Isso fez com que ele se preocupasse mais em se informar sobre o que está usando, o que está fazendo, sem “ser marionete de ninguém”; fazer escolhas conscientes.
Sobre religião, L informa que o pai é católico praticante e que sua mãe já foi evangélica, mas hoje não tem religião. Ele acredita que algumas pessoas precisam de religião para fazer o bem, o que não é o caso dele. Entende que faz o bem porque se sente bem com isso, ponderando, inclusive se isso não seria um ato egoísta.
Na rotina da família, estarem reunidos em torno da mesa à hora das refeições é uma tradição. Durante a semana têm auxílio de empregada para os serviços gerais e como tarefa L assume o pagamento das contas da mãe e regar as plantas da casa. Nos finais de semana pouco fica em casa; vai à casa de amigos tocar violão e conversar, a bares e, às vezes, baladas e shows. O vínculo afetivo mais forte é com a mãe a quem atribui a parte essencial de sua formação e com quem relata ter muitas afinidades. Chega a tratar a mãe como mãe e pai ao mesmo tempo (“Porque ela é mais presente também, né? Sei lá, eu me identifico mais com ela”), revelando
esquerda (“Ele é parecido comigo, só que os ideais são diferentes. O jeito é parecido, ele fala
bastante, eu falo bastante. Mas os ideais, assim, as ideias são bem... opostas..., assim.”).
Da experiência escolar da primeira infância, L lembra-se muito pouco. Acha que era uma escola que ensinava tudo na base da memorização, sem explicar muito o porquê das coisas
(“era particular, mas não era muito, muito forte não. Era uma escola mais, mais fraquinha, mais simples”). Gostava de desenhar, pintar..., mas as lembranças são muito vagas. Quando
se mudou para a cidade atual, estava na metade da segunda série do ensino fundamental e entrou numa escola privada de grande renome e reconhecimento. Teve um pouco de dificuldade (“Eu lembro que eu fiquei com, meio defasado, porque eu aprendi a decorar”),
mas logo superou. L tece severas críticas ao trabalho desenvolvido nesta escola. Sua análise passa principalmente pelas questões de classificação e controle, denunciando uma ação pedagógica pautada fundamentalmente na competição, meritocracia e na opressão. Teve uma trajetória “sofrida” ali dentro. Passou “raspando” todos os anos, fazendo uso de todos os mecanismos de recuperação para conseguir as aprovações.
Após ser reprovado no primeiro ano do ensino médio nessa escola, L resolveu mudar para a escola Delta; um dos motivos da escolha é que seus amigos também estariam se mudando para esta escola. Questionado sobre suas impressões a respeito da escola, L demonstra grande satisfação, elogiando o trabalho ali desenvolvido. Aprova desde a iniciativa dos portões abertos, até a prevalência de trabalhos, pesquisas e projetos sobre “lições de casa”, bem como as disciplinas optativas que despertam o interesse dos alunos. A relação horizontal com a maior parte dos professores também é mencionada. Ainda assim, L continua fazendo apenas aquilo que julga ser importante para seu efetivo aprendizado; aquilo que, em sua concepção, realmente vai produzir conhecimento (“...copiar, essas coisas assim, sabe? Só pra ganhar visto ou pra ganhar nota, eu não copio, pra mim não vai mudar nada”). Por isso, diz, suas
notas não são muito boas e ele administra algumas recuperações. Nunca faz uma tarefa por ter que fazer; apenas quando acha que vai aprender algo.
Considera-se um aluno participativo, porque faz questionamentos que enriquecem a aula. Quando não quer participar procura ficar quieto para não atrapalhar os demais. E quando é repreendido por um colega porque está atrapalhando, revê sua posição, sem “encrencar” com ninguém. Particularmente, gosta de todas as matérias porque vê algo de curioso em todo e qualquer conteúdo (“Toda matéria tem alguma coisa legal”). Esta característica é, no
entanto, fator de angústia quando L lembra que precisa escolher uma profissão, se especializar em algo (“Isso, isso que é complicado, eu gosto de tudo, eu preciso centrar em alguma coisa.
Gosto de tudo e não dou atenção pra nada. Se eu não desse atenção pra tudo, eu podia centralizar em alguma coisa.”).
Acredita que a escola tem seu papel na produção do interesse, reconhecendo inclusive o papel do professor nesse processo, mas acha que uma grande parcela depende também da vontade do aluno e posicionamento da família (“Não adianta nada professor incentivar, chegar em
casa e o pai falar que é besteira”). Explica a escola como uma minissociedade na qual
coabitam pessoas com distintos interesses e habilidades. A escola teria que, então, estimular a busca pelo conhecimento, o que ele entende que seria o papel dessa instituição desde a sua
fundação. Para L o conhecimento pode ser adquirido em qualquer lugar, mas o estímulo e o trabalho com esse conhecimento é função da escola (“O principal acho que deveria ser incentivar. Porque se você incentiva, pô, a pessoa vai, vai querer, não vai ter essa de querer puxar a atenção por obrigação”). As preferências pelas matérias são, em sua concepção,
absolutamente particulares (“Tem gente que gosta mais de uma matéria ou de outra, vai prestar mais atenção naquela ou na outra”) e a escola poderia neutralizar um pouco esta
característica natural, incentivando os alunos, estimulando a curiosidade também natural que cada conhecimento guarda.
O que se destaca em L
L apresenta uma desenvoltura estarrecedora. Difícil, inclusive de conformar nos mínimos padrões de uma entrevista, o que já aponta para a dificuldade que deve enfrentar em ajustar-se aos padrões escolares e, portanto, para os motivos de sua indicação como aluno desinteressado pelos professores.
É vivaz, argumentativo, empolgado; reflete e teoriza sobre tudo. As figuras da mãe e do irmão mais velho foram essenciais para a formação desse menino inquieto, curioso, autêntico, consciente e bastante ativo. Foi imprescindível, também, o desejo confesso e inconfesso de superar o pai, a quem julga pouco culto e conservador. L procura ser a antítese do pai.
Sofre, entretanto, com as exigências sociais que incitam a uma adequação, a uma definição, a uma padronização. Não quer entregar sua alma de artista, sua liberdade ao sistema, quer mais do que simplesmente se adaptar. Procura incessantemente um sentido para tudo o que faz e por isso, muitas vezes sacrifica seu desempenho escolar. Está se descobrindo.
Evidentemente se permite todas as audácias porque conta com um futuro garantido pelos negócios do pai, o que, com certeza, será acionado caso seus experimentos de vida fracassem. Por mais que negue esse pai opressor, sabe que ele não vai lhe faltar, da mesma forma que ocorreu com o irmão mais velho. Mas, ao que parece, identifica-se mais com o lado artístico e voltado aos estudos da mãe e pretende, seguindo por essa trilha, arriscar-se e encontrar seu lugar ao sol. L só não é o típico adolescente rebelde porque preza demais essa relação com a mãe, busca incessantemente seu reconhecimento, e, por ela, acaba não rompendo definitivamente com os ditames sociais, sobretudo, os escolares.