2. Norges statlige utviklingsfond Norfund
2.3 Hvordan opererer Norfund?
“Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei” (SANTO AGOSTINHO, 2000, p.322).
Confesso-vos que muito me queimou o juízo a opção de como descrever a vós esse nosso processo de criação do Terra de Santo no que concerne a sua concepção no transcorrer do tempo: narro-o no retorno do presente ao passado dos acontecimentos ou retorno ao passado e refaço o caminho descrevendo-o até o presente? Assumo quaisquer dessas trajetórias horizontalmente, em um movimento sincrônico observando as relações entre os fatos existentes ao mesmo tempo num determinado momento, ou verticalmente, num comprometimento diacrônico com o processo histórico-temporal de mudanças? (CARVALHO, 2012; FOSTER, 2005).
Independentemente da escolha, essa questão me fez espiar o tempo com mais zelo e logo mais questões suscitaram-me: que tempo é esse no qual estamos gerando o Terra de Santo? Ele contamina de alguma forma os nossos procedimentos? E o que é o tempo? O que é o passado, o presente e o futuro?
Estou, digo-vos, firmemente inclinado a admitir que as relações “antes”, “simultaneamente”, “depois”, “passado”, “presente” e “futuro” não têm realidades objetivas.
O mundo objetivo simplesmente é, não acontece. Somente para o olhar da minha consciência, que rasteja para cima pela linha de vida de meu corpo, é que um corte desse mundo ganha vida como uma imagem fugaz, num espaço que se modifica continuamente no tempo (WEYL20, 1949, p. 116 apud JAMMER, 2000, p.126, grifos do autor).
Essa noção sobre o tempo só foi possível difundir-se graças à teoria geral da relatividade de Einstein, publicada em 1916, que promoveu uma revisão das noções clássicas de tempo e espaço que Wertheim (2001) busca nos clarear: imagine a pele de borracha esférica de um balão; figure-o muito grande e imagine que você vive na superfície dele: seu “universo balão” é bidimensional, pois estamos nos referindo apenas à pele, não ao ar no interior do balão. Enquanto a pele do balão tem apenas duas dimensões, nosso universo tem quatro – três para espaço e uma para tempo – amarrados num todo quadridimensional.
Esse complexo quadridimensional é conhecido pela palavra única “espaço-tempo”, mas os físicos frequentemente falam apenas de espaço quadridimensional. Aqui o tempo se torna mais uma dimensão do espaço.
Essas ideias relativistas do espaço e do tempo da teoria da relatividade poderiam ter implicações teológicas, segundo Schrödinger21 (1959 apud JAMMER, 2000, p.125-126, grifo nosso):
Suponho que isto, o fato de ela haver significado o destronamento do tempo como um rígido tirano que nos é imposto de fora para dentro, tenha sido uma libertação da norma inviolável do “antes” e do “depois”. Pois o tempo é realmente nosso senhor mais severo, ao restringir ostensivamente a vida de cada um de nós a limites estreitos – setenta ou oitenta anos, como diz o Pentateuco. Poder brincar com a programação de um senhor como esse [...] mesmo que de maneira insignificante, parece um grande alívio [...] Trata-se de uma ideia religiosa, ou melhor, eu diria que é a ideia religiosa.
20WEYL, H. Philosophy of mathematics and natural science. Princeton: Princeton University Press, 1949, p.116.
É o avanço da ciência questionando e conturbando a existência de um universo realmente grande que nada tem de simples – e muito menos de definitivo – e sua relação com um criador, um Deus.
Muito recentemente, em julho de 2012, físicos do laboratório internacional de física de altas energias na Suíça anunciaram a descoberta da partícula mais procurada da história – o bóson de Higgs, uma peça essencial em nossa compreensão do mundo das partículas subatômicas que de tão importante foi apelidada de “partícula de Deus”22.
Depois dessa comprovação científica, uma questão nos é trazida pelo físico Marcelo Gleiser (2012, p. 38): “Seria o bóson de Higgs uma expressão da divindade da natureza, trazendo um componente espiritual inesperado ao cerne da área da física que se diz a mais precisa?”.
E eu pergunto-vos: será que o avanço da ciência modifica o espaço da fé em nós? O físico Steven Weinberg (2012, p.37)23 nos afirma claramente que
À medida que a ciência explica cada vez mais, há cada vez menos necessidade de explicações religiosas [...] originalmente, na história humana, tudo era misterioso. Fogo, chuva, nascimento e morte. Tudo aparentemente exigia a ação de algum ente divino [...] [A descoberta do bóson de Higgs, hoje,] [...] não contradiz a religião [...] Mas tira uma de suas motivações.
Boa parte dos físicos prefere por fé ou por diplomacia adotar uma postura mais cautelosa, segundo Moon e Mansur (2012), como o americano Charles Townes que nos diz não vê dificuldades em poder conciliar a sua fé cristã e o empirismo científico, pois não crê que a ciência esteja completa de forma alguma, afirmando que não entendemos tudo, e dá para ver que, no conhecimento científico, há várias inconsistências. E incita-nos de que precisamos aceitar o que não compreendemos. Ou como o físico britânico Freeman Dyson, que corrobora com esta perspectiva, dizendo-nos ao afirmar que a ciência e a religião são duas janelas pelas quais as pessoas olham para compreender o grande universo lá fora e que nenhuma dessas visões é completa e que ambas merecem respeito.
22Para saber mais ver MOON, P. et al. Tempo – Ciência; Tempo – Entrevista. Época. São Paulo, Ed. 738, p. 32-62, 9 jul. 2012.
23Em entrevista a MOON, P.; MANSUR, A. A fotografia da partícula de Deus. In: Época. São Paulo, Ed. 738, p. 33-37, 9 jul. 2012.
É assim, revelo-vos, de tal forma para mim a arte hoje: uma janela pela qual me debruço para experienciar o mundo, sem que tenha que renunciar a ciência ou a religiosidade, ou a quaisquer outras formas de conhecimento.
Essa mais nova conquista do conhecimento científico parece não aplacar o desejo do homem de desvelar os enigmas do universo, conforme nos aponta Gleiser (2012, p. 39, grifo nosso):
A maioria dos físicos deseja que o Higgs seja bem exótico, de preferência com propriedades inesperadas [...] Assim, estaremos mais uma vez
mergulhados no mistério, tateando às escuras em nossa incessante busca pelo conhecimento. Ao estudar a natureza, aprendemos a respeitá-la. E não há nada melhor que o inesperado para atiçar a imaginação humana.
Mas, o que essa descoberta muda nas nossas vidas? Ainda não sabemos. Será que de fato vai modificar nossa relação com o divino, com o sagrado, com o tempo? Só o tempo dirá. Então, voltemos a este “senhor tão bonito”.
O tempo na cosmogonia dos povos negros africanos, especialmente os de origem congo-angolana, é tomado como uma sobreposição de temporalidades: ele é cíclico sem ser fechado; é ativo e dinâmico e avança em espiral. Não é um tabu: o voltar atrás é buscar o que se esqueceu para viver no presente, para novamente retornar. Não há futuro: se os eventos não foram vivenciados, transcorridos, não há tempo. O homem da África negra, em sua maioria, faz parte de uma grande família que compreende os ancestrais, os vivos e os que hão de vir no tempo potencial e ele não é escravo, mas senhor do tempo (informação verbal)24. E digo-vos que esta visão de mundo do homem africano me é muito cara.
Visão semelhante do tempo em tocante imagem nos traz o filósofo e matemático Guy Van de Beuque (2004, p. 181, grifo do autor):
Para nós, as coisas percorrem o tempo como pequenos barcos transportados na correnteza de um rio. Mesmo que se transforme, ou simplesmente mude sua localização, o barco é, essencialmente, o mesmo ao longo de sua viagem temporal. Ainda quando ele desaparece numa correnteza, guardamos na memória sua presença. Uma coisa morre, outra permanece. Algo fica, e é isso que se mantém que permite sua nomeação sempre do mesmo modo, a despeito dos diversos aspectos que ele vá tomando em seu percurso temporal. Mesmo que ele altere seu estado, trata-se apenas de um “estado”, o barco em-si permanece como referência, como modelo.
24Informação fornecida por Rodrigo Bonciani na palestra “Os negros na cana-de-açúcar”, realizada na Sede de Os Fofos Encenam no dia 24 de agosto de 2011.
Para Santo Agostinho o tempo também é contínuo e, como tal, é indivisível, e passado, presente e futuro são para ele questões de natureza existencial, como nos descreve:
[...] Mas não medimos os tempos que passam, quando os medimos pela sensibilidade. Quem pode medir os tempos passados que já não existem ou os futuros que ainda não chegaram? Só se alguém se atrever a dizer que pode medir o que não existe! Quando está decorrendo o tempo, pode percebê-lo e medi-lo. Quando, porém, já tiver decorrido, não o pode perceber nem medir, porque esse tempo já não existe (SANTO AGOSTINHO, 2000, p. 325).
Contrariamente aos pensamentos anteriores, Prigogine (1988, 2002, 2011) aponta o empobrecimento da noção de tempo desde a sua introdução no esquema conceitual da ciência clássica e critica o progresso da ciência por não fazer nenhuma distinção entre o passado e o futuro e nos assegura que as nossas ações intelectuais são associadas ao pensamento, e este é indissociável da distinção entre passado e futuro, logo da seta do tempo.
Prigogine acrescenta que na ciência atual o tempo não é apenas um parâmetro de movimento, mas mede evoluções internas de um mundo em desequilíbrio. Um mundo no qual descobrimos em todos os níveis flutuações, bifurcações, instabilidades. E é categórico: o mundo só é possível num universo longe do equilíbrio! Os sistemas estáveis que levam a certezas correspondem a idealizações, a aproximações!
A questão do tempo, afirma Prigogine, está na encruzilhada do problema da existência e do conhecimento – o tempo é a nossa dimensão existencial e fundamental; é a base da criatividade dos artistas, dos filósofos e dos cientistas.
Será que noutros tempos nos quais não havia esta encruzilhada e o tempo era completamente separado e independente do espaço, os artistas se sentiam mais confortáveis para suas escolhas e criações?
Mesmo nestes tempos pós-teoria da relatividade em que a eternidade do tempo é questionada e até mesmo o livre arbítrio é posto em xeque, “[...] contra a acusação de que ele seria incompatível com a onisciência de Deus e com o conhecimento antecipado.” (JAMMER, 2000, p.140), se fazem necessárias as opções.
Para nosso alívio, Hawking (2011, p. 46-47) comenta: “Na teoria da relatividade não existe qualquer tempo absoluto: cada indivíduo tem a sua medida pessoal de tempo, que depende do local onde está e da maneira como está a mover-se”.
É o tempo como dimensão do espaço. E ele é só nosso, de cada um de nós. Dele somos senhores. E “Embora não configure um lugar, o tempo faz do mundo uma morada. O lugar, por excelência: a casa de todos [...] Graças ao tempo podemos estar no mundo [...]. O tempo caracteriza o mundo como um abrigo que contém todas as coisas entre si [...]” (VAN DE BEUQUE, 2004, p. 189, grifos do autor).
Esta casa-tempo de Van de Beuque, talvez seja a mesma casa que, para Bachelard (1993), é uma das maiores forças de integração para os pensamentos, para as lembranças e para os sonhos do homem, cujo benefício mais precioso é ser a casa que abriga o devaneio, que protege o sonhador e o permite sonhar em paz. É um espaço louvado: um espaço vivido com todas as parcialidades da imaginação.
E é desta casa que vos desejo falar. Dessa casa que está no mundo que é a casa-Terra de Santo. Desta casa onde estamos vivendo com e entre todas as coisas. Desta casa que é nosso abrigo onde só nos resta estar “ao mesmo tempo” que todas as demais coisas.
Foi desta casa que estamos edificando, que vivenciamos: a “revolução do jasmim”, na Tunísia; o caos no Egito; a guerra civil, na Líbia; as tensões no oriente médio; a “primavera árabe”; a crise na comunidade europeia; terremoto e tsunami no Japão; Bento XVI isentando os judeus pela morte de Cristo; a solicitação da Palestina de ingresso à Organização das Nações Unidas; a morte de Bin Laden; a crise na Grécia; as olimpíadas de Londres; a entrada da Venezuela no Mercosul; a descoberta do bóson de Higgs; a chegada do jipe-robô Curiosity à marte; no Brasil: a eleição de uma presidenta; a oficialização da união civil de homossexuais no Brasil; os preparativos para a copa de 2014; o julgamento do mensalão; as eleições municipais de 2012.
Foi nesta casa, no Terra de santo como espaço concebido pela imaginação e no Espaço Os Fofos Encenam25, seu espaço mensurável de criação, que nos contaminamos e nos
25O espaço Os Fofos Encenam, localiza-se à Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista, São Paulo. É o espaço onde está sendo gestado o Terra de Santo. Este espaço é mantido com recursos próprios e atualmente conta com o apoio do Programa Petrobrás Cultural/2010 que patrocina este projeto de pesquisa cênica. A criação do espaço foi possibilitada pelo patrocínio da Lei de Fomento ao Teatro do ano de 2007 e desde lá o Espaço Os Fofos Encenam abriga todos os espetáculos de Os Fofos além de
engravidamos de transformações como homens e como atores – os nascimentos: de Matin, de Fernando Esteves, do ABERDEEN – Um possível Kurt Cobain, do Credores, do Isso é o que ela pensa, do Recordar é viver, de José Roberto Jardim, do Mistério Bufo, do Hécuba, do Maria do caritó, de Fernando Neves, dos Homens e caranguejos, de Luciana Lyra, do Daqui para Ali, de Viviane Madu, das contações, de Paulo de Pontes, do Libertino, da Carne exausta, de Erica Montanheiro, dos figurinos, de Carol Badra, da A mulher 100 cabeça, dos bonecos, de José Valdir, do Enquanto isso, do A vingança do espelho, do Maria do caritó, de Eduardo Reyes, do Meio dia do fim, de Cris Rocha, dos filmes Assombrações do Recife Velho e Memória da Cana, de Evaldo Mocarzel; as vivências em Vicência e Piracicaba; as temporadas do Memória da Cana, no Espaço Os Fofos Encenam e no Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro; a temporada do Assombrações do Recife Velho no Espaço Os Fofos Encenam; as novas parcerias: Toshi, Juçara, Renata; os desligamentos do processo de criação; os amores findos.
Foi este espaço louvado do Terra de Santo que me permitiu está aqui ora vos escrevendo; e junto com ele continuo firme nas aulas de química26; firme na escola de aprendizes do evangelho do núcleo fraterno samaritanos – centro kardecista; firme nas viagens com minhas grandes parceiras nesta vida – minha irmã Sandra e minha tia Judite; atravessando com instabilidade a perda de dois amigos queridos, um que se foi e outro que apressou-se; e em busca de um entendimento sobre a realidade que cerca o “outro mundo”; ciente que este espaço
[...] é um domínio diferente [e que] a percepção humana não consegue apreender senão determinado número de vibrações. Comparando as restritas possibilidades humanas com as grandezas do Universo Infinito, os sentidos físicos são muitíssimo limitados. O homem recebe reduzido noticiário do mundo que lhe é moradia. É verdade que tem devassado com a sua ciência problemas profundos [...] Mas todo esse trabalho [...] apenas identifica os aspectos exteriores da vida [...] (LUIZ, 2011, p. 100).
Certamente que todos esses sistemas mencionados anteriormente, tomados sistemas “[...] como uma unidade global organizada de inter-relações entre elementos, ações ou
outros espetáculos que lá estiveram em cartaz durante esses cinco anos de ininterruptas atuações como casa de espetáculo.
26 Sou professor titular do ensino fundamental e médio da Prefeitura de São Paulo desde 1999, onde leciono química na E.M.E.F.M. Professor Derville Allegretti, situada à Rua Voluntários da Pátria, 777, Santana, São Paulo.
indivíduos” (MORIN27, 1986 apud VIEIRA, 2006, p. 41), serão imperceptíveis aos olhos humanos – compreendido os nossos, compreendido os meus – na concepção final da nossa “Festança” Terra de Santo. Como saber e mesmo mensurar se eles ao nos atravessar em alguns dos caminhos do ato de criação produziram um atalho, uma vereda, uma clareira, capaz de exteriorizar tais experiências? Não saberemos! Talvez pressentiremos. E em verdade vos digo que eis aqui uma das minhas inquietações!
Mas eis o espaço quadridimensional desta Epístola que é uma descrição dos processos e procedimentos de criação e dos atos criativos do nosso Terra de Santo: um evento que é vivenciado e transcorrido entre os anos de 2011 e 2012 na cidade de São Paulo, com breves passagens nas cidades de Recife e Vicência (PE) durante o mês de junho, em plena festa de São João, e em Piracicaba (SP), tendo o Espaço Os Fofos Encenam na Bela Vista como ateliê para encontros, estudos, produção e criações.
Como finalmente escolhi descrevê-lo? No modo horizontal de trabalho que é coerente com o direcionamento etnográfico desenvolvido no Terra de Santo, até porque segundo Carvalho (2012), este ponto de vista sincrônico não exclui o ponto de vista diacrônico, ao contrário, eles são complementares, visto que “a cada instante, a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução: a cada instante, ela é uma instituição atual e um produto do passado” (SAUSSURE28, 1969 apud CARVALHO, 2012).
Para todos os efeitos resolvi retornar ao passado a fim de refazer o presente. Então, deem tempo ao tempo e a mim o prazer de vossa companhia neste êxodo.
27MORIN, E. O método – vol. I: a natureza da natureza. Sintra: Publicações Europa América Ltda. 1986, p. 99.
28SAUSSURE, F. de. Curso de linguística geral. Trad. De A. Chelini, José P. Paes e I. Blikstein. São Paulo: Cultrix; USP, 1969.