4. Norfunds bruk av Mauritius
4.2 Hvorfor investerer Norfund gjennom Mauritius?
O teatro exige presentificação. Presentificação entre humanos, entre humanos e seres inanimados animados por humanos. O teatro é reunião de pessoas de corpo presente, sem intermediação tecnológica. O ponto de partida é o acontecimento convivial (DUBATTI, 2007). O teatro intima assistência. Única reclamação para ser teatro. A corporeidade do humano de pelo menos um dos convíveres não é um requisito determinante, embora Lehmann (2007, p. 246, grifo do autor) nos afirme que “No teatro pós-dramático, a respiração, o ritmo e o agora da presença carnal do corpo tomam a frente do lógos”. É o teatro “como acontecimento vivo e aurático, nos corpos dos atores, no espaço e no convívio” (DUBATTI, 2010, p. 156, tradução nossa). Por outro lado, Taylor (2002, p.23, grifo nosso) nos adverte que “A equação, o escrito = memória/conhecimento, central na epistemologia ocidental, continua a causar o desaparecimento do saber corporificado que tão frequentemente anuncia”.
O teatro prescreve o escrito como texto dramatúrgico. Se outras formas de escritos são utilizadas em ações cênicas quaisquer, esses escritos parecem fazer borrar ou desarrumar a qualificação e o acomodamento dessas ações neste gênero das artes cênicas denominado teatro. Contudo, a história de um novo teatro e mesmo do teatro moderno deveria ser escrita, nos diz Lehmann, como a história da perturbação recíproca de texto e cena, optando ele, assim, em chamar o texto deste novo teatro de paisagem textual, porque designaria a conexão da linguagem teatral pós-dramática com as novas dramaturgias do visual e ao mesmo tempo mantendo o ponto de referência da peça-paisagem.
Quero clarear-vos o teatro e o texto dramatúrgico pensado por Newton Moreno e criado por ele e por todos nós de Os Fofos, durante a atividade criadora do projeto Memória da Cana, Parte II – O Pentateuco.
Ouso afirmar-vos que esse teatro realizado com o Terra de Santo é como uma auto penetração coletiva. Esse teatro pode ser comparado a uma verdadeira expedição antropológica. Ele abandona as terras civilizadas para penetrar no coração da floresta virgem; renuncia os valores da razão claramente definidos para enfrentar as trevas da imaginação coletiva. Porque é nessas trevas que a nossa cultura, a nossa linguagem, a nossa imaginação afundam as suas raízes. Reservatório de experiências hereditárias que a ciência designa, às vezes, como “arquétipos”.
Atrevo-me também em assegurar-vos que o Terra de Santo (Pentateuco). Roteiro D (Movimentos 1,2 e 3). Abril 2012. Texto Newton Moreno Em processo colaborativo com a Cia Os Fofos Encenam, é um cronotopo do encontro133 (BAKHTIN, 1988) no qual o tempo condensa-se, comprime-se, torna-se artisticamente visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do tempo, do enredo e da história. Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é metido com o tempo.
Agora vos pronuncio considerações capitais sobre as minhas petulâncias descritas nos dois parágrafos anteriores. É o que penso sim sobre o teatro e sobre o texto dramatúrgico gestados no Terra de Santo o que vos apresentei, contudo não são minhas aquelas palavras. A vós, bastava essa confissão, pois, boto fé que ao terdes lido tais palavras, vislumbrastes, como eu vislumbrei, tanto o processo de criação atravessado por todos nós quanto a sensação da vivência dessa indissolubilidade, dessa inseparabilidade das definições de espaço e de tempo, sempre tingidas de um matiz emocional, presentes tanto no texto quanto na cena do Terra de Santo.
Porém, dizem que quem escreve cartas escreve para si. Que seja também. Mas escrevo esta para vós. Acontece, que ela ao ser postada, não tem seu caminho direto ao destinatário. Seria como numa pequena comunidade na qual as missivas são recebidas por uma instituição, identificadas e colocadas em escaninhos correspondentes ao seu rumo final. Ela é intermediada por outros leitores que transitam em outros territórios, outras terras de santo, outras mundividências, que exigem outros esclarecimentos. Então devo procedê-los.
A primeira afoiteza que vos trago sobre o teatro realizado por todos nós com o Terra de Santo, é na verdade o que pensa Eugênio Barba sobre o teatro de Jerzy Grotowski em Rumo a um Teatro Santo e Sacrílego, que ora vos transcrevo na íntegra, devendo compô-lo como reza o dogma de uma outra terra de santo – “As citações diretas, no texto, com mais de três linhas devem ser destacadas com recuo de 4 cm da margem esquerda, com letra menor que a do texto utilizado e sem as aspas [...]”134:
Jerzy Grotowski define o teatro como uma auto penetração coletiva. O teatro, se quer reanimar, estimular a vida interior dos espectadores, deverá
133No cronotopo artístico ou artístico-literário ocorre a fusão dos indícios espaciais e temporais num todo compreensivo e concreto. No cronotopo do encontro predomina o matiz temporal. Ele distingue- se por um forte grau de intensidade do valor emocional (BAKHTIN, 1988). Nele é importante a expressão de indissolubilidade de espaço e tempo – é o complexo físico quadridimensional conhecido como espaço-tempo (Ver seção I.2.7).
quebrar todas as resistências, esmigalhar todos os clichês mentais que protegem o acesso ao seu subconsciente. Esse teatro pode ser comparado a uma verdadeira expedição antropológica. Ele abandona as terras civilizadas para penetrar no coração da floresta virgem; renuncia os valores da razão claramente definidos para enfrentar as trevas da imaginação coletiva. Porque é nessas trevas que a nossa cultura, a nossa linguagem, a nossa imaginação afundam as suas raízes. Reservatório de experiências hereditárias que a ciência designa, às vezes, como pensée sauvage (Lévi-Strauss), como “arquétipos” (K. G. Jung), ou “representações coletivas” (Durkheim), ou categorias da imaginação (Hubert e Mauss), ou ainda “pensamentos primordiais e elementares” (Bastian). (FLASZEN; POLLASTRELLI, 2010, p. 100, grifos do autor).
E a segunda afoiteza, é como Bakhtin propõe o processo de assimilação do tempo, do espaço e do indivíduo histórico real artisticamente, em literatura, denominado por ele de cronotopo. E sobre este conceito nos explana:
No cronotopo artístico-literário ocorre a fusão dos indícios espaciais e temporais num todo compreensivo e concreto. Aqui o tempo condensa-se, comprime-se, torna-se artisticamente visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do tempo, do enredo e da história. Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é medido com o tempo. Esse cruzamento de séries e a fusão de sinais caracterizam o cronotopo artístico [...] Não almejamos a totalidade nem a precisão de nossas formulações teóricas e definições [...] (BAKHTIN, 1988, p. 211-212).
Feitas as elucidações devidas e necessárias, sigamos por entre as picadas abertas na estruturação do texto e da cena do Terra de santo.
Quero vos explicar de antemão, que não consigo perceber a dissociação do texto dramatúrgico desenvolvido no processo de criação do projeto – Terra de Santo (Pentateuco), da sua encenação ou representação – o espetáculo Terra de Santo.
Para Ubersfeld (2005), a razão principal dessa confusão que se estabelece na análise de semiologia teatral origina-se da recusa em distinguir o que é próprio do texto e o que é próprio da representação. O texto, para a autora, é composto de duas partes distintas, porém indissociáveis: o diálogo e as didascálias (ou indicações cênicas ou direção de cena); e o teatro é uma arte de paradoxos que apresenta entre outros: produção literária e representação concreta; arte do refinamento textual e arte para ser vista por todos; a arte de um só, o “grande criador”, e arte de criação de muitas outras pessoas.
Ubersfeld discute o texto no teatro como texto dramático pré-cênico, assim definido por Dubatti (2010, p. 154, grifos do autor, tradução nossa) como: “Classe de texto literário dotada de virtualidade cênica, escrito a priori, antes e independentemente da cena, que guarda um vínculo transitivo com o ‘posto em cena’; foi escrito para ser ‘posto em cena’”.
Acontece que o que Ubersfeld denomina de texto, não corresponde às características do texto produzido nesse nossa atividade criadora. Para mim, confesso-vos, que distinguir o texto da cena no Terra de Santo, seria como separar o corpo do espírito e atribuir-lhes valores inerentes independentes, não intercambiáveis e não mutuamente imprescindíveis. Seria dar- lhes juízo de valor e impor hierarquia. Seria dizer que o corpo, o texto, existiu sem a intercessão dos nossos espíritos liminares135.
Os espíritos liminares foram geradores de “crises de ação simbólica” através das quais nos responsabilizamos de dar sentido (DAWSEY, 2005), organizando-as verbalmente (tornando-as palavras em roteiros, narrativas, descrições, dramaturgias)136 e esteticamente (tornando-as ações cênicas), sejam nos “estudos cênicos” “o sagrado pessoal” ou “os cinco séculos”, que foram ao seu modo, tempo e diversidade, atravessando, contaminando e constituindo parte das memórias de “arquivo” e de “repertório” de Newton Moreno, autor do Terra de Santo (O Pentateuco), de fevereiro a outubro de 2011.
Em fevereiro de 2012, Newton Moreno nos “devolve” fábulas familiares com enredos, personas, estados emocionais pessoais e coletivos, localizadas em tempo e espaço e num espaço-tempo naturalmente e intimamente perceptível e reconhecível por todos nós de Os Fofos.
Não fora um texto construído em gabinete. Disso bem sabemos. Sem nunca pretender aqui suscitar juízo de valor. Compactuamos com Newton Moreno o mergulho na busca desta dramaturgia intitulada por ele mesmo como obra plural e notada como Texto Newton Moreno Em processo colaborativo com a Cia Os Fofos Encenam, sem partirmos de nenhum texto dramático pré-cênico ou cênico, sendo este último o texto literário efêmero presente em qualquer prática discursiva cênica (DUBATTI, 2010).
135Ver seção II.2.6.
136Ver Encarte: Escritos de si e escritos de outros: descrições, dramaturgias, narrativas e roteiros
“No Assombrações do Recife velho e no Memória da Cana, foram intervenções nos textos basilares [pré-cênicos ou cênicos]. No Memória da Cana, Parte II – O Pentateuco, é uma criação dramatúrgica” (Informação verbal)137.
O meu intuito perante vós, é apenas de espiar a natureza e propriedades do texto Terra de Santo (O Pentateuco) produzido por todos nós Os Fofos, que ora vou denominar como texto dramático pós-cênico – aquele que guarda uma relação complexa com o acontecimento teatral e que é definido por Dubatti (2010, p. 155, tradução nossa) como: “Classe de texto literário que surge da notação (e transformação) do texto cênico e do repertório de ações não verbais do texto espetacular em outra classe de texto verbal heteroestruturado (organizado ao mesmo tempo pelas matrizes da literaturidade e da teatralidade”
Ainda sobre a relação texto e cena, Féral (2004, p. 87, tradução nossa) esclarece:
Diria que o século XX fez com que o teatro, assim como as outras artes, reconsiderasse suas certezas. O que surgia, todavia, de estéticas teatrais claras e por essência normativas, em fins do século XIX, progressivamente foi questionado no século XX, ao mesmo tempo em que a cena tomou distância com relação ao texto e ao lugar que este deveria ocupar no empreendimento teatral.
Esta mesma autora em Teatro, teoria y práctica: más allá de las fronteras, inicia um capítulo intitulando-o “A cena e seu texto” e não “O texto e a sua cena”, invertendo, pois, a ordem habitual que se dá aos dois termos “texto” e “cena”, segundo ela, com o objetivo de ressaltar a relação que o ator mantém com o texto no curso da representação de um espetáculo forjado a partir de uma prática.
E eis que temos o nosso caso: o Terra de Santo (Pentateuco), um texto dramático pós- cênico, forjado a partir de uma experiência coletiva alicerçada em: idiossincrasias sagradas pessoais; memórias de “arquivo” do livro sagrado O Pentateuco; e, memórias de “arquivo” e de “repertório” e uma “atitude etnográfica” sobre o universo da cana-de-açúcar e sua relação histórica com o Brasil – fundações que tinham por objetivo maior provocar a emergência de procedimentos cênicos de representação ou encenação, que ora passo a nomear de cenas-
137Informação verbal fornecida em 02 de abril de 2011 no encontro com a Cia dos Atores durante o projeto Mostra Rumos Teatro – 2011 do Itaú Cultural, no Espaço Os Fofos Encenam.
gêneses. Estas cenas-gêneses e suas respectivas notações dramáticas foram inspirações e ferramentas para Newton Moreno, por sua vez, na concepção do texto dramatúrgico final do processo.
Daí vos pergunto: como desagregar o texto da encenação se esta de alguma forma é ou foi a gênese do primeiro? O texto dramático pós-cênico Terra de santo (O Pentateuco) influiu nas cenas-gêneses para apurá-las dando a elas agora categoria de texto espetacular, como o define Féral (2004) – resultado de um apertado tecido entre o texto e os outros elementos da representação – ou as cenas-gêneses presentes como sementes no texto Terra de Santo (O Pentateuco) fez cintilar as fábulas familiares narradas? Para que sabê-lo?
Como já vos disse, o que me interessa é apenas espreitar a natureza mais íntima de sua fertilização, a sua gestação e o seu parto. Então, convido-vos para esse pequeno êxodo em busca de um ritual de nascimento.