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6 CONCLUSION

6.1 Operations

Filho do titã Jápeto e de Clímene, Prometeu é um misto de Criador, Herói e Divindade Considerado inteligente, hábil e formoso, Prometeu, nome que se traduz por ‘previdente’, ousa afrontar Zeus, o pai dos homens e dos deuses. Ludibriando-o, Prometeu leva Zeus a escolher um monte de ossos e deixar a melhor parte do sacrifício para os homens. Como punição, Zeus retira dos homens o fogo, que é recuperado por Prometeu e devolvido à

446

Adorno utiliza essa expressão em seu artigo “Museu Valéry-Proust”, no qual confronta a visão desses dois grandes escritores sobre a instituição museal.

447 VALÉRY, 2005:34.

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humanidade, levantando novamente a fúria de Zeus. O pai dos deuses então condena Prometeu a ser acorrentado a um penhasco, no qual uma águia lhe devorará o fígado diariamente. Algumas versões contam que ele ficou preso por longo tempo, até ser libertado por Hércules. Outras falam que, ao avisar Zeus de que não deveria se casar com Tétis, pois essa união geraria um filho mais poderoso do que o pai, Prometeu é libertado de seu castigo como retribuição, tendo apenas que usar um anel, feito da pedra do penhasco, como símbolo e lembrança de sua punição.

Em Prometeu aguilhoado, de Ésquilo, o titã é apresentado como “o benfeitor da humanidade que com a sua dádiva do fogo permite o progresso do homem; também como o rebelde obstinado que não cede ao poder tirânico de Zeus, opondo firmeza de carácter e serenidade, ante a injustiça do castigo, à subserviência das demais figuras”449. Em outras fontes, como as Metamorfoses de Ovídio, Prometeu é apresentado como o criador dos homens, modelando-os à imagem dos deuses. Assim, o mito de Prometeu explica o aparecimento do fogo – compreendido às vezes como representação do progresso humano, do conhecimento ou mesmo da vida – servindo assim à simbologia da luta por uma causa, da grandeza de alma e de espírito; dos questionamentos e da incerteza diante da condição humana:

E assim o mito de Prometeu, além de explicar o aparecimento do fogo, ofereceu-nos também uma figura de significado poliédrico que é ao mesmo tempo símbolo do que implique luta por um ideal e nobreza de alma; símbolo de inquietação humana e das crenças e aspirações que ao longo dos tempos predominaram sucessivamente no coração humano; símbolo de protesto do homem contra a injustiça e da liberdade contra a opressão; elogio do saber e da luta do artista para dar forma à sua obra; símbolo da elevação do poeta ao lugar de Deus criador e do esforço criador do homem que ultrapassa a sua condição, quer desafiando a divindade, quer arrostando contra o mundo adverso; enfim, bandeira da rebelião da natureza contra as regras e símbolo da humanidade e da cultura humana, desde o renascimento.450

Dominica Radulescu, em seu texto L’héritage classique face à la modernité (2004), compara o personagem Kyo, de La Condition Humaine, ao grande herói da mitologia e da tragédia gregas, Prometeu. Personagem infinitamente complexo, ela diz que, por sua revolta contra a tirania e a autoridade, assim como por sua renúncia à felicidade pessoal e mesmo à vida, em nome da dignidade dos outros e de sua visão profundamente humanitária, muito se aproxima do mítico herói grego451. Malraux faz referência explícita ao mito de Prometeu em Démon de l’absolu, ao dizer que a aventura faz parte da revolta contra a ordem dos deuses, levando os

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FERREIRA, A figura de Prometeu em poetas portugueses contemporâneos in Revista de Letras da Universidade de Coimbra, s/d:173.

450 FERREIRA, s/d:173.

451 RADULESCU, L’héritage classique face à la modernité In FOULON (ed), André Malraux et le rayonnement culturel de la France. 2004: 54.

homens a, através dela, reconhecerem em seus gestos de imperador, herói ou extravagante, a lição de Prometeu. Há, portanto, um pouco do castigo de Prometeu em cada um, como se todo homem carregasse em si o fogo da revolta e do questionamento contra a miséria da condição humana.

Se Malraux remete ao mito de Prometeu, seja por seus personagens, seja por sua personalidade, não deixa de ser interessante essa associação. Longe de ser um herói, trágico ou grego, Malraux no entanto surpreende por sua complexidade, que em seu caráter extravagante ou audacioso, o aproxima de um Prometeu revoltado, que procura lutar com suas próprias armas – a escrita, a palavra e a arte - contra o destino inevitável da condição humana. E como (pré)diz em Démon de l’absolu, a lição dos deuses, que se abateu sobre Prometeu, recai dessa vez sobre um herói revoltado, impetuoso, punido talvez pela ousadia de desafiar a fatalidade e o destino, mas que alguns sinais mostram já cansado, em seus últimos anos de vida. Seja ou não uma forma de punição dos deuses, as tragédias de sua vida pessoal e intelectual (morte dos dois jovens filhos, morte de Josette Clotis, distanciamento de alguns amigos e colaboradores, morte de De Gaulle, problemas de saúde, desgaste político) levam-no a assumir um tom diverso do que é encontrado nos discursos feitos durante o início e o auge de sua ação. Ainda que o tom crítico permaneça até o fim, o ânimo se mostra essencialmente pessimista e pleno de questionamentos, e suas respostas não são mais as mesmas. Aparentemente, a crença e a esperança na humanidade e no progresso, bem como na arte como meio de salvação, dão lugar ao tom ácido e a palavras duras.

Já em seus últimos anos de vida – Malraux morre em 1976 -, o escritor não mais fazia parte da vida política oficialmente, pois havia deixado o governo em 1969. No entanto, sua personalidade e seu prestígio haviam ultrapassado a carreira de ministro ou mesmo a de escritor, e pode-se afirmar que, ainda que fora da vida política, não havia se retirado da vida pública. Condecorações notáveis, como a do Prêmio Nehru, na Índia, em 1974, ou ainda o convite para discursar na comemoração do 30° aniversário de liberação dos primeiros sobreviventes dos campos de concentração por forças aliadas, em 1975, na cidade de Chartres; sãos estes fatos a serem observados no final da trajetória de Malraux e que, felizmente, deixaram dois discursos memoráveis como registro. Esses dois registros, no entanto, parecem mostrar um Malraux diferente dos anos anteriores. Talvez isso se deva ao confronto com o fim próximo, ou mesmo a seu estado de saúde, que já requeria cuidados especiais, ou ao cansaço pelas tragédias da vida, cansaço por aquilo que não é possível transformar, apesar de sua própria determinação. Conjecturas, enfim; mas o fato é que seu tom mostra outras nuances, e bem mais pessimistas. Sua visão de mundo já não é mais

inclinada à crença na fraternidade, ou pelo menos não da maneira quase idealista presente em quase todas as suas falas públicas. Suas palavras em relação ao homem e ao mundo se mostram bem mais duras.

Quando Malraux é indicado para concorrer ao Premio Nehru452, é interessante notar que sua primeira reação é de recusa à candidatura, como atesta a reprodução da carta de Sophie de Vilmorin, sua companheira nos últimos anos:

23 de fevereiro de 1973 Senhor MAGNINY

Ministério de Assuntos Exteriores Quai D’Orsay, 37

75007 – Paris Senhor,

Queira desculpar o atraso com o qual respondo a sua pergunta apresentada muitos meses atrás. A saúde do Senhor André Malraux parece agora quase inteiramente estabelecida, e ele pôde retomar numerosas questões que haviam ficado em suspenso durante sua doença. Infelizmente, sou encarregada de dizer ao senhor que ele não deseja que sua candidatura ao Prêmio Nehru seja apresentada.

No entanto, ele o agradece por sua sugestão. Sophie L. de Vilmorin453

Trata-se da resposta, datilografada por Vilmorin, ao dossiê de candidatura proposto por M. Magnyny, representante do Ministério de Assuntos Exteriores. No texto, Vilmorin se desculpa pela demora, deixando entender que esta se deve ao precário estado de saúde de Malraux. E afirma que Malraux não deseja que sua candidatura seja lançada. A reação de Malraux pode também se dever a duas possibilidades, além de um possível desânimo em relação a causas e lutas: seu próprio estado de saúde, ainda que melhor, continuava delicado, e não o estimulava a viagens e a aparições públicas. Pode, também, dever-se a um certo mal-estar que houve em seu mandato com o Ministério de Assuntos Exteriores, quando o então ministro Michel Debré recusa a Malraux a prerrogativa das relações culturais internacionais, pasta fortemente requisitada pelo ministro-escritor. Sobre o caso, Philippe Poirrier comenta: « “Por outro lado, André Malraux não obtém a vinculação ao Ministério da Cultura dos serviços culturais

452 O Prêmio Nehru foi criado pelo governo indiano após a morte do líder Jawaharlal Nehru em 1964, lamentada pelo mundo inteiro. Anualmente, uma personalidade é escolhida por sua notável contribuição para o progresso internacional, o bem-estar e a amizade entre todos os povos do mundo. Alguns dos predecessores de Malraux foram Martin Luther King (póstumo) e Madre Theresa. Interessante observar que, em 2006, o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, foi agraciado com o mesmo prêmio.

453 Documento pertencente ao dossiê Prix Nehru, na Bibliothèque Jacques Doucet, Fonds Malraux, Cote MLX ms ep 165-166. Tradução minha.

delegados inicialmente ao Ministério dos Assuntos Exteriores. A recusa de Michel Debré é sem apelo»454. Michel Debré fala sobre a questão em seu livro de memórias lançado em 1988, e uma possível de mágoa de Malraux em relação ao fato:

Eu não quis ceder à solicitação de confiar-lhe [a Malraux] a direção dos Assuntos culturais que se localiza no Quai D’Orsay, pois me parece indispensável conservar a unidade de nossa ação no exterior. Seu gênio não necessita desses serviços para afirmar a presença cultural da França fora de nossas fronteiras! No entanto, a seus olhos, é uma sombra no quadro e Malraux, sem nunca me dizer abertamente, se mostrará sensível à recusa..455

Assim, por questões de mal estar ou de saúde, o fato é que Malraux procurou declinar gentilmente do convite à candidatura. Porém, provavelmente pela demora de sua carta resposta, a candidatura foi realizada e vencedora do Prêmio Nehru de 1972, como ilustra esse comunicado à imprensa feito pelo governo indiano, num tom extremamente elogioso e engrandecedor de Malraux:

Comunicado de Imprensa de 12 de outubro de 1973

Após um profundo exame das numerosas propostas recebidas do mundo inteiro, o júri do Prêmio Jawaharlal Nehru para a compreensão internacional decidiu, por unanimidade, atribuir essa recompensa, para o ano de 1972, ao Senhor André Malraux, França.

A brilhante personalidade de André Malraux se exprime com eloqüência em suas ideias, sua escrita e seus atos. Nos termos do próprio Jawaharlal Nehru “Com seu espírito poderoso e analítico, ele (Malraux) procurou a luz aonde ele poderia encontrá-la, no passado e no presente, por seu pensamento, sua fala, seus escritos ou, melhor do que tudo, por sua ação, no jogo da vida e da morte”.

Campeão insaciável da liberdade e da dignidade humana, André Malraux lutou com sua pena e sua espada contra a exploração do homem pelo homem e para amenizar os sofrimentos de milhões de oprimidos nas diversas partes do mundo. Sem ser intimidado por sua posição eminente, oficial e pessoal, ele demonstrou a coragem de suas opiniões em um grau que impõe grande respeito. O interesse apaixonado pela condição humana e sua crença no destino comum do homem conduziram-no além de sua herança européia ao estabelecer relações próximas com os povos e as culturas asiática e africana.

454 POIRRIER, 2000:87. Tradução minha do original: «En revanche, André Malraux n’obtient pas le rattachement au Ministère des Affaires Culturelles des services culturels abrités par le Ministère des Affaires Etrangères. Le refus de Michel Debré est sans appel.»

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POIRRIER, 2000:88. Tradução minha do original: «Je n’ai pas voulu céder à sa demande de lui confier la direction des Affaires culturelles qui demeure au Quai d’Orsay, car il me paraît indispensable de conserver l’unité de notre action à l’étranger. Son génie n’a pas besoin de ces services pour affirmer la présence culturelle de la France hors de nos frontières! Cependant, à ses yeux, c’est une ombre au tableau et Malraux, sans me faire ouvertement le reproche, y sera sensible».

A recompensa atribuída a André Malraux é uma homenagem a sua dedicação, durante toda sua vida, ao ideal da paz, da compreensão internacional, do bem-estar e da amizade entre os povos do mundo.456

O texto exalta as conquistas de Malraux, bem como seu combate pela liberdade e pela dignidade humanas, utilizando como armas “sua pena e sua espada”, e lembrando ainda que seu interesse pela condição humana o levou além da nação européia, aproximando-o de culturas como a asiática e a africana. No texto, um dos pontos levantados é que Malraux nunca se intimidou com sua posição de prestígio, mostrando coragem diante de opiniões contrárias e impondo respeito às suas ideias. Interessante observar que, ao lado da exaltação de suas conquistas e da importância de seu papel, um dos fatos lembrados e utilizados como justificativa à homenagem reside justamente no reconhecimento de que a presença constante de críticas desfavoráveis – que se referem sobretudo a seu período no governo gaullista - não o desencorajaram.

No discurso de agradecimento, na Índia, em 1974, por ocasião da entrega do prêmio, o que se vê é um Malraux visivelmente debilitado e afetado por certo negativismo em sua visão do mundo e dos homens. Ele inicia sua palavra de forma mais categórica do que o usual, afirmando que o mundo atual necessita passar por mudanças radicais:

Il est clair pour tout historien que l'ordre social du monde se trouve dans l'état où se trouvait l'ordre social des nations il y a un siècle. (…)

Mais nous avons tous pris conscience que le monde en gestation appelle des changements radicaux, non d'heureuses adaptations du monde de naguère. (ref. 7.6) 457

E continua, ao indagar sobre o futuro da civilização: “Pour quels petits-fils travaillons-nous? De quels moyens dispose une politique de survie de notre civilisation?»458. Malraux

456 Documento pertencente ao dossiê Prix Nehru, na Bibliothèque Jacques Doucet, Fonds Malraux, Cote MLX ms ep 165-166. Tradução minha do original: Communiqué de Presse du 12 octobre 1973/Après un examen approfondi des nombreuses propositions reçues du monde entier, le jury du Prix Jawaharlal Nehru pour la compréhension internationale a décidé à l’unanimité d’attibuer cette récompense, pour l’année 1972, à M. André Malraux, France./L’éclatante personnalité d’André Malraux s’exprime avec éloquence dans ses propos, ses écrits et ses actes. Dans les termes mêmes employés par Jawarhal Nehru « Avec son esprit puissant et analytique, il (Malraux) a cherché la lumière là ou il pouvait la trouver, dans le passé et dans le présent, par sa pensée, sa parole, ses écrits ou, mieux que tout, par son action, dans le jeu de la vie et de la mort.»/Champion insatiable de la liberté et de la dignité humaine, André Malraux a lutté vaillament avec sa plume, et son epée, contre l’exploitation de l’homme par l’homme et pour l’allègement des souffrances de millions d’opprimés dans diverses parties du monde. Sans être intimidé par sa position éminente, officielle et personnelle, il a montré le courage de ses opinions à un degré qui impose le respect le plus large. L’intérêt passionné qu’il porte à la condition humaine et sa croyance dans le destin commun de l’homme, l’ont conduit au-delà de son héritage européen jusqu’aux relations intimes avec les peuples et les culture asiatique et africaine./La récompense attribué à André Malraux est un hommage à un dévouement de toute sa vie à l’idéal de la paix, de la compréhension internationale, de la bienveillance et de l’amitié entre les peuples du monde.

457 MALRAUX, Discours en Inde - Prix Nehru (1974). Dossiê Prix Nehru, Fonds Malraux, Bibliothèque Jacques Doucet, MLX ms ep 165-166.

458 MALRAUX, Discours en Inde - Prix Nehru (1974 Dossiê Prix Nehru, Fonds Malraux, Bibliothèque Jacques Doucet, Cote MLX ms ep 165-166.

desenvolve, ao longo desse discurso, a afirmação lançada no início, de que o mundo precisa de transformações radicais. Mas na tentativa de explicar sua colocação, ele soa de maneira sobretudo pessimista, ao contrário do tom encontrado em discursos anteriores, o que chama bastante atenção. Ele enumera os males da humanidade: fome, ataques nucleares, crescente escassez dos recursos naturais, guerras, concluindo que a ciência, ao valorizar o poderio humano, também tem seu preço, e para toda conquista positiva há um correspondente negativo:

Nous connaissons les retombées atomiques, le siècle prochain connaîtra toutes les retombées de la puissance humaine. Le XIXe s’est écoulé dans la certitude que la science n’a pas de passif. Le nôtre sait qu’à l’anesthésie répond la dynamite, qu’à la pénicilline, la bombe atomique, à la conquête de la lune, le drame de la jeunesse. On a cru que la puissance de l’espèce humaine irait sans rançon; que la science donnait, parce qu’elle n’avait pas encore présenté ses factures. Nous n’igniorons plus qu’elle termine l’addition. Aux fléaux mineurs, la raréfaction de l’eau potable par exemple, s’ajoutera la présence de fléaux millénaires, la famine et l’inondation. Un siècle de télévision les supportera-t-il? Ceux qui les subissent, eux, ne les supporteront plus.459

E a reflexão segue, com a interrogação: “Toute tentative d’organisation du monde, même partielle, est chimérique ?”460. Mesmo nas notas manuscritas que indicam caminhos de raciocínio para a preparação do discurso, o que se vê são termos pouco usuais nas falas malrucianas, tais como “ódio” e “destruição das espécies”. Outra questão surge, dessa vez sem resposta: “Que peut-on pour les hommes?”, e com ênfase no verbo ‘peut’, sublinhado. O destaque para o verbo parece indicar que a dúvida reside justamente na possibilidade de ação, quer dizer: é possível, ou não, fazer algo pela humanidade?

(1)- La haine ?

Que peut-on pour les hommes ? La destruction des espèces Retombées techniques 461

As notas seguintes corroboram o tom descrente e pessimista, apresentando mesmo sentidos mais fechados, não mais colocados em interrogação, mas em afirmações: “A aproximação positiva (amizade) é utópica, mas não a negativa (acabar com o ódio)”.

(2)-

Le rapprochement positif (amitié) est utopique,

459 MALRAUX, Discours en Inde - Prix Nehru (1974). Dossiê Prix Nehru, Fonds Malraux, Bibliothèque Jacques Doucet, Cote MLX ms ep 165-166.

460 MALRAUX, Discours en Inde - Prix Nehru (1974). Dossiê Prix Nehru, Fonds Malraux, Bibliothèque Jacques Doucet, Cote MLX ms ep 165-166.

461 MALRAUX, Discours en Inde - Prix Nehru (1974). Dossiê Prix Nehru, Fonds Malraux, Bibliothèque Jacques Doucet, Cote MLX ms ep 165-166 (miettes de discours).

pas le négatif (supprimer la haine) 462

Nessa nota, que não está de todo clara em seu significado, mas é coerente com o tom geral utilizado no discurso e com as ideias apresentadas nele, Malraux parece fazer menção à sua ideia de fraternidade, amplamente trabalhada em suas falas e utilizada como forma de apostar em uma possibilidade de aproximação, igualitária, entre nações e culturas diferentes. O curioso é que, no manuscrito, o escritor parece justamente não acreditar mais nas colocações sobre fraternidade e amizade, tão preconizadas em seus discursos, sobretudo nos que eram realizados no exterior.

Em 1975, um ano antes de sua morte, no discurso de Chartres, por ocasião do trigésimo aniversário de liberação dos campos de extermínio, chama a atenção também sua narrativa dos horrores cometidos em tais lugares. Se tal narrativa é justificável a fim de relembrar os acontecimentos vividos pelos franceses durante a ocupação alemã, ela se faz extremamente longa e detalhada, começando pelo impactante trecho: « Je rouvivrai à peine le livre des suplices. Encore faut-il ne pas laisser ramener, ni limiter à l´horreur ordinaire, aux travaux forcés, la plus terrible entreprise d´avillissement qu´ait connue l´humanité »463.

Nesse discurso, reproduzido e comentado em jornais como Le Figaro (12.05.75) e Herald Tribune (12.05.75), ele pondera sobre as atrocidades cometidas contra a humanidade pelos próprios homens, dizendo que tais ações eram realizadas pelo mal absoluto; esse mal era, portanto, uma parte dos homens da qual os próprios homens tinham medo. E ele segue, num trecho extremamente interessante, ainda que se mostre bastante severo ao julgar os homens: « Il y a quelque chose d´énigmatique et de terrifiant dans la volonté de déshumaniser l´humain, comme dans les pieuvres, comme dans les monstres. (...) Là, pour la première fois,