4 METHODOLOGY
4.4 Assessment
Abordar a relação entre sociedade e memória é uma tarefa delicada, sobretudo porque os primeiros passos incluem o manuseio do termo cultura, no qual incidem os diversos conceitos que permeiam sua trajetória teórica no campo da antropologia e, mais recentemente, dos estudos culturais. Assim, para que esse estudo não se envolva em campos teóricos, por vezes controversos, que não compõem absolutamente o objetivo da pesquisa, a discussão conceitual sobre o significado de cultura não será abordada.
Por ora, interessa a investigação sobre a memória como fim e o patrimônio como ferramenta; ferramenta de seleção do registro do tempo, do que vale a pena ser mantido na lembrança coletiva. Considerando, ainda, uma espécie de duplo fenômeno social: enquanto o tempo se acelera cada vez mais rápido, seguindo os rastros da tecnologia, nunca se guardou tanto, nunca se buscou tanto a preservação, em arquivos, em museus, em monumentos, em bibliotecas. Consolida-se então a relação e o compromisso entre tecnologia e registro; e a fronteira entre memória real e memória virtual se torna cada vez mais tênue.
Para Pierre Nora, no texto “Entre memória e história, a problemática dos lugares”, a consciência da inexorabilidade do tempo gera uma ruptura entre passado e presente, e uma conseqüente angústia surge, pela compreensão de que o desequilíbrio temporal é característica intrínseca da condição humana; isto é, o tempo passa, o passado se torna morto e o porvir é sempre enigmático. Dessa forma, surge a tentativa de apreender o passado, formalizado em lugares que cristalizam as repetições, as tradições, a memória. Afinal, como afirma Nora, “fala-se tanto da memória porque ela não existe mais”101. O historiador faz sua análise crítica sobre o tema:
Aceleração da história. Para além da metáfora, é preciso ter a noção do que a expressão significa: uma oscilação cada vez mais rápida de um passado definitivamente morto, a percepção global de qualquer coisa como desaparecida – uma ruptura de equilíbrio. O arrancar do que ainda sobrou de vivido no calor da tradição, no mutismo do costume, na repetição do ancestral, sob o impulso de um sentimento histórico profundo. A ascensão à consciência de si mesmo sob o signo do terminado, o fim de alguma coisa desde sempre começada.102
101 NORA, Entre memória e história: a problemática dos lugares. 1993:07. 102
A aceleração da história dá lugar ao esfacelamento da memória tradicional, representada pelas sociedades-memória, ou seja, grupos responsáveis pela transmissão de valores: etnias, famílias, escolas, igrejas. Fim, ainda, como assinala Nora, das ideologias-memórias, que “asseguravam a passagem regular do passado para o futuro, ou indicavam o que se deveria reter do passado para preparar o futuro; que se trate da reação, do progresso ou mesmo da revolução”103. O passado é retido e reapropriado, a fim de atenuar a ruptura entre o obsoleto e o futuro desconhecido; são criados espaços materializadores dessa memória perdida, porque não mais natural ou tradicional, em conjunto com um lugar de fala, que institucionaliza medidas e procedimentos para a preservação e a conservação. Nesses termos, encontra-se embutida a ideia de continuidade, de manutenção, de forma a reduzir os vestígios de mudança ou de confronto a níveis mínimos. Porém, para que esses sinais permaneçam encobertos, é necessário um laborioso e contínuo processo; um trabalho árduo que, por ser realizado por olhos e mãos do presente, costuma criar conflitos entre o tempo decorrido e o futuro. Eis o grande desafio do patrimônio e da memória cultural: (re)unir espaços de memória em harmonia com o olhar do presente e a desmaterialização do futuro,compreendendo o bem patrimonial como a concretização de processos memorialísticos, e não como sinônimo de memória.
Para a filósofa Agnes Heller, no ensaio Memória cultural, identidad y sociedad civil, entende- se por memória cultural o conjunto de procedimentos que contêm significados compartilhados por um grupo de pessoas. Esses significados podem assumir a forma textual e se mostrarem como signos materiais, a exemplo de imóveis e de estátuas; ou, ainda, como signos imateriais, através de festas, cerimônias, rituais, modos de fazer. Relacionados sempre à identidade coletiva, são depositários de um registro, de uma memorabilia, que só adquirem significado ao serem incessantemente reconstruídos pela comunidade na qual se inserem, o que remete ao conceito de metamorfose, desenvolvido por André Malraux. Para o escritor, a metamorfose consiste na capacidade incessante de ressignificação da obra de arte, a partir de confrontos e de diálogos com outras obras, alicerçados em tempos e espaços distintos. Assim, como pondera Heller, a memória cultural se constrói na metamorfose constante dos signos de registro:
Antes, a memória cultural estava de acordo com objetivos que forneciam significados de uma maneira concentrada, significados compartilhados por um grupo de pessoas que deles se apropriavam. Podiam ser textos, tais como pergaminhos sagrados, crônicas históricas, põesia lírica ou épica. Também podiam ser monumentos, como edifícios ou estátuas,
103
abundantes em signos materiais, sinais, símbolos e alegorias que funcionavam como depósitos de experiência, memorabilia construídos como recordatórios. Mas agora a memória cultural está incorporada a práticas repetidas e repetíveis regularmente, tais como festas, cerimônias, ritos. Finalmente, a memória cultural, tal qual a memória individual, está associada aos lugares. Lugares nos quais tenha ocorrido algum acontecimento significativo e único, ou nos quais um acontecimento significativo se repita regularmente (...).
A memória cultural é construção e a afirmação da identidade.104
A memória cultural põe em cena, paralelamente, tanto a criação de signos e de alegorias, quanto a existência de lacunas, como destaca Nora: “Se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares”105. Signos e símbolos como depositários de experiências configuram lugares de memória. A constituição dessas alegorias evidencia um distanciamento entre sociedade e memória. É como se o grupo precisasse de constantes sinais para relembrar os elementos que compõem sua identidade coletiva. Sinais esses que são escolhidos, selecionados e têm a função de dar sobrevivência a determinados fatos, personagens, ações, significados. Esse recorte nunca é aleatório, como mostra o historiador Jacques Le Goff, no artigo “Documento/Monumento”:
A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos.
De facto, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efectuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores.106
Le Goff caracteriza os dois termos, documento e monumento, como materiais da memória e investiga seus significados. Monumentum, do latim monere, fazer recordar, iluminar, é um sinal do passado, tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação. Ele destaca que, desde a Antiguidade romana, o monumentum segue duas tendências: uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura; e um monumento funerário para perpetuar a recordação de uma pessoa. Assim, o binômio morte/memória se faz presente, sendo a morte o lugar máximo de ausência do outro, no qual, assim, os mecanismos de memória artificial – monumento – entram em cena a fim de suavizar a lacuna. O historiador ainda enfatiza:
O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória colectiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos.107
104 HELLER, Memoria cultural, identidad y sociedad civil. 2003:06. 105 NORA, 1993:08.
106 LE GOFF, Verbete Documento/Monumento In Enciclopédia Einaudi. 1985:95. 107
À guisa de comentário, a tradição da memorabilia na forma de edificações e de construções, iniciada na Antigüidade Romana, fundamenta a maior parte das noções de patrimônio histórico e cultural no Ocidente, até a atualidade. O chamado patrimônio de “pedra e cal” ainda prevalece como valor qualitativo e seletivo.
Já o termo latino documentum é derivado de docere, ensinar, e evoluiu para o significado de prova, sendo utilizado no vocabulário legislativo. Assim, através da linguagem jurídica, o sentido de testemunho histórico é incorporado e, a partir do século XIX, com a escola histórica positivista, documentum se torna o fundamento do fato histórico. É considerado, pela historiografia tradicional, como prova histórica, ainda que seja resultado da escolha do historiador. Importante salientar que a ideia de documento se contrapõe à de monumento, na medida em que o primeiro aponta na direção de uma suposta objetividade, ao contrário da manifesta intencionalidade do monumento. No século XX, com a Escola Annales, surgida a partir da Revue des Annales (1929) e formada por historiadores como Marc Bloch, Lucien Febvre, Fernand Braudel, Michel Foucault e o próprio Le Goff, a noção positivista de documento é posta em questão e seu conceito é alargado, assumindo um sentido mais amplo de documento escrito, ilustrado, sonoro, visual, e torna-se, ao invés de ponto de partida, um valor relativo que compõe o problema histórico.
Assim, Le Goff constata que o que transforma o documento em monumento é a sua utilização pelo poder. O documento/monumento é composto por elementos que funcionam como “um inconsciente cultural que assume um papel decisivo e intervém para orientar uma apreensão, um conhecimento, uma apresentação (...)”108. Esse inconsciente cultural mencionado por Le Goff retoma a noção de memória cultural apresentada por Heller: a memória a serviço da construção de uma identidade coletiva. Essa coletividade, ao reconhecer alegorias como depositárias de significados e de registros do tempo passado, dá origem a uma crescente preocupação com a memória e com os meios de preservação, configurando um movimento tão expressivo que o crítico alemão Andréas Huyssen o classifica como fenômeno: o foco contemporâneo na memória e na temporalidade.
Em seu trabalho dedicado ao tema, Seduzidos pela memória (2004), Huyssen aborda o nascimento de uma cultura e de uma política da memória, fortalecidas sobretudo a partir do século XX com expressivos eventos históricos, a exemplo do movimento de descolonização, da queda do Muro de Berlim e de novos movimentos sociais. Ele cita ainda o Holocausto como grande modelo de construção de um discurso da memória, com seus debates cada vez
108
mais amplos em meios de comunicação de massa, sua representação através de filmes e de séries televisivas e a criação do Holocaust Memorial Museum (1993), em Washington/EUA, o que não deixa de ser sintomático: a apropriação americana do trauma judaico.
Para Huyssen, o fenômeno põe em cena a globalização da memória e dos elementos que a compõem, aí compreendidos os já falados monumentos e documentos, ambos em sua condição ampla de signos mnemônicos. Ele afirma ainda que essa globalização evidencia dois sentidos: primeiro, o caráter de consumo que a memória assume, ao transformar o evento e o discurso em produtos e cifras; segundo, a “prova da incapacidade da civilização ocidental de praticar a anamnese, de refletir sobre sua inabilidade constitutiva para viver em paz com diferenças e alteridades”109. Em outras palavras, ao massificar e ao transformar a memória em algo consumível, a sociedade perde a oportunidade de reavaliar os eventos passados, procurando interrogar as relações de tolerância e de poder que se formaram e que, debatidas e questionadas numa instância profunda, tendem a se tornar objetos de recomposição e de redescoberta da própria civilização, a fim de não repetir os mesmos erros. Porém, na medida em que é instaurado um discurso totalizante e superficial, os sentidos se perdem e a apropriação coletiva do significado daquela memória não se concretiza. Huyssen afirma ainda que a disseminação geográfica da cultura da memória se mostra tão expressiva quanto o uso político da memória:
A disseminação geográfica da cultura da memória é tão ampla quanto é variado o uso político da memória, indo desde a mobilização de passados míticos para apoiar explicitamente políticas chauvinistas ou fundamentalistas (...), até as tentativas que estão sendo realizadas, na Argentina e no Chile, para criar esferas públicas de memória “real” contra as políticas de esquecimento, promovidas pelos regimes pós-ditatoriais (...).110
O teórico George Yúdice, na obra A conveniência da cultura: usos da cultura na era global (2006), também aborda o tema e alerta para o risco de a cultura da memória na globalização transformar em turismo cultural processos simbólicos de cura. Este é o caso, por exemplo, dos efeitos de grandes eventos trágicos que geram desaparecidos: guerras, atentados, acidentes e ditaduras políticas resultam invariavelmente em um grande número de vítimas, cujos familiares buscam se apoiar na operação simbólica que torne os desaparecidos mais presentes e visíveis. Yúdice então cita como exemplo o atentado de 11 de setembro em Nova York. O lugar onde ocorreu o evento traumático se tornou, num primeiro momento, uma espécie de santuário em homenagem às vitimas. Em seguida, ergueu-se uma plataforma panorâmica no espaço, que deveria guardar alguma relação com a memória, mas
109 HUYSSEN, Seduzidos pela memória. 2004:13. 110
transformou-se em mera atração turística, dando início a um processo de esquecimento. Yúdice ressalta que um lugar transformado em recurso turístico para produzir atividade econômica não é o mesmo que um lugar destinado à comemoração, revelação ou rememoração111. Daí a importância de uma cultura democrática coletiva, que saiba diferenciar narrativas estéticas relacionadas à memória, a fim de interrogar um processo de desaparecimento, e não um simulacro memorialistico cujo objetivo é atrair turistas, gerando mídia e lucros. Por outro lado, Yúdice aponta o paradigmático “Mães e Avós da Plaza de Mayo”, na Argentina, como exemplo de grupo pautado na cultura da memória de cura, que tradicionalmente se apropria do espaço público para reclamar os corpos e as pessoas dos desaparecidos durante o governo ditatorial. Malraux se refere à questão no discurso de apresentação do projeto de lei de restauração de monumentos históricos, afirmando a importância de salvaguarda dos monumentos para fins de preservação de uma memória coletiva, e não para fins turísticos, embora não se deva desprezar a presença do turismo na esfera do patrimônio cultural: “C'est pour cela que nous voulons les sauver; non pour la curiosité ou l'admiration, non négligeable d'ailleurs, des touristes, mais pour l'émotion des enfants que l'on y tient par la main”112.
Apesar de o processo de culto ao patrimônio ter se realizado ao longo do século XX, alicerçado pela consolidação dos processos de industrialização, os anos de 1960 foram decisivos para a mudança de perspectiva em relação aos monumentos históricos. Na França, país precursor em políticas públicas culturais, adotou-se um conjunto de procedimentos que buscaram reforçar o poder de ação e de decisão do Estado na preservação dos bens patrimoniais. Tornando-se modelo de gestão cultural para o mundo ocidental, a nação francesa tornou-se um exportador de valores e de referências em relação a ações culturais, gerando o que Françoise Choay identifica como “expansão ecumênica das práticas patrimoniais”113. Tal processo de mundialização de valores, bem como de homogeneização de monumentos históricos, foi legitimado através da Convenção adotada em 1972 pela Assembléia Geral da Unesco, relativa à proteção do patrimônio cultural mundial e natural. Ao propor o conceito de patrimônio cultural universal, baseado no valor universal e excepcional para a história da arte e a ciência, o texto proclamava, portanto, a padronização de valores e de referências relativos à identificação e à consolidação dos bens patrimoniais. Tal discurso de cultura e patrimônio sem fronteiras é reforçado pela discussão que permeia
111 YÚDICE, A conveniência da cultura: usos da cultura na era global. 2006:480/481.
112 MALRAUX, Discurso Présentation du Projet de Loi relatif à la Restauration des Grands Monuments Historiques (1961), 1996:50.
113
todo o século XX em torno da ideia de civilização, na qual se consolida a noção de integração política e social como prerrogativa para a nação do futuro.
Além disso, ao tratar a problemática do patrimônio e da sociedade, as implicações políticas de um lugar de fala que associa memória e Estado não podem ser deixadas de lado. A relação entre memória e identidade está conectada à formação dos estados nacionais, como reconhece Huyssen, ainda que sua perspectiva globalizante esteja impressa no diálogo contemporâneo que se faz do tema:
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que embora os discursos de memória possam parecer, de certo modo, um fenômeno global, no seu núcleo eles permanecem ligados às histórias de nações e estados específicos. (...) o lugar político das práticas de memória é ainda nacional e não pós-nacional ou global.114
Quanto à interação entre discursos de memória e identidades nacionais, vale ressaltar que, quaisquer que sejam as motivações das práticas de memória, “a globalização e a forte reavaliação do respectivo passado nacional, regional ou local deverão ser pensados juntos”115. No que se refere à profunda consciência temporal que se observa a partir do século XX e permeia a atualidade, a interferência da tecnologia nos processos memorialísticos se faz evidente. Pode-se citar como exemplo o Newseum, também em Washington/EUA, cujo acervo desafia os preceitos originais do museu clássico, já que composto pelo efêmero e intangível: a informação. Há de se citar ainda a ideia de museu imaginário, desenvolvida por André Malraux em Le Musée Imaginaire, e que permeia toda sua reflexão sobre a problemática entre museus, aura e reprodução. Embora o escritor não apresente uma definição objetiva do termo, a noção de museu imaginário evoca a ideia um espaço simbólico habitado por reproduções das grandes obras de arte, configurando um catálogo criado a partir da memória pessoal, composto por acervo construído individualmente. Na medida em que se coloca como lugar em construção, o museu imaginário estabelece a relação entre obra de arte e reprodução técnica, permitindo a seu “curador” ferramentas de seleção e de intervenção. Reapropriado pela renovação tecnológica, o museu imaginário se transforma numa construção efetivamente virtual e global. À guisa de ilustração de como a noção de museu imaginário pode ser evocada na contemporaneidade, interessante citar uma reportagem de 2007 que apresenta o museu ideal, realizado em conjunto a partir de suporte tecnológico:
Uma escadaria em Florença, pinturas feitas por homens da caverna e quadros de pintores renascentistas estão entre os escolhidos por alguns dos nomes mais respeitados da arte européia para comporem um 'museu imaginário' que celebra a diversidade da arte na Europa.
114 HUYSSEN, 2004:16.
115
A escolha foi feita por 27 artistas da União Européia - um de cada nacionalidade do bloco - escolhidos pela organização do evento. A cada um foi pedido "uma obra de arte que considera mais simbólica dentro da história" do continente.
As obras do 'museu imaginário' são apresentadas em um vídeo, um dos principais destaques da Europalia, uma bienal de arte que ainda inclui uma série de eventos de artes plásticas, música, teatro, dança, literatura e cinema e que fica em cartaz em Bruxelas até fevereiro de 2008.
O resultado é uma lista de obras e monumentos que, em alguns casos, não caberiam em um museu, mas "refletem os sentimentos e a experiência pessoal de cada artista", acreditam os organizadores. 116
No século XX, a preocupação com o termo civilização ganha espaço nos meios intelectuais, que o compreendem como o conjunto de valores e de pensamentos comuns capazes de inserir a nação no processo histórico de evolução social e cultural. Assim, uma nação civilizada encontra seu espaço reconhecido como parte de um grupo, para o qual os termos cultura, progresso e modernidade são meios e prerrogativas de integração social e política, reforçando a tese de valores patrimoniais universais, representada pela Convenção da Unesco de 1972. A questão da cultura e do patrimônio histórico como sistema de valores e de ações, que se consolidou ao longo do século XX, pode ser vista mais claramente no subcapítulo seguinte. Nele, será abordado como o papel de Malraux à frente do Ministério da Cultura se mostrou fundamental para o desenvolvimento da reflexão sobre cultura, arte e política na história da França e, por extensão, das nações que, posteriormente, foram influenciadas por seu pensamento no âmbito das políticas culturais.