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Para Fiorin19, o fundamento lexical da antítese é a antonímia. Com efeito,

Saussure (2006) diz que na língua só há diferenças. Isso quer dizer que só se compreende o sentido quando se apreende uma oposição, que, normalmente, fica implícita. A figura serve para mostrar as sutilezas da análise da realidade, em que se acotovelam incongruências e oposições.

Verificamos, na narrativa analisada, que a antítese ultrapassa as dimensões das palavras, dos sintagmas e dos períodos.

a) Palavras: “pais envergonhados de velhice e o aldegundes acordado de juventude. (p. 34. Grifos nossos)

b) Sintagmas: “furioso sem respostas, adormecido cada vez menos e acordado cada vez mais. (p. 47. Grifos nossos)

17 Vocábulos usados nas acepções de plantação, horta, gados. 18 Vocábulos usados nas acepções de gado, de horta.

19 Fiorin, José Luiz. A ênfase nas oposições. In Revista Língua Portuguesa, São Paulo, edição de abril de 2012.

34 c) Orações:“tão igual que nada a tivesse mudado, nada me parecia o mesmo.” (p.59. Grifos nossos)

Parece-nos estar no domínio da figura ora estudada, o masculino, representado por Dom Afonso, Baltazar, seu pai, Afonso, em oposição ao feminino, representado por Ermesinda, a mãe de Baltazar, que não é nomeada, Dona Catarina, Brunildes. As relações homem/mulher estão fundadas na oposição superioridade e inferioridade; arrogância e sujeição.

Envolve também a figura citada a composição de algumas personagens, caso de Baltazar e Ermezinda. Ambos podem ser comparados a dois focos: um, o sol brilhante e o outro, o sombrio. Trevas vs Luz parece distinguir o casal.

Passa-se da antítese à sua variante, o oxímoro, quando se consideram as características das personagens Ermesinda e Teresa Diaba.

Ermesinda Teresa Antíteses X Oxímoro Ermesinda Bela/feia Puta/pura

No gráfico acima, procuramos demonstrar de que maneira o texto trabalha as antíteses entre Ermesinda e Teresa Diaba resultando na fusão dos opostos em Ermesinda. O oxímoro consigna a fusão dos opostos, tem a finalidade de “apreender as aporias, os paradoxos, as incoerências de uma dada realidade”20. Ao provocar um estranhamento, torna o sentido mais profundo, mais intenso. Normalmente, esta figura é

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Fiorin, José Luiz. A graça do contraste. In Revista Língua Portuguesa. São Paulo, março de 2012.

“Pura” “bela” “virgem” “clareza” “brancura” “luz” “anjo” sublime “Puta” “feia” “estropiada” “torta” “animal” “diaba” profana

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construída estabelecendo uma relação entre duas qualidades conflitantes, para expressar a complexidade da realidade.

Já tivemos ocasião de comentar que o narrador apresenta Ermesinda liricamente, ela é etérea, a moça “de lá”, com valores que a dignificam. Já Teresa Diaba tem uma apresentação escatológica, vulgar, moça “de cá”, da terra.

Quando na apresentação de Ermesinda a Dom Afonso, os contrários se aproximam. Como se o sagrado e o profano pudessem conviver na mulher amada. Esta nova perspectiva em que vê Ermesinda desestabiliza o apaixonado protagonista que até o final da narrativa vai carregar a certeza da dúvida.

São norteadores do sentimento amoroso de Baltazar por Ermesinda a antítese e o oximoro. Uma relação em que convivem os contrários: a agressão revela o carinho; o ódio revela o amor; as ofensas morais e xingamentos convivem com a declaração apaixonada.

1.2.4 Hipérbole

A hipérbole (do grego hyperbolé, que significa "ação de lançar por cima ou além"; depois, "ação de ultrapassar ou passar por cima"; daí, "excesso", "amplificação crescente") é o tropo em que há um aumento da intensidade semântica. É a expressão intencionalmente exagerada com o intuito de realçar uma ideia21.

nem manjerona suficiente haveria em todas as terras para untar tanta ferida aberta que te fizesse. (p. 146. Grifos nossos)

fosse a ermesinda meter-se debaixo de dom afonso e que faria eu corno, apaixonado, morto de loucura por ela. (p. 45. Grifos nossos) a mulher queimada [...] tinha domínios desnaturais a permitirem-lhe capacidades de mais proveito que a força de mil homens, (p. 114.

Grifos nossos)

Ainda citando Fiorin22, o uso da hipérbole no discurso amplia a intensidade do sentido dado a uma realidade. Ao dizer de maneira mais forte alguma coisa, chama-se a atenção para aquilo que está sendo exposto. Quando se afirma, por exemplo, que a

21 Material pesquisado em http:www.controversia.com.br/index.php?act=textos&=10456, assinado por José Luiz Fiorin, acesso em 13.06.2012.

22 Material pesquisado em http:www.controversia.com.br/index.php?act=textos&=10456, assinado por

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mulher queimada tem a força de mil homens, o que se pretende é destacar o grau de poder dessa pessoa. Da mesma forma, a intensidade do amor de Baltazar por Ermesinda é revelada na expressão “morto de loucura por ela” (p. 45). É o tropo em que se diz mais para significar menos, mas, por isso mesmo, enfatiza-se o que está sendo expresso.

Verificamos que a hipérbole é erigida em princípio de composição do texto em ocasiões especiais do romance. Quando o pai mata a mãe:

o meu pai rebentou braço dentro o ventre da minha mãe e arrancou mão própria o que alguém ali deixara, e gritou, serás amaldiçoado para sempre, depois estalou-o no chão e pôs-lhe pé nu em cima, sentindo-lhe carnes e sangues esguicharem de morte tão esmagada, e, como se gritava e mais se fazia confusão, mais se apagava a minha mãe, rápida e vazia a fechar olhos e corpo todo, não mais era ali o caminho para a sua alma, não mais a ela acederíamos por aquele infeliz animal que, morto, seria só deitado à terra para que desaparecesse. (p. 75. Grifos nossos)

Quando Baltazar se imagina traído e planeja vingança contra Ermesinda, ele hiperboliza seu incorfomismo no discurso:

nessa altura, a minha ermesinda comida dia a dia pelo nosso senhor, entre dilemas me via eu. partir-lhe tronco, deixá-la a rastejar, inútil, e depois largá-la no centro das casas a vê-la solteira, esquecida a esmolar-se para nacos de pão seco. partir-lhe pescoço e matá-la de mais nada, isso sim, cornadura enterrada de vez por todas (p. 94.

Grifos nossos )

se te apanho um só sinal, um só sinal que me garanta que o avias, abro-te meio a meio, e enterro-te meio a meio tão longe de parte a parte que seguirás incompleta para o inferno para eternamente agoniares de desencontro, (p. 96. Grifos nossos)

Considerando-se corno, o narrador premedita matar o suposto rival:

dom afonso morto, como ficaríamos entregues à sorte pouco risonha de contar com dona catarina, burra de tanta coisa, estúpida de acordar, parva de comer, feia de parecer, chata de aturar, má de vestir, disparatada de falar, inebriante de aliviar as tripas, impossível arriscar tanto, dom afonso, entre tudo, havia de ficar vivo, (p. 94. Grifos nossos)

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crescendo das expressões “morto de loucura por ela”, “a força de mil homens” a todo o discurso.

Importante dizer que o discurso a que chamamos aqui hiperbólico fica no plano da imaginação do protagonista. Contudo, Baltazar passará da imaginação à ação. Ele irá materializar nas violentas agressões à Ermesinda suas ameaças, que serão analisadas no capítulo seguinte.