Um aspecto importante do romance o remorso de baltazar serapião é a extensão dos parágrafos. Por vezes, um parágrafo toma toda a página. Os períodos se alternam entre longos e curtos. Nota-se o predomínio da coordenação e dos segmentos muito longos, em meio aos quais algumas orações breves adquirem relevo. Estas combinações de segmentos mais longos e breves produzem uma certa cadência ao texto.
A professora Nilce Sant’Anna Martins (2008) observa que, no estudo das estruturas rítmicas de Eça de Queirós, Guerra da Cal salienta que “a frase não era apenas um agrupamento verbal significativo, mas também, e muito principalmente, uma estrutura musical” (p. 177). Talvez o fato seja mais sensível em Eça, mas todo escritor- artista está no mesmo caso, variando a preferência rítmica.
Assim, acreditamos que o mesmo comentário possa valer para Valter Hugo Mãe. Seu texto é marcado por ritmo porque apresenta os mais variados tipos de frases, muitas chegam a ser incompletas, nem podem ser submetidas à análise sintática, já que não se estruturam em sujeito e predicado. O entendimento dessas estruturas exige certos dados contidos na situação de enunciação ou no contexto linguístico.
No excerto que destacamos abaixo, mostramos frases brevíssimas, de apenas uma palavra, que se alternam com outras longas. A pausa inesperada revela a manipulação que o autor atribui à pontuação. Inspirados na conclusão de Guerra da Gal, podemos dizer que as frases de Valter Hugo Mãe são muito mais que um simples agrupamento verbal significativo, elas ganham o status de uma estrutura musical, responsáveis que são para tornar poética a prosa.
o nosso pobre pai, tão sensato e ajuizado, depois de tantas aflições e mudanças, não se reconhecia a um palmo de distância, ajeitou-se ali nas tábuas partidas e não via mais nada. nem esperava, sabia eu, o nosso inteligente pai, sem a nossa mãe e sem a sarga, fora enganado para sempre pela voz das mulheres, e nem queria mais nada. juntei-
52 me ao seu silêncio de longe. vi a minha ermesinda. (p. 145. Grifos nossos)
fomos andando, já seco se deixava aquele lugar, entrámos em casa. seca. em pouco tempo, disse o aldegundes, vai ruir sobre as nossas cabeças, (p. 154. Grifos nossos)
e é como estou, assim estou pela minha ermesinda. é bela. a mais bela que há. (p.135. Grifos nossos)
sob mim a receber os meus jeitos em paz de proveito, muito delicada sem dizer palavra que me quisesse pedir maior cuidado ou carinho. nada. e o lençol sujou-se de sangue e assim o apresentámos aos meus pais, (p. 43. Grifos nossos)
não teríamos condição nenhuma de vida se não chovesse por piedade divina. e cocei. (p. 133. Grifos nossos)
se el-rei vos quer,coisa grande levareis, carroça que seja, não é, coisa que esteja na carroça, não vejo. que é, perguntou, meu irmão que pinta, artes que tem de mostrar até o que não se vê. sério, insistiu.mesmo. não vos agastais de esforços de palavras, tentarei a cada vez ter-vos um a um na carroça a suportar eu próprio o que puder, a ver que nos diz a orlandina. (p. 123. Grifos nossos)
se te descobrem queimada imaginam-te os feitiços, acreditas que sou bruxa. talvez. e o que te convenceria do contrário, respondi, nada. (p. 115. Grifos nossos)
Os exemplos evidenciam o tipo de frase eleito pelo escritor, frases mais extensas, com segmentos mais numerosos, uns mais curtos e outros mais longos, dando a sensação de movimento. O fato estilístico ocorre em virtude do grande destaque que o termo isolado ganha, além da quebra no ritmo.
1.5 Antropônimos
A respeito da seleção dos antropônimos, há curiosas observações. Os nomes das personagens são Teodolindo, Aldegundes, Ermesinda, Brunilde, Afonso, Catarina, Baltazar, Gertrudes, Teresa Diaba, Dagoberto, Sarga.
A mãe de Baltazar não é nomeada na narrativa, quando há referência à personagem aparece “mãe”. Abaixo, Teodolindo se refere a ela:
53 a tua mãe, por exemplo, a idade pode ter-lhe dado sabedoria de muita coisa (p. 68, grifos nossos).
À vaca, criada pela família, foi atribuído um nome, chama-se Sarga. Afonso Serapião e os seus não são chamados pelo sobrenome, mas pelo apelido de "os sargas", mesmo nome da vaca já velha e alquebrada que dorme em um dos quartos dentro da casa e que a maledicência dos vizinhos transformou em amante do pai e provável mãe de Baltazar e de seu irmão Aldegundes.
Quanto à destituição do nome, o narrador diz “nós éramos os sargas [...] nada éramos os serapião, nome da família” (p. 12). Baltazar, o primogênito, e sua família buscarão a restituição do nome de família. Esta é também a história da saga dos Sargas para serem reconhecidos como Serapião. Neste sentido, o nome os elevaria da condição em que são reconhecidos, bichos.
Existem nomes incomuns: Teodolindo: o próprio nome já o distingue. Teo: divindade. A personagem é diferenciada. Observamos que é a única que sobrevive à catástrofe que ocorre com a família Serapião, mesmo sendo o melhor amigo de Baltazar. Parece que a família é vetor do trágico e atinge quem dela se aproxima. Ermesinda e Dagoberto sucumbem, Teodolindo fica imune. Sempre generoso e solidário, amigo que acolhe Baltazar nos infortúnios e o orienta para o bem. A ele, um capítulo do livro é dedicado, capítulo 9.
Nossas pesquisas, em dicionários de nomes, não trouxeram algum acréscimo significativo, porém queremos registrá-las. Ermesinda, etimologicamente, é de origem germânica e significa aquela que está sob a guarda do deus Irmin. Poderíamos apontar algum humor, porque a formosa Ermesinda do livro está sob a guarda autoritária do marido Baltazar.
Brunilde era uma das Valquírias, na mitologia germano-escandinava.
Como já sabemos, o pai de Baltazar chama-se Afonso, nome conhecido e famoso em Portugal. O pai é um homem submisso diante do senhor das terras, que também se chama Afonso. Este domina a aldeia em que a família vive, com autoridade feudal. A coincidência dos nomes parece um artifício para denunciar o quanto o homem reproduz em seu lar a estrutura feudal perversa em que vive, impondo-se como senhor absoluto da casa: "e nós adormecemos também, espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida." (p. 15). A homonímia diverte os vizinhos e entristece a família.
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Verficamos uma construção, marcadamente social, do nome. Pode-se sentir a estrutura social fechada por meio dele. Catarina, Afonso, Dinis, de um lado, com referências. Do outro, Aldegundes, Brunilde, Dagoberto, Ermesinda, Baltazar. Mas, o mais contundente é a destituição do nome da mãe. Ao não nomear uma personagem feminina pode haver o sentido já tão presente no texto de rebaixar a mulher. Voltaremos ao tema no capítulo 3, quando nos reportaremos ao trágico. Acrescentamos que sobrenome só é conferido a Dom Afonso “a propriedade é de dom afonso de castro, senhor de nossa terra e gentes” (p. 122, grifos nossos)
1.6 Antecipação
O narrador pode instalar-se na narrativa quando, jogando com a temporalidade da narração e do narrado, preenche os “vazios” da história com explicações, como se a narração fosse concomitante aos acontecimentos. (FIORIN, 2008)
pobre brunilde, mal sabida naquela altura do que lhe chegava por dentro do corpo, a pedir atenção para acabar com a sua vida. e ignorante foi a buscar-nos e levou-nos em pressas, (p. 162. Grifos nossos)
mal tolerados por quantos disputavam habitação naqueles ermos, batíamos os cascos em grandes trabalhos e estávamos preparados, sem saber, para desgraças absolutas ao tamanho de bichos desumanos, tamanho de gado, aparentados de nossa vaca, reunidos em família como pecadores de uma mesma praga, maleita nossa, nós, reunidos em família, haveríamos de nos destituir lentamente de toda a pouca normalidade. (p. 11. Grifos nossos)
talvez nada tivesse importância que nosso pai nos duvidasse em suas preferências, talvez nada fosse esperado que ele tivesse força para algo. morria de minha mãe, levava a sarga para longe de nós e voltava sem pio. seguia como se preparado para ser um homem só. um homem e uma vaca. (p. 157. Grifos nossos)
éramos insuportáveis e tardava nada teríamos de andar nus, sem meio de obter mais tecido que nos vestisse, teríamos de andar nus ou, melhor dito, não poderíamos mais andar entre os lugares das outras pessoas, estaríamos destinados a desaparecer dali e de todos os lugares, para onde não existisse ninguém e, o mais certo, onde não existisse nada. (p. 158. Grifos nossos)
Conforme os excertos acima, verificamos que, durante a narrativa, em muitas situações, o narrador fornece pistas de fatos que só ocorrerão bem mais tarde. As
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antecipações (prolepses) servem para conferir mais suspense ao romance, prender o leitor e também marcar a inexorabilidade do destino; o livre arbítrio está longe de ser considerado na obra. No primeiro enunciado, antecipa-se a gravidez de Brunilde, que resultará em sua morte. Já no segundo, aborda-se o trágico destino dos membros da família. Baltazar e Aldegundes serão vítimas de uma maldição que os levará à morte. O terceiro enunciado antecipa que só o pai do narrador e a vaca sobreviverão. O quarto enunciado trata da maldição de que foram vítimas os irmãos Serapião e Dagoberto. A maldição queimava as vestimentas das personagens.
1.7 Neologismos
A grande recorrência de neologismos constitui uma das características da prosa de Valter Hugo Mãe, especialmente em o remorso de baltazar serapião. Trata-se de uma forma de inventar palavras a partir da colocação de afixos (prefixos ou sufixos, sobretudo prefixos, na obra). Com isso, amplia-se o conjunto de vocábulos normatizados, e prende o leitor pelo caráter imaginativo da construção e o inusitado dos resultados da significação. O autor também atribui uma nova roupagem ao léxico gasto pelo uso, com a reiterada troca de prefixos. Nesse caso, a função do neologismo é descondicionar e possibilitar novas experimentações. A maioria dos neologismos, sobretudo os derivados de afixação, já existe na língua em estado latente.
O prefixo des- é indicativo de múltiplas ideias – negação, oposição, separação, afastamento, divisão, supressão. Ele é, com certeza, o prefixo mais produtivo na formação de neologismos explorados pelo escritor. Abaixo exemplificamos a ocorrência do prefixo des-, entre muitos outros:
não fosse o meu pai, passivo e desimportado, notar algum sinal da sua ainda burra masculinidade. (p.42. Grifos nossos)
e um cão desfaleceu de se distrair estupidamente à roda da carroça e pássaros caíam assim desvoados como burros a esquecerem-se de bater as asas ... era o que fazíamos a tudo quanto viesse em redor, se nos separássemos um pouco que fosse de cada outro. (p.141. Grifos nossos)
Seguem alguns neologismos formados por sufixos, entre outros:
a nossa brunilde estava uma rapariga linda e donzelada de modos, cheia de vontade e com o corpo habituado, não haveria de ser nada de
56 insólito que se pusesse de gabaritos, ensinada para o serviço dos homens com requintes que lhe vinham de altos convívios. (p.27.
Grifos nossos)
urgia que nos ocorressem métodos de acabar com o feitiço, quem se desse por bruxa, publicamente ou em segredo, seria nosso objetivo com grande ansiedade, precisados de quebras de enganamento que nos desenganasse a vida. (p.154. Grifos nossos)
e assim o dizia à brunilde, dizia que eu conhecera rapariga desta cor clara ou ruiva, ou morena, ou mamuda ou lisa, dentro ou fora das ruas, mas nunca que nome teria dizia que eu conhecera rapariga [...] desta cor clara ou mamuda. (p.21. Grifos nossos)
Interessante notar a criação de “mamuda” como novo processo de superlativo de mama.
Como vimos, a troca de prefixos, sufixos e desinências dá maior flexibilidade aos vocábulos e maior expressividade linguística. Além disso, certas imagens insólitas causam um efeito de estranhamento ou surpresa. O prefixo “des” muitas vezes foi usado com função criadora de antônimos.
1.8 Neologismo semântico
A criação neológica estilística enfeixa a criatividade lexical e a neologia semântica. Esta neologia de sentido consiste no emprego de um significante já existente na língua com um conteúdo que ele não possuía. No texto literário, uma criação resultante desse tipo de procedimento tende a não se repetir. É o que se chama de neologia semântica estilística27. Estas construções chamam a atenção pela alta voltagem de poesia que possuem. Assim, além dos neologismos sintáticos, que aparecem fartamente, encontramos o neologismo semântico:
construímos um pequeno abrigo entre as árvores, meio escondido de quem azaradamente passasse no largo aberto da paisagem, ali ninguém nos existia. (p. 184. Grifos nossos)
e o meu pai ordenou que nos recolhêssemos mais ainda, que dados de confiança nos teríamos criadores de maiores invejas, importante seria anular efeitos de existência, existir menos para que menos se lembrassem de nós. (p. 106. Grifos nossos)
27 LEONEL, Maria Célia. Grande Sertão: Veredas: alguns neologismos semânticos. Revista Alfa. São Paulo, n. 41, 1997, p. 79-89.
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No contexto do romance, Baltazar, Aldegundes e Dagoberto estão amaldiçoados
e não podem se aproximar por muito tempo de outras pessoas, sem que as prejudique. Eles podem até mesmo, involuntariamente, matá-las. Assim, tiveram que fugir para
lugar ermo, onde ninguém pudesse vê-los. A partir daí, vem o comentário: “ali ninguém nos existia.”
A palavra existir, que ocorre na passagem citada, apresenta, no dicionário, os seguintes significados:
1 ter existência real, ter presença viva; 2 int. e pred. ter existência em determinado período de tempo; durar, permanecer; 3 int. haver; ( Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
No enunciado do romance, o verbo existir carrega um objeto direto – nos. Considerado verbo intransitivo, na frase de Valter Hugo Mãe em questão, o significado do verbo existir contamina-se com o significado do verbo ver, perceber. A ligação inovadora verbo-objeto cria a neologia no texto. “ali ninguém nos existia” pode significar: ali ninguém nos via ou ali ninguém nos percebia.
“Existir menos” (p. 106)
No contexto do romance, Aldegundes, irmão de Baltazar, revelou-se um artista. El-rei, Dom Dinis, convida-o a morar em seu castelo. Surge aí excelente oportunidade para a família Serapião melhorar de vida. Os vizinhos ficam enciumados, tentam fazer chegar ao rei notícias difamatórias sobre a família. O patrono, Afonso Serapião, ordena aos filhos que se recolham, numa discrição que evite serem lembrados pelos aldeões. “importante seria anular efeitos de existência, existir menos para que menos se lembrassem de nós.” (p. 106)
“Existir menos” pode significar: ser menos notado. 1. 9 Categorias gramaticais
Na linguagem de Valter Hugo Mãe, substantivos, adjetivos, preposições, verbos e pronomes não podem ser previamente classificados, pois dependem sempre do contexto em que são empregados. Sua prosa singular difere notadamente dos padrões tradicionais por ser eminentemente flexível e expressiva. Conforme sabemos, na língua existem dez classes gramaticais. Na narrativa de o remorso de baltazar serapião, muitas
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vezes somos surpreendidos com empregos inusitados das categorias gramaticais. Abaixo alguns casos do deslocamento a que aludimos.
e o barulho aumentou até que se visse um castelo maior do que vinte homens empilhados, pronto para esconder um rei de qualquer ideia humana.grunhimos no nosso jeito o que era ao que íamos, e os guardas passaram olhos abertos por todos nós e nossa carroça. antes de decidir que fariam foram a buscar um bartolomeu. era um bartolomeu que nos veria com competência de substituir uma primeira decisão de el-rei. [...] e talvez porque muita recomendação o supremo senhor lhe tivesse feito, o bartolomeu nos deixou passar primeira passagem com custo e refilos vários.
(p. 127- 128. Grifos nossos)
Bartolomeu é um substantivo próprio, nome de pessoa. No trecho acima, ao colocar o artigo indefinido diante do nome, do substantivo próprio, Bartolomeu passa a substantivo comum. Ao aproximar no mesmo parágrafo o mesmo significante com duas classes gramaticais: “foram a buscar um bartolomeu” e “o bartolomeu nos deixou passar primeira passagem com custo”, o escritor imprime um interessante efeito de sentido. “um bartolomeu” é indefinido, qualquer servo de el-rei. Ao mudar o artigo, aparece o substantivo próprio, não se tratra mais de qualquer “bartolomeu”.
No próximo trecho, “amigo” que normalmente é um substantivo comum, passa a advérbio:
e haveríamos de aceitar que estarmos juntos seria como estabelecer uma amizade falante com um braço ou uma perna, se de facto éramos todos colados um emaranhado de braços e pernas de um ser maior, e assim falávamos amigos e aligeirávamos nosso fardo com sorrisos muito ténues, mas sorrisos. (p. 153. Grifos nossos)
A mudança de categoria gramatical, além de comprovar que a palavra não pode ser classificada previamente, depende do contexto em que é inserida, causa estranhamento e chama a atenção sobre ela.
1. 10 Eruditismo
Notamos, em certos trechos do romance, o esmero com a linguagem. Há um evidente registro culto. Em outros momentos, porém, além de elementos coloquiais, aparecem transgressões às regras gramaticais, como também registros chulos.
A seguir, mostramos exemplos, entre outros, em que o discurso de Baltazar atinge um alto grau de elaboração e de requinte:
59 […] na cabeça das mulheres muita coisa se incompleta de raciocínio, como se a sua inteligência fosse apenas uma reminiscência da inteligência verdadeira, assim como se lembrassem de algum dia terem sabido o que isso é, mas sem o saberem realmente. (p. 84) e o teodolindo era um dos calmeirões que o aldegundes pintava, e jurava que assim acontecia, nem o curativo na cabeça se lhe via nas tábuas, apenas uma reminiscência de uma beleza que poderia ter num desejo de vaidade, sim, era mesmo o teodolindo quem aparecia nas tábuas entre os outros, mas havia nele uma pureza como se, ao pintá- lo, o nosso aldegundes o curasse de tudo, até das imperfeições e fealdade, e ali ficava, um anjo nu e perfeito como, dizia, poderia ser o retrato da alma, o retrato de dentro. (p. 94)
era eu, por sorte ali distinguido, um moço como outro qualquer, mas dos sargas, sem estropios do corpo nem maleitas de cabeça, escorreito nos trabalhos e incumbências, ao serviço de um grande senhor, protegido assim por deferência divina, como garantido no tempo que me restasse de vida, e assim ela se teria. guardada em asa de grande senhor, para cumprir vezes de mulher pobre mas digna de carnes e direcção. (p. 23)
O pedido de casamento do protagonista:
[...] sem condição nem honrarias que me levassem ali refinado ou melhorado, o que faria senão deixar que o meu amor se notasse, há tanto fulgurado para o interior de mim e intenso para sair à brancura do seu ser. e lho disse assim, depender de mim será só digna sua pessoa, posta sobre meus braços como anjo que o céu me empresta, e deus terá sobre nós um gosto de ver e ouvir que inventará beleza a partir de nós para retribuir aos outros. casai comigo formosa, tanto quanto meus olhos algum dia poderiam ver. (p. 39)
Abaixo os registros chulos e transgressões às regras gramaticais que ressaltam o movimento entre as polaridades do romance, já comentadas. Há um jogo tenso entre oralidade e erudição:
dom afonso disponibilizava dois cavalos e carroça para cus que se sentassem e bagagem nenhuma se levasse. (p. 107)
carroça dispensada por dom afonso estava instruída para assento de dois cus, nenhum de ninguém mais. (p. 114)
eu rondava-a aos pertos, caminhos seguidos muito próximo sem que me visse, (p. 64. Grifos nossos)
Íamos para morrermos ( p. 62. Grifos nossos)
se fosse a ti entrava e sentava-me quietinho sem mugir nem tossir. (p. 63. Grifos nossos)
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caminhos seguidos muito próximo. (p. 64. Grifos nossos) vai-te com sorte por tanto viveres, coiso burro, (p. 107. Grifos nossos)
satisfeita com ser refeição de um velho tão feio. (p. 64. Grifos nossos)
Mostramos acima que interagem no romance as transgressões gramaticais, como a variação do advérbio “perto”; a flexão indevida do infinitivo “morrermos”; o emprego indevido da forma oblíqua do pronome pessoal “ti”; a ausência de concordância do adjetivo “próximo” com o substantivo a que se refere “caminhos”; a variação de gênero “coiso”; a regência nominal em desacordo com a normas gramaticais de “satisfeita com”, com os registros culto, chulo e coloquial.
1. 11 Provérbios
Conforme já destacado acima, ao lado do eruditismo convive o coloquial, do qual ainda destacamos o emprego de máximas:
ficas calado no cumprimento desta ordem tão importante, a mais importante que algum dia terás, sem pio nem desvio, (p. 107. Grifos nossos)
se fosse a ti entrava e sentava-me quietinho, sem mugir nem tossir (p. 62. Grifos nossos)
se volta a acontecer que a casa se desequilibre [...] teu fim será feito, sem retorno nem avesso (p. 63. Grifos nossos)
encontrei a ermesinda sobre a cama sem pasto nem alento28 (p. 60. Grifos nossos)
28 sem folias nem tentativas (p.72);sem alento nem consciência (p.84); sem ócios nem maneiras (p.84); sem fé nem respeito (p.87);sem pressas nem sinais (p.95); sem pio nem desvio (p.107);sem trabalho nem amizades (p.110); sem manha nem paciência (p.120);sem conselho nem arrogância p.142); sem préstimo, nem inteligência nem beleza (p.170);sem confiança nem resposta (p.181); sem proximidades nem exigências de irrequietude (p.184).
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De modo geral, a utilização dessas expressões que contêm a sabedoria popular, permite ao narrador apoiar sua fala sobre a de um outro que possui credibilidade, o que, no caso dos provérbios, permite conferir maior autoridade e veracidade ao discurso. No