Em o remorso de baltazar serapião, um animal é personagem de destaque, a vaca, cujo nome é Sarga. Ao processo de humanização por que passa a vaca, há um contraponto no processo de animalização da família. A animalização tem início desde o primeiro capítulo, quando o narrador declara “nós éramos os sargas23, [...] nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso” (p. 12).
e a pobre vaca, talvez percebida de estar velha e pronta a morrer, deixava-se mais quieta e deitada fora, talvez temendo que as tábuas lhe partissem os ossos, se caídas com um coice que lhes desse (p. 48.
Grifos nossos)
um acompanhamento de carpideiras que, desimportadas com a morte da minha mãe, queriam mais verificar nossas patas de animal, nossos focinhos de boi, jeito horizontal de lombo, nada natural em homens de parto normal, e nada era normal, o que se enterrava tão aberto de vísceras, a pedra no chão da igreja que se levantara e parecia não querer caber na volta, a luz que se intensificou menos a partir do sol, como um dia de verão impressionado, arrependido. (p. 80. Grifos nossos)
O primeiro excerto confere atitudes e sentimentos humanos à vaca, enquanto o segundo, por ocasião da morte da mãe de Baltazar, mostra o interesse dos vizinhos em acompanhar o enterro somente para apontar as características que julgam aproximar a família Serapião à vaca.
A narrativa, muitas vezes, atinge o grotesco ou escatológico, com a consideração que a família tem pelo animal. A vaca dorme dentro da casa dos Serapião. Nas noites de
23 Quando do lançamento do seu último romance no Brasil (São Paulo, 5 de maio de 2012), Valter Hugo Mãe contou que foi a partir da declaração de Almada Negreiros que surgiu a ideia de a família Serapião ser conhecida pelo nome da vaca. Almada dizia que os animais deveriam ser conhecidos pelo nome da família a qual pertenciam. Assim não se perderiam. Já com a ideia do romance sobre uma família de tendência bestial, Valter Hugo Mãe resolveu subverter a ideia do escritor português. A família é que seria conhecida pelo nome do animal de estimação.
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tempestade, ela sempre se assusta e a família não dorme porque “a sarga mugia noite inteira quando havia tempestade, dava-lhe frio e aflição de barulhos”. (p. 11) Com a chuva o “vento a bater nos tapumes da janela mal coberta, água a inundar esterco no chão”. (p. 11). O irmão mais novo, Aldegundes, “vinha dizer-nos que ela tinha água nas patas e que em pressas se devia varrer dali inundação”. Aldegundes “não reparava que também se sujara nos pés e fedia, enquanto cheirávamos e agoniávamos de tormento sem mais sono.” (p. 12).
1.2.6 Silepse
Silepse é a concordância que se faz com o termo que não está expresso no texto, mas sim com a ideia que ele representa. É uma concordância anormal, psicológica, espiritual, latente, porque se faz com um termo oculto, facilmente subentendido. Há três tipos de silepse: de gênero, número e pessoa. Os exemplos a seguir referem-se ao terceiro tipo (pessoa)
[dom afonso] estou seguro de que seu corpo se estenderá ao trabalho em grande rendimento e todos aproveitaremos do que souber fazer (p. 45. Grifos nossos)
sem emprego ninguém dos cinco, íamos para morrermos em poucos dias. (p. 67. Grifos nossos)
os três seguimos dali com nosso pai à distância e todo o fim da esperança. (p. 162. Grifos nossos)
Em todas as frases acima o verbo poderia estar na terceira pessoa do plural, mas, o narrador optou pela concordância com o sentido, e não com a gramatical. Houve a opção pela primeira pessoa do plural. Na primeira, tal emprego deixa claro que o sujeito do discurso, Dom Afonso, se aproveitará do que Ermesinda souber fazer. A concordância poderia ter sido com "todos", então a forma seria "aproveitarão" ("Todos aproveitarão do que souber fazer."), no entanto, o enfoque mudaria completamente. A opção pela silepse de pessoa é significativa e será objeto de estudo do próximo capítulo.
Nas outras frases, Baltazar se inclui nas ações. 1.2.7 Pleonasmo
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Consiste na repetição da mesma ideia, causando redundância. Na linguagem literária porém seu emprego cria efeito de sentido, conforme a seguir.
metida com quem lhe entrasse dentro (p. 55. Grifos nossos) entrei dedo dentro de ermesinda olho arrancado (p. 107. Grifos nossos)
Nos dois exemplos acima, o pleonasmo é empregado para dar ênfase à expressão. No primeiro, para reforçar a alusão ao sexo. Reproduzimos o contexto para melhor compreensão:
não queria imaginar, minha mãe tão velha, cega e estropiada e feia, metida com quem lhe entrasse dentro, que prazer mórbido seria o das coisas no sexo com velhas mulheres casadas, já prontas a entregar tudo à terra para poupança do nojo comum. (p. 55. Grifos nossos)
No segundo, o pleonasmo colabora para enfatizar a ação violenta de Baltazar, destacado ainda pela aliteração (“entrei dedo dentro”). A figura sublinha a violência de que Ermesinda é vítima.
Além dos exemplos acima, há uma construção pleonástica recorrente no romance, formada pelo objeto indireto que se repete.
urgente acudíssemos à existência de dona catarina e nos voltássemos a aninhar sem falta, porque a ela lhe dava fúria suficiente para nos abater em pouco tempo (p. 162. Grifos nossos)
a ela [mãe] a surpresa não lhe trazia som à boca nem contorção maior. (p. 25. Grifos nossos)
se ermesinda se perde em puta a mim manda-me deus que. nada quero saber que te diz deus no que pensas, ( p. 107. Grifos nossos) à minha mãe, pasmada, não lhe vinha maleita da natureza. (p. 55. Grifos nossos)
Na primeira frase, os termos a ela e lhe exercem a mesma função sintática: objeto indireto. Assim, temos um pleonasmo do objeto indireto, sendo o pronome “lhe” classificado como objeto indireto pleonástico. O mesmo raciocínio vale para as três frases. A repetição do termo chama a atenção para ele. A finalidade do pleonasmo seria
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realçar os termos repetidos. No primeiro, o destaque é para a violência de Dona Catarina; no segundo, para a reação de submissão da mãe, ao ser usada no ato sexual; no terceiro a importância que Baltazar julga ter na educação de Ermesinda; no quarto, a repetição expressa a preocupação com a mãe diante de uma possível gravidez.
1.2.8 Elipse
Consiste a elipse na brevidade da expressão resultante de alguma coisa que se deixou de dizer, ou por se ter dito em outra frase, oração ou sintagma, ou por outra razão de ordem afetiva ou estética. A frase elíptica escapa à estrutura da frase lógica, explícita, sendo que os elementos omitidos podem ser recuperáveis no contexto ou supridos pelo raciocínio, pela suposição, com base no confronto com a estrutura frásica normal e também no sentido geral do enunciado. (MARTINS, p. 189)
Em o remorso de baltazar serapião, a linguagem é marcada por elipses. Estes recursos abrangem desde palavras gramaticais, de casos comuns, sem inovação pessoal, a outras mais surpreendentes, como demonstram os exemplos a seguir:
e a minha ermesinda não abria boca, não dizia nada (p. 188) [omissão do artigo]
tamanho de gado, aparentados de nossa vaca, reunidos em família como pecadores de uma mesma praga. (p. 11) [omissão de verbo] já seco se deixava aquele lugar. entramos em casa. seca. em pouco tempo, disse o aldegundes, vai ruir sobre nossas cabeças. (p. 154.
Grifo nosso) [omissão do sujeito e verbo]
Por vezes, as elipses são facilmente identificadas, ou subentendidas, conforme os trechos acima; outras vezes, porém, exigem grande trabalho do leitor, que deve ler e reler, conhecer o contexto para identificar o que falta. No trecho a seguir, do capítulo dezenove, falta a palavra “pai”. Só é possível tal identificação se nos remetermos ao capítulo dez em que Afonso, pai de Baltazar, desconfiado de que a mulher o traíra, arrancou com a mão o feto que ela carregava no ventre.
arrancarei do peito o coração se for preciso. e nem pai de filhos com ar dele serei, farei como o meu, rebento-os no chão puxados ainda do ventre com uma mão que os encontre onde se esconderem dentro dela. (p. 136. Grifos nossos)
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o aldegundes e o dagoberto colando-se a mim a falarem-se de mudez sem que eu tivesse conhecimento do conteúdo, e eu perguntei, que passais os dois (p. 144)
Assim, apesar de a narrativa ser baseada na sucessividade, com a ação constituída por um número variável de sequências cujos segmentos narrativos têm princípio, meio e fim, sua linearidade é uma facilidade apenas aparente. Há um fio narrativo que sustenta a história, mas existe a liberdade que tomou o narrador para fazer suas derivas. Estas se mostram na configuração de um texto marcado por rupturas no nível da escrita, na qual a elipse se mostra muito presente e a exigir atenção do leitor. Ao mesmo tempo em que o ritmo do texto é acelerado, as quebras o fazem desacelerar para preencher as incompletudes.
Outra opção que também colabora para marcar a linguagem elíptica do texto e, portanto, deve ser trazida para análise, é o uso da pontuação. Esta se restringe ao emprego de apenas dois sinais, entre tantos que a língua oferece, a vírgula e o ponto final. Ressaltamos que, muitas vezes, um é trocado pelo outro, ou empregado de maneira que a expressividade prepondere, isto é, a estética não se submete a regras gramaticais; a rigidez sintática pode ser quebrada para tornar a linguagem livre e expressiva.
Nos excertos que transcrevemos a seguir, observamos que o ponto não só opera sintática, mas, sobretudo, semanticamente, colocando em destaque o significante “minha ermesinda” como se a aparição da personagem desarticulasse a narrativa:
o nosso pobre pai, tão sensato e ajuizado, depois de tantas aflições e mudanças, não se reconhecia a um palmo de distância, ajeitou-se ali nas tábuas partidas e não via mais nada. nem esperava, sabia eu, o nosso inteligente pai, sem a nossa mãe e sem a sarga, fora enganado para sempre pela voz das mulheres, e nem queria mais nada. juntei- me ao seu silêncio de longe. vi a minha ermesinda. e a minha ermesinda acendeu a custo a sua mesma rotina com o sol dessa manhã, ajeitou-se de modos e, afectada de dores, partiu para a casa de dom afonso. (p. 45. Grifos nossos)
Dissemos que o emprego absoluto de letras minúsculas colabora na aceleração do texto. A elipse e o emprego abundante de orações participiais, aquelas que aparecem nas orações reduzidas de particípio, intensificam ainda mais o ritmo da narrativa. Há uma opção clara por esta forma nominal do verbo (particípio passado), que traz a marca
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da redução linguística, por ser mais sintética. A seguir alguns trechos onde também aparece a elipse interfrasal:
e confio em si, compadre, não poria em cima da minha filha um rapaz que fosse possante por ter sangue de boi. e eu entreolhava-me com meu pai, descortinado da conversa às abertas na minha presença, e sabia eu que tinha de ser verdade que se pusera na sarga, se dava ao aldegundes burrice igual, e por costume tão perto ficava a língua do povo da verdade mais escondida. (p. 40. Grifo nosso)
ele, olhos abertos de parvo, sentiu dificuldades de fôlego e iniciou a contagem, partido eu para os animais, a ver meu pai que coisas me guardaria em espera, já o aldegundes saíra a ver onde parava a rapariga estropiada para a cobrir como pudesse, garrido de tão corado, partes da natureza em chamas. (p. 37. Grifo nosso).
refaladas todas as coisas, era comigo que a ermesinda se casaria, duvidado de ascendência mas bom de aspecto, muito largo e viril,
como aos melhores homens se pede que sejam. (p. 41. Grifos nossos)
Além de aparecer introduzindo as chamadas orações reduzidas, o particípio também é empregado em sua função própria de adjetivo. Surpreende a opção do escritor por usar a forma nominal participial para certos verbos como“brincado”, “abdicado”, “causado”. E também pela quantidade24 de verbos empregados na referida forma nominal. O efeito estilístico está ligado ao aligeiramento da linguagem, já que há mais concisão, enxugamento do texto.
o aldegundes já nada dizia, mais trabalhador e menos brincado. (p. 48. Grifos nossos)
24 o meu pai infinitamente paciente, abdicado de descanso pela vaca (p. 14); como devia ser um pai de família, servido de esposa (p. 22); quem lhe rondava o destino, tido ali em sorte pelo facto de os nossos pais se identificarem (p. 23); naquela tarde desci à terra, fugido dos animais (p. 35); partido eu para os animais (p. 37); eu avisei-o dos perigos, acusado a dom afonso ou, quem sabe, até a el-rei (p. 37); meu pai decidirá pelo melhor, informado por deus e experiência como está (p. 39); e eu entreolhava-me com meu pai, descortinado da conversa às abertas na minha presença (p. 40); refaladas todas as coisas, era comigo que a ermesinda se casaria, duvidado de ascendência mas bom de aspecto, reiterado na valentia e astuto nos recursos (p. 41); descabido com ela num tempo em que eu era muito novo (p. 47) ;uma nova realidade, apartados pelas opções e papéis que nos eram destinados (p. 48); aninhados todos um tempo depois, esquartejado de um fôlego (p. 49); espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida. (p.15); ficava muito tempo chorado de femininas fraquezas. (p. 84); por parte da família dos acabados de morrer. (p.167); incansado a redimir-me do acto (p. 60); dona catarina veio e desprezou-nos, sem palavras chegada e ida, garantida de que uma puta menos se teria debaixo do seu marido (p.169); dizia-me o teodolindo, encarado dos meus olhos, sincero (p. 155); descabidos para sempre da beleza ilusória que meu irmão lhes oferecera. (p.175); e ela foi, arriscada de vida por minha reflexão e precisão que eu tivesse de decidir ( p.176); e a correr nos fomos, os dois, no primeiro desmedo que tive de arranjar (p. 44). (Grifos nossos)
43 o meu pai infinitamente paciente, abdicado de descanso pela vaca, e eu sempre fazendo conta à atenção que lhe era dada, uma permissão desmedida no prejuízo das nossas noites. (p. 14. Grifos nossos)
dom afonso não saía de lá a arfar, causado de rosadas faces, abafado de qualquer modo, trôpego, aflito de calores, odores, feridas tocadas, cabeça pesada, nada. (p. 46. Grifos nossos).
1.2.9 Inversões
A ordem dos termos na frase é um aspecto relevante para determinar o ritmo e a valorização de ideias e sentimentos, propiciando efeitos variados. A colocação predominante, conhecida por ordem “direta”, é: sujeito, verbo, objeto direto, objeto indireto ou sujeito, verbo de ligação, predicativo. As alterações a essa ordem receberam as denominações de hipérbato, anástrofe, sínquese, prolepse. Como a distinção entre umas e outras não coincide entre os autores nem costuma ser satisfatoriamente clara, ficaremos apenas com a denominação genérica de inversão, pois o que mais interessa não é a nomenclatura, mas as possibilidades do arranjo das palavras e o seu teor expressivo. (MARTINS, 2008)
A inversão, processo de colocar em evidência um termo que se deseja privilegiar, rompe a monotonia da ordem usual, podendo favorecer um ritmo mais adequado para aquilo que se quer ressaltar. Muitas vezes, no romance, a quebra da ordem “direta” aponta a desordem interior da personagem.
São exemplos de inversão própria da linguagem elaborada as seguintes frases.
[teodolindo] que se movimentasse por todo o lado em boca a boca à procura de bruxa mais esperta, que fosse, como parte de nós, preocupado com o nosso bem a ver se nos arranjava devolução de alma vendida e separação uns dos outros para, uns e outros, sermos felizes ao modo discernido de cada qual. (p. 155. Grifos nossos)
deixa-me ver-te de pé direito, minha ermesinda. deixa-me ver-te hirta para te apreciar dano e beleza que repartes, a minha amada nem se levantava por seus próprios apoios, havia que eu lhe deitar mãos por braço debaixo, tronco a subi-la para, numa posição breve, se deixar momentos segura, e não muito mais, porque caía cansada a condoer-se. minha bela ermesinda, como estás. (p. 189. Grifos nossos)
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O primeiro trecho se refere à tentativa de Baltazar, Aldegundes e Dagoberto de se livrarem da maldição que Gertrudes lançou sobre eles. Assim, pedem ao amigo Teodolindo para ajudá-los a procurar uma bruxa que desfaça o feitiço. A maldição obriga a que os três fiquem juntos, não podem afastar-se sob pena de morrerem queimados. Eles acreditam que a bruxa entregou suas almas ao diabo. O fato, na linguagem criativa de Valter Hugo Mãe, transforma-se. A inversão rompe a ordem usual, principalmente na última parte, para enfatizar que eles querem a separação entre eles com a finalidade de que cada um possa ficar autônomo como antes da bruxaria e buscar a felicidade. A inversão deu relevo maior ao termo destacado e propiciou, além do efeito de estranheza, um ritmo impressivo.
No segundo trecho, Ermesinda se reencontra com o marido e este avalia os maus tratos que lhe impingira. A personagem não consegue sequer se erguer sem ajuda. A inversão enfatiza a dificuldade para mantê-la hirta e a desordem interior de Baltazar.
A ordem comum praticamente desaparece do texto. A construção sintática não se atém ao convencional. Tal uso exige do leitor uma leitura mais atenta para que o texto seja entendido.