Apesar da relevância do tema, existe uma carência de estudos que esclareçam se o SARESP tem influenciado a prática pedagógica e curricular da escola e como esta tem se apropriado dos resultados desse exame.
Tão importantes para o campo da avaliação educacional estudos que se voltem para efeitos e usos dos resultados no cotidiano da sala de aula em função dos resultados dos sistemas de avaliação. Uma análise no Banco de Teses da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) revela um número ainda pequeno de pesquisas acadêmicas com esse enfoque.
No levantamento realizado, somente 30 pesquisas têm o SARESP como objeto, ainda que por vezes articulado também a outra categoria e objeto de análise ou da realidade pedagógica. Destes, somente 03 pesquisas são de doutorado - um deles publicado em livro (MACHADO, 2010) - e as outras 27 de mestrado.
Vale também a observação que estes 16 trabalhos ocorreram entre 1998 e 2008. É importante notar que muitas pesquisas tratam ou se utilizam dos dados obtidos com o desempenho dos alunos no SARESP considerando determinados componentes curriculares (matemática, língua portuguesa, história), competências específicas (leitura, escrita, produção textual) a fim de refletir sobre esses objetos de estudos, ou seja, utilizam-se dos resultados do SARESP de forma indireta como objeto de análise. 9
Outros importantes estudos fazem uma análise dos instrumentos da prova presente ou ausentes em vista do currículo desenvolvido. 10
Quase todos os estudos são de natureza qualitativa utilizando recursos bibliográficos, documentos da própria Secretaria de Educação, entrevistas e questionários.
Dos textos acadêmicos em convergência com essa pesquisa e que contribuem para compreendermos o que o panorama de estudos tem revelado, precisamos recorrer a uma análise dos percursos já realizados.
Há pesquisas que tratam dos SARESP enquanto política pública de avaliação e o caráter do programa11 como pressupostos ideológicos dessa prática12 e como repercussão positiva em casos específicos13.
Há ainda estudos que tratam das repercussões e contribuições de determinadas práticas no desempenho dos alunos no SARESP. 14
9 Kawauchi (2001); Alvez (2002); Arcas (2003); Valera (2003); Oliveira (2005); Augusto
(2006); Genari (2006); Prudencio (2006); Camargo (2007); Dorta (2007); Sazdyjian (2007); Figueiredo (2008); Maldonado (2008); Mota (2008).
10Valle (1999); Ferreira (2007).
11 Ribeiro (2008); Barbosa (2005), Baggio (2006). 12 Silva (2006).
13 Chiste (2009).
14Ribeiro (2001); Hernandes (2003); Lacerda (2004).
Oliveira (1998) trata dos princípios, das pretensões que nortearam a SEESP na implantação do SARESP, analisando o impacto do SARESP nas unidades escolares, concluindo que o SARESP impõe-se “como projeto falacioso, no qual o formal não é sério e que não apresenta caminhos de participação”. (OLIVEIRA, 1998, pg. 77).
Esteves (1998) procurou investigar o impacto causado pelos resultados do SARESP nas unidades escolares, concluindo que a maioria dos docentes permaneceria resistente, embora o SARESP tenha despertado a necessidade de refletir e de ampliar conhecimentos sobre avaliação.
Felipe (1999) investiga o impacto causado pelos resultados do SARESP na rede pública estadual e busca constatar as possíveis mudanças ocorridas nas escolas, concluindo que o exame trouxe vários problemas: desconfiança dos docentes sobre seus reais objetivos; indiferença dos alunos avaliados; prova com problemas de elaboração e níveis de sofisticação incoerentes às séries e, principalmente, falta de ações que deveriam ser implementadas, o que acabou frustrando as expectativas da comunidade escolar.
Machado (2003) se detém no uso dos resultados do SARESP, realizado em 2000, procurando identificar as propostas de ações políticas subsidiadas a partir dos resultados do SARESP e seu potencial para a melhoria da qualidade do ensino. Concluiu a autora que o SARESP, apesar de sua importância como avaliação externa e seu potencial para desencadear e direcionar ações e políticas visando à melhoria da qualidade do ensino tem-se prestado a testar o rendimento dos alunos, estabelecimento de ranking e comparação entre as escolas, pouco contribuindo com iniciativas, ações e alternativas que viabilizem a construção de uma escola pública de qualidade.
Bauer (2006) tem como objeto de estudo, em seu mestrado, o uso dos resultados do SARESP na formulação de ações de formação de professores, na formulação de cursos para desenvolvimento e aprimoramento docente. Conclui que a articulação entre os resultados do SARESP e a política de formação docente, da forma que se pretendia, segundo os documentos oficiais, ainda estaria por serefetivada.
Arcas (2009) investigou de forma qualitativa, as implicações da progressão continuada e do SARESP na avaliação escolar, buscando identificar e analisar eventuais alterações ocorridas na avaliação, induzidas pela implantação dessas medidas. Conclui que tanto a progressão continuada como o SARESP têm reflexos na avaliação escolar, e que o SARESP tem assumido o papel de orientador de práticas escolares, sendo utilizado no planejamento e replanejamento das escolas, repercutindo nas práticas
avaliativas, induzindo o fortalecimento de uma concepção de verificação escolar, em detrimento da avaliação formativa, potencializada pela progressão continuada.
As pesquisas apresentadas revelam a configuração política do SARESP, seu impacto e movimentos de resistência docente em função da falta de uma cultura de avaliação de sistema, ainda que alguns se centrem em uma análise de componentes específicos do currículo, possibilitam-nos uma reflexão e análise do SARESP em seu potencial de influenciar o currículo, inserindo nas escolas uma preocupação com a avaliação de desempenho.
Em síntese, os estudos revelam que o uso do SARESP pela escola e pelos professores tende a favorecer o plano pedagógico e curricular, mas ainda precisa enfrentar algumas resistências e ser construída uma prática recorrente com seus resultados.
Vimos, contudo, que há uma carência de pesquisa que reflita o uso dos resultados do SARESP no cotidiano da sala de aula e a opinião dos professores sobre esse problema.
2 METODOLOGIA E PROCEDIMENTOS DA PESQUISA
“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.”
Paulo Freire
Apresentamos a seguir nossas opções metodológicas de análise e pesquisa.