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Face ao exposto nos capítulos apresentados, chega-se ao momento final desta pesquisa. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que o propósito aqui não está em fornecer conclusões ou respostas fechadas aos apontamentos que se fizeram presente no decorrer deste tema, em função da complexidade e riqueza que o envolve, e sim dar margem a inúmeras possibilidades no campo das ideias, não só aos pesquisadores da área de ciências humanas, mas ao leitor interessado em conhecer o universo caipira a partir deste pequeno começo sobre Cornélio Pires, sua contribuição cultural e período histórico, que deixou heranças positivas para diversos escritores e artistas, principalmente da área musical, que até hoje buscam referência e inspiração na composição de suas obras.

Importante abordar nesse momento, alguns apontamentos iniciais sobre a intencionalidade de Cornélio Pires em divulgar a cultura caipira por meio do segmento artístico como recurso em desfazer o estigma negativo atribuído historicamente ao caipira, na possibilidade de sua inclusão e reconhecimento social.

Outro, refere-se ao riso, presença constante em sua produção literária e artística para suavizar possíveis tensões entre o popular e erudito, e com isso penetrar nos espaços hegemônicos da sociedade.

As discussões, tendo como ponto de partida o cenário histórico sobre a formação do povo paulista e os aspectos negativos incutidos desde o período da colonização, o que, consequentemente, gerou uma sociedade patriarcal escravocrata, são fatores que impossibilitaram cidadãos comuns, trabalhadores e familiares da zona rural, que viviam em sistema de comunidade com modos e costumes próprios, do reconhecimento e inclusão no sistema que despontava no país rumo a níveis mais avançados do capitalismo e com ele um conjunto de capitais legitimados dessa ordem, dado o legado cultural, econômico e social dessas populações.

Cornélio Pires era um caipira, não como os tipos menos privilegiados que destacou no tipo caboclo, preto e mulato, modelados pelos preconceitos raciais da época, mas um caipira branco, de ascendência europeia e família dotada de condições econômicas razoáveis.

Porém, como o próprio disse mais tarde, com base em suas andanças pelo interior de São Paulo e integração com as populações rurais, o caipira é um só.

De acordo com os dados biográficos de Cornélio Pires, pode-se notar que possuía pouca escolarização em função de seu desinteresse e não por falta de recursos. Assim, não era nem um intelectual nem um pesquisador de acordo com os padrões hegemônicos da sociedade; era, se assim se pode descrever, um “show man”, com talento nato para observação e reflexão de sua gente, inventivo, com cadência para o teatro e comédia. Apaixonado por sua cultura, fez dela seu ofício a partir de suas características pessoais, o que lhe rendeu fama, prestígio e meio de sustento. Enfim, um criar ou re(criar) em si mesmo com o que sabia fazer de melhor.

Algumas pessoas já sabem desde a primeira infância o que farão no decorrer da vida, como acontece em muitos casos no meio artístico, quando exibem talento desde cedo e dedicam- se a ele por toda sua vida. Assim foi com Cornélio Pires. Um artista autônomo, que investiu em si mesmo, não dependendo de patrocinadores para concretizar seus projetos.

Nas citações de escritores, pesquisadores, historiadores e músicos, em referência a Cornélio Pires, constam os adjetivos: “bandeirante da cultura paulista”, “pioneiro da música caipira”, “ativista cultural”, “conhecedor da língua e cultura caipira”, “grande humorista”, e assim por diante. Porém, a partir das discussões teóricas pontuadas nesta pesquisa, há de aproximá-lo ao que Antonio Gramsci se refere ao intelectual orgânico, que, através de seus projetos voltados para a temática rural e popular, possibilitou o conhecimento e entendimento desse segmento nos diversos espaços da sociedade.

A teoria da linguagem de Mikhail Bakhtin também permite ver Cornélio Pires como artífice de temas atraentes sobre o cotidiano caipira, interagindo com variados públicos com seus enunciados e entonação atraentes, e voltados para a graça e humor. Como excelente palestrante e humorista que era, conhecia o ponto do riso.

Em sua época, conviviam em São Paulo, imigrantes de diversas localidades, principalmente italianos, e caipiras, ex-escravos, fazendeiros, artistas, políticos; um espaço em que fervilhavam diversas línguas e culturas, tanto na proximidade como na adversidade. Cornélio Pires captou essa essência e foi seduzido pelo frenesi da cidade que passava por um momento de transição e transformação no cenário político, social e cultural.

Criou inúmeros projetos. Alguns fracassaram por falta de recursos financeiros e outros se transformaram em sucesso, como suas publicações. Mas foi na música que Cornélio Pires deixou seu maior legado, rendendo-lhe até os dias de hoje o título do “pai da música

caipira” por sua iniciativa, que transformou a partir de 1929 a indústria fonográfica nacional.

O pioneirismo de Cornélio Pires rendeu bons frutos. A música caipira passou a ocupar importante espaço no meio artístico chegando a atrair o interesse de estudiosos em aprofundar seus conhecimentos neste estilo.

Após sua morte, Cornélio Pires foi reconhecido por diversos segmentos da sociedade, fazendo-lhe homenagens como a Semana Cornélio Pires em Tietê, que todo ano é promovida pela Secretaria de Cultura do município; os filmes Sertão em Festa (1970) e A

Marvada Carne (1985), inspirados em seus contos; o espetáculo teatral A “Estrambótica”

Aventura da Música Caipira (1990), produção da Secretaria de Estado da Cultura, que teve estreia no Teatro Sérgio Cardoso - São Paulo e percorreu 10 cidades do interior paulista, contando a trajetória musical de Cornélio Pires; a homenagem do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB-SP) em 2007, com o projeto O Brasil Caboclo de Cornélio

Pires, com apresentações musicais de grandes nomes da música caipira, como Cacique e Pajé e as Irmãs Galvão; e o Grupo Andaime de Teatro, que vem apresentando desde 2008 a peça As Patacoadas de Cornélio Pires – Uma Estrepolia Musical em Dois Atos e Uma Chegança, em vários teatros brasileiros.

Somada a tais homenagens, no município de Tietê foi criado o Parque Ecológico e Cultural Cornélio Pires e o Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Cornélio Pires, no local em que havia o sítio de sua tia, onde ele nasceu e morou durante muito tempo. Suas estórias e contos sobre o rural e seu humor irreverente e original, abriram portas para integrar o grupo da nova intelectualidade paulista que também tinha apreço por temas nacionais e populares e tendiam para a sátira em suas obras e produções.

Essa é a característica da produção corneliana, que conquistou, mesmo que por um determinado período da história do Brasil, a atenção das elites, e de forma apaziguadora no que se refere às diferenças, ou seja, propiciou “o enorme riso renovador, irrisório, criativo,

que compreende os fenômenos do processo de transição, e acha em cada vitória uma derrota e em cada derrota uma vitória em potencial.” (Stam, 1992, 87)

Parque Ecológico e Cultural Cornélio Pires

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Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Cornélio Pires

Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Cornélio Pires

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67 Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Cornélio Pires localizado no Parque Ecológico e Cultural Cornélio Pires no bairro de

Sapopemba em Tietê – São Paulo. Neste sítio hoje transformado em Parque e esta casa, hoje transformada em Museu, foi onde nasceu Cornélio Pires. Foto: Arlete Fonseca de Andrade