Kapittel 3. Gjennomføring og metode
3.2 Kommunestudien
3.2.2 Kartleggingen
Estudando os modelos avaliativos sobre o regime governamental de Porfirio Díaz, o capítulo dois centrar-se-á na construção interpretativa do Porfiriato durante o processo revolucionário mexicano, principalmente em sua primeira fase. Inicialmente, é importante salientar que não pretendemos afirmar ser a Revolução Mexicana um processo histórico homogêneo e unitário, nem que os revolucionários possuíam um mesmo e único objetivo.
Para tanto, baseamo-nos, parcialmente, na tipologia desenvolvida pelo historiador Daniel Cosío Villegas, que intitulou de ―fase destrutora‖ os anos de 1910 a 1920, cujo principal objetivo era dissolver os pilares do Porfiriato, entendido na época como Antigo Regime; instaurando assim uma nova sociedade, implantada pela Revolução. (COSÍO VILLEGAS, 2000 [1970]).47
Tendo em vista tais aspectos, propomos pensar, portanto, a interpretação do governo de Díaz, bem como a construção da própria imagem do presidente na obra de três polígrafos que escreveram a partir da década de 1910 até 1920. Época em que o discurso histórico era o da busca pelo ―verdadeiro México‖, o ―México profundo‖, Porfirio Díaz emergiu como um presidente afrancesado, que privilegiou certos setores nacionais, dando as costas ao povo mexicano, e mascarando a real condição da população mexicana com o objetivo de mostrar um México moderno e civilizado. De
47 Utilizamos nesta dissertação a tipologia desenvolvida por Cosío Villegas sobre as fases do movimento
revolucionário mexicano. Entretanto, não podemos deixar de mencionar que a mesma, como um tipo ideal, possui elementos que podem ser problematizados. Parece-nos que é uma periodização que faz crer que a revolução foi melhorando o país ao longo dos anos, gerando ordem e progresso ao México. Contudo, devemos destacar, por exemplo, que entre 1926 e 1929 uma rebelião, conhecida como Cristera, assolou a nação durante o governo do presidente Plutarco Elias Calles. Por conseguinte, em 1968 houve o Massacre de Tlatelolco e, em 1994, ocorreu em Chiapas um levante neozapatista. Não desenvolveremos aqui tais conjunturas, uma vez que não é o objetivo da pesquisa; mas não podemos afirmar, portanto, que a revolução foi um movimento que culminou na estabilização do país, pois as conturbações políticas, econômicas e sociais continuaram a ocorrer. Entretanto, é significativo destacar que as explicações de Cosío Villegas sobre o período entre 1910 e 1920 possuem elementos que iluminam questões de nossa pesquisa. Como afirmou, vários intelectuais, polígrafos, indivíduos do estado, etc., estavam preocupados em construir novas bases para o país, afastando-se e deslegitimando-se, assim, o Porfiriato.
Além disto, destacamos dois livros que abordam as várias interpretações sobre o processo revolucionário mexicano. São eles: BARTRA, Armando; CÓRDOVA, Arnaldo; GILLY Adolfo et al. Interpretaciones
de la Revolución Mexicana. Cidade do México: editorial Nueva Imagen, 1980. Nesta obra, cujo prefacio
foi produzido por Héctor Aguilar Camín, estão compiladas cinco diferentes visões sobre o levantamento mexicano, cada uma fundamentada em uma perspectiva teórica diferente. O outro livro é BARRÓN, Luis.
Historias de la Revolución Mexicana. Cidade do México: FCE, CIDE, 2004. Este recente trabalho, que
tem o prefácio escrito por Friedrich Katz, discute a historiografia que se constituiu sobre a Revolução desde sua própria eclosão, em 1910, até os dias atuais.
modernizador do país, como foi interpretado nas obras de Bernardo Reyes (1902), Justo Sierra (1900-1902) e outros escritores não discutidos nesta dissertação48, Don Porfirio passou a ser considerado um presidente arcaizante, que cada vez mais concentrou poderes em suas mãos e marginalizou grande parte do setor populacional. Como afirmou Paul Garner, ―los ejemplos más virulentos del ―antiporfirismo‖ en México se encuentran en los años 1920.‖ (GARNER, 2003, p. 18). Segundo Arnaldo Córdova,
Los grupos que tomaron el poder durante la Revolución de 1910 a 1917 sostuvieron, naturalmente, y aún siguen sosteniendo que el período nacido con la Revolución constituye una edad histórica en sí misma, que ha transformado, cumplidamente, las aspiraciones que el pueblo mexicano manifestó, primero, con la Guerra de Independencia, después, con la Reforma, y por último, con la propia Revolución; mientras que el porfirismo es juzgado no solo como una verdadera ―Edad Media‖ que niega nuestra historia, sino como la más grande traición a su sentido y a su significado, a sus héroes y a sus tradiciones, principalmente a aquellos que hicieron posible la gesta liberal de mediados del siglo XIX. (CÓRDOVA, 1973, p. 15).
Deste modo, a partir da análise de dois polígrafos mexicanos e um periodista norte-americano, a proposta é explicar acerca da criação de um novo discurso sobre o Porfiriato, durante o processo revolucionário no país49. Os escritores estudados serão, portanto, John Kenneth Turner, periodista estadunidense que, em 1911, publicou em seu
48 Ver: REYES, Bernardo. El General Porfirio Díaz. Cidade do México: Editora Nacional, ed. 1960;
SIERRA, Justo.México: su evolución social. Cidade do México: La Casa de España en México, ed. 1940; TWEEDIE, Alec. Mexico as I saw it. Michigan: Michigan University Library, ed. 2011. Ethel Brilliana Alec-Tweedie foi uma viajante inglesa que em 1900 e, posteriormente, em 1904, visitou o México e chegou a conhecer o presidente Díaz. Em 1901, escreveu México as I saw it e, em 1911, época do movimento revolucionário, a viajante acrescentou um apêndice abordando a situação por que passava o país. Ao falar da ascensão de Díaz como governante, em 1877, ela o interpretava como a figura do grande herói que liderava a nação. Ao descrever seu governo, a viajante argumentou que, diante de um México desorganizado, Porfirio Díaz precisava administrar com ―mãos de ferro‖ para gerar estabilidade a um país devastado. Como percebemos também em outros autores que escreviam à época, a rigidez de um governo era necessária para erguer um país dos escombros de uma guerra civil (para lembrar os dizeres de Justo Sierra). Para Tweedie, o general combateu os bandidos, gerou estabilidade e paz ao México, além de torná-lo moderno: ―thus he started a new rule and a new life for old Mexico, the birth – so to speak – of Modern Mexico, of which he may well be proud‖ (2011 [1911], p. 134). Como a própria autora argumentou, sob o governo do general o México se viu nascer moderno. A anarquia fazia parte do passado. O futuro do México deveria ser glorioso devido à estabilidade e paz conquistadas pelo presidente. Deste modo, em 1911, diante desse novo quadro interno (eclosão da Revolução Mexicana), a viajante revisitou seu livro escrevendo Díaz, the maker of modern Mexico. Afirmava que era necessário, frente a tantas críticas ao governo, que algum historiador e governante fizesse justiça, em estudo, ao governo daquele que, para ela, continuou sendo o maior homem do século XIX. Sendo assim, como percebemos, houve na época uma grande circularidade de informações no exterior sobre o que acontecia no México e muitos escritores também produziam textos acerca do porfirismo. Sobre o assunto ver: YEAGER, Gene. ―Porfirian Commercial Propaganda: Mexico in the World Industrial Expositions‖. In: The Americas, vol. 34, N. 2, out. 1977, pp. 230-243.
49 É importante acrescentar neste capítulo a análise dos argumentos de John Kenneth Turner na obra Barbarous Mexico (1911), uma vez que o periodista é considerado pela literatura revolucionária como um
dos marcos do antiporfirismo. Seu livro foi amplamente lido e o autor manteve contato com Francisco Madero durante a eclosão da Revolução. Sobre o assunto, falaremos mais abaixo.
país um livro intitulado Barbarous Mexico. Luis Lara Pardo, autor de Porfirio Díaz à Francisco Madero: la sucesión dictatorial de 1911, livro escrito em 1911 e publicado em 1912 e El verdadero Díaz y la Revolución, obra lançada em 1920 por Francisco Bulnes.
A escolha dos três escritores mencionados acima também se justifica pela recorrência da menção de seus livros em trabalhos historiográficos atuais, além de serem obras que tiveram grande circulação e repercussão nos países em que foram escritos. O objetivo dos autores foi mostrar o que estava ocorrendo no México e o porquê da eclosão de um movimento tão amplo, que foi a Revolução. Como perceberemos ao final do texto, diante da eclosão do movimento de 1910, os escritores passaram a disputar uma memória a ser deixada sobre o governo de Díaz: teria ele sido um vilão ou herói do México?