Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré- história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve (LISPECTOR, 1998b, p.11).
No princípio, havia a dança cósmica. A dança dos átomos, das moléculas, dos astros, das galáxias, dos planetas. Tudo era (e é) pulsação rítmica, regida pela sinfonia incessante da vida. No princípio, não havia o verbo nem o verso, e sim a dança da criação.
Movimento e ritmo são as formas mais sublimes da organização cósmica. Tudo dança ao som da vida: dança de criação-conservação, de manutenção- transformação, de fluxo-permanência. O universo e as formas de vida que nele habitam vivenciam a todo instante a dança do caos e da harmonia.
O universo existe porque existe a vida. Este é o ponto de partida para a toda a criação universal, em suas mais sutis manifestações. Eis um novo paradigma: o princípio biocêntrico, segundo o qual o universo é organizado por leis universais que conservam e permitem a evolução da vida (TORO, 1991). Tudo o que existe no universo, sejam elementos, astros, plantas ou animais, incluindo o ser humano, são componentes de um sistema vivo maior. Tudo o que vive, que pulsa, está conectado com as demais formas de expressão da vida. Esta é, pois, uma totalidade indivisa que permite a constante criação e evolução do universo – sistema vivente de complexidade exorbitante.
Tudo que se cria é arte, então, se criar é condição da vida, a arte é condição da vida. A cada novo instante faz-se mais e mais vida. Assim, havia uma intencionalidade cósmica desde a explosão inicial (Teoria do Big-Bang19) até a criação das primeiras condições para a gênese da vida humana na Terra (Teoria de Oparin20).
Os vapores de água da atividade vulcânica, a saturação da umidade atmosférica, as chuvas incessantes, os raios ultra-violetas, os relâmpagos, as altas temperaturas, as reações químicas, os aminoácidos, os mares, os colóides, os coacervados, as proteínas e nucleoproteínas, os primeiros organismos, as formas viventes mais rudimentares até as mais complexas, tudo fez parte de um processo maior de organização da vida.
Nesse caso, o herói de fato é o tempo. E o tempo com que contamos é da ordem de dois bilhões de anos. Perde aqui o sentido daquilo que, fundados na experiência humana, consideramos impossível. Num intervalo de tempo suficientemente longo, o impossível se torna possível, o possível, provável, e o provável, virtualmente certo. Basta esperar: o tempo, por si só, realiza milagres. (UZUNIAN et al., 1991, p.101).
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Segundo a Teoria do Big Bang, criada por Friedmann-Robertson-Walker, tudo o que há no universo originou-se de uma grande explosão de um átomo primordial.
20 Aleksander Oparin formulou a hipótese acerca da origem da vida no planeta Terra. Visto não ser uns dos nossos objetivos com esse estudo, o leitor poderá encontrar mais detalhes acerca deste tema no site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_de_Oparin. Acesso em 21 Maio 2007.
O tempo em que o universo gestou o aparecimento da vida humana é impreciso. Mas tudo foi sabiamente preparado para que hoje estivéssemos aqui, com todas as habilidades adquiridas ao longo das evoluções da nossa espécie. A vida se cria a todo instante e assim como ela se manifesta em nós, por fazermos parte dela, a criação torna-se também condição humana. Somos parte da criação de uma totalidade vivente, organizada em prol da vida.
Viver é, antes de mais nada, participar desse fluxo e dessa pulsação orgânica do mundo que está em nós, desse movimento, desse ritmo, dessa totalidade, porque, mesmo durante nosso sono, vela em nosso peito a lei da dupla batida, a da nossa respiração e a do nosso coração (GARAUDY, 1980, p.26).
A partir do paradigma antropocêntrico vigente na contemporaneidade, tem-se construído um distanciamento progressivo da nossa origem cósmica e animal. A cultura atual, não pautada em valores biocêntricos, tem erigido valores anti-vida (violência, opressão, fome) e cindido o homem (corpo-mente, cognitivo-afetivo, mente-corpo).
Tudo o que vive, porém, está em constante processo de criação, de manutenção e de transformação. Os processos de regulação da vida cósmica e universal, representada pelas divindades Hindu - Shiva, Vishnu e Brahma, simbolizando, respectivamente, a transformação, a conservação e a criação - conspiram com ato de viver. O homem, inserido nessa teia viva, é co-criador e criatura, participando da construção ou destruição do universo.
Se no princípio havia a dança, tudo o mais foi possível a partir dela. A dança cósmica possibilitou a origem da Terra e de tudo o que hoje vive e habita nela. “Dançar é, antes de tudo, estabelecer uma relação ativa entre o homem e a natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele” (GARAUDY, 1980, p.14). Dançar é também perceber-se conectado com a vida e com o universo, ao mesmo tempo em que se pulsa no fluxo do movimento e do ritmo com o todo.
O movimento de criação do universo possibilitou e possibilita que galáxias, planetas, plantas, animais e átomos, existam, pulsem e geram cada vez mais vida. Eis a grande arte da criação universal que habita tudo o que move, e por isso cria. Cria, regido pelo princípio biocêntrico (TORO, 2002), e toma como referência a vida como conseqüência da construção do universo, e este existe porque a vida existe, não o contrário. Na arte da dança de vida, o universo cria e recria em infinitas formas novas expressões da vida, sendo ele mesmo um organismo vivo.
Quando nos propomos a falar de arte neste tópico, não buscamos resgatar a história da arte nem muito menos fazer apologia aos valores culturais estéticos disseminados em nossa cultura. Contudo, ousamos um desafio ainda maior: resgatar a arte como condição da vida em suas dimensões criativa e estética (palavra advinda do grego aisthesía, que significa sensibilidade, sentimento). Sendo o homem manifestação da vida, a arte também é condição humana, ou seja, a sensibilidade e a criatividade estão presentes no homem. E é dessas duas dimensões que partimos para compreender a arte da vida e do homem, a arte na vida e no homem.
Quando unimos criatividade e sensibilidade para falarmos de arte rompemos com a possibilidade de ser a razão e a consciência as instâncias responsáveis pelos processos artísticos, e, portanto, aproximamos a arte da vivência. A criação humana é, portanto, dirigida por uma intencionalidade conquistada filogeneticamente no instante em que o ser animal-sensorial descobriu-se como ser sensível. Segundo Góis (2005b), podemos dizer que na evolução humana três grandes momentos nos fizeram: a descida das árvores (homem ereto com as mãos livres), o uso do fogo (a mão como instrumento e o fogo possibilitando a diminuição do nomadismo) e a pintura nas cavernas (imaginação, arte e sensibilidade).
Desse modo, a arte surge no caminho evolutivo da humanidade a partir da sensibilidade. “A sensibilidade primitiva emergente formada no mover-se de um outro modo [...] Ela tornou possível a vivência primitiva e, logo, tornou-se vivência. Fez o humano, primeiramente como artista ou algo assim para, em seguida, o tornar ‘faber’ e ‘sapiens’”(GÓIS, 2002a, p.67).
A dimensão humana criadora na sua forma vinculada e sensível é capaz de integrar o homem à natureza que há em si, no outro e no entorno. A criação é uma atividade que integra a transformação cósmica, percorrendo o caminho do caos à ordem. O universo, biologicamente organizado, está em permanente criação, e nós também “... somos como deuses e criamos a nós e a nossas comunidades a partir do que está ao nosso dispor” (RHYNE, 2000, p.52). Assim, somos todos, criadores e criaturas.
Se o ato de viver é uma sutil manifestação do prodigioso movimento de um universo biologicamente organizado e em criação permanente, a criatividade humana pode ser considerada uma extensão dessas formas biocósmicas que se exprimem por meio de cada indivíduo. Nós somos ao mesmo tempo a mensagem, a criatura e o criador (TORO, 2002, p. 88).
Segundo o autor, a criatividade é uma das linhas de vivência, originada do instinto de renovação e da protovivência21 de curiosidade. É inata, oriunda do impulso criador expresso no próprio ato de viver. Esse potencial pode ser inibido ou estimulado nas vivências integrantes a história pessoal de cada um, nesse sentido, a arte e a criação existem como potencialidade em cada ser humano.
Baseada nos estudos de Toro (1991), Pinho (2003, p.18-19) enfoca a criação humana como uma linguagem do vivencial, como uma possibilidade de conexão, de comunicação e de objetivação da vivência – fonte genuína de criação e expressão humana. “... a vivência é a matéria prima de todo artista22...”. Assim, além da sensibilidade e da criação, integramos a vivência e a expressão ao conceito de arte.
Almeida (2007, p.13) nos fala de vivência como um acontecimento possibilitado pela vida em sua plenitude, assim, uma vez que somos partícipes da vida, navegamos sempre no interior desta. “Não é a vida que nos pertence, mas somos nós que pertencemos a ela e, do mesmo modo, não somos nós que produzimos nossas vivências, mas antes, são nossas vivências que nos produzem e nos instituem no mundo”. A vida como um acontecimento biocêntrico se cria e é arte. Nós, participantes da vida, também somos arte e nos criamos através da vivência. Assim, o homem é arte e também faz arte, e este ser e fazer arte dá-se através da vivência.
A subjetividade humana é forjada nesse processo artístico-vivencial. É a identidade fazendo-se arte e se fazendo através da arte: sensível, criadora, expressiva e vivencial. Assim, afirmamos a indissociabilidade entre arte e identidade, unindo essas expressões no termo arte-identidade, por compreendermos que identidade é arte (movimento sensível, pulsação expressiva, metamorfose criadora) e que arte é identidade (única, singular, peculiar, idiossincrática).
Arte e identidade são inefáveis e acontecem na vivência, aqui-agora, em seus componentes viscerais, sinestésicos e emocionais, anterior à consciência e aos significados. Arte-identidade é a vida objetivada humana criando e recriando-se nas múltiplas possibilidades expressivas do acontecimento biocêntrico.
Viver é crer na transformação
21 De acordo com Toro (1991), as protovivências são de grande importância nas histórias dos sujeitos. O movimento, o contato, a expressão, a segurança e a harmonia são as protovivências que envolvem os primeiros seis meses de vida, em que o bebê inicia a sua experimentação no mundo. Elas influenciam no desenvolvimento das cinco linhas de vivência do sistema Biodança: vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência.
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- através do toque - no corpo, no espírito, no coração... Um toque somente de fora para dentro, de dentro para fora: revelação! Criar: arte da mudança... Arte: andança sem-fim... i-d-e-n-t-i-d-a-d-e: fio de esperança, integração com a vida, vínculo infinito de amor, criação sublime e constante! Identidade é arte... Arte é identidade...
(Geísa Sombra)