1. TEORI
1.6 P OLITISK RISIKO
O intuito foi compreender o modo como os actores educativos se posicionam em relação às vantagens (ou desvantagens) da introdução das TIC no processo de ensino-aprendizagem. Alguns autores defendem que “as TIC poderão ajudar na aprendizagem de muitos conteúdos, recorrendo a técnicas sofisticadas de simulação e de modelação cognitiva baseadas na inteligência artificial” (Ponte, 2000: 72). No entanto,
na perspectiva deste autor, as TIC “vão marcar de forma mais forte as instituições educativas, […] pelas possibilidades acrescidas que trazem de criação de espaços de interacção e comunicação, pelas possibilidades alternativas que fornecem de expressão criativa, de realização de projectos e de reflexão crítica” (Ponte, 2000: 72).
Na perspectiva dos professores entrevistados, as TIC devem desempenhar um que o papel importante nas aprendizagens no sentido em que abrem novos horizontes, mostram outras realidades e são um recurso motivador e entusiasmante. Segundo uma professora utilizadora:
“Nós devemos acompanhar essa evolução e usar as novas tecnologias. Eu tenho-o feito na medida do possível. Na escola o software é escasso para os níveis que lecciono, mas sempre que surge uma oportunidade ou sempre que o manual me sugere um site para consultar na Internet, faço-o” (A1).
Por outro lado, os professores entrevistados consideraram que é necessário que haja professores motivados e equipamento, só assim se chega às aulas. Isto é, primeiro será necessário ensinar os professores e os alunos a trabalhar com os computadores para que depois os alunos consigam fazer pesquisas e compor trabalhos: “quero que eles sejam capazes de fazer pesquisa na Internet, de utilizar o processador de texto e outros para os aplicar nas aulas ou em casa” (A2). É de registar que esta professora era uma utilizadora assídua, utilizava o correio electrónico e os programas de conversação para trocar testes e colocar dúvidas com colegas de outras escolas.
Segundo Pedro da Ponte, as tecnologias de informação e comunicação lançam
“O professor […] tem de ser um explorador capaz de perceber o que lhe pode interessar, e de aprender, por si só ou em conjunto com os colegas mais próximos, a tirar partido das respectivas potencialidades. Tal como o aluno, o professor acaba por ter de estar sempre a aprender. Desse modo, aproxima-se dos seus alunos. Deixa de ser a autoridade incontestada do saber para passar a ser, muitas vezes, aquele que menos sabe (o que está longe de constituir uma modificação menor do seu papel profissional)” (Ponte, 2000: 76).
No entanto, os professores desta escola não percepcionaram as TIC da mesma forma que o fez Ponte. Segundo eles, uma vez que os programas as integram pouco, isso talvez possa explicar que façam pouco uso pessoal e profissional. Assim, os professores utilizam as TIC essencialmente para a elaboração de testes e de grelhas de avaliação. Sobre as actividades que desenvolvem com os alunos, os professores disseram que solicitam a apresentação dos trabalhos temáticos com recurso ao processador de texto e à pesquisa na Internet e que exploram software educativo. Uma professora não utilizadora disse que “neste momento as TIC não desempenham um papel ainda muito grande [na minha prática]. Se calhar a culpa é um pouco minha” (A6). Por outro lado, diz a mesma professora, em jeito de justificação: “Sou um bocado contra porque podem ter acesso na escola e não em casa o que provoca um desfasamento entre os que têm e os que não têm” (A6). Na opinião dos professores envolvidos (A1 e A2) no projecto “Uma Aventura em Construção”, os dilemas colocam-se a outro nível:
“Como professora de Português vejo-me limitada na construção de texto porque por vezes tenho de os ensinar a processar antes de partir para a criação literária propriamente dita. Na escola faz-se um esforço para que as pessoas usem as TIC, mas ainda é difícil” (A2).
“Deveria haver mais formação para professores e alunos e esta não deve ser dada por espírito de carolice dos professores. Seja com redução da componente lectiva para os professores interessados e motivados para a formação seja com professores específicos só para a formação de alunos e colegas. Não que tenha que funcionar como disciplina, mas como um clube para ser menos formal e até mais aliciante” (A2).
Por outro lado, os professores referiram que o facto de haver um computador com acesso à Internet na sala dos professores era já um incentivo à utilização das TIC, uma vez “que não obriga a nada, ajuda e motiva”. Constataram também que o Conselho Executivo apoia os professores. Logo, os entrevistados consideraram que há mais estímulos do que propriamente pressões, embora a adopção e a utilização das TIC exijam disponibilidade. O Presidente do Conselho Executivo esperava que as TIC sejam utilizadas pelos professores, pois, diz ele, “é por estes que se começa (…), se os professores não tiverem à vontade com as tecnologias fica mais difícil proceder à sua implementação junto dos alunos” (B9).
A maioria dos entrevistados só considerava haver vantagens na integração das TIC nas aprendizagens, tais como o facto de favorecerem a motivação, a concentração, a atenção, destacando o corrector automático do programa Word como um aspecto importante. Assinalaram também a optimização da informação e de arquivo, a rapidez, a possibilidade de reconverter e de reutilizar. Uma professora utilizadora (A1) referiu que apesar de anteriormente considerar que o computador poderia vir a prejudicar a relação professor-aluno, tem vindo a constatar, pela sua prática, que a sua figura continua importante em termos de apoio, de continuidade, de solicitação e orientação. Por isso, os professores consideraram que as TIC “facilitam a vida” (A5) e significam a
adaptação ao mundo em mudança, dado que os alunos têm que sair da escola com estas competências desenvolvidas (A7).
Na perspectiva dos alunos entrevistados as tecnologias de informação e comunicação representaram, sobretudo, melhorias em termos de infra-estruturas. Deram o exemplo da Infoteca, tendo um deles afirmado que ela “é boa por causa da Internet e para quem não tem computador em casa. Se não soubermos, está lá em cima uma funcionária que nos ajuda” (D14). Os alunos referiram também a Ludoteca. Por isso, os alunos, em geral, disseram que gostam da escola e que sentem que aprendem mais.
Por seu lado, os Encarregados de Educação consideraram o seguinte sobre as tecnologias de informação e comunicação:
“O computador é mais um meio auxiliar, não é essencial, não serão todas as profissões no futuro que dele vão depender. As tecnologias são essenciais para que os alunos se insiram no mundo do trabalho no futuro” (E19).
“ [a escola está] muitíssimo bem equipada. Os computadores estão acessíveis. O número reduzido de alunos permite que todos acedam com facilidade” (E21).
Como refere Bromley, os discursos em torno da mudança da escola em direcção à sociedade da informação encontram eco nos cidadãos em geral e nos pais em particular. Segundo ele,
“Uma das razões pelas quais esta retórica foi tão eficaz é que os pais estão legitimamente preocupados sobre as perspectivas de emprego dos seus filhos. […] A opinião comum é que as competências em computadores serão crescentemente necessárias para a qualificação do trabalho e ninguém quer ser deixado para trás.” (Bromley, 1998: 11)
É neste sentido que pode ser interpretada esta visão do especialista em TIC, segundo o qual elas são e continuarão a ser incontornáveis:
“Há uma tendência global de utilização das novas tecnologias à qual ninguém poderá resistir. Todos utilizaremos as TIC mais tarde ou mais cedo. Não só os alunos solicitam os professores em função das necessidades como também as reformulações curriculares induzirão nesse sentido” (C10).
Como aspectos negativos da integração das TIC, uma professora não utilizadora apontou o pouco aprofundamento das matérias e uma outra apontou a diminuição do convívio entre as pessoas. Uma professora utilizadora considerou que deveria haver mais formação para professores e alunos, e menos recurso à disponibilidade voluntária de alguns professores. Um professor utilizador indica um outro aspecto que considera negativo: “Aqui na escola é sentir que a maior parte dos alunos não têm qualquer capacidade em casa de ter acesso à informática o que os isola” (A4).
Os testemunhos dos actores educativos embora indiquem sensibilidade para a questão, revelam uma distância grande entre aquilo que é suposto fazer nas aprendizagens com as TIC e aquilo que na realidade têm vindo a conseguir concretizar.