A profundidade é uma variável de grande importância em limnologia. Segundo BARBANTI et al. (1993) os nutrientes são usados com eficácia maior em ambientes pouco profundos permitindo, assim, uma maior produção biológica. Em sistemas complexos como represas a profundidade não é estável, ma varia conforme ao ciclo de produção energética. Neste caso podem-se observar variações de pequeno e grande porte. As primeiras são relacionadas as variações diárias da cota e comportam pequenas variações do nível (alguns centímetros) geralmente de pouca importância para o comparto biótico; as outras têm ciclo comprido (anual), sendo relacionadas as fases de enchente e esvaziamento da represa. Neste caso a variação da profundidade é maior (metros) e os efeitos no sistema biótico podem ser mais relevantes devido a perda de recursos alimentares, de áreas para refúgio e para reprodução (COHEN & RADOMSKI, 1993). Claramente, o impacto dessas variações é influenciado pela morfologia do fundo da represa, sendo mais relevante em presença de morfologias levemente degradantes. Considerando a ausência de mapas batimétricas da represa de Barra Bonita, a observação da morfologia levemente degradante da paisagem circundante e a medida da profundidade nas estações de amostragem, permitem reconhecer duas zonas distintas na represa: a zona central, com maiores valores de profundidade (média 16 m) e as zonas de desembocadura e lateral menos profundas (média 4,5 m) e por isso, mais sensíveis a exposição do fundo conseguinte a variação do nível.
A temperatura da água, também, é considerada uma importante variável em limnologia influenciando a cinética das reações químicas e bioquímicas na água. Além disso, influencia as propriedades físicas da água (como a densidade) que controlam as dinâmicas de transferência do oxigênio e nutrientes em toda a massa hídrica (MARCHETTI, 1989). Os valores observados da temperatura da água na represa de Barra Bonita são mais “estáveis” em comparação com os do ar nas duas épocas observadas. Este comportamento é relacionado as características físicas da molécula de água que, tendo um elevado calor especifico (1 kcal a 14,4°C) esquenta e resfria lentamente mitigando, assim, os efeitos das variações climáticas locais (FORNERIS & PEROSINO, 1995; ESTEVES, 1998).
A transparência constitui uma medida indireta do estado trófico da água sendo, em geral, bem relacionada com a clorofila (MARCHETTI, 1989). A medida da transparência é, portanto, importante nos estudos da eutrofização. Neste sentido a OECD (Organization for Economic Co-operation and Development)
propus um método probabilístico (Figura 81) para avaliação do estado trófico baseado no valor médio anual da transparência (m). No caso da represa de Barra Bonita, em ausência de uma média anual da variável, pode ser considerado o valor máximo observado (de 1,6 m) para estimar a categoria trófica. Neste caso, a represa mostra pertencer por cerca de 55% de probabilidade a categoria ipereutrófica e por o 40% a eutrófica. Esta classificação é confirmada por FREITAS (1999) que define a
represa como ipereutrófica e por BARBOSA et al. (1999) que observaram a tendência ao progressivo aumento do grau de eutrofía da represa.
A condutibilidade fornece indicações sobre as modificações na composição da água, sobretudo na sua concentração mineral. A sua variabilidade é, portanto, relacionada à qualidade dos aportes e pode indicar a presença de fontes de contaminação da água (MARCHETTI, 1989; ESTEVES, 1998). A análise dos dados revela um gradiente na distribuição dos valores de condutividade elétrica. Os valores maiores se encontram nos braços fluviais na estação seca porque as chuvas limitadas levam ao aumento da concentração das substâncias minerais na água. É também interessante ver que os maiores valores se encontram mesmo no braço do Rio Tietê, que recolhe a maior carga orgânica e inorgânica da bacia devido à região metropolitana de São Paulo a sua montante. Na zona de transição observa-se ainda certa variabilidade nos valores entre as duas épocas, ao contrário da zona lêntica onde devido aos processos de purificação biológica, diluição e sedimentação das substâncias inorgânicas houve uma “estabilização” dos valores com conseqüente
Figura 81: Distribuição da probabilidade das categorias tróficas em função da transparência da água (m).
Transparência (m) % p rob abi lid ad e
melhoramento na qualidade da água. Ao contrário, durante a época chuvosa, as zonas fluviais mostram os menores valores de condutividade devido ao efeito de diluição das chuvas.
O pH é importante para a compreensão da dinâmica do carbono e, em particular, está relacionado á condutividade e a atividade dos organismos fotossintéticos (MARCHETTI, 1989). Em ambientes eutróficos o pH tende a subir em correspondência do estrado fótico onde a concentração do fitoplâncton è mais abundante. O andamento dos valores observados de pH e condutibilidade nas duas épocas mostra que o braço do rio Tietê é o mais afetado pela eutrofização das águas.
O oxigênio dissolvido representa um dos elementos mais importantes no monitoramento dos ambientes lacustres, visto que garante os processos de mineralização das substâncias orgânicas e de respiração dos organismos aquáticos (MARCHETTI, 1989; ESTEVES, 1998). Os menores valores observados, na represa de Barra Bonita, pertencem a zona lêntica na estação chuvosa. Este resultado é justificado da relação inversa entre temperatura e oxigênio, visto que o aumento da temperatura determina a menor solubilidade do oxigênio na água. Em geral, todavia, a maioria dos valores de oxigênio observados no período considerado é baixa, sendo entre um e cinco mg/l. Neste contexto, pode-se concluir que a ictiofauna presente é adaptada a esta condição.
Relativamente as variáveis ambientais categóricas (paisagem, fundo, macrófitas e mata), todas têm importância no manutenção da vida aquática. Elas são componentes da complexidade estrutural do ambiente (heterogeneidade) que, por sua vez, suporta a diversidade dos organismos permitindo o desenvolvimento de especializações morfológicas e comportamentais (BARRELLA et al., 2000). No caso da represa de Barra Bonita a paisagem, é dominada pelo cultivo de cana de açúcar; o tipo de fundo, na maioria dos casos, é arenoso e as faixas de mata ciliar são reduzidas a pequenos trechos ao longo dos tributários. Isto faz com que a heterogeneidade estrutural do ambiente seja limitada. Somente as macrófitas são amplamente distribuídas nas desembocaduras e margem da represa e, neste contexto, podem ser consideradas como os mais importantes elementos de heterogeneidade ambiental neste ambiente.