4 Biografiene
4.4 Olav Thon
Nesta seção, serão apresentadas algumas reações de Paula e Leo diante de situações nas quais a professora redirecionou sua mediação para outro aluno ou para outra atividade enquanto eles estavam realizando alguma atividade diante do grupo e, de uma certa forma, tinham a expectativa de que a atenção da professora estaria focada neles.
1.2.1. Redirecionando a mediação de Paula para Maria
No primeiro dia de trabalho com o gênero reportagem, dia 13/3, Paula foi uma das alunas sorteadas e a primeira a apresentar. Ela começou a apresentação da reportagem de maneira hesitante: “Pra frente... Brasil... é o título... a reportagem é sobre as roupas... a moda...” e logo a professora afirmou que ela não havia lido a reportagem. A aluna não contestou a afirmação da professora e tentou continuar a apresentação da reportagem. Enquanto ela tentava apresentar, a professora dirigiu-se à carteira de outra aluna, Maria, considerada uma aluna que demonstrava “dificuldade” de compreensão na leitura. A auxiliar de classe, à frente da sala e ao lado de Paula, fazia-lhe as perguntas de acordo com o roteiro que a professora havia escrito no quadro para orientar as apresentações (título, onde, como, quando). Antes de terminar de apresentar a reportagem, Paula parou de falar e assentou-se em seu lugar. Talvez o fato de a professora dar atenção para outra aluna tenha levado Paula a interromper sua apresentação.
Já foi mencionado que Paula afirmou, durante a entrevista, que se sente insegura ao estar diante da turma para falar algo. Paula não se sente à vontade quando tem que ler em voz alta ou falar em público, ao contrário de Lucas, por exemplo. Isso poderia ser um dos motivos de sua hesitação. Além de ser a primeira vez que esse tipo de atividade era realizada, Paula foi a primeira a fazer a apresentação, o que pode ter contribuído para que apresentasse a reportagem de maneira hesitante.
Destacam-se, nesse evento, duas ações da professora em relação à Paula. A primeira é a afirmativa de que ela não havia lido a reportagem, tão logo a aluna inicia a apresentação. Paula não demonstra uma reação imediata a essa fala da professora, mas, posteriormente, ao escrever seu resumo da apresentação feita, é possível notar uma
reação dela em sua “defesa”: Paula afirma, em seu texto, que leu, não apenas aquela reportagem que apresentava, mas várias, e fez uma escolha.
A outra ação da professora foi dirigir-se à carteira de outra aluna, enquanto Paula fazia a apresentação. Ainda que a auxiliar de classe estivesse atenta a Paula, parece que a aluna não considerou isso suficiente para prosseguir em seu relato, pois, de repente, parou de falar e assentou-se. Conforme mencionado no início desta seção, o papel da professora é fundamental para os alunos na orientação de suas ações e reações (PÊCHEUX, 1990; CAJAL, 2001).
Paula, nessas situações, utilizou-se de ações não-verbais para sinalizar como via ou como se sentia diante do que ocorria, ou seja, como interpretou as ações da professora: escreveu em seu resumo o que poderia ser uma “resposta” para a professora e assentou-se antes de terminar sua apresentação, quando percebeu a professora dando atenção para outra aluna.
A idéia de que as pessoas se tornam ambientes umas para as outras coloca a mediação de outros como central, no processo de construção do contexto: as pessoas estão constantemente sinalizando umas para as outras o que é a situação por meio de suas ações verbais e não- verbais e estão, simultaneamente, interpretando as ações/sinais que vêm de outros participantes da situação (CASTANHEIRA, 2004, p. 57).
1.2.2. Redirecionando a mediação de Leo para Igor
Na aula do dia 12/6, na seqüência de apresentações das propagandas, Igor havia terminado de apresentar a propaganda que fez e Leo era o seguinte. Os alunos estavam assentados em torno da mesa grande na biblioteca.
P: Legal a propaganda dele. Vai, Leo.
((P se afasta da mesa antes de Leo iniciar sua leitura))
L: É...ô, professora... (fala como se estivesse reclamando que P não está atenta a ele).
P: Pode ler, Leo ... lê sua propaganda, alto. Vamos! (P volta à mesa grande, onde estão os alunos, enquanto fala para Leo ler. Leo inicia a leitura e enquanto ele lê, P lê o texto que Igor havia apresentado antes de Leo e faz anotações nele. Leo está do outro lado da mesa, de frente para P).
L: A mais famosa (inaudível) se você quer um livro de aventura, suspense e comédia, vocês devem ler esse livro. A mais famosa (inaudível) ((Leo termina a leitura, põe a folha sobre a mesa, olha para P, P olha para ele e faz um sinal afirmativo com a cabeça))
Quando Leo percebeu que a professora havia se afastado da mesa onde os alunos estavam, ele “reclamou”, indicando que desejava a atenção dela. A professora insistiu para que ele lesse, porém, enquanto ele lia, a professora não olhava para Leo, o que parecia ser o desejo dele com a entonação de sua voz ao dizer: “ô professora...”. Cajal (2001, p. 131) afirma que “o uso que uma pessoa faz de um determinado modo de fala em uma determinada situação pode dar pistas de como ela quer que sua fala seja interpretada”. Seria o que Gumperz (2002, p. 152) caracteriza como pistas de contextualização, isto é, “traços presentes na estrutura de superfície das mensagens que os falantes sinalizam e os ouvintes interpretam (...) como o conteúdo semântico deve ser entendido”. De acordo com o autor, essas pistas “são usadas e percebidas irrefletidamente, mas raramente observadas em nível consciente e quase nunca comentadas de maneira direta”.
Não só a entonação da voz de Leo ao dirigir-se à professora (ô, professora...), mas também o fato de ele não iniciar a apresentação de sua propaganda enquanto a professora permanecia longe da mesa onde o grupo estava, foram pistas de que ele desejava a atenção da professora manifestada através de sua presença e de seu olhar enquanto ele falava, o que vinha ocorrendo com os outros alunos. Conforme Gumperz (2002) afirma, não houve um comentário direto da professora sobre as pistas fornecidas por Leo, mas, ao lhe dizer que poderia ler e ao insistir mediante a espera do aluno (“Vamos!”), ela indica ter entendido o desejo dele, tanto que se reaproximou da mesa, embora mantivesse, ainda, sua atenção no texto de Igor.
Ao terminar a apresentação, será que o sinal afirmativo feito pela professora com a cabeça foi recebido por Leo como uma indicação de que ele havia feito corretamente uma propaganda? Nessa mesma aula, comentários positivos foram feitos pela professora para outros alunos. Por exemplo: “Olha que criativo o jeito que ele fez. Muito bacana, muito bacana, mesmo”, sobre o trabalho de Rafael; “Legal a propaganda dele”, para o trabalho de Igor. Será que o comentário geral feito pela professora – “hoje as propagandas ficaram melhores, todos aqui que leram, eu achei que vocês melhoraram” – teve alguma influência positiva sobre Leo? Em uma outra ocasião, quando a professora disse que todos da turma sabiam se expressar muito bem oralmente, Leo reagiu com a pergunta: “até eu, professora?” A palavra “até” indica que Leo queria saber se ele estaria incluído no grupo dos que sabem se expressar bem oralmente, podendo ser uma pista de que ele deseja, ou, até mesmo, precisa, de um reforço positivo.