Nesta seção, serão apresentadas duas situações envolvendo alguns alunos nas aulas sobre propagandas. Na primeira situação, Sara não consegue relatar o tema do livro lido, antes de apresentar a propaganda para a turma, situação semelhante à vivenciada por Maria, conforme apresentado no capítulo 6. Pelo fato de a aluna não falar sobre o tema do livro, a professora questiona se ela realmente havia lido o livro. Ao fim de sua apresentação, a aluna não recebe uma validação da sua resposta, isto é, da sua apresentação. Na segunda situação, Paula apresenta o texto que elaborou, certa de que se tratava de uma propaganda, contudo a professora afirma que não era uma propaganda, avaliando, dessa forma, negativamente seu trabalho.
A primeira situação ocorreu no dia 5/6, enquanto Sara apresentava sua propaganda. Durante a apresentação, a professora questionou se ela havia lido o livro, pois a aluna hesitava ao falar, não conseguindo apresentar um resumo do livro lido. Mediante a resposta afirmativa de Sara, a professora perguntou se ela havia lido “de verdade”.
P: (...) E aí, Sara, fala sobre o quê o livro? S: É uma aventura...
P:Uma aventura de quem? Quem faz o quê, Sara? S: É sobre um menino que...é...
Cristina: Como é que é o livro?(perguntando qual é o título do livro) P: Sempre haverá um amanhã (título do livro).
S: (inaudível)
P: Ah, a menina que vai na floresta. Como que chama a menina? S: ((silêncio))
P: Sara, você leu o livro, minha filha?
Cristina: Não! (responde antes de Sara, em tom de brincadeira) P: Você leu o livro?
S: Li. P: Leu? S: Li.
P: De verdade? S: Haham..
P: E como que chama a personagem, Sara? S: (inaudível)
P: Tá, e aí? O que acontece com a (inaudível) na floresta? S: É...((silêncio)).
P: A próxima propaganda que eu vou querer vai ser oral. Vocês não vão ler, vocês vão chegar na frente e vão falar a propaganda, pegar o livro e fazer a propaganda oral/
R: Na hora?
P: Eu quero ver, na hora. A: De cabeça?
P: Mas vocês vão pensar. Não, vocês vão pensar em casa para chegar e apresentar (inaudível) ((se dirigindo a Sara)) e como que ficou? Vai, Sara.
S: ((inaudível)) venham, peguem este livro. É muito legal e importante.
Diante da situação na qual a aluna não se expressa oralmente de acordo com a expectativa da professora, é feito um comentário relacionado com a valorização que a professora dá para situações nas quais os alunos devem falar sem o suporte da escrita. Como ocorria nas apresentações das reportagens, quando os alunos não podiam ler os resumos produzidos em casa para se prepararem para as apresentações, a professora anuncia a possibilidade de os alunos terem de apresentar as propagandas sem ler – “vocês não vão ler”. Essa possibilidade parece assustar os alunos – “na hora?”, “de cabeça?” são perguntas feitas por eles, indicando que precisariam de um suporte para sua fala. A professora afirma que poderão se preparar em casa, mas que terão que apresentar em sala sem ler. Parece que a professora assume que os alunos que não se expressam bem oralmente, estão, de alguma forma, “presos” ao texto escrito.
Ao fim da apresentação de Sara, a professora não fez um comentário direto de que a propaganda dela não estava boa, mas, ao perguntar para a turma “como que ela poderia fazer uma propaganda diferente e legal”, indicou que a propaganda da aluna não estava boa (queria uma propaganda “diferente”, pois a da aluna não estava “legal”). Bia apresentou, rápida e fluentemente, uma sugestão de propaganda e, quando terminou, a professora comentou: “é, ficaria bacana”, dando, assim, um reforço positivo para a propaganda que Bia sugeriu.
P: (...) venham peguem esse livro. Como que ela poderia fazer uma propaganda diferente e legal?
A: alugue.
Paula: eu fiz uma propaganda. P: alugue?
B: como que chama o livro?
P: o livro se chama “Sempre haverá um amanhã.”
B: sempre haverá amanhã é uma história divertida emocionante (incompreensível).
P: é, ficaria bacana, vamos lá.
Ao analisar as estruturas das interações verbais em aulas de Português, Sousa (1993) apresenta situações nas quais tanto “a adequação da resposta do aluno” quanto “o verdadeiro sentido da solicitação do professor” só serão percebidos quando houver uma avaliação da resposta do aluno pelo professor. Embora as apresentações de propagandas não sejam atividades de “perguntas e respostas”, de uma certa maneira há
uma demanda da professora, que exige uma “resposta correta” dos alunos. Nesse caso, a “resposta correta” seria a propaganda elaborada dentro de alguns critérios que haviam sido discutidos (“texto impessoal, curto, com imagens e bem organizado visualmente”).
Embora a professora não tenha avaliado, explicitamente, de forma negativa, ao solicitar que alguém fizesse a propaganda de outra maneira – “diferente e legal” – conforme foi mencionado, ela estava avaliando, se não como incorreta, pelo menos como insuficiente, a propaganda apresentada. Sousa (1993, p. 39) afirma que as avaliações positiva e negativa terão “funções discursivas distintas”: a positiva colocará fim naquela seqüência interativa, e a negativa a prolongará até que haja uma avaliação positiva (no caso a propaganda apresentada por Bia , avaliada positivamente, encerrou a seqüência) ou mesmo uma suspensão, por parte do professor daquela seqüência por considerar que, naquele momento, sua solicitação é “prematura”, como aconteceu com quase todas as propagandas.
A segunda situação ocorreu na seqüência das apresentações das propagandas. Paula já havia anunciado que o que ela fizera era uma propaganda, quando a professora havia perguntado quem poderia fazer uma propaganda melhor para o livro que Sara apresentava. Ao contrário de colegas que se anteciparam à avaliação da professora, afirmando que não fizeram o que havia sido pedido, depois que a professora disse que apenas dois alunos haviam feito uma propaganda, Paula considerou que o que fizera estava de acordo com o que fora solicitado. Ela leu o seu trabalho e, ao final, a professora perguntou para a turma:
P: Ela fez uma propaganda? AA: Fez!!! (alunos em coro)
P: Não!Mas ficou organizada, ficou legal, ela digitou. Em sala (refere- se à sala de aula, pois estavam na biblioteca) a gente vai discutir.
Depois, ao pedir sugestão de como poderia ficar a propaganda do livro que Paula leu, a professora pediu que um aluno, que não fosse Bia, mostrasse como poderia ser essa propaganda. A professora disse: “como que poderia ser, sem ser a Bia, uma propaganda deste livro, dentro do que ela (Paula) contou?” Essa pergunta da professora indica, como no caso de Sara, que o trabalho de Paula não estava adequado, e o fato de ter pedido a alguém para fazer uma outra propaganda do livro, reafirma que Paula não havia realizado a tarefa corretamente. Parece que ainda não estava claro para a turma o que era uma propaganda, pois ao perguntar para os alunos se Paula havia feito uma propaganda, a resposta da turma foi afirmativa e em coro: “Fez!!!”.
A pergunta da professora também indica para Bia que ela deveria deixar outro colega falar e indica para a turma que ela esperava a participação de outros alunos. Clara iniciou logo sua sugestão e, enquanto ela falava, Cristina a interrompeu de maneira brusca dizendo que aquilo que ela falava não poderia ser um propaganda, pois ela estaria “contando” a história, não fazendo uma propaganda.
P: Como que poderia ser, sem ser a Bia, uma propaganda deste livro, dentro do que ela contou: Laurinha é uma menina que se apaixona/ Clara: Laurinha é uma menina que se apaixona e tem vários problemas por conta disso. É o, é o primeiro amor/
Cristina: Ô, Clara, você está contando o livro!
Clara: Então! O primeiro amor de Laurinha é um romance cheio de/ Cristina: Não, Clara! É para fazer propaganda, menina!
Clara: Então!!
P: Espere aí, Cristina, deixa ela falar ((Cristina continua falando)). Clara: Então. É um romance cheio de aventuras que você vai poder se divertir muito. Leia o livro: O primeiro amor de Laurinha (incompreensível).
P: Eu não entendi o final, mas ficou difícil, porque a Cristina ficou debatendo...
Cristina: Ai... desculpa...
Clara: Seria legal ela falar primeiro, tipo assim: é um romance que acontece tal e tal coisa, é...você pode se divertir muito e tal, tal e tal. P: ou se ela fizesse assim: para quem gosta de romance,
Clara: é...
P: O livro O primeiro amor de Laurinha é um bom... é um livro que ilustra bem essa fase da adolescência ou da pré-adolescência da vida de uma pessoa. É...e se você gosta desse tipo de livro, leia-o. Não precisa falar que é na biblioteca da escola, mas se quiser, também pode falar.
A interrupção brusca de Cristina (atitude comum para ela, que sempre que discordava de algo manifestava imediatamente e, na maioria das vezes, falando muito alto), ao afirmar para Clara que aquilo não era uma propaganda, talvez seja um indício de que ela já estava começando a diferenciar uma propaganda de um resumo do livro lido, negando, nesse momento, que fosse “permitido” contar, um mínimo que fosse, parte do livro, numa propaganda.
Ao referir-se ao que seria considerado uma participação apropriada em uma aula, Conforme mencionado no capítulo anterior, Castanheira (2004, p. 30), citando Heap69 (1991), menciona casos em que os alunos “possuem uma visão diferente daquela do professor a respeito dos requisitos para a participação em uma aula”. Pelas propagandas que as duas alunas apresentavam, percebe-se que elas estavam com uma
69
HEAP. J. A situated perspective on what counts as reading. In: BAKER, C.; LUKE, A. (Ed). Towards
percepção diferente da percepção da professora do que seria uma propaganda de um livro. Isso estava ocasionando situações “problemáticas”. Paula, por exemplo, estava segura de que havia feito uma propaganda, porém seu trabalho não foi avaliado pela professora como sendo o gênero textual solicitado. Segundo Castanheira (2004, p. 30), nessas situações, é necessário que os alunos tenham “competência para interpretar as expectativas dos professores relativas ao que seria considerado como demonstração adequada de conhecimento”.