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Offeropplevelsen som splittet pga manglende offerposisjon

In document En splittet offeropplevelse (sider 127-130)

7 Avsluttende diskusjon:

7.1 En splittet offeropplevelse

7.1.3 Offeropplevelsen som splittet pga manglende offerposisjon

Como percebemos pela leitura dos elementos académicos que consultámos, em termos de absoluto

rigor legal nenhum dos três integrantes dos “Ars” era já arquitecto diplomado durante o período que

estudamos. Consideramos este facto digno de menção, e até mesmo um elemento relevante para a

atribuição de autoria de muitos projectos e edifícios realizados durante os anos 30.

As sucessivas mudanças curriculares e legislativas implicavam um atraso considerável na preparação da prova de CODA, e muitos arquitectos acabavam por protelar a sua realização. Isto implicava que

alguns projectos seus viessem a ser assinados por outros profissionais, nomeadamente ligados à

engenharia e à construção civil. No entanto, não foi esta situação, relativamente generalizada, que conduziu à escolha dos “Ars” enquanto caso de estudo.

Recordemos que este trabalho se dedica a investigar os impactos mútuos dos aspectos culturais, ideológicos e tecnológicos na arquitectura dos anos 30 em Portugal. Por esta razão, interessam-nos casos em que estes impactos se manifestassem de forma particularmente nítida.

Assim, a escolha dos “Ars” foi determinada pelo modo como este grupo de arquitectos se envolveu

com, ou mesmo protagonizou, episódios ou acontecimentos significativos no panorama da cultura, da

ideologia ou da tecnologia construtiva no nosso país. Neste momento limitar-nos-emos a enunciar os traços gerais episódios ou acontecimentos.

Em capítulos posteriores, todos da Parte III desta tese, desenvolveremos convenientemente cada um destes temas. No entanto, a sua apresentação neste momento deste documento contribuirá para a compreensão de passagens relevantes da presente Parte, bem como da subsequente.

A primeira ordem de factores que conduziu à nossa escolha está relacionada com a dimensão cultural da acção dos “Ars”, e diz respeito à participação dos seus três integrantes no grupo artístico desig-

nado Mais Além. Esta participação permitiu-lhes, desde muito cedo, tomar posições de confronto em

relação às formas artísticas vigentes.

A sua dupla condição de elementos do grupo Mais Além e de estudantes da EBAP levou-os a integrar

exposições com um certo impacto na cidade do Porto, bem como ao convívio com os artistas mais

significativos da sua geração.

Dentro deste conjunto de artistas, quase todos nascidos na segunda metade da primeira década do séc. XX, encontrava-se Dominguez Alvarez, que já mencionámos anteriormente na Introdução, mas também os pintores Ventura Porfírio e Adalberto Sampaio, o escultor Américo Braga e, por fim mas

não menos importante, os futuros arquitectos Arménio Losa e Januário Godinho.4

 4 José Cândido Dominguez Alvarez: 1906 – 1942, Porto. António Ventura Porfírio: 1908, Castelo de Vide

– 1998, Portalegre. Adalberto Sampaio 1910 – 1998, Porto. Américo Soares Braga: 1909, Matosinhos – 1991, Oaxaca, México. Arménio Taveira Losa: 1908, Braga – 1988, Porto. Januário Godinho de Almeida:

Figura 11: Fortunato Cabral e Cunha Leão entre outros participantes, identificados na legenda original, da expo- sição Alguns alunos de Belas Artes expõem no Silva Porto, em Novembro de 1929. (Ferreira J., 1982, p. 29)

Figura 12: Cunha Leão e Morais Soares entre outros participantes, identificados na legenda original, da Segunda

exposição dos alunos de Belas Artes, em Janeiro de 1931 (Silva, 1987, p. 151). A legenda original designa, erroneamente, a exposição como sendo do grupo Mais Além.

Para além disso, e de modo extremamente significativo para a nossa tese, essa participação no grupo

garantiu-lhes acesso a um dos mais importantes críticos da sua geração, Adolfo Casais Monteiro,5

que os referenciou directamente, tanto nas páginas de uma revista literária com o peso da Presença6

(Monteiro, 1993), como num magazine de maior circulação e maior penetração, o Civilização7

(Monteiro, pp. 49-53) (Figura 13).

O facto de terem sido publicados e publicitados por Casais Monteiro coloca-os naquilo a que chama- remos o epicentro do Segundo Modernismo português. Parece-nos que faltam argumentos que

relacionem a arquitectura da época com aquilo a que se convencionou chamar Segundo Modernismo,

e os “Ars” oferecem-nos sobejados argumentos para estabelecer essa ligação (Figura 14).

A segunda ordem de factores para a escolha, e que os autonomiza em relação a outros protagonistas

da sua geração, tem relação directa com a questão ideológica, e é o facto de terem sido próximos de

sectores da sociedade que se opunham a Salazar pela ala direita do espectro político, nomeadamente do Movimento Nacional-Sindicalista.

Se a participação no Grupo Mais Além se encontra absolutamente documentada, através de assi-

naturas em manifestos e catálogos ou de registos fotográficos, e devidamente comprovada em

investigações académicas,8 já o mesmo não pode ser dito em relação à ligação ao MNS. Como se

diria num tribunal, a maioria das provas desta ligação são apenas circunstanciais.

Estas provas podem ser atestadas pelo intenso labor gráfico dos “Ars” na elaboração de várias capas

de livros de outros simpatizantes dos sectores a que agora nos referimos, nomeadamente Augusto Pires de Lima9 (1933), Hipólito Raposo10 (1933) e Eugénio de Belonôr (1933) (Figura 15). Em relação

a este último, a composição gráfica da obra respectiva confronta mesmo o seu nome com a desig-

nação “Ars”, quase reclamando paridade na autoria do escrito.

Algo mais substancial pode ser referido, uma vez que a proximidade a estes sectores é referen-

ciada em pelo menos dois trabalhos académicos. Assim, ela encontra-se mencionada quer por Duarte

Morais Soares (2004), quer por António Trinidad Muñoz (2003, p. 638). Este autor, aliás, chega a aludir a uma amizade entre Cunha Leão e Rolão Preto,11 dirigente do MNS.

 5 Adolfo Vítor Casais Monteiro: 1908, Porto – 1972, São Paulo, Brasil. Repare-se na similitude de idades

entre Casais Monteiro e dos artistas referenciados na nota anterior.

 6 A crítica, que elogia directamente os trabalhos dos estudantes de arquitectura que viriam a formar os

“Ars”, encontra-se publicada na edição 31-32 da Presença, de Março-Junho de 1931.

 7 A revista fazia assim a sua própria apresentação, no frontispício de cada novo número, nomeadamente

nesta edição 35, de Maio de 1931: “CIVILIZAÇÃO é o «magazine» português mais completo, mais artís-

tico, melhor colaborado e de maior tiragem”.

 8 Consultámos o extenso capítulo que Antonio Trinidad Muñoz dedica ao Grupo Mais Além, evidenciando

o papel central que Fernando Cunha Leão desempenhou na formação desse colectivo artístico (Trinidad Muñoz, 2003, pp. 593-640).

 9 Trata-se de um nome relativamente recorrente na bibliografia da cidade do Porto. Não conseguimos esclarecer

qual das personalidades de nome Augusto Pires de Lima escreveu a obra referida. Por uma questão de afinidade

geracional, julgamos que se trata de Augusto Pedrosa Pires de Lima: 1906, Areias, Santo Tirso.

 10 José Hipólito Vaz Raposo: 1885, São Vicente da Beira – 1953, Lisboa.  11 Francisco de Barcelos Rolão Preto: 1893, Gavião – 1977, Lisboa.

Figura 13: Páginas centrais do artigo que Adolfo Casais Monteiro escreveu para o Magazine Civilização, n.º 35, de Maio de 1931, dedicado à Segunda exposição dos alunos de Belas Artes. Nestas páginas surgem dois desenhos de arquitectura, respectivamente de Cunha Leão e de Morais Soares, entre trabalhos de pintura de Adalberto Sampaio, Bruno Reis e Ventura Porfírio (Monteiro, 1931, pp. 50-51).

Figura 14: Interior do Mercado Municipal de Matosinhos em construção, fim da década de 40 (Alvão F. L., 1944- 01-01/1952-12-31). Apesar de projectada desde 1936, a obra só começou oficialmente em 1 de

Queremos aqui sublinhar que, no âmbito deste trabalho, não nos interessa a condição efectiva de uma

filiação oficial no MNS ou em qualquer outra agremiação semelhante. Interessa-nos, acima de tudo,

a condição de proximidade, ou de simpatia, em relação a atitudes de oposição a Salazar e ao seu regime, por via de uma alternativa de direita.

Como tentaremos demonstrar, interessa-nos acima de tudo o modo como o confronto entre estes dois campos gerou uma determinada expressão arquitectónica, nomeadamente na Capela de N.ª S.ª de Fátima, no Porto.

Assim, arriscamos dizer que aquilo que nos intriga não é só a complexidade da posição ideológica,

em si e por si – o que já não seria pouco –, mas acima de tudo o modo como se foi entrelaçar com as restantes dimensões do problema que debatemos.

Parece-nos, por isso, altamente provável que os três integrantes dos “Ars” se tenham sentido atraídos pelo ímpeto que, em determinados momentos dos anos 30, o MNS adquiriu, especialmente se tivermos em linha de conta o gosto pela provocação e pelo confronto que eventualmente possam ter adquirido

com a participação no grupo Mais Além.

Na encruzilhada deste entrelaçar entre questões ideológicas e culturais se situa a terceira ordem de factores para a escolha dos “Ars” como caso de estudo. Em determinado momento do início da sua carreira, eles foram alvo das acirradas críticas de um arquitecto com a importância de Raul Lino.12

Como veremos, estes juízos foram emitidos durante uma série de conferências que Lino proferiu

durante uma viagem ao Brasil, situação já de si excepcional no panorama da arquitectura portu- guesa. Essas conferências foram mais tarde exaradas em livro, Auriverde Jornada (Lino, 1937), que as regista e transcreve (Figura 16).

Sublinhemos desde já o que adiante fundamentaremos: as críticas a que nos referimos, bem como a linha de argumentação que nelas subjaz, caracterizam melhor a personalidade de Lino do que o

objecto visado. Também por isso, consideramos que o episódio que mencionamos, mais concreta-

mente o que envolve o concurso e o projecto para o Museu Biblioteca de Gaia, a que já aludimos, se constituiu como um evento fulcral para o entendimento dos anos 30.

Por último, o quarto factor que determinou a escolha dos “Ars”, ou seja, o envolvimento dos “Ars” com alguns dos melhores engenheiros de estruturas de BA do Porto, nomeadamente Francisco Correia de Araújo e Joaquim Sarmento.13 O arrojo tecnológico envolvido na concepção do Mercado Municipal de

Matosinhos denuncia esta forte ligação, e a excepcionalidade do edifício no panorama da arquitec- tura portuguesa seria, só por si, para tornar a escolha dos “Ars” como ideal para o tratamento deste assunto.

Em resumo, para a nossa escolha, concorreu a evidência de três dimensões na acção dos “Ars”:

• Cultural; • Ideológica; • Tecnológica.

 12 Raul Lino da Silva: 1879 – 1974, Lisboa.

Figura 15: Capa do livro Revolução social, de Eugénio de Belonôr, com o subtítulo Consequências da noção cristã de propriedade sobre a orgânica do trabalho. Repare-se na posição do nome “Ars” em relação ao do autor (Belonôr, 1933)

Essas dimensões tornaram-se patentes em quatro episódios ou acontecimentos distintos, os quais, tomados como centrais para o entendimento dos anos 30 em Portugal, resumiremos em quatro frases-chave:

• Formação do Grupo Mais Além;

• Recrudescimento do Nacional-Sindicalismo; • Publicação de Auriverde Jornada;

• Afirmação da engenharia portuguesa.

Por sua vez, consideramos que estas dimensões e o impacto destes acontecimentos se encontram plasmados em três projectos, tal como já referido na Introdução a este trabalho:

• Museu Biblioteca em Gaia;

• Capela de N.ª S.ª de Fátima no Porto; • Mercado Municipal em Matosinhos.

Como percebemos, queremos apresentar os “Ars” como formando um colectivo que desenvolveu uma acção que foi, ela própria, já totalitária, uma vez que envolveu a plenitude das facetas das suas vidas de arquitectos.

Interessa aqui dedicar algumas palavras ao sentido desta plenitude, ou totalidade, evidenciando a

ambiguidade de sentidos que comporta. Para tal, socorremo-nos das lapidares definições de André

Lalande (1991, pp. 1137-1138).

Por totalidade, queremos, por um lado, sublinhar o sentido de universal concreto, por oposição a um universal de similitude. Por outras palavras, queremos referir o sentido kantiano de conjunto completo de elementos que formam um todo, síntese de unidade e de pluralidade.

Por outro lado, queremos acentuar o sentido orgânico, especialmente patente no adjectivo “totalitário”, característico dos ideais políticos que consideram o Todo social como possuidor de um valor em si e, consequentemente, atribuem aos indivíduos o papel de meros órgãos ao serviço dessa totalidade.

No prefácio que escreveu para a edição francesa do livro que compilava as entrevistas concedidas

por Salazar a António Ferro, Paul Valéry14 (1934, p. 19) não podia ser mais claro ao descrever o papel

de um ditador, tanto enquanto presumido representante como conjecturado intérprete desse Todo

social:

Il demeure seule volonté libre, seule pensée intégrale, seul possesseur de la plénitude de l’ac- tion, seul être jouissant de toutes les propriétés et prérogatives de l’esprit, en présence d’un nombre immense d’individus réduits indistinctement – quelle que soit leur valeur personnelle – à l’état de moyens ou de matière, – car il n’y a pas un autre nom pour toute chose que l’inte- lligence peut prendre pour son objet.15

 14 Ambroise Paul Toussaint Jules Valéry: 1871, Sète – 1945, Paris, França.

 15 TP: “Ele subsiste enquanto única vontade livre, único pensamento integral, único detentor da plenitude

da acção, único ser em pleno gozo de todas as propriedades e prerrogativas do espírito, na presença de um número imenso de indivíduos reduzidos indistintamente – seja qual for o seu valor pessoal – à

condição de meios ou de matéria, – uma vez que não existe outro nome para as coisas que a inteligência

Figura 16: Página 209 de Auriverde Jornada, onde, na parte inferior, Raul Lino (1937) inicia a sua apreciação negativa do Museu Biblioteca de Gaia. As linhas da parte superior fazem uma referência elogiosa ao conjunto urbano de Brescia, construído em 1932 por Marcello Piacentini. Lino absteve-se de mencionar o nome de qualquer dos autores cujas obras menciona.

Julgamos que é na vivência desta tensão aporética, tão específica dos anos 30 – entre a represen-

tação do Todo social e a afirmação do Indivíduo; entre a aspiração nostálgica de pertencer à totalidade

de um corpo coeso e a obstinada recusa em ser considerado um mero órgão –, que os “Ars” se evidenciam como caso de estudo.

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