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7.2 Challenge-response scheme

8.1.1 Simple login scenario

O discurso da justiça fiscal não foi encontrado em nenhuma das 32 notícias veiculadas pelo Jornal Nacional no período em análise. Esteve presente o discurso da redução da carga tributária, mas não da redistribuição do peso dos impostos entre as classes sociais.

O governo federal foi confirmado como a fonte mais usada para a produção das matérias sobre tributos, o que explica o grande percentual de matérias que têm entre seus valores-notícia a notoriedade do ator principal. A novidade também é outro critério que se justifica, já que o governo, ao lado do parlamento, é quem tem competência para criar a legislação tributária.

Ao mesmo tempo em que é fonte de notícias que atendem muitos critérios de noticiabilidade, o governo não tem demonstrado preocupação em ajudar os repórteres nos critérios de construção da notícia. Na maioria das matérias de anúncio de medidas, a equipe de reportagem buscou o auxílio de especialistas e fez uso da edição de arte para explicar como a redução do IPI ou o aumento do imposto sobre a poupança afetava a vida do cidadão comum. Havia, nessas matérias, a preocupação em mostrar a relevância da medida anunciada e em dar notabilidade à proposta do governo.

Em contrapartida ao governo, que não tem demonstrado preocupação em agregar valores-notícia de construção às informações que divulga, as entidades da sociedade civil procuram suprir esses valores. No caso do Dia da Liberdade de Impostos, por exemplo, o Instituto Millenium promoveu a venda da gasolina com desconto em várias capitais do país, como forma de amplificar a notícia; anunciou a “promoção” antes, o que resultou na formação

de filas e destacou pessoas para atender os jornalistas. Já o IBPT e a Associação Comercial de São Paulo mantêm o painel do impostômetro, que serve de imagem para as matérias de televisão.

Para que haja o contra-agendamento do tema justiça fiscal, entendemos que o governo e a sociedade civil deveriam se unir, agregando valores-notícia. Como visto no capítulo quatro, integrantes do governo Lula − especialmente o presidente do IPEA, Márcio Pochmann −, têm defendido uma melhor distribuição da carga tributária entre as classes sociais. Porém, o IPEA tem sido muito pródigo em produzir estudos, mas não consegue produzir eventos.

Pelos valores-notícia substantivos que possuem, principalmente a notoriedade do ator principal e a credibilidade da fonte, os estudos do IPEA e as falas de Pochmann são reproduzidos em agências e nos jornais impressos, mas não conseguem ganhar a visibilidade que a mídia televisiva proporciona. Para romper essa barreira precisariam apresentar valores- notícia de construção, que a sociedade civil consegue preencher com mais agilidade do que a burocracia estatal.

É preciso ressaltar, no entanto, que essa sugestão vale para os casos em que há uma coincidência entre os interesses do governo, ou de parte dele, com a sociedade civil organizada, ou parte dela. Nesses casos, será possível a soma dos valores-notícia.

Na maioria das questões tributárias, no entanto, geralmente o governo está de um lado, querendo arrecadar mais, e a sociedade de outro, procurando pagar menos tributos. Nesses casos, os interessados da sociedade civil em pautar questões tributárias na mídia devem ter em mente que a notícia, caso não preencha muitos valores-notícia de seleção substantivos (notoriedade do ator principal, proximidade cultural, relevância, novidade) deve atender o maior número possível de critérios de construção que facilitem o trabalho do repórter (simplificação, personalização etc.) e, ainda, contar com a ajuda dos valores-notícia de seleção contextuais (disponibilidade, equilíbrio, o dia noticioso, etc.). A morte de alguém importante, como o papa João Paulo II, ou Michael Jackson, por exemplo, faz sumir do espelho de qualquer telejornal uma matéria sobre um ato público pela redução de impostos. Com muita sorte, a matéria de dois minutos pode virar uma nota coberta de 15 segundos.

Foi confirmada a hipótese de que as matérias veiculadas pelo Jornal Nacional, mesmo as recomendadas, atendem a diversos valores-notícia. Quando são fracas em termos de critérios substantivos, os valores-notícia de construção são reforçados. Conhecedoras dos

critérios que são mais valorizados na elaboração das matérias sobre tributos, as entidades defensoras da justiça fiscal poderão definir melhor estratégias de sucesso para pautar a imprensa televisa sobre o assunto.

No caso específico da justiça fiscal cabe à sociedade mobilizar-se para incluir o tema na mídia. O Jornal Nacional e os demais veículos da grande imprensa, como empresas capitalistas, têm interesse, apenas, na redução da carga tributária e não numa melhor distribuição de renda entre as classes sociais. Mas, a partir do momento em que houver um clamor social em prol de mudanças na estrutura tributária, a mídia, mesmo que de forma retardatária, será obrigada a noticiar o assunto. Os interessados na questão também devem, para obter a visibilidade midiática, produzir acontecimentos que atendam aos valores-notícia da imprensa.

Assim como os políticos, a mídia não é uma entidade autônoma. Se os primeiros agem de forma a manter os vínculos com suas bases eleitorais, a mídia não pode se deslocar do que pensa e quer a sociedade. Tem de se curvar aos acontecimentos, sejam eles produzidos, ou não. Há, aí, uma troca entre os veículos de comunicação e a sociedade civil. Se esta precisa da visibilidade midiática para dar chancela às suas reivindicações, a mídia não pode ignorar o poder da sociedade civil, deixando de noticiar ou noticiando de forma distorcida os fatos gerados pela mobilização popular. Se agir dessa forma, perde credibilidade e, com ela, os anunciantes.

Há uma linha tênue que divide até onde vai o poder da mídia e até onde a sociedade organizada pode interferir. Não desconhecemos o poder de agendamento que alguns veículos de comunicação têm, especialmente a Rede Globo, mas entendemos que a sociedade tem o poder de contra-agendar determinados temas. Para que o contra-agendamento seja eficaz é preciso, no entanto, que os interessados no tema a ser publicizado atendam aos valores-notícia da mídia.