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DEL 3 CASESTUDIE DEL 1

5.2 Villmark, ein DV-produksjon

5.2.7 Observasjonar på settet

Ainda sobre a transposição do universo espetacular esportivo ritualizado na rotina e dia a dia do cidadão comum, emblemáticos foram os acontecimentos da Copa de 1950, no Brasil, e da Copa de 1970, no México. O desencadeamento desses eventos deixou marcas profundas na subjetividade do povo brasileiro: tanto a espetacular dramaticidade da derrota para a seleção do Uruguai, em uma final com o Maracanã lotado (mais de 200 mil torcedores) e milhares de telespectadores em seus lares acompanhando pela televisão e rádios, quanto pela vibração brasileira na conquista do título mundial pela seleção em 1970. Enquanto acontecia o espetáculo esportivo, o Brasil vivia os paradoxais “anos de chumbo” e “milagre econômico”: prisioneiros políticos foram torturados por agentes da repressão oficial e inocentes acabaram sendo vítimas dessa violência, mas, também, houve um grande aumento das taxas de crescimento e nas bolsas de valores brasileiras16. Tudo isso mediado pelo sentimento ufanista e euforico das massas.

A ideologia é a base do pensamento duma socidade de classes, no curso conflitual da história. Os fatos ideológicos não foram nunca simples quimeras, mas a consciência deformada das realidades , e , enaquanto tais , fatores reais exercendo, por sua vez, uma real ação deformada; na medida em que a materilização da ideologia na forma do espetáculo, que arrasta consigo o êxito concreto da produção econômica autonomizada, se confunde com a realidade social, essa ideologia que pode talhar todo o real segundo o seu modelo (DEBORD, 2002, p. 134).

16HAMMOUD, Ricardo H. Nahra. Crescimento, desenvolvimento e desigualdade de renda:

análise dos clássicos – Furtado, Cardoso e o “milagre” econômico. In: Anais do XI Encontro Regional de Economia – ANPEC-Sul 2008. Curitiba, Universidade Federal do Paraná.

113 Ainda em consonância com o exposto anteriormente,é possível fazer um paralelo ao que já tinha sido dito por Marx e Engels na Ideologia Alemã:

Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que o façam em toda a sua extensão e, consequentemente, entre outras coisas, dominem também como pensadores, como produtores de ideias; que regulem a produção e a distribuição das ideias de seu tempo e que suas ideias sejam, por isso mesmo, as ideias dominantes da época (MARX e ENGELS, 1979,p.72).

Paulo Perdigão, em seu livro Anatomia de uma derrota, expressou o sentimento do povo brasileiro na ocasião da Copa de 1950 e evidencia o papel formativo do espetáculo na constituição dos cidadãos em um coletivo:

A ânsia descontrolada e irracional cedeu lugar a seu reverso, e o impulso de criatividade sucumbiu ao impulso de destrutividade: ficou a angústia de sentir que a nação tinha morrido no gramado do Maracanã, e também uma desesperança quanto à efetivação de qualquer projeto coletivo. Parecia uma facticidade, contra a qual nada há a fazer – a versão tropical do niilismo nórdico, segundo a qual, a vida é uma sucessão de obstáculos até chegar a morte, a derrota final (PERDIGÃO,1986, p.29).

Caminhando cada vez mais rumo a universos em que o mundo social é descrito e prescrito por meios de comunicação como a televisão, as mídias se tornam árbitros do acesso à existência social e política.

Quanto à mobilização e formação das massas, é notório o movimento dos brasileiros e sua torcida em torno dos jogos das Copas do Mundo. O artigo publicado no Diário de Notícias do Rio de Janeiro de 1962 retrata esse fato e mostra a relação entre esporte e cultura popular. Em documento rememorado pelo professor José Marques (2002),

Que verdadeiramente o Brasil é o país do futebol e do carnaval... que quem duvidar disso pode muito bem ter certeza agora com as transmissões da Copa do Mundo que o Rio, pelo menos, parou inteiramente para escutar o jogo.... Que até nos bancos tinha rádio alto

114 ouvindo o jogo e se podia muito bem entrar, ir lá dentro no cofre, e sair tranquilamente17...

Para a grande mídia, as conquistas no complexo esportivo sempre foram tidas como temas importantes e merecedoras de destaque na grade horária de sua transmissão. Os jornais de apelo mais populares também parecem ter especial conotação nesse sentido. Por exemplo, quando a seleção brasileira conquistou a Copa do Chile, em 1962, o jornal a Última Hora na segunda-feira (18/06/62), um dia após a decisão contra a Tchecoeslováquia, veiculava as seguintes manchetes na primeira página: “Taça do Mundo é nossa mais 4 anos” – “Povo canta a vitória final nos 4 cantos do país ‘Mesmo sem arroz e feijão, o Brasil é Bicampeão!’”(MARQUES, 2002).

A espetacularização do esporte é ideológica por excelência, na medida em que expõe e manifesta sua plenitude em um sistema de ideologias programadas. Nelas estão contidas o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real (DEBORD, 2002). A espetacularização é, materialmente, a expressão da separação e do afastamento entre o homem singular e tudo que pode ser em seu ente universal e genérico. O poder contido no fetiche da mercadoria contido na espetacularização do esporte (e seus aparatos a reboque) concentram sua base na produção onde são criadas massas crescentes de objetos e pessoas destinadas ao mercado das trocas: um novo domínio social de objetos estranhos aos quais os homens se submetem. É um grau supremo de alienação da humanidade do homem que se coloca contra a própria vida. A necessidade de “se fazer dinheiro” (tomando emprestada a expressão burguesa do momento) é, portanto, a verdadeira e mais importante necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela, a sociedade burguesa, produz (MARX, 2004). Nesse sentido, o espetáculo esportivo apresentado, permeando toda a vida social, concebe ao dinheiro vida ao que está morto. No caminhar da reificação, objetos criados pelos seres humanos tomam vida e se postam estranhos e contra os seres que os criaram:

O espetáculo conserva ao mesmo tempo, e impões no pseudoconcreto do seu universo, os caracteres ideológicos do materialismo e do idealismo. O aspecto contemplativo do velho materialismo, que concebe o mundo como representação e não como atividade, e que finalmente idealiza a matéria, está realizado no

115 espetáculo, onde as coisas concretas são automaticamente senhoras da vida social. Reciprocamente, a atividade sonhada do idealismo realiza-se igualmente no espetáculo pela mediação técnica de signos e de sinais, que finalmente materializam um ideal abstrato (DEBORD, 2002).

Nos dias de hoje, a estrutura para o esporte em cada país ou região possui traços particulares produzidos pelo seu histórico e pelo cenário político e econômico, mostrando assim os diferentes graus de mercantilização concebidos para o esporte. A valoração dele como investimento, alta concorrência entre equipes e atletas, altos salários e enormes valores pagos nas disputas dos direitos de transmissões, são processos que alteram as relações sociais, políticas, econômicas e culturais. Aos conceitos de globalização e neoliberalismo econômico podemos relacionar, entre outros subprodutos: a desregulamentação de leis e marcos econômicos, destituição das fronteiras e culturas regionais, desarticulação de estratégias e mecanismos institucionais de proteção e coesão social.