5 METODE OG FORSKNINGSDESIGN
5.8 Gjennomføring av studie 3
5.8.4 Observasjon
O SUCESSO DA “LIÇÃO” HEGELIANA
Os traços do perfil de Espinosa desenhado por Hegel podem ser reconhecidos nas alusões que, sobre o pensamento do holandês, fizeram diversos filósofos, e por isso podemos falar da existência de uma espécie de “marco instituído da interpretação”, cujos créditos autorais deveriam remeter-se, precisamente, ao grande idealista alemão. Antes de prosseguir, vejamos um par de casos que, segundo consideramos, podem ser testemunha dessa efetividade pedagógica das Lições hegelianas sobre a história da filosofia.
Na Fenomenologia da percepção, por exemplo, Merleau-Ponty refere-se a Espinosa como parte da tradição intelectualista quando, no terceiro capítulo da Introdução, procurando precisar a posição fenomenológica, desenvolve sua crítica ao intelectualismo e ao empirismo. Mostrando o íntimo parentesco que conecta, além das aparências, a atitude intelectualista com a oposta atitude empirista, Merleau-Ponty analisa essa ambivalência aludindo ao espinosismo. Por um lado, e enquanto nega a positividade das percepções, para o intelectualismo
a análise reflexiva converte-se numa doutrina puramente regressiva, segundo a qual toda percepção é uma intelecção confusa, toda determinação uma negação (...) A finitude de uma percepção que me dá, como dizia Espinosa, umas ‘conseqüências sem premissas’, a inerência da consciência a um ponto de vista, tudo se reduz a minha ignorância de mim mesmo, a meu poder totalmente negativo de não refletir.
Mas, por outro lado, embora “seja indubitável que o intelectualismo se apresenta
ordinariamente como uma doutrina da ciência, e não como uma doutrina da percepção”,
“acreditando que fundamenta sua análise na vivência da verdade matemática e não na
evidência ingênua do mundo: habemus ideam veram”, resulta que, na verdade, “tomar por certo que possuímos uma idéia verdadeira é acreditar, sem mais, na percepção sem crítica”38.
35 Resumidamente, os elementos da argumentação merleau-pontyana são então os seguintes: o intelectualismo nega a positividade das percepções, isto é, rejeita a idéia de que os conteúdos da percepção possam ser material legítimo, fundamento ou critério de validez do conhecimento. Esta atitude intelectualista é ilustrada com o famoso acerto que Hegel recorta da carta a Jelles e faz o estandarte da posição filosófica espinosista: “toda determinação é uma negação” (que na interpretação de Merleau-Ponty se transforma em: “toda percepção é uma intelecção confusa”). As idéias da percepção são, assim, negativamente consideradas como “conseqüências sem premissas”39. A partir desta rejeição
da percepção, o intelectualismo se apresenta como uma doutrina da ciência sustentada não na evidência ingênua do mundo, mas no incontestável fundamento da verdade matemática. Entretanto, esta pretensão científica oculta, na realidade, um empirismo vulgar. E novamente, é uma máxima espinosana a que serve para assinalar a escondida verdade empirista do intelectualismo: “temos uma idéia verdadeira”40. Considerar isto como um fato
é confiar acriticamente em nossas percepções mais imediatas.
Outro caso que podemos invocar em favor de nossa conjetura, com similares referências a Espinosa e uma leitura global de sua filosofia em chave intelectualista, é o de Adorno. Num dos artigos reunidos em Notas de literatura, ao reivindicar a forma do ensaio, realiza uma crítica simultânea ao racionalismo e ao empirismo. Frente ao “método” que vincula os dois, o ensaio, como modo de proceder do pensamento, é radical em sua
abstenção de reduzr tudo a um princípio, no privilégio do parcial frente ao total, em seu caráter fragmentário (…). O ensaio não obedece à regra do jogo da ciência e da teoria organizadas segundo a qual, como diz a proposição de Espinosa, a ordem das coisas é a mesma ordem das idéias. Como a ordem sem lacunas dos conceitos não é uma com o ente, o ensaio não assinala uma construção fechada, dedutiva ou indutiva. Ergue-se, sobretudo, contra a doutrina, arraigada desde Platão, segundo a qual o mutável, o efêmero, é indigno da filosofia; ergue-se contra essa velha injustiça feita ao perecível (...) O ensaio retrocede espantado frente à violência do dogma que diz que o resultado da abstração, o conceito atemporal e invariável, reclama dignidade ontológica em vez do indivíduo subjacente e sujeitado por ele. O engano de que o ordo idearum é o ordo rerum arraiga na posição de algo mediado como se fosse imediato. Do mesmo modo em que uma coisa meramente factual não pode ser pensada sem conceito, porque pensá-la significa sempre conceituá-la,
assim tampouco é pensável o mais puro conceito sem alguma referência à facticidade.41
39 Conhecida frase espinosana que aparece na Ética, II, P28, dem. 40 TIE, § 33.
36 Como podemos ver, o duplo alvo da crítica adorniana coincide com o de Merleau- Ponty. Trata-se de “desmascarar” as pretensões do intelectualismo e do empirismo, na fundamental identidade de suas operações epistemológicas. O comum denominador é o “método”, a regra sistemática que a teoria científica assume como organizadora da sua atividade, cuja expressão canônica seria uma formulação espinosana que Adorno lembra assim: “a ordem das coisas é a mesma ordem das idéias”42. Daí a conseqüência de que tudo
seja reduzido a um princípio único (“uma mesma ordem”), frente ao qual o parcial, o particular, o efêmero, não tem nenhuma dignidade ontológica. O princípio totalizador é o conceito atemporal e invariável, encarnado na abstração do sistema, e o resultado fundamental dessa operação abstrativa é que as coisas mutáveis, efêmeras, perecíveis, perdem qualquer valor e, no limite, sua própria realidade. A operação intelectualista esquece que o conceito não pode ser completamente abstraído dos “fatos”, assim como tampouco os fatos são pensáveis sem conceito: o engano espinosista, decorrente da identificação da ordem das idéias e da ordem das coisas, consiste, no final, em considerar algo mediado como se fosse imediato.
Resulta evidente a presença, nas duas interpretações que selecionamos, do programa hegeliano de crítica às unilateralidades do intelectualismo e o empirismo, cuja estratégia é a de mostrar a falsidade especular de ambas as posições epistemológicas opostas, recorrentemente presentes na história da filosofia como manifestação de um materialismo ou de um idealismo “vulgares”. A superação dessas duas atitudes do pensamento filosófico que, sustentando-se numa compreensão dicotômica da realidade, privilegiam ou bem a ordem do factual ou material, ou bem o terreno das coordenadas estabelecidas pelo pensamento, é um passo necessário para a profundização da razão crítica. Em Hegel, essa crítica fazia parte de sua tentativa sem precedentes de reelaboração dos fundamentos do Idealismo filosófico. Em seus leitores contemporâneos – e a partir da “intervenção” sem
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O que nos chama a atenção, pois Adorno suprime, desta maneira, a palavra chave da proposição: a de
conexão (sendo o texto da proposição espinosana (EII, P7): A ordem e conexão das idéias é a mesma que a ordem e conexão das coisas.” Esse esquecimento sintomático nos remete, então, de maneira imediata, ao que
lemos na Lógica de Hegel (numa das apresentações mais completas do sistema espinosista, entre as múltiplas referências fragmentárias ao longo de todo o livro, que se encontram nessa obra): “A ordem das coisas é a mesma que a das representações ou pensamentos” (Hegel, G.W.F, Ciencia de la Lógica, Tomo II, libro II (La doctrina de la esencia), Buenos Aires, Solar/Hachette, 1968, p. 475).
37 retrocesso possível que a teoria marxista significou para os rumos da dialética – esse mesmo programa colaborava de diversas maneiras na renovação do que, de forma ampla, se pode reconhecer como um materialismo crítico. A legitimidade e relevância imperecedoura da crítica das dicotomias sempre repostas é inegável. E, entretanto, a pergunta que surge é: não podia ser considerado Espinosa como um valioso aliado nessa empresa? Por que permaneceram invisibilizadas, para Merleau-Ponty, as afinidades com Espinosa em questões tão fundamentais como a base corpórea da existência, a valoração do papel positivo-constitutivo da imaginação, o fundamento experiencial e intersubjetivo do conhecimento? Por que leu na filosofia de Espinosa a defesa das prerrogativas de uma ciência contra a percepção, em vez de uma ciência da percepção? Por que Adorno não resgatou a crítica espinosana da transcendência, do finalismo, do antropocentrismo, dos universais, dos modelos e das abstrações como uma maneira de fazer efetiva justiça à realidade do singular? Por que em vez de abrir-se às afinidades da idéia de práxis com a noção espinosana da mente como idéia do corpo, e com a afirmação da necessária simultaneidade dos atributos na constituição de uma mesma realidade/conexão de causas complexa, viu no sistema espinosista uma afirmação puramente racionalista do conceito, um triunfo da unificação abstrata por sobre a multiplicidade do real – o mutável, efêmero, perecível? Por que não ler na proposição E, II, 7, em vez de uma “imediata identificação” entre as idéias e coisas, a “mediação complexa” da conexão causal imanente, que é a que permite a compreensão da relação/separação dos ordens de que fala Espinosa, quer dizer, a concepção simultânea tanto de sua unidade como de sua diferença (sua “autonomia relativa”)?
Parece-nos claro que as respostas a estas perguntas podem encontrar-se no perfil de Espinosa esboçado por Hegel, pois daí proviria o “ar de família” que conecta os argumentos de Merleau-Ponty e de Adorno contra o “intelectualismo espinosista”. Nesse sentido, Hegel também foi, a sua maneira, um “polidor de lentes”, pois esculpiu os cristais com os que a maior parte do século XX filosófico leu a história da filosofia. Por isso, é legítimo dizer – acompanhando as palavras de Macherey – que “entre Espinosa e nós, está Hegel que se interpõe ou que intercede”43. Valendo a paráfrase, para nosso caso: entre
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Espinosa e Merleau Ponty, entre Espinosa e Adorno, está Hegel interpondo-se e interferindo.
Em todo caso, os traços da crítica de Hegel a Espinosa, que aparecem nas citações que recortamos, não poderiam ser igualmente reorientados para Hegel? Fazendo um exercício de lembrança das notas características da crítica ao hegelianismo – no contexto do “giro anti-hegeliano” que se deu nas últimas décadas do século passado –, seria muito absurdo dizer, por exemplo, que em seu sistema as determinações finitas sucumbem pelo movimento incessante da negação, que em última instancia só deixa em pé o princípio simples da identidade a si da Idéia, única verdade destinada a sobreviver a toda destruição de um mundo? Ou que na sua filosofia o valor das percepções só é reconhecido para ser superado nas e pelas operações intelectuais mais elevadas da Razão? Ou que a presença sempre implícita do princípio racional como coração vivo de todas as evoluções poderia traduzir-se numa sentença dogmática do tipo “só existe A Idéia Verdadeira” (substituindo a “empírica” modéstia daquele “temos uma idéia verdadeira”)? Seria muito absurdo, enfim, considerar a dialética hegeliana como o mais inteligente e surpreendente feito de abstração metódica, em virtude da qual tudo é reduzido a um fundamento único, que garante a preeminência do total sobre o parcial e converte o conceito atemporal naquele que rege e domina, não só os rumos do conhecimento, mas da mesma realidade, homogeneizada e confundida com ele?
Este “retrato unilateral” serve-nos, certamente, só para fins polêmicos (pois não poderíamos nos contentar com fazer uma crítica de uma filosofia tão complexa quanto a de Hegel construindo dela uma caricatura). Como toda unilateralidade, deixa que se revele o oposto ao qual se opõe: permite-nos chamar a atenção sobre a unilateralidade do retrato de Espinosa que lemos em Merleau Ponty e Adorno, e cujos traços consideramos pertinente relacionar com “as lições” de Hegel.
“A MAIS MONSTRUOSA DAS HIPÓTESES”
Mas dizíamos que o assunto em questão era a contradição. Pois bem, a contradição foi o eixo de uma das críticas mais furibundas a Espinosa feita por um dos seus contemporâneos, o francês Pierre Bayle (1647-1706), quem – além de tudo e
39 significativamente – pode ser considerado como o iniciador da larga tradição interpretativa do espinosismo44. Vale a pena, então, deter-nos um momento no retrato bayliano de
Espinosa.
No verbete sobre o filósofo holandês do Dictionnaire historique et critique45
achamos o motivo central das inquietudes que a ontologia espinosana provocou em inúmeros leitores, filósofos ou teólogos de sua época: a unicidade substancial, isto é, a concepção da existência de uma única substância absolutamente infinita. A inaceitável anomalia espinosana é assinalada por Bayle da maneira seguinte:
[Espinosa elaborou] la plus monstrueuse hypothèse ... la plus diamétralement opposée aux notions les plus évidentes de notre esprit. Il suppose qu'il n'y a qu'une substance dans la nature, et que cette substance unique est douée d'une infinité d'attributs, et entre autres de l'étendue et de la pensée. En suite de quoi il assure que tous les corps qui se trouvent dans l'univers sont des modifications de cette substance, en tant qu'étendue; et que par exemple les âmes des hommes sont des modifications de cette substance, en tant que pensée: de sorte que Dieu l'être nécessaire et infiniment parfait, est bien la cause de toutes les choses qui existent, mais il ne diffère point d'elles. Il n'y a qu'un être, et qu'une nature, et cette nature produit en elle-même, et par une action immanente, tout ce qu'on appelle créatures. Il est tout ensemble agent et patient, cause efficiente; et sujet; il ne produit rien qui ne soit sa propre modification. Voilà une hypothèse qui surpasse l'entassement de toutes les extravagances qui se puissent dire.46
O objetivo declarado de Bayle é, então, combater de um modo efetivo o espinosismo, atacando o princípio que constitui sua base: “Je me suis borné à combattre ce
qu’il établit nettement et précisément comme son premier principe, savoir que Dieu est la seule substance qu’il y ait dans l’univers, et que tout les autres êtres ne sont que des modifications de cette substance”47.
44 Como diz Marilena Chaui, “Com Bayle, nasce propriamente a tradição interpretativa do espinosismo. São dele idéias, imagens e sugestões que iriam alimentar, durante os séculos vindouros, as sucessivas leituras da obra e, mais freqüentemente, as substituiriam, o verbete [Spinoza, do Dicionário histórico e crítico] sendo mais lido do que Espinosa (...). Com seu verbete, institui um campo de generalidades no qual ficou esculpida em baixo-relevo a imagem do espinosismo que seria gravada como um selo nos comentários, interpretações e retomadas que a obra espinosana iria suscitar na fieira dos tempos.” Chaui, M, A nervura do real, op.cit., p. 281.
45 « Dictionnaire historique et critique, Article Spinoza » em Bayle, P., Écrits sur Spinoza, Paris, Berg International Éditeurs, 1983.
46 Ibid., p. 60. 47 Ibid., p. 26.
40 Sem dúvidas, a estratégia de combate bayliana do espinosismo seria censurada por Hegel: constituiria o protótipo daquilo que uma tentativa de refutação não deve ser se quer ser efetiva. E muito significativamente, é de Espinosa que fala Hegel quando apresenta sua própria teoria do “combate filosófico” no próprio início da Doutrina do Conceito (Lógica, III). A mera oposição externa a uma filosofia, que pretenda substituí-la integralmente por uma suposta verdade alternativa, não pode confrontar verdadeiramente suas razões. Pois uma posição que demonstra a necessidade do seu ponto de vista não pode ser rejeitada como falsa em sua totalidade (é claro que Bayle, a diferença de Hegel, não reconheceria a “parte de verdade” do espinosismo; entretanto, poderíamos considerar sua obsessão com o “caso Espinosa” como um certo índice de um reconhecimento não assumido). A substância única espinosana só pode ser efetivamente superada, segundo Hegel, se se compreender que o sistema não pode ser considerado falso porque precise uma refutação e seja apto para recebê-la; mas deve considerar-se falso só isto: que esse sistema represente o ponto de vista mais elevado. Por conseguinte, tampouco o verdadeiro sistema pode ter com aquele uma relação de simples oposição; pois nesse caso, seu oposto seria, ele próprio, somente um sistema unilateral. Antes bem, enquanto superior, deve conter o subordinado. Além disso, a refutação não deve proceder de fora (...); o defeito somente é defeito para quem se coloca da
perspectiva das necessidades e exigências fundadas sobre aquelas suposições (...). A
verdadeira refutação tem que penetrar na força do adversário e colocar-se no âmbito de seu vigor; atacá-lo fora de si mesmo, e sustentar suas próprias razões lá onde ele não está, não adianta em nada o assunto. Por conseguinte, a única refutação do espinosismo só pode consistir em que seu ponto de vista seja, primeiro, reconhecido como essencial e necessário; para que, em segundo lugar, este ponto de vista seja levado, a partir de si mesmo, até um ponto de vista mais elevado.48
Nada mais afastado dessa recomendação que o que Bayle realiza. “Penetrar na força do adversário” espinosista significa, para Hegel, situar-se sem reparos em sua perspectiva para poder, a partir daí, torcer essa força contra aquele que era seu detentor. Os conteúdos de verdade devem ser reconhecidos, pois a forma imensamente flexível, o conceito como uma arma dúctil, atuará sobre eles e dissolverá o que até este momento era o vigor do adversário numa força ainda maior do refutador, que sairá revitalizado por essas novas potências incorporadas. Bayle, pelo contrário, pretende que a doutrina de Espinosa é inadmissível na sua totalidade, pois atenta contra as noções mais comuns e os princípios
41 geralmente aceitos. Mas essa construção falsa se assenta, qual um edifício, sobre uma pedra fundamental, base que é ao mesmo tempo seu “calcanhar de Aquiles” (“...il m’a dû
suffire d’étaler des observations générales qui attaquassent le spinozisme par le fondament, et qui fissent voir que c’est un systhème qui porte sur une supposition si étrange, qu’elle renverse la plupart des notions communes qui servent de règle dans les discussions philosophiques”). Frente a isso, Hegel – numa crítica que envolveria tanto
Espinosa quanto Bayle – objetaria que se a pretensão de construir um sistema, a partir da imediata afirmação de um princípio, demonstra já uma elementar insuficiência especulativa, a refutação filosófica que supõe ser suficiente, para confrontar o princípio que se presume falso, colocar em seu lugar outro que se diz verdadeiro, nada mais faz do que duplicar a falência inicial49.
Mas vejamos qual é o conteúdo da refutação de Bayle. Basicamente, seu argumento é que a unicidade substancial espinosana nos dá de Deus uma “idéia horrível” (“Ce que les
poètes païens ont osé chanter de plus infamê contre Jupiter et contre Vénus, n’approche point de l’idée horrible que Spinoza nous donne de Dieu; car au moins les poétes n’attribuaient point aux dieux tous les crimes qui se commettent, et toutes les infirmités du monde”50). Se só existir no universo uma única substância, Deus, da qual não podem ser
distinguidas suas infinitas modificações, as mais perfeitas e as mais abjetas, resulta disso que o ser mais sublime se transfigura numa entidade amorfa que, acompanhando os movimentos adversos de cada uma de suas infinitas configurações em mutação perpétua, subsiste internamente dilacerada pelas tendências contrárias que inclui. A tal ponto que – afirma ironicamente Bayle –, segundo a perspectiva do sistema espinosista “aqueles que dizem os alemães mataram dez mil turcos expressam-se mal e falsamente, ao menos que
49 Essa falência de Bayle, Hegel a sintetiza quando diz dele que “não tem a menor noção do especulativo, embora, como sutil dialético que era, impulsionara o raciocínio pensante em torno de determinados temas” (Hegel Lecciones de historia de la filosofia, III, op.cit., p. 295).
50 Bayle, P., op.cit., p. 60. Hegel acha sugestiva esta afirmação de Bayle, pois a reproduz quando lhe reconhece virtudes dialéticas: “Bayle (...) ridiculiza a crença de que todo conteúdo especial é somente uma modificação de Deus, ao deduzir daí que Deus modificado em forma de turco e de austríaco faz a guerra contra si mesmo” (Hegel, Lecciones..., op.cit., p.295.). Nesse sentido, Bayle “impulsionou o raciocínio pensante em torno de determinados temas” graças ao estabelecimento daquelas imagens e generalidades que Marilena Chaui assinalava (ver a nota 4 da Introdução). Se Bayle aportou as imagens com que o espinosismo foi substituído, Hegel – podemos dizer – foi o provedor dos conceitos (muitas vezes compatíveis com aquelas