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A ETERNIDADE, O TEMPO E O CONCEITO

A imagem que Alexandre Kojève (o grande professor divulgador de Hegel na França dos anos 30188

) constrói do sistema espinosista, em suas Lições na École de Hautes Études189, consiste num círculo perfeito. Mas num círculo negativo, o reverso exato –

circular – da circularidade do saber absoluto, que faz de Espinosa o único filósofo em compartilhar, embora de maneira invertida, a posição de Hegel em relação ao conceito: “O

erro ou o absurdo absoluto é, e deve ser, tão circular quanto a verdade”190. Essas posições

semelhantes e opostas se delineiam a partir das considerações respectivas sobre o problema da relação entre o “conceito” (como sistema ou Idéia de todas as idéias) e a “realidade objetiva”, que remete à verdade do conhecimento, ou seja, à existência de idéias sobre as coisas que possam afirmar-se como universal e necessariamente válidas. É esta questão em relação ao saber que obriga à filosofia em geral e cada sistema filosófico em particular a

188 “Se em 1930 – diz Laurent Bove – Hegel é ainda muito pouco estudado na França, dez anos mais tarde – graças essencialmente ao curso de Koyré, seguido pelo de Kojève, na École de Hautes Études – Hegel deviria ao mesmo tempo a expressão ótima da filosofia e o pensamento do futuro”. Ao curso introdutório à Fenomenologia do Espírito, que ocorreu entre 1933-1939, assistiram, entre outros, Merleau-Ponty, Lacan, E. Weil, Bataille, Quenau, R Aron, P. Klossowski, Breton... Ver Bove, L., “Spinoza dans le cours d’Alexandre Kojève”, em Bloch, O. (dir.), Spinoza au XXe siècle, Paris, PUF, 1993, p. 178 (nota 4).

189 Kojève, A., Introdução à leitura de Hegel, Rio de Janeiro, Contraponto, 2002.

190 “Nota sobre a eternidade, o tempo e o conceito”, em Kojève, op.cit., p. 334. Nesse sentido, a circularidade se associa com o saber absoluto que não requer de nada que lhe seja exterior para afirmar por si mesmo sua própria verdade – que é, em definitivo, a verdade objetiva. A verdade, quando o saber se apresenta como um círculo perfeito, adquire a forma de sistema. Segundo Kojève, então, a coincidência entre Hegel e Espinosa pode sintetizar-se assim: “O símbolo é o mesmo nos dois casos: um círculo fechado homogêneo (...). Basta negar que o conceito seja uma relação com algo diferente dele para afirmar que o ideal do saber absoluto, isto é, circular” (...) “Se o conceito refere-se a uma realidade diferente, um conceito isolado pode ser confirmado como verdadeiro pela adequação com essa realidade autônoma. Nesse caso, há evidências, e até verdades, parciais. Mas se o conceito é o próprio ser revelado, ele só pode confirmar-se como verdadeiro por si mesmo (...). Isso significa que a verdade é um sistema, como diz Hegel”. Ibid., p. 337.

143 tomar posição quanto às relações entre tempo e eternidade. A “eternidade”, num sentido amplo que permitiria calibrar o contraste das diferentes perspectivas filosóficas, aludiria a essa necessidade associada à verdade, que faria dela algo imutável e, de certa maneira, atemporal. E, entretanto, deve considerar-se também o fato de que as verdades são constituídas, ou encontradas ou descobertas, como se prefira, na existência histórica dos homens, num momento e num mundo determinado em que os homens as vivem e as pensam. É por isso que toda filosofia deve dar conta da relação existente entre a verdade que afirma (pois “todas as filosofias procuraram, e em geral pretendem ter achado, a

verdade ou, no mínimo, verdades”191) e as condições temporárias ou existenciais dessa

afirmação.

É interessante ver, então, o esquema comparativo que elabora Kojève para dar conta das diversas posições filosóficas em relação a esse problema, e o lugar em que Espinosa aparece nele localizado. Esse esquema relaciona o Conceito com as noções de Tempo e Eternidade, mas também com o “temporal” e o “eterno” (nos casos em que o conceito é pensado como partícipe do tempo ou da eternidade, sem identificar-se propriamente com o tempo ou a eternidade). O conjunto de combinações possíveis desses elementos permite a Kojève distribuir e descrever os grandes sistemas filosóficos:

Esse problema exprime o conteúdo essencial de toda filosofia, de modo que se pode dizer que só há cinco tipos filosóficos irredutíveis, isto é, essencialmente diferentes: um tipo impossível (Parmênides-Espinosa); três tipos relativamente possíveis, mas insuficientes (Platão, Aristóteles, Kant); e um tipo verdadeiro, que é necessário aliás desenvolver, realizar (Hegel e Heidegger).192

As perspectivas que aqui nos interessam são, claro, as posições especulares da filosofia “impossível” e da “verdadeira” filosofia. No caso de Espinosa (ou de Parmênides, pois “já que o ponto de vista de Parmênides plenamente desenvolvido – diz Kojève – só chegou a nós por intermédio de Spinoza, é dele que falarei ao discutir essa possibilidade”) o

191Ibid., p. 319. É famoso, neste sentido, o dito por Espinosa na carta 76 a Albert Bourgh: “Não pretendo haver encontrado a melhor filosofia, mas sei que conheço a verdadeira. Se me perguntares como o sei, responder-te-ei : da mesma maneira como sabes que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos. E que ninguém diga que isso não basta, desde que tenha um cérebro sadio e não sonhe com espíritos imundos que nos inspirariam idéias falsas semelhantes às verdadeiras, pois o verdadeiro é índice de si mesmo e também do falso”.

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conceito é a eternidade, e não se refere a nada, pois precisamente, por ser a eternidade, não

fala dela, nem do tempo, nem de nada193. No caso de Hegel, o conceito é o tempo, quer dizer, se identifica plenamente com ele; o que significa que tampouco se refere ao nada194.

193 Vale a pena lembrar aqui a identificação que Hegel realiza das filosofias de Espinosa e de Parmênides. A substância espinosana, conforme vimos, consiste para Hegel na afirmação pura do ser, que se revela imediatamente, entretanto, como o puro nada ou ausência total de determinações: isso é o que faz do filósofo holandês o representante moderno de Parmênides. O espinosismo se identifica, assim, com o começo da filosofia em suas origens históricas, quer dizer, com os Eleatas; mas também – o que resulta bastante interessante – com o começo da própria Logik (quer dizer, com o começo da filosofia, enquanto trajetória do pensamento puro que realiza idealmente e de maneira retrospectiva o processo que o conduz a sua constituição atual), pois, precisamente, a substância única serve para ilustrar os momentos diversos do ser em sua plena abstração, de um nada também abstrato, e da unidade abstrata de ambos que anuncia o devir. Os Eleatas, diz Hegel, foram os primeiros em expressar a idéia do puro ser enquanto absoluto e única verdade, e Parmênides, com o entusiasmo do pensamento que pela primeira vez soube se conceber em sua absoluta abstração, afirmou que só o ser existe, e que o nada, pelo contrário não tem nenhuma existência. De maneira oposta a essa concepção, nos sistemas orientais (e especialmente no budismo) – diz Hegel – o princípio absoluto é o nada, o vazio. Mas frente a ambas posições unilaterais, foi o “profundo Heráclito” quem destacou o conceito mais alto do devir: o ser existe tão pouco quanto o nada, pois tudo flui, tudo é devir. Como vimos ao considerar a interpretação hegeliana do sistema de Espinosa, sua filosofia é suscetível de ser enquadrada nas duas abstrações que são a própria origem do pensamento (seu eleatismo e seu orientalismo falam, precisamente, dessa duplicidade especular inerente a seu pensamento); mas também podemos dizer que se identifica com o dissolver-se de ambas ao transformar-se uma na outra sem poder, em definitivo, fixar-se em alguma delas (e neste sentido, a dialética ainda rudimentar que Hegel lhe reconhece responderia bem, também, à primitiva dialética heraclitiana). Na metafísica clássica, se encontram igualmente reproduzidas as posições da origem da filosofia, em tautologias vazias do tipo daquela que afirma que “nada nasce do nada”, insistindo na separação absoluta do ser e do nada. O devir, pelo contrário, implica que o nada, em vez de permanecer como nada, transpasse-se para seu outro. E isso foi, segundo Hegel, o que a metafísica cristã afirmou: a criação do mundo a partir do nada. Os que afirmam aquela outra proposição, a primeira, “a ponto de apaixonar-se por ela, não têm consciência de que com isto aderem ao panteísmo abstrato dos eleatas e, em essência, àquele de Espinosa. O ponto de vista filosófico segundo o qual vale como princípio que o ser é só

ser, e o nada é só nada, merece o nome de sistema da identidade”. Assim, frente ao Espinosa eleata das

origens do pensamento, o Espinosa clássico recai na identidade e a consuma, rejeitando – agora sim de maneira explícita – o devir, por opor-se ao principio da criação do mundo a partir do nada da metafísica cristã (como se fosse – diríamos – uma espécie de vingança do Espinosa ateu – desestimado por Hegel – contra aquele outro místico oriental que acabava ganhando a partida na construção do “espinosismo primitivo”). E nesse sentido, pode afirmar-se – como o faz Kojève – que Espinosa constitui o ponto de vista de “Parménides plenamente desenvolvido”, e “tal como chega a nós” (um ponto de vista parmenidiano aprofundado, pois atravessou as novas vicissitudes que a metafísica cristã lhe colocou ao dar uma maior determinação à idéia de

devir).

194 A classificação kojeviana se completa assim: existe a posição que estabelece que o conceito é temporal, mas esta, por negar a idéia de verdade – já que o conceito, sendo temporal, muda incessantemente sem que nenhuma idéia possa subsistir – constitui um ceticismo anti-filosófico. A diferença que existe entre esta perspectiva anti-filosófica e a de Hegel (que diz que o conceito é o tempo, e não temporal) é que se todo o que existe no tempo, ou seja, o que é temporal, muda permanentemente, porém o tempo em si não muda. Por último, está a perspectiva que entende que o conceito é eterno. Esta se subdivide numa variante antiga ou pagã, e noutra moderna ou judeo-cristã: na primeira, o conceito eterno se refere à eternidade, e pode referir-se

145 Essas duas identificações diversas (conceito=eternidade, conceito=tempo) têm conseqüências que vale a pena considerar brevemente.

“O sistema de Espinosa é a perfeita encarnação do absurdo (por isso, quando se tenta ‘realizar’, como se costuma dizer, seu pensamento, experimenta-se a mesma sensação de vertigem que se tem diante de um paradoxo da lógica formal ou da teoria dos conjuntos”. E por essa “coisa curiosíssima” que faz com que o erro seja algo tão circular quanto a verdade, “o saber absoluto de Espinosa (e de Parmênides) deve ser representado por um círculo fechado”. Pois

se Espinosa afirma que o conceito é a eternidade, ao passo que Hegel afirma que o conceito

é o tempo, ambos têm em comum o fato de considerar que o conceito não é uma relação

(ou, se preferirem, ele só está em relação consigo mesmo). O Ser e o pensamento (conceitual) são uma única e mesma coisa, dizia Parmênides. O Pensamento (ou o conceito) é o atributo da substância, que não é diferente de seu atributo, diz Espinosa. Nos dois casos, isto é, em Parmênides-Espinosa e em Hegel, não há portanto reflexão sobre o Ser. Nos dois casos, é o próprio Ser que reflete sobre si em e como conceito. Logo, o saber absoluto que reflete a totalidade do Ser é tão fechado em si mesmo, tão circular, quanto o Ser em sua totalidade: não há nada fora desse saber, como não há nada fora do Ser. Mas há uma diferença essencial: o Ser-conceito de Parmênides-Espinosa é eternidade, ao passo que o Ser-conceito de Hegel é tempo. Por conseguinte, também o saber absoluto de Espinosa deve

ser a eternidade. Quer dizer, deve excluir o tempo. Em outras palavras: não há necessidade

de tempo para realizá-lo; a Ética deve ser pensada escrita e lida ‘num piscar de olhos’. Aí está o absurdo.195

Se o Ser for Uno – já disse Platão, criticando a posição de Parmênides –, significa que necessariamente exclui o diverso e, por isso, toda mudança e toda possibilidade de transformação; é a pura eternidade fora do tempo. Inclusive, essa suposição exigiria assumir a impossibilidade de se falar do Ser, pois o discurso requer tempo para pronunciar- se, transcorre no tempo e de tempo é feito. Nesse sentido, o saber absoluto sobre o Ser Uno tem de ser um silêncio absoluto (de onde surgem as associações remetidas às filosofias “orientais” entre conhecimento do ser e comunhão mística com ele, que nulifica qualquer princípio subjetivo). E, entretanto, é possível também pensar que o conceito (que em sua ligação interna com a verdade, tende a associar- se, mais do que a um discurso temporal tecido por um ser finito com elementos finitos, a uma essência atemporal) constitui uma

a ela ou bem fora do tempo (Platão), ou bem no tempo (Aristóteles); na segunda, o conceito eterno se refere ao tempo (Kant).

146 espécie de discurso eterno, que não se dá na sucessão de um encadeamento de idéias, mas que consiste na simultaneidade e a coexistência de todas as verdades em sua articulação necessária. Este seria, com efeito, o saber absoluto. O absurdo, diz Kojève, não é porém essa idéia de uma articulação simultânea da verdade, concebida como saber absoluto tanto por Espinosa quanto por Hegel,

o absurdo é que esse sistema tenha sido supostamente construído por um homem, que de fato precisou de tempo para construí-lo (...). A Ética é feita de acordo com um método que não pode ser explicado em linguagem humana. Porque a Ética explica tudo, exceto a possibilidade, para um homem que vive no tempo, de escrevê-la. Se a Fenomenologia explica por que a Lógica surge em determinado momento da história e não em outro, a

Ética demonstra a impossibilidade de sua aparição em qualquer momento do tempo. Em

suma, a Ética, para ser verdadeira, só pode ter sido escrita pelo próprio Deus; e convém notar, por um Deus não encarnado.196

A impossibilidade associada à Ética, enfim, se deixa ler como loucura (“levar Espinosa a sério equivale a ser – ou tornar-se – louco”). Pois trata-se da inconsistência absoluta da pretensão de uma exaustão do ser a través de um discurso que, no entanto, não pode de maneira alguma ser entendido como discurso existente. Um discurso que barrou suas próprias condições de possibilidade e insiste, porém, em pronunciar-se, não há de ser senão o discurso próprio de um louco, um discurso inumano, um discurso divino. Eis a única “fala” que admite o acosmismo espinosista (pois “acosmismo é o universo ou a

totalidade do Ser reduzido ao Deus único, mas que é Deus sem mundo e sem homens. E tal afirmação equivale a dizer que tudo o que é mudança, devir, tempo, não existe para a ciência. Porque, em se tratando da Ética, não se sabe como nem por que tais coisas nela aparecem”197). O silêncio completo do homem que inexiste ou existe desaparecendo num

mundo que, inconsistente, não o acolhe, coincide com o monólogo de Deus, que ocupa todos os espaços de um Tempo Total, que não é, em verdade, temporalidade, mas seu reverso: a Eternidade como esvaziamento ou absorção absoluta do tempo. A identificação imediata com essa fala divina que exige o emudecimento daquele que a procurou constitui o discurso alienado de uma ciência que se pretende conhecimento da eternidade. Todo o esforço de Hegel consiste, pelo contrário – conclui Kojève –, em criar um sistema

196 Ibid., p. 336. 197 Ibid., p. 337.

147 espinosista que possa ser escrito por um homem que vive num mundo histórico. Um saber absoluto, sim, mas temporal e histórico.

UM SABER ABSOLUTO?

A confluência entre o pensamento de Espinosa e de Hegel foi assinalado abundantemente, em termos que lembram a parte positiva da identificação que realiza Kojève: a ousadia da razão que pretende abranger a totalidade do real, sustentando-se exclusivamente em suas próprias forças e desenvolvimentos. Neste sentido, Rousset, por exemplo, diz:

Comme l’a bien vu Schopenhauer, qui, dans la mise en cause de la raison, critique l’ambition philosophique de Spinoza pour ridiculiser les prétentions systématiques de Hegel (…), le spinozisme est au cœur du hegelianisme, dans la mesure où ces deux philosophies se présentent précisément comme des systèmes absolus, qui posent l’identité du rationnel et du réel et qui affirment l’existence d’une totalité positivement infinie parfaitement fondée en elle-même et par elle-même, ainsi que le prouve la place de choix réservée à l’argument ontologique.198

Existem, assim, pretensões universalistas comuns aos dois filósofos, e uma ambição totalizadora que não se deixa seduzir pelas recomendações de respeito aos limites – naturais ou impostos – ao conhecer humano, realizadas freqüentemente a partir de posturas associadas a certa “humildade” de fundo religioso. A convicção de que a razão é capaz de penetrar a realidade em sua estruturação profunda anima, desta maneira, o espírito crítico de ambas as perspectivas. Nesse sentido, a “potência do pensamento” que, apropriando-se de maneira rigorosa de seus próprios achados, busca ir além de seus limites, constitui uma inquietação e um horizonte compartilhados (dali, recordemo-lo, o reconhecimento ulterior da “inocente” – mas não “humilde”199 – procura do infinito positivo do racionalismo

seiscentista, e a própria auto-identificação de Hegel com essa tentativa).

198 Rousset, B., « Regarde spinoziste sur la lecture hegelianne du spinozisme », em L’immanence et le salut.

Regardes spinozistes, op.cit., p. 15. De maneira similar, Y. Yovel acentua a fundamental convergência que

aproxima Hegel e Espinosa: “o reconhecimento da imanência absoluta de Deus e sua identidade com o todo da realidade”.

199 Lembremos a crítica espinosana da “humildade”, consistente numa tristeza associada à idéia de nossa debilidade, originada na diminuição do conatus da mente quando esta se contempla a si mesma imaginando

148 Mas, além disso, e o que nos parece sugestivo, é que também há certas críticas que confluem, resultando Hegel e Espinosa ligados por uma condenação que se apresenta como o reverso exato do anterior reconhecimento. Por uma ironia da história, ou talvez por estritos motivos de proximidade filosófica (que pode expressar-se numa dinâmica ambivalente de atração-repulsão), ou talvez simplesmente pela recorrência de certos percursos do pensamento que se oferecem uma e outra vez aos homens (transcendendo limites espaciais e epocais)200; o certo é que a filosofia hegeliana teve que sofrer virtualmente os mesmos questionamentos que levantou contra o espinosismo. Como assinala, neste caso, Vladimir Safatle, várias linhas hegemônicas do pensamento filosófico do século XX imputaram a Hegel ser o

filósofo da totalidade do Saber Absoluto, incapaz de dar conta da irredutibilidade da diferença e das aspirações de reconhecimento do individual às estratégias de síntese do conceito. Expressão mais bem acabada da crença filosófica de que só seria possível pensar através da articulação de sistemas fortemente hierárquicos, com o conseqüente desprezo pela dignidade ontológica do contingente, deste mesmo contingente que “tampouco pode esperar de si e reclamar para si mesmo”. Defesa de uma história na qual o presente apresentaria uma “universalidade do espírito fortemente consolidada”, história teleológica esvaziada da capacidade em apreender um tempo no qual acontecimentos ainda fossem possíveis. Em todas estas acusações transparece o que teria sido a impossibilidade hegeliana em dar conta de um particular que não deveria nem poderia ser reduzido à condição de mera particularidade. Como se, em Hegel, o particular fosse apenas a ocasião para a realização

concreta do universal, não tendo, com isto, realidade alguma em si.201

sua própria impotência: “Esta tristeza conjuntamente à idéia de nossa debilidade é chamada Humildade” (E III, P 55, dem. e esc.).

200 Como sugere de maneira instigante Horacio González: “En el transcurso de sus ejercicios de imaginación, de carácter mítico y filosófico, los hombres contraen ciertas experiencias fundamentales y extraordinarias, no necesariamente concientes para ellos, que acaban formando parte de senderos del pensar recurrentes y genéricos. Estas sendas reiteradas se han forjado en forma contingente, pues no pertenecerían a una unidad previa que luego se haya ido bifurcando. Tampoco toman bajo sus diferentes énfasis la totalidad de aspectos de la naturaleza de las cosas y del ser. Ahora bien, nos pareció posible designar esas sendas – esas dos sendas, que son como plusvalías del vivir reflexivo – con los nombres suficientemente elocuentes de metamorfosis y

dialéctica.” Gonzalez, H., La crisálida. Metamorfosis y dialéctica, Buenos Aires, Colihue, 2001, p. 18.

Assim, podemos supor que a recorrência da tendência a ler, nos pensamentos organizados, ou bem manifestações de uma vontade totalizadora, ou então, pelo contrario, uma pulsão atomística, constituem figuras ou momentos de, entre as duas, a trilha dialética que se apresenta ao pensamento quando encara esses “exercícios de imaginação mítica ou filosófica”.

201 Safatle, V., “O amor é mais frio que a morte: negatividade, infinitude e indeterminação na teoria hegeliana do desejo”, Kriterion, n. 27. Para ilustrar uma crítica deste tipo, Safatle cita T. Adorno, na Dialética Negativa: “Se Hegel tivesse levado a doutrina da identidade entre o universal e o particular até uma dialética no interior do próprio particular, o particular teria recebido tantos direitos quanto o universal”. O que nos lembra a crítica adorniana a Espinosa que consideramos mais atrás: também as particularidades não recebem seu merecido