C.4 The Design Principles Realized
C.4.1 Oblique Cutaway (DP1)
Tal como no período anterior, podemos constatar que as igrejas paroquiais não constituíam os únicos lugares de culto no território da Península de Setúbal, sendo que os povos, por devoção ou conveniência, acorriam por vezes a outros templos para aí alimentarem a sua Fé.
É nesta época que surgem as primeiras referências escritas às romarias a Santa Maria do Cabo Espichel, concretamente num documento já aflorado, de 1366, relativo a Azeitão. Ali afirmam os habitantes de Azeitão, contra as pretensões de Sesimbra, a sua sede de concelho, que ir à vila é algo constrangedor e pouco útil, porque é fora de caminho, e só lá vai quem «vae en romeria a sancta Maria do cabo»623. Apresentar deste modo tão «displicente» o facto de se fazerem romarias ao Cabo Espichel, onde estaria já a ermida
623
Cf. Chancelaria de D. Pedro I (CDP) doc. 1102, in MARQUES, Oliveira (prep.) Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa 1984, p. 517.
primitiva, significa que o assunto era por demais conhecido, mesmo do rei, e que a romaria era famosa e atraía já grande número de gentes.
O oraculu/orada da Arrábida, embora não mais nomeado com esta designação, parece ter aumentado a sua importância religiosa, e dada altura deve ter-se tornado tão relevante que motivou a criação de uma Comenda pela Ordem de Santiago, com um capelão permanente e encarregue de ali ministrar o culto, conforme se aprecia nos Estabelecimentos de 1327, do Mestre Pero Escacho624. Mais tarde decairia de importância, e provavelmente será no seu local que irá ser construído no século XVI o Convento da Arrábida, «casa» de homens tão ilustres como S. Pedro de Alcântara, fundador dos Arrábidos, que da serra e do Convento tiraram o seu nome.
Há também notícia da construção da capela de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal, mais tarde sede da paróquia do mesmo nome, ainda no século XIII. A data apontada pela tradição, 1235, é talvez demasiado temporã, mas nada obsta a que alguns anos mais tarde ali existisse já uma pequena ermida625. Certo é que em 1330, no Compromisso da Confraria que ali nasceu, já se fala no pequeno oratório626.
Quanto a capelas curadas, existiam duas, que deixaram de o ser a partir de certa altura, S. Salvador de Coina e S. Lourenço de Azeitão, às quais já nos referimos suficientemente.
Para esta época não temos notícia de mais capelas no território da Península, o que não exclui, obviamente, a possibilidade de terem existido várias outras, cuja documentação ou vestígios simplesmente não chegaram até nós.
5) – Uma cronologia de ausência: os Religiosos.
Já nos referirmos brevemente à ausência de quaisquer casas ou comunidades de ordens religiosas na Península de Setúbal, com estas a não surgir senão em domínio fundiário, e mesmo assim numa posição quase irrelevante.
Não é demais reforçar a perplexidade que causa este quase absoluto zero: nem um só mosteiro, nem um só convento e eventualmente nem só um eremitério627. Se não considerarmos a Ordem de Santiago, ela própria, embora indubitavelmente especial, 624 Cf. LC, doc. 218, ff. 179-182, pp. 373-377. 625 Cf. BRAGA, 1998, pp. 380-381. 626
Cf. IANTT, Ministério do Reino, lv. 527, mf. 856.
627
Como já antes dissemos, há a possibilidade de ter existido nos fins do século XIV um eremitério, mais tarde ligado aos Eremitas da Serra d’Ossa, mas do qual não se conhece a verdadeira data de fundação, pelo que permanece a dúvida sobre a sua existência dentro do período em análise.
uma ordem religiosa, há um vazio difícil de explicar, e que só será preenchido a partir das primeiras décadas do século XV, quando algumas casas religiosas começarem a pontilhar o espaço da Margem Sul.
Podem apontar-se várias razões para este facto. Em primeiro lugar, a presença da Ordem Espatária era, neste período, suficientemente dissuasora de que outras se fixassem no espaço: quase hegemónica desde muito cedo, não deixava grande lugar para outras instituições se instalarem.
Em segundo lugar, o tipo de presença santiaguista era muito mais dúctil que o de um Mosteiro, que necessitava de uma tranquilidade externa e de um couto mais ou menos alargado, coisas quase impossíveis de garantir antes de 1217: quando este tempo chegou, já os Espatários tinham tomado conta do espaço, ou estavam em vias de tomar. Em terceiro lugar, e até porque a hegemonia verdadeira só se mantém enquanto é efectivamente exercida, decerto não agradaria à Ordem a fundação de mosteiros ou canónicas na Margem Sul, para que não ficassem terras ou jurisdições fora do seu controle: tal poderia significar novas polaridades e divisões de poder, sempre negativas do ponto de vista espatário. O mesmo se aplicaria aos conventos mendicantes, cuja presença poderia trazer uma divisão de meios de subsistência entre as paróquias (todas no padroado espatário) e as suas igrejas próprias, com a agravante de estas ficarem, no terreno, fora do «controle» proporcionado pelo «estilo» organizativo da Ordem.
Em quarto lugar, os núcleos populacionais, apesar de viverem em crescendo até à Peste Negra, não parece terem tido dimensão suficiente para permitir cedo o estabelecimento de ordens mendicantes, cujos membros viviam da esmola junto a burgos com algum desafogo económico e dimensão apreciável, pelo menos nesta época.
Em quinto lugar, os mendicantes podiam ter-se instalado mesmo sem meios próprios, se tivessem tido patronos com capacidade para os ajudar e manter na Península de Setúbal. O facto é que não os tiveram, e tal só se proporcionou no início do século XV, com uma certa recuperação populacional e algum desenvolvimento económico.É justamente nestes anos que se registam as primeiras fundações, em Setúbal (1410) e em Vila Nogueira de Azeitão (1435) respectivamente, de um convento franciscano e outro dominicano, ambos ligados a patronos da burguesia.
Como antes de 1385 os únicos patronos e senhores da terra eram os membros da Ordem, e nem esta nem aqueles desejavam a presença de outras obediências (cujo efeito imediato seria um desvio dos proventos esperados) não existiram condições para aceder ao espaço da Margem Sul: as comendas espatárias dependiam demasiado dessas rendas
para as prejudicarem de ânimo leve, com a introdução de uma qualquer comunidade de vida religiosa.