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Além dos enquadramentos vinculados às estratégias políticas e eleitorais, citados acima, chama atenção a concentração dos textos num segundo grupo, vinculado ao viés religioso. Os textos em que os enquadramentos enfatizam que a defesa do aborto vai contra os princípios da

igreja (47 ou 9% do universo de 504 textos) e defendem a ideia contra o aborto, em defesa da vida (31 textos ou 6% do total) somaram 15%. Se os combinamos aos 62% de textos nos dois

enquadramentos ligados às estratégias eleitorais, identificamos em 77% dos textos noticiosos um conjunto de argumentos persuasivos que orientaram para uma “condenação” moral dos políticos pelo uso do aborto como estratégia eleitoral, concentrados principalmente na candidata Dilma Rousseff (PT), foco das cobranças no âmbito político e religioso.

Os 78 textos classificados nos enquadramentos a defesa do aborto vai contra os

princípios da igreja e contra o aborto, em defesa da vida vocalizam posicionamentos de

segmentos do campo religioso. A diferença entre eles é o argumento central para orientar o voto dos fiéis: enquanto o primeiro argumenta contra o aborto de forma ampla, o segundo inclui o argumento “em favor da vida”.

Conforme mostra a tabela 9, os 26 textos com os enquadramentos religiosos no Estado de

S. Paulo correspondem a 17% dos 152 textos encontrados no jornal. Na Folha de S.Paulo, foram

14% (30 textos) do total de 200 textos. E O Globo publicou 22 textos nesses enquadramentos, o equivalente a 14% do seu universo de 152 textos. A maior parte dos textos nesses enquadramentos expressam as posições da Igreja Católica sobre o aborto e suas divergências internas sobre explorar ou não o assunto durante a campanha eleitoral, além do embate entre os grupos de parlamentares religiosos vinculados ao catolicismo ou a grupos de denominações evangélicas defensores das candidaturas de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT). Os evangélicos aparecem em várias matérias que associam a discussão do aborto às estratégias eleitorais, reforçando estudos anteriores sobre a forte presença desse segmento religioso no campo político (MACHADO, 2012, p. 27).

A discussão nesse enquadramento estava concentrada na defesa, pelos religiosos vinculados à Igreja Católica (e evangélica, de várias vertentes), sobretudo da CNBB, de que a igreja não apenas poderia, mas deveria orientar seus fiéis a não votar em candidatos favoráveis à descriminalização do aborto, orientação que estava personificada na candidata Dilma Rousseff

(PT). As entrevistas de religiosos católicos ou evangélicos questionavam as posições da petista em épocas anteriores e utilizavam essas manifestações como fato relevante para a escolha do eleitor. Além disso, as críticas contra a união homoafetiva e ao Programa Nacional de Diretos Humanos (PNDH 3), apresentadas pelo Governo Federal ao Congresso Nacional no final do exercício de 2009, eram igualmente citadas nesses textos como algo a ser pesado na balança contra a candidata petista, segundo as vozes religiosas selecionadas nos textos jornalísticos.

Os impressos também exploraram as disputas internas dentro da Igreja Católica e as divergências sobre os candidatos, demonstrando as preferências dentro do campo religioso. Foram destacados dois grupos pelo noticiário: os setores mais conservadores, em favor de José Serra (PSDB) e os mais progressistas defendendo a candidata Dilma Rousseff (PT) das acusações e a “não partidarização” das igrejas. Num desses textos, o jornal O Estado de S. Paulo explorou essas posições no olho35 da reportagem: de um lado a defesa da candidatura de José Serra (PSDB) a partir do julgamento “de dois males, o menor”, representada pela fala do bispo de Guarulhos, d. Luis Gonzaga Bergonzini, uma das fontes religiosas mais presentes no noticiário analisado nesta pesquisa. De outro, a defesa de Dilma Rousseff (PT) pelo bispo de Jales (SP), d. Luiz Demétrio Valentini, considerando calúnia dos opositores a afirmação de que Dilma fosse favorável ao aborto. E a CNBB “fica na doutrina”, registrou o texto. A reportagem refere da seguinte forma o posicionamento da CNBB: “mantém sua orientação, anunciada em 16 de setembro, na qual recomendou a seus fiéis escolher [para votar] pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana” (MAYRINK, 2010, p. A9).

Na mesma edição, o Estado de S. Paulo publicou uma segunda matéria em que lideranças e parlamentares evangélicos foram ouvidos. Nesse texto está um exemplo do enquadramento que enfatiza as estratégias eleitorais vinculadas à propagação pelos candidatos de posições que reforçam valores religiosos contrários ao aborto e “em favor da vida”:

A divulgação de uma nova versão da carta aberta ao povo de deus e uma propaganda de TV em que a candidata Dilma Rousseff (PT) exponha claramente a posição contrária ao aborto [...] de valorização da vida e da família [...] são algumas propostas defendidas por lideranças evangélicas que atuam na campanha petista (LEAL, 2010, p. A9).

Os exemplos acima demonstram que vários atributos podem estar num mesmo texto. No entanto, como já referido, o enquadramento é definido pela ênfase e valorização de alguns enunciados que orientam a interpretação do registro. Nos textos com a ênfase religiosa, foi observada a presença mais intensa de argumentos como “a defesa da vida e da família”, de forma a orientar a interpretação do leitor para as doutrinas religiosas propagadas pelas vozes dos representantes das igrejas.

Outra característica comum ao universo dos 77% de textos noticiosos presentes nesta pesquisa é que não há registro do “outro lado”, com representação de posições favoráveis ao aborto, o que demonstra como a mídia pode privilegiar uma restrita seleção de discursos e, assim, reforçar posições e perspectivas socialmente já dominantes (MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 50). No estudo desse caso percebe-se que a mídia deu visibilidade e reforçou um discurso moral sobre o aborto valorizando vozes e declarações que naturalizavam doutrinas religiosas como justificativas socialmente legítimas. A ausência de posições favoráveis à descriminalização do aborto nas reportagens como “contraponto” às posições dos representantes das igrejas reforçou o caráter desviante e “ilegítimo” dessas vocalizações. Dessa forma, quando a candidata Dilma Rousseff era questionada sobre a descriminalização do aborto, sua posição estava sempre na defensiva, por sua trajetória e a de seu partido, o PT, ter um “caráter desviante”, uma vez que já haviam defendido a descriminalização do aborto. Assim, o viés religioso que orientou os enquadramentos noticiosos sobre a legitimidade ou a ilegitimidade da posição dos candidatos em torno do aborto produziu um sentido negativo para posições favoráveis à descriminalização do aborto, encaixando-se com a “desvalorização do que é dito e de quem diz” (MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 12) e transformando em “falas enguiçadas” as manifestações da candidata petista ou de quem quer que defendesse a descriminalização do aborto.

Pelo volume de textos nos enquadramentos das estratégias políticas e das posições religiosas, é possível considerar que houve uma escolha editorial, um viés, que emoldurou o noticiário no contexto dos valores religiosos e constituiu esses posicionamentos como o ponto de partida para questionamentos dos agentes do campo político que disputavam as eleições. Quem concordava com as posições das igrejas, estava legitimado por essa vertente. Quem manifestasse alguma opinião divergente estava definido por esse mesmo contorno numa “fala enguiçada” (MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 12). Assim, mesmo que o campo jornalístico tenha sido contrário ao agendamento da temática sobre a descriminalização do aborto como o centro do debate

eleitoral, sua adesão à agenda, sem espaço para um debate crítico que equilibrasse posições dominantes com outros argumentos em favor do direito ao aborto, ajudou a reforçar um discurso no plano da estratégia eleitoral defensivo e negativo à candidata do PT, Dilma Rousseff, e, no plano social, valorizou um discurso conservador refratário ao direito das mulheres no que diz respeito à autonomia sobre seu corpo.

Mesmo que o objetivo fosse “revelar” que parcela das estruturas das igrejas estavam posicionadas e atuando de forma a interferir na escolha eleitoral de seus fiéis, os jornais reforçaram uma retórica moralista ao destacar enquadramentos e vozes que legitimavam o poder das instituições religiosas perante a sociedade: “A igreja, com o peso que tem, quando fala é acusada de se intrometer em um âmbito [fora] de sua competência? Esse argumento é falso. [...] Estado laico não é sinônimo de Estado ateu ou antirreligioso” (GUIMARÃES, 2010, p. A17).

Em outro exemplo, a Folha de S.Paulo ouviu o arcebispo de Aparecida (SP), na época recém indicado pelo papa Bento XVI como novo cardeal brasileiro, d. Raymundo Damasceno Assis. Nessa reportagem, as falas do religioso defendem que “temas relacionados ao direito à vida e ao matrimônio sejam debatidos pelos candidatos durante a campanha” (AMATO, 2010, p. Especial 9). Assim como ele, outros dirigentes da CNBB foram ouvidos pelo veículo, em que a mesma assertiva de discutir o aborto na perspectiva eleitoral e de valorizar posicionamentos da Igreja Católica para a escolha de seus fiéis foi ressaltada sem, no entanto, apresentar o mesmo equilíbrio com outras reportagens ressaltando posições que defendessem um tratamento laico para o aborto.

In document Pump turbines in existing powerplants (sider 21-25)